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      <titleStmt>
        <title>Os Lusíadas</title>
        <author>Luís de Camões</author>
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          <resp>Encoded by</resp>
          <name xml:id="AM">Adiel Mittmann</name>
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      <publicationStmt>
        <distributor>Stichotheque</distributor>
        <availability status="free">
          <p>Domínio público.</p>
        </availability>
      </publicationStmt>
      <notesStmt>
        <note>Este documento foi codificado a partir da edição do <ref target="#nupill">NUPILL</ref> no decorrer do meu doutorado.</note>
        <note>A edição do NUPILL foi feita com base <ref target="#oslusiadas.com">em outro texto</ref> que estava (não está mais) disponível no endereço <ref target="http://www.oslusiadas.com/">http://www.oslusiadas.com/</ref>, acessível ainda através da Wayback Machine.  Este sítio não mencionava, ao que tudo indica, as próprias fontes, mas há poucas dúvidas de que o texto tenha sido derivado da edição do <ref target="#gutenberg">projeto Gutenberg</ref>.  A comparação com a edição atual do Gutenberg revela pouquíssimas diferenças, e menos ainda são reveladas quando comparadas <ref target="https://www.gutenberg.org/files/3333/old/">a uma versão antiga</ref>.  As semelhanças com a versão antiga incluem erros que dificilmente seriam cometidos duas vezes, incluindo fragmentos como “amizade,,”, “mercês,.”, “esperais?Porque” e versos ausentes, como “Em tais damas não há para ser damas;” e “De outra pedra mais clara que diamante.”.  Esses erros estão, claro, corrigidos no presente documento.</note>
        <note>A excelente <ref target="#instituto">edição do Instituto Camões</ref> foi usada para resolver dúvidas.</note>
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          <title>Os Lusíadas</title>
          <author>Luís de Camões</author>
          <date>2000</date>
          <editor>ÁLVARO JÚLIO DA COSTA PIMPÃO</editor>
          <publisher>INSTITUTO CAMÕES</publisher>
          <ref target="http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-camoes/literatura-1/182-os-lusiadas/file.html"/>
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          <title>Os lusíadas</title>
          <author>Camões</author>
          <publisher>NUPILL</publisher>
          <date>2016</date>
          <ref target="https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?id=216788"/>
        </bibl>
        <bibl xml:id="oslusiadas.com">
          <title>Os Lusíadas</title>
          <author>Luís Vaz de Camões</author>
          <date>2008</date>
          <ref target="https://web.archive.org/web/20080623201115/http://www.oslusiadas.com/"/>
        </bibl>
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          <title>Os Lusíadas</title>
          <author>Luís Vaz de Camões</author>
          <date>2001-03-28</date>
          <editor>Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha</editor>
          <ref target="https://www.gutenberg.org/ebooks/3333"/>
        </bibl>
      </sourceDesc>
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  <text aoidos:poet="Luís de Camões" xml:lang="pt" st:duplicates="ok">
    <body aoidos:unit="children">
      <div type="canto">
        <head>Canto Primeiro</head>
        <lg>
          <pb n="48" edRef="#instituto"/>
          <l>As armas e os barões assinalados,</l>
          <l>Que da ocidental praia Lusitana,</l>
          <l>Por mares nunca de antes navegados,</l>
          <l>Passaram ainda além da Taprobana,</l>
          <l>Em perigos e guerras esforçados,</l>
          <l>Mais do que prometia a força humana,</l>
          <l>E entre gente remota edificaram</l>
          <l>Novo Reino, que tanto sublimaram;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E também as memórias gloriosas</l>
          <l>Daqueles Reis, que foram dilatando</l>
          <l>A Fé, o Império, e as terras viciosas</l>
          <l>De África e de Ásia andaram devastando;</l>
          <l>E aqueles, que por obras valerosas</l>
          <l>Se vão da lei da morte libertando;</l>
          <l>Cantando espalharei por toda parte,</l>
          <l>Se a tanto me ajudar o engenho e arte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cessem do sábio Grego e do Troiano</l>
          <l>As navegações grandes que fizeram;</l>
          <l>Cale-se de Alexandro e de Trajano</l>
          <l>A fama das vitórias que tiveram;</l>
          <l>Que eu canto o peito ilustre Lusitano,</l>
          <l>A quem Neptuno e Marte obedeceram:</l>
          <l>Cesse tudo o que a Musa antiga canta,</l>
          <l>Que outro valor mais alto se alevanta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="49" edRef="#instituto"/>
          <l>E vós, Tágides minhas, pois criado</l>
          <l>Tendes em mim um novo engenho ardente,</l>
          <l>Se sempre em verso humilde celebrado</l>
          <l>Foi de mim vosso rio alegremente,</l>
          <l>Dai-me agora um som alto e sublimado,</l>
          <l>Um estilo grandíloquo e corrente,</l>
          <l>Porque de vossas águas, Febo ordene</l>
          <l>Que não tenham inveja às de Hipocrene.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dai-me uma fúria grande e sonorosa,</l>
          <l>E não de agreste avena ou frauta ruda,</l>
          <l>Mas de tuba canora e belicosa,</l>
          <l>Que o peito acende e a cor ao gesto muda;</l>
          <l>Dai-me igual canto aos feitos da famosa</l>
          <l>Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;</l>
          <l>Que se espalhe e se cante no universo,</l>
          <l>Se tão sublime preço cabe em verso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vós, ó bem nascida segurança</l>
          <l>Da Lusitana antiga liberdade,</l>
          <l>E não menos certíssima esperança</l>
          <l>De aumento da pequena Cristandade;</l>
          <l>Vós, ó novo temor da Maura lança,</l>
          <l>Maravilha fatal da nossa idade,</l>
          <l>Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,</l>
          <l>Para do mundo a Deus dar parte grande;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="50" edRef="#instituto"/>
          <l>Vós, tenro e novo ramo florescente</l>
          <l>De uma árvore de Cristo mais amada</l>
          <l>Que nenhuma nascida no Ocidente,</l>
          <l>Cesárea ou Cristianíssima chamada;</l>
          <l>(Vede-o no vosso escudo, que presente</l>
          <l>Vos amostra a vitória já passada,</l>
          <l>Na qual vos deu por armas, e deixou</l>
          <l>As que Ele para si na Cruz tomou)</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vós, poderoso Rei, cujo alto Império</l>
          <l>O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;</l>
          <l>Vê-o também no meio do Hemisfério,</l>
          <l>E quando desce o deixa derradeiro;</l>
          <l>Vós, que esperamos jugo e vitupério</l>
          <l>Do torpe Ismaelita cavaleiro,</l>
          <l>Do Turco oriental, e do Gentio,</l>
          <l>Que inda bebe o licor do santo rio;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Inclinai por um pouco a majestade,</l>
          <l>Que nesse tenro gesto vos contemplo,</l>
          <l>Que já se mostra qual na inteira idade,</l>
          <l>Quando subindo ireis ao eterno templo;</l>
          <l>Os olhos da real benignidade</l>
          <l>Ponde no chão: vereis um novo exemplo</l>
          <l>De amor dos pátrios feitos valerosos,</l>
          <l>Em versos divulgado numerosos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vereis amor da pátria, não movido</l>
          <l>De prémio vil, mas alto e quase eterno:</l>
          <l>Que não é prémio vil ser conhecido</l>
          <l>Por um pregão do ninho meu paterno.</l>
          <l>Ouvi: vereis o nome engrandecido</l>
          <l>Daqueles de quem sois senhor superno,</l>
          <l>E julgareis qual é mais excelente,</l>
          <l>Se ser do mundo Rei, se de til gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="51" edRef="#instituto"/>
          <l>Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,</l>
          <l>Fantásticas, fingidas, mentirosas,</l>
          <l>Louvar os vossos, como nas estranhas</l>
          <l>Musas, de engrandecer-se desejosas:</l>
          <l>As verdadeiras vossas são tamanhas,</l>
          <l>Que excedem as sonhadas, fabulosas;</l>
          <l>Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,</l>
          <l>E Orlando, inda que fora verdadeiro,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por estes vos darei um Nuno fero,</l>
          <l>Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,</l>
          <l>Um Egas, e um <choice><orig>D.</orig><seg>Dom</seg></choice> Fuas, que de Homero</l>
          <l>A cítara para eles só cobiço.</l>
          <l>Pois pelos doze Pares dar-vos quero</l>
          <l>Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;</l>
          <l>Dou-vos também aquele ilustre Gama,</l>
          <l>Que para si de Eneias toma a fama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pois se a troco de Carlos, Rei de França,</l>
          <l>Ou de César, quereis igual memória,</l>
          <l>Vede o primeiro Afonso, cuja lança</l>
          <l>Escura faz qualquer estranha glória;</l>
          <l>E aquele que a seu Reino a segurança</l>
          <l>Deixou com a grande e próspera vitória;</l>
          <l>Outro Joane, invicto cavaleiro,</l>
          <l>O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nem deixarão meus versos esquecidos</l>
          <l>Aqueles que nos Reinos lá da Aurora</l>
          <l>Fizeram, só por armas tão subidos,</l>
          <l>Vossa bandeira sempre vencedora:</l>
          <l>Um Pacheco fortíssimo, e os temidos</l>
          <l>Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;</l>
          <l>Albuquerque terríbil, Castro forte,</l>
          <l>E outros em quem poder não teve a morte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="52" edRef="#instituto"/>
          <l>E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,</l>
          <l>Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,</l>
          <l>Tomai as rédeas vós do Reino vosso:</l>
          <l>Dareis matéria a nunca ouvido canto.</l>
          <l>Comecem a sentir o peso grosso</l>
          <l>(Que pelo mundo todo faça espanto)</l>
          <l>De exércitos e feitos singulares,</l>
          <l>De África as terras, e do Oriente os marços,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em vós os olhos tem o Mouro frio,</l>
          <l>Em quem vê seu exício afigurado;</l>
          <l>Só com vos ver o bárbaro Gentio</l>
          <l>Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;</l>
          <l>Tétis todo o cerúleo senhorio</l>
          <l>Tem para vós por dote aparelhado;</l>
          <l>Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,</l>
          <l>Deseja de comprar-vos para genro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em vós se vêm da olímpica morada</l>
          <l>Dos dois avós as almas cá famosas,</l>
          <l>Uma na paz angélica dourada,</l>
          <l>Outra pelas batalhas sanguinosas;</l>
          <l>Em vós esperam ver-se renovada</l>
          <l>Sua memória e obras valerosas;</l>
          <l>E lá vos tem lugar, no fim da idade,</l>
          <l>No templo da suprema Eternidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas enquanto este tempo passa lento</l>
          <l>De regerdes os povos, que o desejam,</l>
          <l>Dai vós favor ao novo atrevimento,</l>
          <l>Para que estes meus versos vossos sejam;</l>
          <l>E vereis ir cortando o salso argento</l>
          <l>Os vossos Argonautas, por que vejam</l>
          <l>Que são vistos de vós no mar irado,</l>
          <l>E costumai-vos já a ser invocado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="53" edRef="#instituto"/>
          <l>Já no largo Oceano navegavam,</l>
          <l>As inquietas ondas apartando;</l>
          <l>Os ventos brandamente respiravam,</l>
          <l>Das naus as velas côncavas inchando;</l>
          <l>Da branca escuma os mares se mostravam</l>
          <l>Cobertos, onde as proas vão cortando</l>
          <l>As marítimas águas consagradas,</l>
          <l>Que do gado de Próteo são cortadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando os Deuses no Olimpo luminoso,</l>
          <l>Onde o governo está da humana gente,</l>
          <l>Se ajuntam em concílio glorioso</l>
          <l>Sobre as cousas futuras do Oriente.</l>
          <l>Pisando o cristalino Céu formoso,</l>
          <l>Vêm pela Via-Láctea juntamente,</l>
          <l>Convocados da parte do Tonante,</l>
          <l>Pelo neto gentil do velho Atlante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deixam dos sete Céus o regimento,</l>
          <l>Que do poder mais alto lhe foi dado,</l>
          <l>Alto poder, que só co’o pensamento</l>
          <l>Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.</l>
          <l>Ali se acharam juntos num momento</l>
          <l>Os que habitam o Arcturo congelado,</l>
          <l>E os que o Austro tem, e as partes onde</l>
          <l>A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estava o Padre ali sublime e dino,</l>
          <l>Que vibra os feros raios de Vulcano,</l>
          <l>Num assento de estrelas cristalino,</l>
          <l>Com gesto alto, severo e soberano.</l>
          <l>Do rosto respirava um ar divino,</l>
          <l>Que divino tornara um corpo humano;</l>
          <l>Com uma coroa e ceptro rutilante,</l>
          <l>De outra pedra mais clara que diamante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="54" edRef="#instituto"/>
          <l>Em luzentes assentos, marchetados</l>
          <l>De ouro e de perlas, mais abaixo estavam</l>
          <l>Os outros Deuses todos assentados,</l>
          <l>Como a razão e a ordem concertavam:</l>
          <l>Precedem os antigos mais honrados;</l>
          <l>Mais abaixo os menores se assentavam;</l>
          <l>Quando Júpiter alto, assim dizendo,</l>
          <l>C’um tom de voz começa, grave e horrendo:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eternos moradores do luzente</l>
          <l>Estelífero polo, e claro assento,</l>
          <l>Se do grande valor da forte gente</l>
          <l>De Luso não perdeis o pensamento,</l>
          <l>Deveis de ter sabido claramente,</l>
          <l>Como é dos fados grandes certo intento,</l>
          <l>Que por ela se esqueçam os humanos</l>
          <l>De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já lhe foi (bem o vistes) concedido</l>
          <l>C’um poder tão singelo e tão pequeno,</l>
          <l>Tomar ao Mouro forte e guarnecido</l>
          <l>Toda a terra, que rega o Tejo ameno:</l>
          <l>Pois contra o Castelhano tão temido,</l>
          <l>Sempre alcançou favor do Céu sereno.</l>
          <l>Assim que sempre, enfim, com fama e glória,</l>
          <l>Teve os troféus pendentes da vitória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,</l>
          <l>Que co’a gente de Rómulo alcançaram,</l>
          <l>Quando com Viriato, na inimiga</l>
          <l>Guerra romana tanto se afamaram;</l>
          <l>Também deixo a memória, que os obriga</l>
          <l>A grande nome, quando alevantaram</l>
          <l>Um por seu capitão, que peregrino</l>
          <l>Fingiu na cerva espírito divino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="55" edRef="#instituto"/>
          <l>“Agora vedes bem que, cometendo</l>
          <l>O duvidoso mar num lenho leve,</l>
          <l>Por vias nunca usadas, não temendo</l>
          <l>De Áfrico e Noto a força, a mais se atreve:</l>
          <l>Que havendo tanto já que as partes vendo</l>
          <l>Onde o dia é comprido e onde breve,</l>
          <l>Inclinam seu propósito e porfia</l>
          <l>A ver os berços onde nasce o dia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Prometido lhe está do Fado eterno,</l>
          <l>Cuja alta Lei não pode ser quebrada,</l>
          <l>Que tenham longos tempos o governo</l>
          <l>Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.</l>
          <l>Nas águas têm passado o duro inverno;</l>
          <l>A gente vem perdida e trabalhada;</l>
          <l>Já parece bem feito que lhe seja</l>
          <l>Mostrada a nova terra, que deseja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E porque, como vistes, têm passados</l>
          <l>Na viagem tão ásperos perigos,</l>
          <l>Tantos climas e céus experimentados,</l>
          <l>Tanto furor de ventos inimigos,</l>
          <l>Que sejam, determino, agasalhados</l>
          <l>Nesta costa africana, como amigos.</l>
          <l>E tendo guarnecida a lassa frota,</l>
          <l>Tornarão a seguir sua longa rota.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estas palavras Júpiter dizia,</l>
          <l>Quando os Deuses por ordem respondendo,</l>
          <l>Na sentença um do outro diferia,</l>
          <l>Razões diversas dando e recebendo.</l>
          <l>O padre Baco ali não consentia</l>
          <l>No que Júpiter disse, conhecendo</l>
          <l>Que esquecerão seus feitos no Oriente,</l>
          <l>Se lá passar a Lusitana gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="56" edRef="#instituto"/>
          <l>Ouvido tinha aos Fados que viria</l>
          <l>Uma gente fortíssima de Espanha</l>
          <l>Pelo mar alto, a qual sujeitaria</l>
          <l>Da índia tudo quanto Dóris banha,</l>
          <l>E com novas vitórias venceria</l>
          <l>A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.</l>
          <l>Altamente lhe dói perder a glória,</l>
          <l>De que Nisa celebra inda a memória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vê que já teve o Indo sojugado,</l>
          <l>E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,</l>
          <l>Por vencedor da Índia ser cantado</l>
          <l>De quantos bebem a água de Parnaso.</l>
          <l>Teme agora que seja sepultado</l>
          <l>Seu tão célebre nome em negro vaso</l>
          <l>D’água do esquecimento, se lá chegam</l>
          <l>Os fortes Portugueses, que navegam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sustentava contra ele Vénus bela,</l>
          <l>Afeiçoada à gente Lusitana,</l>
          <l>Por quantas qualidades via nela</l>
          <l>Da antiga tão amada sua Romana;</l>
          <l>Nos fortes corações, na grande estrela,</l>
          <l>Que mostraram na terra Tingitana,</l>
          <l>E na língua, na qual quando imagina,</l>
          <l>Com pouca corrupção crê que é a Latina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estas causas moviam Citereia,</l>
          <l>E mais, porque das Parcas claro entende</l>
          <l>Que há de ser celebrada a clara Deia,</l>
          <l>Onde a gente belígera se estende.</l>
          <l>Assim que, um pela infâmia, que arreceia,</l>
          <l>E o outro pelas honras, que pretende,</l>
          <l>Debatem, e na porfia permanecem;</l>
          <l>A qualquer seus amigos favorecem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="57" edRef="#instituto"/>
          <l>Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura</l>
          <l>De silvestre arvoredo abastecida,</l>
          <l>Rompendo os ramos vão da mata escura,</l>
          <l>Com ímpeto e braveza desmedida;</l>
          <l>Brama toda a montanha, o som murmura,</l>
          <l>Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:</l>
          <l>Tal andava o tumulto levantado,</l>
          <l>Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas Marte, que da Deusa sustentava</l>
          <l>Entre todos as partes em porfia,</l>
          <l>Ou porque o amor antigo o obrigava,</l>
          <l>Ou porque a gente forte o merecia,</l>
          <l>De entre os Deuses em pé se levantava:</l>
          <l>Merencório no gesto parecia;</l>
          <l>O forte escudo ao colo pendurado</l>
          <l>Deitando para trás, medonho e irado,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A viseira do elmo de diamante</l>
          <l>Alevantando um pouco, mui seguro,</l>
          <l>Por dar seu parecer, se pôs diante</l>
          <l>De Júpiter, armado, forte e duro:</l>
          <l>E dando uma pancada penetrante,</l>
          <l>Com o conto do bastão no sólio puro,</l>
          <l>O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,</l>
          <l>Um pouco a luz perdeu, como enfiado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E disse assim: “Ó Padre, a cujo império</l>
          <l>Tudo aquilo obedece, que criaste,</l>
          <l>Se esta gente, que busca outro hemisfério,</l>
          <l>Cuja valia, e obras tanto amaste,</l>
          <l>Não queres que padeçam vitupério,</l>
          <l>Como há já tanto tempo que ordenaste,</l>
          <l>Não onças mais, pois és juiz direito,</l>
          <l>Razões de quem parece que é suspeito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="58" edRef="#instituto"/>
          <l>“Que, se aqui a razão se não mostrasse</l>
          <l>Vencida do temor demasiado,</l>
          <l>Bem fora que aqui Baco os sustentasse,</l>
          <l>Pois que de Luso vem, seu tão privado;</l>
          <l>Mas esta tenção sua agora passe,</l>
          <l>Porque enfim vem de estômago danado;</l>
          <l>Que nunca tirará alheia inveja</l>
          <l>O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E tu, Padre de grande fortaleza,</l>
          <l>Da determinação, que tens tomada,</l>
          <l>Não tornes por detrás, pois é fraqueza</l>
          <l>Desistir-se da cousa começada.</l>
          <l>Mercúrio, pois excede em ligeireza</l>
          <l>Ao vento leve, e à seta bem talhada,</l>
          <l>Lhe vá mostrar a terra, onde se informe</l>
          <l>Da índia, e onde a gente se reforme.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como isto disse, o Padre poderoso,</l>
          <l>A cabeça inclinando, consentiu</l>
          <l>No que disse Mavorte valeroso,</l>
          <l>E néctar sobre todos esparziu.</l>
          <l>Pelo caminho Lácteo glorioso</l>
          <l>Logo cada um dos Deuses se partiu,</l>
          <l>Fazendo seus reais acatamentos,</l>
          <l>Para os determinados aposentos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Enquanto isto se passa na formosa</l>
          <l>Casa etérea do Olimpo onipotente,</l>
          <l>Cortava o mar a gente belicosa,</l>
          <l>Já lá da banda do Austro e do Oriente,</l>
          <l>Entre a costa Etiópica e a famosa</l>
          <l>Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente</l>
          <l>Queimava então os Deuses, que Tifeu</l>
          <l>Com o temor grande em peixes converteu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="59" edRef="#instituto"/>
          <l>Tão brandamente os ventos os levavam,</l>
          <l>Como quem o céu tinha por amigo:</l>
          <l>Sereno o ar, e os tempos se mostravam</l>
          <l>Sem nuvens, sem receio de perigo.</l>
          <l>O promontório Prasso já passavam,</l>
          <l>Na costa de Etiópia, nome antigo,</l>
          <l>Quando o mar descobrindo lhe mostrava</l>
          <l>Novas ilhas, que em torno cerca e lava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vasco da Gama, o forte capitão,</l>
          <l>Que a tamanhas empresas se oferece,</l>
          <l>De soberbo e de altivo coração,</l>
          <l>A quem Fortuna sempre favorece,</l>
          <l>Para se aqui deter não vê razão,</l>
          <l>Que inabitada a terra lhe parece:</l>
          <l>Por diante passar determinava;</l>
          <l>Mas não lhe sucedeu como cuidava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eis aparecem logo em companhia</l>
          <l>Uns pequenos batéis, que vêm daquela</l>
          <l>Que mais chegada à terra parecia,</l>
          <l>Cortando o longo mar com larga vela.</l>
          <l>A gente se alvoroça, e de alegria</l>
          <l>Não sabe mais que olhar a causa dela.</l>
          <l>Que gente será esta, em si diziam,</l>
          <l>Que costumes, que Lei, que Rei teriam?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As embarcações eram, na maneira,</l>
          <l>Mui veloces, estreitas e compridas:</l>
          <l>As velas, com que, vêm, eram de esteira</l>
          <l>Dumas folhas de palma, bem tecidas;</l>
          <l>A gente da cor era verdadeira,</l>
          <l>Que Faeton, nas terras acendidas,</l>
          <l>Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:</l>
          <l>O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="60" edRef="#instituto"/>
          <l>De panos de algodão vinham vestidos,</l>
          <l>De várias cores, brancos e listrados:</l>
          <l>Uns trazem derredor de si cingidos,</l>
          <l>Outros em modo airoso sobraçados:</l>
          <l>Da cinta para cima vêm despidos;</l>
          <l>Por armas têm adargas o terçados;</l>
          <l>Com toucas na cabeça; e navegando,</l>
          <l>Anafis sonorosos vão tocando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Co’os panos e co’os braços acenavam</l>
          <l>As gentes Lusitanas, que esperassem;</l>
          <l>Mas já as proas ligeiras se inclinavam</l>
          <l>Para que junto às ilhas amainassem.</l>
          <l>A gente e marinheiros trabalhavam,</l>
          <l>Como se aqui os trabalhos se acabassem;</l>
          <l>Tomam velas; amaina-se a verga alta;</l>
          <l>Da âncora, o mar ferido, em cima salta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não eram ancorados, quando a gente</l>
          <l>Estranha pelas cordas já subia.</l>
          <l>No gesto ledos vêm, e humanamente</l>
          <l>O Capitão sublime os recebia:</l>
          <l>As mesas manda pôr em continente;</l>
          <l>Do licor que Lieo prantado havia</l>
          <l>Enchem vasos de vidro, e do que deitam,</l>
          <l>Os de Faeton queimados nada enjeitam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Comendo alegremente perguntavam,</l>
          <l>Pela Arábica língua, donde vinham,</l>
          <l>Quem eram, de que terra, que buscavam,</l>
          <l>Ou que partes do mar corrido tinham?</l>
          <l>Os fortes Lusitanos lhe tornavam</l>
          <l>As discretas respostas, que convinham:</l>
          <l>“Os Portugueses somos do Ocidente,</l>
          <l>Imos buscando as terras do Oriente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="61" edRef="#instituto"/>
          <l>“Do mar temos corrido e navegado</l>
          <l>Toda a parte do Antártico e Calisto,</l>
          <l>Toda a costa Africana rodeado,</l>
          <l>Diversos céus e terras temos visto;</l>
          <l>Dum Rei potente somos, tão amado,</l>
          <l>Tão querido de todos, e benquisto,</l>
          <l>Que não no largo mar, com leda fronte,</l>
          <l>Mas no lago entraremos de Aqueronte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E por mandado seu, buscando andamos</l>
          <l>A terra Oriental que o Indo rega;</l>
          <l>Por ele, o mar remoto navegamos,</l>
          <l>Que só dos feios focas se navega.</l>
          <l>Mas já razão parece que saibamos,</l>
          <l>Se entre vós a verdade não se nega,</l>
          <l>Quem sois, que terra é esta que habitais,</l>
          <l>Ou se tendes da Índia alguns sinais?”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Somos, um dos das ilhas lhe tornou,</l>
          <l>Estrangeiros na terra, Lei e nação;</l>
          <l>Que os próprios são aqueles, que criou</l>
          <l>A natura sem Lei e sem razão.</l>
          <l>Nós temos a Lei certa, que ensinou</l>
          <l>O claro descendente de Abraão</l>
          <l>Que agora tem do mundo o senhorio,</l>
          <l>A mãe Hebreia teve, e o pai Gentio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esta ilha pequena, que habitamos,</l>
          <l>em toda esta terra certa escala</l>
          <l>De todos os que as ondas navegamos</l>
          <l>De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;</l>
          <l>E, por ser necessária, procuramos,</l>
          <l>Como próprios da terra, de habitá-la;</l>
          <l>E por que tudo enfim vos notifique,</l>
          <l>Chama-se a pequena ilha Moçambique.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="62" edRef="#instituto"/>
          <l>“E já que de tão longe navegais,</l>
          <l>Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,</l>
          <l>Piloto aqui tereis, por quem sejais</l>
          <l>Guiados pelas ondas sabiamente.</l>
          <l>Também será bem feito que tenhais</l>
          <l>Da terra algum refresco, e que o Regente</l>
          <l>Que esta terra governa, que vos veja,</l>
          <l>E do mais necessário vos proveja.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto dizendo, o Mouro se tornou</l>
          <l>A seus batéis com toda a companhia;</l>
          <l>Do Capitão e gente se apartou</l>
          <l>Com mostras de devida cortesia.</l>
          <l>Nisto Febo nas águas encerrou,</l>
          <l>Co’o carro de cristal, o claro dia,</l>
          <l>Dando cargo à irmã, que alumiasse</l>
          <l>O largo mundo, enquanto repousasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A noite se passou na lassa frota</l>
          <l>Com estranha alegria, e não cuidada,</l>
          <l>Por acharem da terra tão remota</l>
          <l>Nova de tanto tempo desejada.</l>
          <l>Qualquer então consigo cuida e nota</l>
          <l>Na gente e na maneira desusada,</l>
          <l>E como os que na errada Seita creram,</l>
          <l>Tanto por todo o mundo se estenderam,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da Lua os claros raios rutilavam</l>
          <l>Pelas argênteas ondas Neptuninas,</l>
          <l>As estrelas os Céus acompanhavam,</l>
          <l>Qual campo revestido de boninas;</l>
          <l>Os furiosos ventos repousavam</l>
          <l>Pelas covas escuras peregrinas;</l>
          <l>Porém da armada a gente vigiava,</l>
          <l>Como por longo tempo costumava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="63" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas assim como a Aurora marchetada</l>
          <l>Os formosos cabelos espalhou</l>
          <l>No Céu sereno, abrindo a roxa entrada</l>
          <l>Ao claro Hiperiónio, que acordou,</l>
          <l>Começa a embandeirar-se toda a armada,</l>
          <l>E de toldos alegres se adornou,</l>
          <l>Por receber com festas e alegria</l>
          <l>O Regedor das ilhas, que partia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Partia alegremente navegando,</l>
          <l>A ver as naus ligeiras Lusitanas,</l>
          <l>Com refresco da terra, em si cuidando</l>
          <l>Que são aquelas gentes inumanas,</l>
          <l>Que, os aposentos cáspios habitando,</l>
          <l>A conquistar as terras Asianas</l>
          <l>Vieram; e por ordem do Destino,</l>
          <l>O Império tomaram a Constantino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recebe o Capitão alegremente</l>
          <l>O Mouro, e toda a sua companhia;</l>
          <l>Dá-lhe de ricas peças um presente,</l>
          <l>Que só para este efeito já trazia;</l>
          <l>Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente</l>
          <l>Não usado licor, que dá alegria.</l>
          <l>Tudo o Mouro contente bem recebe;</l>
          <l>E muito mais contente come e bebe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Está a gente marítima de Luso</l>
          <l>Subida pela enxárcia, de admirada,</l>
          <l>Notando o estrangeiro modo e uso,</l>
          <l>E a linguagem tão bárbara e enleada.</l>
          <l>Também o Mouro astuto está confuso,</l>
          <l>Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;</l>
          <l>E perguntando tudo, lhe dizia</l>
          <l>“Se por ventura vinham de Turquia?”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="64" edRef="#instituto"/>
          <l>E mais lhe diz também, que ver deseja</l>
          <l>Os livros de sua Lei, preceito eu fé,</l>
          <l>Para ver se conforme à sua seja,</l>
          <l>Ou se são dos de Cristo, como Crê.</l>
          <l>E porque tudo note e tudo veja,</l>
          <l>Ao Capitão pedia que lhe dê</l>
          <l>Mostra das fortes armas de que usavam,</l>
          <l>Quando co’os inimigos pelejavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Responde o valeroso Capitão</l>
          <l>Por um, que a língua escura bem sabia:</l>
          <l>“Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação</l>
          <l>De mim, da Lei, das armas que trazia.</l>
          <l>Nem sou da terra, nem da geração</l>
          <l>Das gentes enojosas de Turquia:</l>
          <l>Mas sou da forte Europa belicosa,</l>
          <l>Busco as terras da índia tão famosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A lei tenho daquele, a cujo império</l>
          <l>Obedece o visíbil e invisíbil</l>
          <l>Aquele que criou todo o Hemisfério,</l>
          <l>Tudo o que sente, o todo o insensíbil;</l>
          <l>Que padeceu desonra e vitupério,</l>
          <l>Sofrendo morte injusta e insofríbil,</l>
          <l>E que do Céu à Terra, enfim desceu,</l>
          <l>Por subir os mortais da Terra ao Céu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deste Deus-Homem, alto e infinito,</l>
          <l>Os livros, que tu pedes não trazia,</l>
          <l>Que bem posso escusar trazer escrito</l>
          <l>Em papel o que na alma andar devia.</l>
          <l>Se as armas queres ver, como tens dito,</l>
          <l>Cumprido esse desejo te seria;</l>
          <l>Como amigo as verás; porque eu me obrigo,</l>
          <l>Que nunca as queiras ver como inimigo.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="65" edRef="#instituto"/>
          <l>Isto dizendo, manda os diligentes</l>
          <l>Ministros amostrar as armaduras:</l>
          <l>Vêm arneses, e peitos reluzentes,</l>
          <l>Malhas finas, e lâminas seguras,</l>
          <l>Escudos de pinturas diferentes,</l>
          <l>Pelouros, espingardas de aço puras,</l>
          <l>Arcos, e sagitíferas aljavas,</l>
          <l>Partazanas agudas, chuças bravas:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As bombas vêm de fogo, e juntamente</l>
          <l>As panelas sulfúreas, tão danosas;</l>
          <l>Porém aos de Vulcano não consente</l>
          <l>Que deem fogo às bombardas temerosas;</l>
          <l>Porque o generoso ânimo e valente,</l>
          <l>Entre gentes tão poucas e medrosas,</l>
          <l>Não mostra quanto pode, e com razão,</l>
          <l>Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porém disto, que o Mouro aqui notou,</l>
          <l>E de tudo o que viu com olho atento</l>
          <l>Um ódio certo na alma lhe ficou,</l>
          <l>Uma vontade má de pensamento.</l>
          <l>Nas mostras e no gesto o não mostrou;</l>
          <l>Mas com risonho e ledo fingimento</l>
          <l>Tratá-los brandamente determina,</l>
          <l>Até que mostrar possa o que imagina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pilotos lhe pedia o Capitão,</l>
          <l>Por quem pudesse à Índia ser levado;</l>
          <l>Diz-lhe que o largo prémio levarão</l>
          <l>Do trabalho que nisso for tomado.</l>
          <l>Promete-lhos o Mouro, com tenção</l>
          <l>De peito venenoso, e tão danado,</l>
          <l>Que a morte, se pudesse, neste dia,</l>
          <l>Em lugar de pilotos lhe daria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="66" edRef="#instituto"/>
          <l>Tamanho o ódio foi, e a má vontade,</l>
          <l>Que aos estrangeiros súbito tomou,</l>
          <l>Sabendo ser sequazes da verdade,</l>
          <l>Que o Filho de <choice><orig>David</orig><seg>Davi</seg></choice> nos ensinou.</l>
          <l>ó segredos daquela Eternidade,</l>
          <l>A quem juízo algum nunca alcançou!</l>
          <l>Que nunca falte um pérfido inimigo</l>
          <l>Aqueles de quem foste tanto amigo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Partiu-se Disto enfim co’a companhia,</l>
          <l>Das naus o falso Mouro despedido,</l>
          <l>Com enganosa e grande cortesia,</l>
          <l>Com gesto ledo a todos, e fingido.</l>
          <l>Cortaram os batéis a curta via</l>
          <l>Das águas de Neptuno, e recebido</l>
          <l>Na terra do obsequente ajuntamento</l>
          <l>Se foi o Mouro ao cógnito aposento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do claro assento etóreo o grão Tebano,</l>
          <l>Que da paternal coxa foi nascido,</l>
          <l>Olhando o ajuntamento Lusitano</l>
          <l>Ao Mouro ser molesto e avorrecido,</l>
          <l>No pensamento cuida um falso engano,</l>
          <l>Com que seja de todo destruído.</l>
          <l>E enquanto isto só na alma imaginava,</l>
          <l>Consigo estas palavras praticava:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Está do fado já determinado,</l>
          <l>Que tamanhas vitórias, tão famosas,</l>
          <l>Hajam os Portugueses alcançado</l>
          <l>Das Indianas gentes belicosas.</l>
          <l>E eu só, filho do Padre sublimado,</l>
          <l>Com tantas qualidades generosas,</l>
          <l>Hei de sofrer que o fado favoreça</l>
          <l>Outrem, por quem meu nome se escureça?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="67" edRef="#instituto"/>
          <l>“Já quiseram os Deuses que tivesse</l>
          <l>O filho de Filipo nesta parte</l>
          <l>Tanto poder, que tudo submetesse</l>
          <l>Debaixo de seu jugo o fero Marte.</l>
          <l>Mas há-se de sofrer que o fado desse</l>
          <l>A tão poucos tamanho esforço e arte,</l>
          <l>Que eu co’o grão Macedónio, e o Romano,</l>
          <l>Demos lugar ao nome Lusitano?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não será assim, porque antes que chegado</l>
          <l>Seja este Capitão, astutamente</l>
          <l>Lhe será tanto engano fabricados</l>
          <l>Que nunca veja as partes do Oriente.</l>
          <l>Eu descerei à Terra, e o indignado</l>
          <l>Peito revolverei da Maura gente;</l>
          <l>Porque sempre por via irá direita</l>
          <l>Quem do oportuno tempo se aproveita.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto dizendo, irado e quase insano,</l>
          <l>Sobre a terra africana descendeu,</l>
          <l>Onde vestindo a forma e gesto humano,</l>
          <l>Para o Prasso sabido se moveu.</l>
          <l>E por melhor tecer o astuto engano,</l>
          <l>No gesto natural se converteu</l>
          <l>Dum Mouro, em Moçambique conhecido</l>
          <l>Velho, sábio, e co’o Xeque mui valido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E entrando assi a falar-lhe a tempo e horas</l>
          <l>A sua falsidade acomodadas,</l>
          <l>Lhe diz como eram gentes roubadoras,</l>
          <l>Estas que ora de novo são chegadas;</l>
          <l>Que das nações na costa moradoras</l>
          <l>Correndo a fama veio que roubadas</l>
          <l>Foram por estes homens que passavam,</l>
          <l>Que com pactos de paz sempre ancoravam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="68" edRef="#instituto"/>
          <l>E sabe mais, lhe diz, como entendido</l>
          <l>Tenho destes cristãos sanguinolentos,</l>
          <l>Que quase todo o mar têm destruído</l>
          <l>Com roubos, com incêndios violentos;</l>
          <l>E trazem já de longe engano urdido</l>
          <l>Contra nós; e que todos seus intentos</l>
          <l>São para nos matarem e roubarem,</l>
          <l>E mulheres e filhos cativarem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E também sei que tem determinado</l>
          <l>De vir por água a terra muito cedo</l>
          <l>O Capitão dos seus acompanhado,</l>
          <l>Que da tensão danada nasce o medo.</l>
          <l>Tu deves de ir também co’os teus armado</l>
          <l>Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;</l>
          <l>Porque, saindo a gente descuidada,</l>
          <l>Cairão facilmente na cilada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se inda não ficarem deste jeito</l>
          <l>Destruídos, ou mortos totalmente</l>
          <l>Eu tenho imaginado no conceito</l>
          <l>Outra manha e ardil, que te contente:</l>
          <l>Manda-lhe dar piloto, que de jeito</l>
          <l>Seja astuto no engano, e tão prudente,</l>
          <l>Que os leve aonde sejam destruídos,</l>
          <l>Desbaratados, mortos, ou perdidos.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tanto que estas palavras acabou,</l>
          <l>O Mouro, nos tais casos sábio e velho,</l>
          <l>Os braços pelo colo lhe lançou,</l>
          <l>Agradecendo muito o tal conselho;</l>
          <l>E logo nesse instante concertou</l>
          <l>Para a guerra o belígero aparelho,</l>
          <l>Para que ao Português se lhe tornasse</l>
          <l>Em roxo sangue a água, que buscasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="69" edRef="#instituto"/>
          <l>E busca mais, para o cuidado engano,</l>
          <l>Mouro, que por piloto à nau lhe mande,</l>
          <l>Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,</l>
          <l>De quem fiar-se possa um feito grande.</l>
          <l>Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,</l>
          <l>Por tais costas e mares com ele ande,</l>
          <l>Que, se daqui escapar, que lá diante</l>
          <l>Vá cair onde nunca se alevante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já o raio Apolíneo visitava</l>
          <l>Os montes Nabateos acendido,</l>
          <l>Quando o Gama, c’os seus determinava</l>
          <l>De vir por água a terra apercebido.</l>
          <l>A gente nos batéis se concertava,</l>
          <l>Como se fosse o engano já sabido:</l>
          <l>Mas pode suspeitar-se facilmente,</l>
          <l>Que o coração pressago nunca mente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mais também mandado tinha a terra,</l>
          <l>De antes, pelo piloto necessário,</l>
          <l>E foi-lhe respondido em som de guerra,</l>
          <l>Caso do que cuidava mui contrário;</l>
          <l>Por isto, e porque sabe quanto erra</l>
          <l>Quem se crê de seu pérfido adversário,</l>
          <l>Apercebido vai como podia,</l>
          <l>Em três batéis somente que trazia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas os Mouros que andavam pela praia,</l>
          <l>Por lhe defender a água desejada,</l>
          <l>Um de escudo embraçado e de azagaia,</l>
          <l>Outro de arco encurvado e seta ervada,</l>
          <l>Esperam que a guerreira gente saia,</l>
          <l>Outros muitos já postos em cilada.</l>
          <l>E, porque o caso leve se lhe faça,</l>
          <l>Põem uns poucos diante por negaça,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="70" edRef="#instituto"/>
          <l>Andam pela ribeira alva, arenosa,</l>
          <l>Os belicosos Mouros acenando</l>
          <l>Com a adarga e co’a hástia perigosa,</l>
          <l>Os fortes Portugueses incitando.</l>
          <l>Não sofre muito a gente generosa</l>
          <l>Andar-lhe os cães os dentes amostrando.</l>
          <l>Qualquer em terra salta tão ligeiro,</l>
          <l>Que nenhum dizer pode que é primeiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Qual no corro sanguino o ledo amante,</l>
          <l>Vendo a formosa dama desejada,</l>
          <l>O touro busca, e pondo-se diante,</l>
          <l>Salta, corre, sibila, acena, e brada,</l>
          <l>Mas o animal atroce, nesse instante,</l>
          <l>Com a fronte cornígera inclinada,</l>
          <l>Bramando duro corre, e os olhos cerra,</l>
          <l>Derriba, fere e mata, e põe por terra:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eis nos batéis o fogo se levanta</l>
          <l>Na furiosa e dura artilharia,</l>
          <l>A plúmbea pela mata, o brado espanta,</l>
          <l>Ferido o ar retumba e assovia:</l>
          <l>O coração dos Mouros se quebranta,</l>
          <l>O temor grande o sangue lhe resfria.</l>
          <l>Já foge o escondido de medroso,</l>
          <l>E morre o descoberto aventuroso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não se contenta a gente Portuguesa,</l>
          <l>Mas seguindo a vitória estrui e mata;</l>
          <l>A povoação, sem muro e sem defesa,</l>
          <l>Esbombardeia, acende e desbarata.</l>
          <l>Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,</l>
          <l>Que bem cuidou comprá-la mais barata;</l>
          <l>Já blasfema da guerra, e maldizia,</l>
          <l>O velho inerte, e a mãe que o filho cria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="71" edRef="#instituto"/>
          <l>Fugindo, a seta o Mouro vai tirando</l>
          <l>Sem força, de covarde e de apressado,</l>
          <l>A pedra, o pau, e o canto arremessando;</l>
          <l>Dá-lhe armas o furor desatinado.</l>
          <l>Já a ilha e todo o mais desemparando,</l>
          <l>A terra firme foge amedrontado;</l>
          <l>Passa e corta do mar o estreito braço,</l>
          <l>Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uns vão nas almadias carregadas,</l>
          <l>Um corta o mar a nado diligente,</l>
          <l>Quem se afoga nas ondas encurvadas,</l>
          <l>Quem bebe o mar, e o deita juntamente.</l>
          <l>Arrombam as miúdas bombardadas</l>
          <l>Os pangaios subtis da bruta gente:</l>
          <l>Desta arte o Português enfim castiga</l>
          <l>A vil malícia, pérfida, inimiga.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tornam vitoriosos para a armada,</l>
          <l>Co’o despojo da guerra e rica presa,</l>
          <l>E vão a seu prazer fazer aguada,</l>
          <l>Sem achar resistência, nem defesa.</l>
          <l>Ficava a Maura gente magoada,</l>
          <l>No ódio antigo mais que nunca acesa;</l>
          <l>E vendo sem vingança tanto dano,</l>
          <l>Somente estriba no segundo engano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pazes cometer manda arrependido</l>
          <l>O Regedor daquela iníqua terra,</l>
          <l>Sem ser dos Lusitanos entendido,</l>
          <l>Que em figura de paz lhe manda guerra;</l>
          <l>Porque o piloto falso prometido,</l>
          <l>Que toda a má tenção no peito encerra,</l>
          <l>Para os guiar à morte lhe mandava,</l>
          <l>Como em sinal das pazes que tratava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="72" edRef="#instituto"/>
          <l>O Capitão, que já lhe então convinha</l>
          <l>Tornar a seu caminho acostumado,</l>
          <l>Que tempo concertado e ventos tinha</l>
          <l>Para ir buscar o Indo desejado,</l>
          <l>Recebendo o piloto, que lhe vinha,</l>
          <l>Foi dele alegremente agasalhado;</l>
          <l>E respondendo ao mensageiro a tento,</l>
          <l>As velas manda dar ao largo vento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desta arte despedida a forte armada,</l>
          <l>As ondas de Anfitrite dividia,</l>
          <l>Das filhas de Nereu acompanhada,</l>
          <l>Fiel, alegre e doce companhia.</l>
          <l>O Capitão, que não caía em nada</l>
          <l>Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,</l>
          <l>Dele mui largamente se informava</l>
          <l>Da Índia toda, e costas que passava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o Mouro, instruído nos enganos</l>
          <l>Que o malévolo Baco lhe ensinara,</l>
          <l>De morte ou cativeiro novos danos,</l>
          <l>Antes que à Índia chegue, lhe prepara:</l>
          <l>Dando razões dos portos Indianos,</l>
          <l>Também tudo o que pede lhe declara,</l>
          <l>Que, havendo por verdade o que dizia,</l>
          <l>De nada a forte gente se temia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E diz-lhe mais, com o falso pensamento</l>
          <l>Com que Sinon os Frígios enganou:</l>
          <l>Que perto está uma ilha, cujo assento</l>
          <l>Povo antigo cristão sempre habitou.</l>
          <l>O Capitão, que a tudo estava a tento,</l>
          <l>Tanto com estas novas se alegrou,</l>
          <l>Que com dádivas grandes lhe rogava,</l>
          <l>Que o leve à terra onde esta gente estava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="73" edRef="#instituto"/>
          <l>O mesmo o falso Mouro determina,</l>
          <l>Que o seguro Cristão lhe manda e pede;</l>
          <l>Que a ilha é possuída da malina</l>
          <l>Gente que segue o torpe Mahamede.</l>
          <l>Aqui o engano e morte lhe imagina,</l>
          <l>Porque em poder e forças muito excede</l>
          <l>A Moçambique esta ilha, que se chama</l>
          <l>Quíloa, mui conhecida pela fama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Para lá se inclinava a leda frota;</l>
          <l>Mas a Deusa em Citere celebrada,</l>
          <l>Vendo como deixava a certa rota</l>
          <l>Por ir buscar a morte não cuidada,</l>
          <l>Não consente que em terra tão remota</l>
          <l>Se perca a gente dela tanto amada.</l>
          <l>E com ventos contrários a desvia</l>
          <l>Donde o piloto falso a leva e guia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o malvado Mouro, não podendo</l>
          <l>Tal determinação levar avante,</l>
          <l>Outra maldade iníqua cometendo,</l>
          <l>Ainda em seu propósito constante,</l>
          <l>Lhe diz que, pois as águas discorrendo</l>
          <l>Os levaram por força por diante,</l>
          <l>Que outra ilha tem perto, cuja gente</l>
          <l>Eram Cristãos com Mouros juntamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Também nestas palavras lhe mentia,</l>
          <l>Como por regimento enfim levava,</l>
          <l>Que aqui gente de Cristo não havia,</l>
          <l>Mas a que a Mahamede celebrava.</l>
          <l>O Capitão, que em tudo o Mouro cria,</l>
          <l>Virando as velas, a ilha demandava;</l>
          <l>Mas, não querendo a Deusa guardadora,</l>
          <l>Não entra pela barra, e surge fora.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="74" edRef="#instituto"/>
          <l>Estava a ilha à terra tão chegada,</l>
          <l>Que um estreito pequeno a dividia;</l>
          <l>Uma cidade nela situada,</l>
          <l>Que na fronte do mar aparecia,</l>
          <l>De nobres edifícios fabricada,</l>
          <l>Como por fora ao longe descobria,</l>
          <l>Regida por um Rei de antiga idade:</l>
          <l>Mombaça é o nome da ilha e da cidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E sendo a ela o Capitão chegado,</l>
          <l>Estranhamente ledo, porque espera</l>
          <l>De poder ver o povo batizado,</l>
          <l>Como o falso piloto lhe dissera,</l>
          <l>Eis vêm batéis da terra com recado</l>
          <l>Do Rei, que já sabia a gente que era:</l>
          <l>Que Baco muito de antes o avisara,</l>
          <l>Na forma doutro Mouro, que tomara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O recado que trazem é de amigos,</l>
          <l>Mas debaixo o veneno vem coberto;</l>
          <l>Que os pensamentos eram de inimigos,</l>
          <l>Segundo foi o engano descoberto.</l>
          <l>Ó grandes e gravíssimos perigos!</l>
          <l>Ó caminho de vida nunca certo:</l>
          <l>Que aonde a gente põe sua esperança,</l>
          <l>Tenha a vida tão pouca segurança!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No mar tanta tormenta, e tanto dano,</l>
          <l>Tantas vezes a morte apercebida!</l>
          <l>Na terra tanta guerra, tanto engano,</l>
          <l>Tanta necessidade avorrecida!</l>
          <l>Onde pode acolher-se um fraco humano,</l>
          <l>Onde terá segura a curta vida,</l>
          <l>Que não se arme, e se indigne o Céu sereno</l>
          <l>Contra um bicho da terra tão pequeno?</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Segundo</head>
        <lg>
          <pb n="98" edRef="#instituto"/>
          <l>Já neste tempo o lúcido Planeta,</l>
          <l>Que as horas vai do dia distinguindo,</l>
          <l>Chegava à desejada e lenta meta,</l>
          <l>A luz celeste às gentes encobrindo,</l>
          <l>E da casa marítima secreta</l>
          <l>Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,</l>
          <l>Quando as infidas gentes se chegaram</l>
          <l>As naus, que pouco havia que ancoraram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dentre eles um, que traz encomendado</l>
          <l>O mortífero engano, assim dizia:</l>
          <l>“Capitão valeroso, que cortado</l>
          <l>Tens de Neptuno o reino e salsa via,</l>
          <l>O Rei que manda esta ilha, alvoroçado</l>
          <l>Da vinda tua, tem tanta alegria,</l>
          <l>Que não deseja mais que agasalhar-te,</l>
          <l>Ver-te, e do necessário reformar-te.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E porque está em extremo desejoso</l>
          <l>De te ver, como cousa nomeada,</l>
          <l>Te roga que, de nada receoso,</l>
          <l>Entres a barra, tu com toda armada:</l>
          <l>E porque do caminho trabalhoso</l>
          <l>Trarás a gente débil e cansada,</l>
          <l>Diz que na terra podes reformá-la,</l>
          <l>Que a natureza obriga a desejá-la.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="99" edRef="#instituto"/>
          <l>“E se buscando vás mercadoria</l>
          <l>Que produze o aurífero Levante,</l>
          <l>Canela, cravo, ardente especiaria,</l>
          <l>Ou droga salutífera e prestante;</l>
          <l>Ou se queres luzente pedraria,</l>
          <l>O rubi fino, o rígido diamante,</l>
          <l>Daqui levarás tudo tão sobejo</l>
          <l>Com que faças o fim a teu desejo.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ao mensageiro o Capitão responde</l>
          <l>As palavras do Rei agradecendo:</l>
          <l>E diz que, porque o Sol no mar se esconde,</l>
          <l>Não entra para dentro, obedecendo;</l>
          <l>Porém que, como a luz mostrar por onde</l>
          <l>Vá sem perigo a frota, não temendo,</l>
          <l>Cumprirá sem receio seu mandado,</l>
          <l>Que a mais por tal senhor está obrigado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pergunta-lhe depois, se estão na terra</l>
          <l>Cristãos, como o piloto lhe dizia;</l>
          <l>O mensageiro astuto, que não erra,</l>
          <l>Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.</l>
          <l>Desta sorte do peito lhe desterra</l>
          <l>Toda a suspeita e cauta fantasia;</l>
          <l>Por onde o Capitão seguramente</l>
          <l>Se fia da infiel e falsa gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="100" edRef="#instituto"/>
          <l>E de alguns que trazia condenados</l>
          <l>Por culpas e por feitos vergonhosos,</l>
          <l>Por que pudessem ser aventurados</l>
          <l>Em casos desta sorte duvidosos,</l>
          <l>Manda dous mais sagazes, ensaiados,</l>
          <l>Por que notem dos Mouros enganosos</l>
          <l>A cidade e poder, e por que vejam</l>
          <l>Os Cristãos, que só tanto ver desejam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E por estes ao Rei presentes manda,</l>
          <l>Por que a boa vontade, que mostrava,</l>
          <l>Tenha firme, segura, limpa e branda;</l>
          <l>A qual bem ao contrário em tudo estava.</l>
          <l>Já a companhia pérfida e nefanda</l>
          <l>Das naus se despedia e o mar cortava:</l>
          <l>Foram com gestos ledos e fingidos,</l>
          <l>Os dous da frota em terra recebidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E depois que ao Rei apresentaram,</l>
          <l>Co’o recado, os presentes que traziam,</l>
          <l>A cidade correram, e notaram</l>
          <l>Muito menos daquilo que queriam;</l>
          <l>Que os Mouros cautelosos se guardaras</l>
          <l>De lhes mostrarem tudo o que pediam:</l>
          <l>Que onde reina a malícia, está o receio,</l>
          <l>Que a faz imaginar no peito alheio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas aquele que sempre a mocidade</l>
          <l>Tem no rosto perpétua, e foi nascido</l>
          <l>De duas mães, que urdia a falsidade</l>
          <l>Por ver o navegante destruído,</l>
          <l>Estava numa casa da cidade,</l>
          <l>Com rosto humano e hábito fingido,</l>
          <l>Mostrando-se Cristão, e fabricava</l>
          <l>Um altar sumptuoso, que adorava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="101" edRef="#instituto"/>
          <l>Ali tinha em retrato afigurada</l>
          <l>Do alto e Santo Espírito a pintura:</l>
          <l>A cândida pombinha debuxada</l>
          <l>Sobre a única Fénix, Virgem pura;</l>
          <l>A companhia santa está pintada</l>
          <l>Dos doze, tão torvados na figura,</l>
          <l>Como os que, só das línguas que caíram,</l>
          <l>De fogo, várias línguas referiram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aqui os dous companheiros conduzidos</l>
          <l>Onde com este engano Baco estava,</l>
          <l>Põem em terra os giolhos, e os sentidos</l>
          <l>Naquele Deus que o mundo governava.</l>
          <l>Os cheiros excelentes, produzidos</l>
          <l>Na Pancaia odorífera, queimava</l>
          <l>O Tioneu, e assim por derradeiro</l>
          <l>O falso Deus adora o verdadeiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aqui foram de noite agasalhados,</l>
          <l>Com todo o bom e honesto tratamento,</l>
          <l>Os dous Cristãos, não vendo que enganados</l>
          <l>Os tinha o falso e santo fingimento.</l>
          <l>Mas assim como os raios espalhados</l>
          <l>Do Sol foram no mundo, e num momento</l>
          <l>Apareceu no rúbido horizonte</l>
          <l>Da moça de Titão a roxa fronte,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tornam da terra os Mouros co’o recado</l>
          <l>Do Rei, para que entrassem, e consigo</l>
          <l>Os dous que o Capitão tinha mandado,</l>
          <l>A quem se o Rei mostrou sincero amigo;</l>
          <l>E sendo o Português certificado</l>
          <l>De não haver receio de perigo,</l>
          <l>E que gente de Cristo em terra havia,</l>
          <l>Dentro no salso rio entrar queria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="102" edRef="#instituto"/>
          <l>Dizem-lhe os que mandou, que em terra viram</l>
          <l>Sacras aras e sacerdote santo; </l>
          <l>Que ali se agasalharam o dormiram,</l>
          <l>Enquanto a luz cobriu o escuro manto;</l>
          <l>E que no Rei e gentes não sentiram</l>
          <l>Senão contentamento e gosto tanto,</l>
          <l>Que não podia certo haver suspeita</l>
          <l>Numa mostra tão clara e tão perfeita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com isto o nobre Gama recebia</l>
          <l>Alegremente os Mouros que subiam;</l>
          <l>Que levemente um ânimo se fia</l>
          <l>De mostras, que tão certas pareciam.</l>
          <l>A nau da gente pérfida se enchia,</l>
          <l>Deixando a bordo os barcos que traziam.</l>
          <l>Alegres vinham todos, porque creem</l>
          <l>Que a presa desejada certa têm.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na terra, cautamente aparelhavam</l>
          <l>Armas e munições que, como vissem</l>
          <l>Que no rio os navios ancoravam,</l>
          <l>Neles ousadamente se subissem;</l>
          <l>E, nesta treição determinavam</l>
          <l>Que os de Luso de todo destruíssem,</l>
          <l>E que incautos pagassem deste jeito</l>
          <l>O mal que em Moçambique tinham feito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As âncoras tenaces vão levando</l>
          <l>Com a náutica grita costumada;</l>
          <l>Da proa as velas sós ao vento dando</l>
          <l>Inclinam para a barra abalizada.</l>
          <l>Mas a linda Ericina, que guardando</l>
          <l>Andava sempre a gente assinalada,</l>
          <l>Vendo a cilada grande, e tão secreta,</l>
          <l>Voa do Céu ao mar como uma seta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="103" edRef="#instituto"/>
          <l>Convoca as alvas filhas de Nereu,</l>
          <l>Com toda a mais cerúlea companhia,</l>
          <l>Que, porque no salgado mar nasceu,</l>
          <l>Das águas o poder lhe obedecia.</l>
          <l>E propondo-lhe a causa a que desceu,</l>
          <l>Com todas juntamente se partia,</l>
          <l>Para estorvar que a armada não chegasse</l>
          <l>Aonde para sempre se acabasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já na água erguendo vão, com grande pressa,</l>
          <l>Com as argênteas caudas branca escuma;</l>
          <l>Cloto co’o peito corta e atravessa</l>
          <l>Com mais furor o mar do que costuma.</l>
          <l>Salta Nise, Nerine se arremessa</l>
          <l>Por cima da água crespa, em força suma.</l>
          <l>Abrem caminho as ondas encurvadas</l>
          <l>De temor das Nereidas apressadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,</l>
          <l>Vai a linda Dione furiosa;</l>
          <l>Não sente quem a leva o doce peso,</l>
          <l>De soberbo com carga tão formosa.</l>
          <l>Já chegam perto donde o vento teso</l>
          <l>Enche as velas da frota belicosa;</l>
          <l>Repartem-se e rodeiam nesse instante</l>
          <l>As naus ligeiras, que iam por diante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Põe-se a Deusa com outras em direito</l>
          <l>Da proa capitaina, e ali fechando</l>
          <l>O caminho da barra, estão de jeito,</l>
          <l>Que em vão assopra o vento, a vela inchando.</l>
          <l>Põem no madeiro duro o brando peito,</l>
          <l>Para detrás a forte nau forçando;</l>
          <l>Outras em derredor levando-a estavam,</l>
          <l>E da barra inimiga a desviavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="104" edRef="#instituto"/>
          <l>Quais para a cova as próvidas formigas,</l>
          <l>Levando o peso grande acomodado,</l>
          <l>As forças exercitam, de inimigas</l>
          <l>Do inimigo inverno congelado;</l>
          <l>Ali são seus trabalhos e fadigas,</l>
          <l>Ali mostram vigor nunca esperado:</l>
          <l>Tais andavam as Ninfas estorvando</l>
          <l>A gente Portuguesa o fim nefando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Torna para detrás a nau forçada,</l>
          <l>Apesar dos que leva, que gritando</l>
          <l>Mareiam velas; ferve a gente irada,</l>
          <l>O leme a um bordo e a outro atravessando;</l>
          <l>O mestre astuto em vão da popa brada,</l>
          <l>Vendo como diante ameaçando</l>
          <l>Os estava um marítimo penedo,</l>
          <l>Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A celeuma medonha se alevanta</l>
          <l>No rudo marinheiro que trabalha;</l>
          <l>O grande estrondo a Maura gente espanta,</l>
          <l>Como se vissem hórrida batalha;</l>
          <l>Não sabem a razão de fúria tanta,</l>
          <l>Não sabem nesta pressa quem lhe valha;</l>
          <l>Cuidam que seus enganos são sabidos,</l>
          <l>E que hão de ser por isso aqui punidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ei-los subitamente se lançavam</l>
          <l>A seus batéis velozes que traziam;</l>
          <l>Outros em cima o mar alevantavam,</l>
          <l>Saltando n’água, a nado se acolhiam;</l>
          <l>De um bordo e doutro súbito saltavam,</l>
          <l>Que o medo os compelia do que viam;</l>
          <l>Que antes querem ao mar aventurar-se</l>
          <l>Que nas mãos inimigas entregar-se.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="105" edRef="#instituto"/>
          <l>Assim como em selvática alagoa</l>
          <l>As rãs, no tempo antigo Lícia gente,</l>
          <l>Se sentem por ventura vir pessoa,</l>
          <l>Estando fora da água incautamente,</l>
          <l>Daqui e dali saltando, o charco soa,</l>
          <l>Por fugir do perigo que se sente,</l>
          <l>E acolhendo-se ao couto que conhecem,</l>
          <l>Sós as cabeças na água lhe aparecem:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim fogem os Mouros; e o piloto,</l>
          <l>Que ao perigo grande as naus guiara,</l>
          <l>Crendo que seu engano estava noto,</l>
          <l>Também foge, saltando na água amara.</l>
          <l>Mas, por não darem no penedo imoto,</l>
          <l>Onde percam a vida doce e cara,</l>
          <l>A âncora solta logo a capitaina,</l>
          <l>Qualquer das outras junto dela amaina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vendo o Gama, atentado, a estranheza</l>
          <l>Dos Mouros, não cuidada, e juntamente</l>
          <l>O piloto fugir-lhe com presteza,</l>
          <l>Entende o que ordenava a bruta gente;</l>
          <l>E vendo, sem contraste e sem braveza</l>
          <l>Dos ventos, ou das águas sem corrente,</l>
          <l>Que a nau passar avante não podia,</l>
          <l>Havendo-o por milagre, assim dizia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó caso grande, estranho e não cuidado,</l>
          <l>Ó milagre claríssimo e evidente,</l>
          <l>Ó descoberto engano inopinado,</l>
          <l>Ó pérfida, inimiga e falsa gente!</l>
          <l>Quem poderá do mal aparelhado</l>
          <l>Livrar-se sem perigo sabiamente,</l>
          <l>Se lá de cima a Guarda soberana</l>
          <l>Não acudir à fraca força humana?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="106" edRef="#instituto"/>
          <l>“Bem nos mostra a divina Providência</l>
          <l>Destes portos a pouca segurança;</l>
          <l>Bem claro temos visto na aparência,</l>
          <l>Que era enganada a nossa confiança.</l>
          <l>Mas pois saber humano nem prudência</l>
          <l>Enganos tão fingidos não alcança,</l>
          <l>Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado</l>
          <l>De quem sem ti não pode ser guardado!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se te move tanto a piedade</l>
          <l>Desta mísera gente peregrina,</l>
          <l>Que só por tua altíssima bondade,</l>
          <l>Da gente a salvas pérfida e malina,</l>
          <l>Nalgum porto seguro de verdade</l>
          <l>Conduzir-nos já agora determina,</l>
          <l>Ou nos amostra a terra que buscamos,</l>
          <l>Pois só por teu serviço navegamos.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ouviu-lhe essas palavras piedosas</l>
          <l>A formosa Dione, e comovida,</l>
          <l>Dentre as Ninfas se vai, que saudosas</l>
          <l>Ficaram desta súbita partida.</l>
          <l>Já penetra as Estrelas luminosas,</l>
          <l>Já na terceira Esfera recebida</l>
          <l>Avante passa, e lá no sexto Céu,</l>
          <l>Para onde estava o Padre, se moveu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E como ia afrontada do caminho,</l>
          <l>Tão formosa no gesto se mostrava,</l>
          <l>Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,</l>
          <l>E tudo quanto a via namorava.</l>
          <l>Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,</l>
          <l>Uns espíritos vivos inspirava,</l>
          <l>Com que os Polos gelados acendia,</l>
          <l>E tornava do Fogo a esfera fria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="107" edRef="#instituto"/>
          <l>E por mais namorar o soberano</l>
          <l>Padre, de quem foi sempre amada e eriça,</l>
          <l>Se lhe apresenta assim como ao Troiano,</l>
          <l>Na selva Idea, já se apresentara.</l>
          <l>Se a vira o caçador, que o vulto humano</l>
          <l>Perdeu, vendo Diana na água clara,</l>
          <l>Nunca os famintos galgos o mataram,</l>
          <l>Que primeiro desejos o acabaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os crespos fios d’ouro se esparziam</l>
          <l>Pelo colo, que a neve escurecia;</l>
          <l>Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,</l>
          <l>Com quem Amor brincava, e não se via;</l>
          <l>Da alva petrina flamas lhe saíam,</l>
          <l>Onde o Menino as almas acendia;</l>
          <l>Pelas lisas colunas lhe trepavam</l>
          <l>Desejos, que como hera se enrolavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>C’um delgado sendal as partes cobre,</l>
          <l>De quem vergonha é natural reparo,</l>
          <l>Porém nem tudo esconde, nem descobre,</l>
          <l>O véu, dos roxos lírios pouco avaro;</l>
          <l>Mas, para que o desejo acenda o dobre,</l>
          <l>Lhe põe diante aquele objeto raro.</l>
          <l>Já se sentem no Céu, por toda a parte,</l>
          <l>Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mostrando no angélico semblante</l>
          <l>Co’o riso uma tristeza misturada,</l>
          <l>Como dama que foi do incauto amante</l>
          <l>Em brincos amorosos mal tratada,</l>
          <l>Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,</l>
          <l>E se torna entre alegre magoada,</l>
          <l>Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,</l>
          <l>Mais mimosa que triste ao Padre fala:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="108" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,</l>
          <l>Que, para as cousas que eu do peito amasse,</l>
          <l>Te achasse brando, afábil e amoroso,</l>
          <l>Posto que a algum contrário lhe pesasse;</l>
          <l>Mas, pois que contra mim te vejo iroso,</l>
          <l>Sem que to merecesse, nem te errasse,</l>
          <l>Faça-se como Baco determina;</l>
          <l>Assentarei enfim que fui mofina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este povo que é meu, por quem derramo</l>
          <l>As lágrimas que em vão caídas vejo,</l>
          <l>Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,</l>
          <l>Sendo tu tanto contra meu desejo!</l>
          <l>Por ele a ti rogando choro e bramo,</l>
          <l>E contra minha dita enfim pelejo.</l>
          <l>Ora pois, porque o amo é mal tratado,</l>
          <l>Quero-lhe querer mal, será guardado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,</l>
          <l>Que pois eu fui...” E nisto, de mimosa,</l>
          <l>O rosto banha em lágrimas ardentes,</l>
          <l>Como co’o orvalho fica a fresca rosa.</l>
          <l>Calada um pouco, como se entre os dentes</l>
          <l>Se lhe impedira a fala piedosa,</l>
          <l>Torna a segui-la; e indo por diante,</l>
          <l>Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E destas brandas mostras comovido,</l>
          <l>Que moveram de um tigre o peito duro,</l>
          <l>Co’o vulto alegre, qual do Céu subido,</l>
          <l>Torna sereno e claro o ar escuro,</l>
          <l>As lágrimas lhe alimpa, e acendido</l>
          <l>Na face a beija, e abraça o colo puro;</l>
          <l>De modo que dali, se só se achara,</l>
          <l>Outro novo Cupido se gerara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="109" edRef="#instituto"/>
          <l>E co’o seu apertando o rosto amado,</l>
          <l>Que os soluços e lágrimas aumenta,</l>
          <l>Como menino da ama castigado,</l>
          <l>Que quem no afaga o choro lhe acrescente,</l>
          <l>Por lhe pôr em sossego o peito irado,</l>
          <l>Muitos casos futuros lhe apresenta.</l>
          <l>Dos fados as entranhas revolvendo,</l>
          <l>Desta maneira enfim lhe está dizendo:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Formosa filha minha, não temais</l>
          <l>Perigo algum nos vossos Lusitanos,</l>
          <l>Nem que ninguém comigo possa mais,</l>
          <l>Que esses chorosos olhos soberanos;</l>
          <l>Que eu vos prometo, filha, que vejais</l>
          <l>Esquecerem-se Gregos e Romanos,</l>
          <l>Pelos ilustres feitos que esta gente</l>
          <l>Há-de fazer nas partes do Oriente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que se o facundo Ulisses escapou</l>
          <l>De ser na Ogígia ilha eterno escravo,</l>
          <l>E se Antenor os seios penetrou</l>
          <l>Ilíricos e a fonte de Timavo;</l>
          <l>E se o piedoso Eneias navegou</l>
          <l>De Cila e de Caríbdis o mar bravo,</l>
          <l>Os vossos, mores cousas atentando,</l>
          <l>Novos mundos ao mundo irão mostrando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Fortalezas, cidades e altos muros,</l>
          <l>Por eles vereis, filha, edificados;</l>
          <l>Os Turcos belacíssimos e duros,</l>
          <l>Deles sempre vereis desbaratados.</l>
          <l>Os Reis da índia, livres e seguros,</l>
          <l>Vereis ao Rei potente sojugados;</l>
          <l>E por eles, de tudo enfim senhores,</l>
          <l>Serão dadas na terra leis melhores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="110" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vereis este, que agora pressuroso</l>
          <l>Por tantos medos o Indo vai buscando,</l>
          <l>Tremer dele Neptuno, de medroso</l>
          <l>Sem vento suas águas encrespando.</l>
          <l>Ó caso nunca visto e milagroso,</l>
          <l>Que trema e ferva o mar, em calma estando!</l>
          <l>Ó gente forte e de altos pensamentos,</l>
          <l>Que também dela hão medo os Elementos!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vereis a terra, que a água lhe tolhia,</l>
          <l>Que inda há-de ser um porto mui decente,</l>
          <l>Em que vão descansar da longa via</l>
          <l>As naus que navegarem do Ocidente.</l>
          <l>Toda esta costa enfim, que agora urdia</l>
          <l>O mortífero engano, obediente</l>
          <l>Lhe pagará tributos, conhecendo</l>
          <l>Não poder resistir ao Luso horrendo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E vereis o mar Roxo, tão famoso,</l>
          <l>Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;</l>
          <l>Vereis de Ormuz o Reino poderoso</l>
          <l>Duas vezes tomado e sojugado.</l>
          <l>Ali vereis o Mouro furioso</l>
          <l>De suas mesmas setas traspassado:</l>
          <l>Que quem vai contra os vossos, claro veja</l>
          <l>Que, se resiste, contra si peleja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vereis a inexpugnábil Dio forte,</l>
          <l>Que dous cercos terá, dos vossos sendo.</l>
          <l>Ali se mostrará seu preço e sorte,</l>
          <l>Feitos de armas grandíssimos fazendo.</l>
          <l>Invejoso vereis o grão Mavorte</l>
          <l>Do peito Lusitano fero e horrendo:</l>
          <l>Do Mouro ali verão que a voz extrema</l>
          <l>Do falso Mahamede ao Céu blasfema.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="111" edRef="#instituto"/>
          <l>“Goa vereis aos Mouros ser tomada,</l>
          <l>A qual virá depois a ser senhora</l>
          <l>De todo o Oriente, e sublimada</l>
          <l>Co’os triunfos da gente vencedora.</l>
          <l>Ali soberba, altiva, e exalçada,</l>
          <l>Ao Gentio, que os ídolos adora,</l>
          <l>Duro freio porá, e a toda a terra</l>
          <l>Que cuidar de fazer aos vossos guerra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vereis a fortaleza sustentar-se</l>
          <l>De Cananor, com pouca força e gente;</l>
          <l>E vereis Calecu desbaratar-se,</l>
          <l>Cidade populosa e tão potente:</l>
          <l>E vereis em Cochim assinalar-se</l>
          <l>Tanto um peito soberbo e insolente,</l>
          <l>Que cítara jamais cantou vitória,</l>
          <l>Que assim mereça eterno nome e glória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Nunca com Marte instructo e furioso,</l>
          <l>Se viu ferver Leucate, quando Augusto</l>
          <l>Nas civis Áctias guerras animoso,</l>
          <l>O Capitão venceu Romano injusto,</l>
          <l>Que dos povos da Aurora, e do famoso</l>
          <l>Nilo, e do Bactra Cítico e robusto</l>
          <l>A vitória trazia, e presa rica,</l>
          <l>Preso da Egípcia linda e não pudica.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como vereis o mar fervendo aceso</l>
          <l>C’os incêndios dos vossos pelejando,</l>
          <l>Levando o Idololatra, e o Mouro preso,</l>
          <l>De nações diferentes triunfando.</l>
          <l>E sujeita a rica Áurea Quersoneso,</l>
          <l>Até o longínquo China navegando,</l>
          <l>E as ilhas mais remotas do Oriente,</l>
          <l>Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="112" edRef="#instituto"/>
          <l>“De modo, filha minha, que de jeito</l>
          <l>Amostrarão esforço mais que humano,</l>
          <l>Que nunca se verá tão forte peito,</l>
          <l>Do Gangético mar ao Gaditano,</l>
          <l>Nem das Boreais ondas ao Estreito,</l>
          <l>Que mostrou o agravado Lusitano,</l>
          <l>Posto que em todo o mundo, de afrontados,</l>
          <l>Ressuscitassem todos os passados.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como isto disse, manda o consagrado</l>
          <l>Filho de Maia à Terra, por que tenha</l>
          <l>Um pacífico porto o sossegado,</l>
          <l>Para onde sem receio a frota venha;</l>
          <l>E, para que em Mombaça, aventurado,</l>
          <l>O forte Capitão se não detenha,</l>
          <l>Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostrasse</l>
          <l>A terra, onde quieto repousasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já pelo ar o Cileneu voava;</l>
          <l>Com as asas nos pés à Terra desce;</l>
          <l>Sua vara fatal na mão levava,</l>
          <l>Com que os olhos cansados adormece:</l>
          <l>Com esta, as tristes almas revocava</l>
          <l>Do Inferno, e o vento lhe obedece.</l>
          <l>Na cabeça o galero costumado.</l>
          <l>E desta arte a Melinde foi chegado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Consigo a Fama leva, por que diga</l>
          <l>Do Lusitano o preço grande e raro,</l>
          <l>Que o nome ilustre a um certo amor obriga</l>
          <l>E faz, a quem o tem, amado e caro.</l>
          <l>Desta arte vai fazendo a gente amiga,</l>
          <l>Co rumor famosíssimo, e perclaro.</l>
          <l>Já Melinde em desejos arde todo</l>
          <l>De ver da gente forte o gesto e modo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="113" edRef="#instituto"/>
          <l>Dali para Mombaça logo parte,</l>
          <l>Aonde as naus estavam temerosas,</l>
          <l>Para que à gente mande que se aparte</l>
          <l>Da barra amiga e terras suspeitosas:</l>
          <l>Porque mui pouco val’ esforço e arte,</l>
          <l>Contra infernais vontades enganosas;</l>
          <l>Pouco val coração, astúcia e siso,</l>
          <l>Se lá dos Céus não vem celeste aviso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Meio caminho a noite tinha andado,</l>
          <l>E, as estrelas no Céu, co’a luz alheia,</l>
          <l>Tinham o largo Mundo alumiado;</l>
          <l>E só co’o sono a gente se recreia.</l>
          <l>O Capitão ilustre, já cansado</l>
          <l>De vigiar a noite que arreceia,</l>
          <l>Breve repouso então aos olhos dava,</l>
          <l>A outra gente a quartos vigiava;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,</l>
          <l>Dizendo: “Fuge, fuge, Lusitano,</l>
          <l>Da cilada que o Rei malvado tece,</l>
          <l>Por te trazer ao fim, e extremo dano;</l>
          <l>Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;</l>
          <l>Sereno o tempo tens e o Oceano,</l>
          <l>E outro Rei mais amigo, noutra parte,</l>
          <l>Onde podes seguro agasalhar-te.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não tens aqui senão aparelhado</l>
          <l>O hospício que o cru Diomedes dava,</l>
          <l>Fazendo ser manjar acostumado</l>
          <l>De cavalos a gente que hospedava;</l>
          <l>As aras de Busíris infamado,</l>
          <l>Onde os hóspedes tristes imolava,</l>
          <l>Terás certas aqui, se muito esperas.</l>
          <l>Fuge das gentes pérfidas e feras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="114" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vai-te ao longo da costa discorrendo,</l>
          <l>E outra terra acharás de mais verdade,</l>
          <l>Lá quase junto donde o Sol ardendo</l>
          <l>Iguala o dia e noite em quantidade;</l>
          <l>Ali tua frota alegre recebendo</l>
          <l>Um Rei, com muitas obras de amizade,</l>
          <l>Gasalhado seguro te daria,</l>
          <l>E, para a índia, certa e sábia guia.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto Mercúrio disse, e o sono leva</l>
          <l>Ao Capitão, que com mui grande espanto</l>
          <l>Acorda, e vê ferida a escura treva</l>
          <l>De uma súbita luz e raio santo.</l>
          <l>E vendo claro quanto lhe releva</l>
          <l>Não se deter na terra iníqua tanto,</l>
          <l>Com novo esprito ao mestre seu mandava</l>
          <l>Que as velas desse ao vento que assopravam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Dai velas, disse, dai ao largo vento,</l>
          <l>Que o Céu nos favorece e Deus o manda;</l>
          <l>Que um mensageiro vi do claro assento</l>
          <l>Que só em favor de nossos passos anda.”</l>
          <l>Alevanta-se nisto o movimento</l>
          <l>Dos marinheiros, de uma e de outra banda;</l>
          <l>Levam gritando as âncoras acima,</l>
          <l>Mostrando a ruda força, que se estima.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Neste tempo, que as âncoras levavam,</l>
          <l>Na sombra escura os Mouros escondidos</l>
          <l>Mansamente as amarras lhe cortavam,</l>
          <l>Por serem, dando à costa, destruídos;</l>
          <l>Mas com vista de linces vigiavam</l>
          <l>Os Portugueses, sempre apercebidos.</l>
          <l>Eles, como acordados os sentiram,</l>
          <l>Voando, e não remando, lhe fugiram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="115" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas já as agudas proas apartando</l>
          <l>Iam as vias húmidas de argento;</l>
          <l>Assopra-lhe galerno o vento, e brando,</l>
          <l>Com suave e seguro movimento.</l>
          <l>Nos perigos passados vão falando,</l>
          <l>Que mal se perderão do pensamento</l>
          <l>Os casos grandes, donde em tanto aperto</l>
          <l>A vida em salvo escapa por acerto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tinha uma volta dado o Sol ardente</l>
          <l>E noutro começava, quando viram</l>
          <l>Ao longe deus navios, brandamente</l>
          <l>Co’os ventos navegando, que respiram:</l>
          <l>Porque haviam de ser da Maura gente,</l>
          <l>Para eles arribando, as velas viram:</l>
          <l>Um, de temor do mal que arreceava,</l>
          <l>Por se salvar a gente à costa dava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não é o outro que fica tão manhoso;</l>
          <l>Mas nas mãos vai cair do Lusitano,</l>
          <l>Sem o rigor de Marte furioso,</l>
          <l>E sem a fúria horrenda de Vulcano;</l>
          <l>Que como fosse débil e medroso</l>
          <l>Da pouca gente o fraco peito humano,</l>
          <l>Não teve resistência; e se a tivera,</l>
          <l>Mais dano resistindo recebera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E como o Gama muito desejasse</l>
          <l>Piloto para a Índia que buscava,</l>
          <l>Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;</l>
          <l>Mas não lhe sucedeu como cuidava,</l>
          <l>Que nenhum deles há que lhe ensinasse</l>
          <l>A que parte dos céus a Índia estava;</l>
          <l>Porém dizem-lhe todos, que tem perto</l>
          <l>Melinde, onde achará piloto certo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="116" edRef="#instituto"/>
          <l>Louvam do Rei os Mouros a bondade,</l>
          <l>Condição liberal, sincero peito,</l>
          <l>Magnificência grande e humanidade,</l>
          <l>Com partes de grandíssimo respeito.</l>
          <l>O Capitão o assela por verdade,</l>
          <l>Porque já lhe dissera, deste jeito,</l>
          <l>O Cileneu em sonhos; e partia</l>
          <l>Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Era no tempo alegre, quando entrava</l>
          <l>No roubador de Europa a luz Febeia,</l>
          <l>Quando um e outro corno lhe aquentava,</l>
          <l>E Flora derramava o de Amalteia:</l>
          <l>A memória do dia renovava</l>
          <l>O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,</l>
          <l>Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,</l>
          <l>O selo pôs a quanto tinha feito;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando chegava a frota àquela parte,</l>
          <l>Onde o Reino Melinde já se via,</l>
          <l>De toldos adornada, e leda de arte</l>
          <l>Que bem mostra estimar o santo dia.</l>
          <l>Treme a bandeira, voa o estandarte,</l>
          <l>A cor purpúrea ao longe aparecia;</l>
          <l>Soam os atambores o pandeiros,</l>
          <l>E assim entravam ledos e guerreiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Enche-se toda a praia Melindana</l>
          <l>Da gente que vem ver a leda armada,</l>
          <l>Gente mais verdadeira, e mais humana,</l>
          <l>Que toda a doutra terra atrás deixada.</l>
          <l>Surge diante a frota Lusitana,</l>
          <l>Pega no fundo a âncora pesada;</l>
          <l>Mandam fora um dos Mouros que tomaram,</l>
          <l>Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="117" edRef="#instituto"/>
          <l>O Rei, que já sabia da nobreza</l>
          <l>Que tanto os Portugueses engrandece,</l>
          <l>Tomarem o seu porto tanto preza,</l>
          <l>Quanto a gente fortíssima merece:</l>
          <l>E com verdadeiro ânimo e pureza,</l>
          <l>Que os peitos generosos enobrece,</l>
          <l>Lhe manda rogar muito que saíssem,</l>
          <l>Para que de seus reinos se servissem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>São oferecimentos verdadeiros,</l>
          <l>E palavras sinceras, não dobradas,</l>
          <l>As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,</l>
          <l>Que tanto mar e terras tem passadas.</l>
          <l>Manda-lhe mais lanígeros carneiros,</l>
          <l>E galinhas domésticas cevadas,</l>
          <l>Com as frutas, que então na terra havia;</l>
          <l>E a vontade à dádiva excedia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recebe o Capitão alegremente</l>
          <l>O mensageiro ledo e seu recado;</l>
          <l>E logo manda ao Rei outro presente,</l>
          <l>Que de longe trazia aparelhado:</l>
          <l>Escarlata purpúrea, cor ardente,</l>
          <l>O ramoso coral, fino e prezado,</l>
          <l>Que debaixo das águas mole cresce,</l>
          <l>E como é fora delas se endurece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Manda mais um, na prática elegante,</l>
          <l>Que co’o Rei nobre as pazes concertasse,</l>
          <l>E que de não sair naquele instante</l>
          <l>De suas naus em terra o desculpasse.</l>
          <l>Partido assim o embaixador prestante,</l>
          <l>Como na terra ao Rei se apresentasse,</l>
          <l>Com estilo que Palas lhe ensinava,</l>
          <l>Estas palavras tais falando orava:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="118" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sublime Rei, a quem do Olimpo puro</l>
          <l>Foi da suma Justiça concedido</l>
          <l>Refrear o soberbo povo duro,</l>
          <l>Não menos dele amado, que temido:</l>
          <l>Como porto mui forte e mui seguro,</l>
          <l>De todo o Oriente conhecido,</l>
          <l>Te vimos a buscar, para que achemos</l>
          <l>Em ti o remédio certo que queremos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não somos roubadores, que passando</l>
          <l>Pelas fracas cidades descuidadas,</l>
          <l>A ferro e a fogo as gentes vão matando,</l>
          <l>Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;</l>
          <l>Mas da soberba Europa navegando,</l>
          <l>Imos buscando as terras apartadas</l>
          <l>Da Índia grande e rica, por mandado</l>
          <l>De um Rei que temos, alto e sublimado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que geração tão dura há hi de gente,</l>
          <l>Que bárbaro costume e usança feia,</l>
          <l>Que não vedem os portos tão somente,</l>
          <l>Mas inda o hospício da deserta areia?</l>
          <l>Que má tenção, que peito em nós se sente,</l>
          <l>Que de tão pouca gente se arreceia?</l>
          <l>Que com laços armados, tão fingidos,</l>
          <l>Nos ordenassem ver-nos destruídos?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas tu, e quem mui certo confiamos</l>
          <l>Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,</l>
          <l>E aquela certa ajuda em ti esperamos,</l>
          <l>Que teve o perdido Ítaco em Alcino,</l>
          <l>A teu porto seguro navegamos,</l>
          <l>Conduzidos do intérprete divino;</l>
          <l>Que, pois a ti nos manda, está mui claro,</l>
          <l>Que és de peito sincero, humano e raro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="119" edRef="#instituto"/>
          <l>“E não cuides, ó Rei, que não saísse</l>
          <l>O nosso Capitão esclarecido</l>
          <l>A ver-te, ou a servir-te, porque visse</l>
          <l>Ou suspeitasse em ti peito fingido:</l>
          <l>Mas saberás que o fez, porque cumprisse</l>
          <l>O regimento, em tudo obedecido,</l>
          <l>De seu Rei, que lhe manda que não saia,</l>
          <l>Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E porque é, de vassalos o exercício,</l>
          <l>Que os membros tem regidos da cabeça,</l>
          <l>Não quererás, pois tens de Rei o ofício,</l>
          <l>Que ninguém a seu Rei desobedeça;</l>
          <l>Mas as mercês e o grande benefício,</l>
          <l>Que ora acha em ti, promete que conheça</l>
          <l>Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,</l>
          <l>Enquanto os rios para o mar correrem.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim dizia; e todos juntamente,</l>
          <l>Uns com outros em prática falando,</l>
          <l>Louvavam muito o estômago da gente,</l>
          <l>Que tantos céus e mares vai passando.</l>
          <l>E o Rei ilustre, o peito obediente</l>
          <l>Dos Portugueses na alma imaginando,</l>
          <l>Tinha por valor grande e mui subido</l>
          <l>O do Rei que é tão longe obedecido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E com risonha vista e ledo aspeito,</l>
          <l>Responde ao embaixador, que tanto estima:</l>
          <l>“Toda a suspeita má tirai do peito,</l>
          <l>Nenhum frio temor em vós se imprima;</l>
          <l>Que vosso preço e obras são de jeito</l>
          <l>Para vos ter o mundo em muita estima;</l>
          <l>E quem vos fez molesto tratamento,</l>
          <l>Não pode ter subido pensamento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="120" edRef="#instituto"/>
          <l>“De não sair em terra toda a gente,</l>
          <l>Por observar a usada preminência,</l>
          <l>Ainda que me pese estranhamente,</l>
          <l>Em muito tenho a muita obediência;</l>
          <l>Mas, se lho o regimento não consente,</l>
          <l>Nem eu consentirei que a excelência</l>
          <l>De peitos tão leais em si desfaça,</l>
          <l>Só porque a meu desejo satisfaça.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porém, como a luz crástina chegada</l>
          <l>Ao mundo for, em minhas almadias</l>
          <l>Eu irei visitar a forte armada,</l>
          <l>Que ver tanto desejo, há tantos dias;</l>
          <l>E se vier do mar desbaratada,</l>
          <l>Do furioso vento e longas vias,</l>
          <l>Aqui terá, de limpos pensamentos,</l>
          <l>Piloto, munições e mantimentos.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto disse; e nas águas se escondia</l>
          <l>O filho de Latona; e o mensageiro</l>
          <l>Co’a embaixada alegre se partia</l>
          <l>Para a frota, no seu batel ligeiro.</l>
          <l>Enchem-se os peitos todos de alegria.</l>
          <l>Por terem o remédio verdadeiro</l>
          <l>Para acharem a terra que buscavam;</l>
          <l>E assim ledos a noite festejavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não faltam ali os raios de artifício,</l>
          <l>Os trêmulos cometas imitando;</l>
          <l>Fazem os bombardeiros seu ofício,</l>
          <l>O céu, a terra e as ondas atroando.</l>
          <l>Mostra-se dos Ciclopas o exercício</l>
          <l>Nas bombas que de fogo estão queimando;</l>
          <l>Outros com vozes, com que o céu feriam,</l>
          <l>Instrumentos altíssonos tangiam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="121" edRef="#instituto"/>
          <l>Respondem-lhe da terra juntamente,</l>
          <l>Co’o raio volteando, com zunido;</l>
          <l>Anda em giros no ar a roda ardente,</l>
          <l>Estoura o pó sulfúreo escondido.</l>
          <l>A grita se alevanta ao céu, da gente;</l>
          <l>O mar se via em fogos acendido,</l>
          <l>E não menos a terra; e assim festeja</l>
          <l>Um ao outro, a maneira de peleja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas já o Céu inquieto revolvendo,</l>
          <l>As gentes incitava a seu trabalho,</l>
          <l>E já a mãe de Menon a luz trazendo,</l>
          <l>Ao sono longo punha certo atalho;</l>
          <l>Iam-se as sombras lentas desfazendo,</l>
          <l>Sobre as flores da terra em frio orvalho,</l>
          <l>Quando o Rei Melindano se embarcava</l>
          <l>A ver a frota, que no mar estava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Viam-se em derredor ferver as praias</l>
          <l>Da gente, que a ver só concorre leda;</l>
          <l>Luzem da fina púrpura as cabaias,</l>
          <l>Lustram os panos da tecida seda;</l>
          <l>Em lugar das guerreiras azagaias</l>
          <l>E do arco, que os cornos arremeda</l>
          <l>Da Lua, trazem ramos de palmeira,</l>
          <l>Dos que vencem, coroa verdadeira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Um batel grande e largo, que toldado</l>
          <l>Vinha de sedas de diversas cores,</l>
          <l>Traz o Rei de Melinde, acompanhado</l>
          <l>De nobres e seu Reino e de senhores:</l>
          <l>Vem de ricos vestidos adornado,</l>
          <l>Segundo seus costumes e primores;</l>
          <l>Na cabeça uma fota guarnecida</l>
          <l>De ouro, e de seda e de algodão tecida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="122" edRef="#instituto"/>
          <l>Cabaia de Damasco rico e dino,</l>
          <l>Da Tíria cor, entre eles estimada,</l>
          <l>Um colar ao pescoço, de ouro fino,</l>
          <l>Onde a matéria da obra é superada,</l>
          <l>C’um resplendor reluze adamantino;</l>
          <l>Na cinta, a rica adaga bem lavrada;</l>
          <l>Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,</l>
          <l>Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com um redondo emparo alto de seda,</l>
          <l>Numa alta e dourada hástia enxerido,</l>
          <l>Um ministro à solar quentura veda.</l>
          <l>Que não ofenda e queime o Rei subido.</l>
          <l>Música traz na proa, estranha e leda,</l>
          <l>De áspero som, horríssono ao ouvido,</l>
          <l>De trombetas arcadas em redondo,</l>
          <l>Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não menos guarnecido o Lusitano</l>
          <l>Nos seus batéis, da frota se partia</l>
          <l>A receber no mar o Melindano,</l>
          <l>Com lustrosa e lograda companhia.</l>
          <l>Vestido o Gama vem ao modo Hispano,</l>
          <l>Mas Francesa era a roupa que vestia,</l>
          <l>De cetim da Adriática Veneza</l>
          <l>Carmesi, cor que a gente tanto preza:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De botões douro as mangas vêm tomadas,</l>
          <l>Onde o Sol reluzindo a vista cega;</l>
          <l>As calças soldadescas recamadas</l>
          <l>Do metal, que Fortuna a tantos nega,</l>
          <l>E com pontas do mesmo delicadas</l>
          <l>Os golpes do gibão ajunta e achega;</l>
          <l>Ao Itálico modo a áurea espada;</l>
          <l>Pluma na gorra, um pouco declinada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="123" edRef="#instituto"/>
          <l>Nos de sua companhia se mostrava</l>
          <l>Da tinta, que dá o múrice excelente,</l>
          <l>A vária cor, que os olhos alegrava,</l>
          <l>E a maneira do trajo diferente.</l>
          <l>Tal o formoso esmalte se notava</l>
          <l>Dos vestidos, olhados juntamente,</l>
          <l>Qual aparece o arco rutilante</l>
          <l>Da bela Ninfa, filha de Taumante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sonorosas trombetas incitavam</l>
          <l>Os ânimos alegres, ressoando;</l>
          <l>Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,</l>
          <l>Os toldos pelas águas arrojando;</l>
          <l>As bombardas horríssonas bramavam,</l>
          <l>Com as nuvens de fumo o Sol tomando;</l>
          <l>Amiúdam-se os brados acendidos,</l>
          <l>Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já no batel entrou do Capitão</l>
          <l>O Rei, que nos seus braços o levava;</l>
          <l>Ele co’a cortesia, que a razão</l>
          <l>(Por ser Rei) requeria, lhe falava.</l>
          <l>C’umas mostras de espanto e admiração,</l>
          <l>O Mouro o gesto e o modo lhe notava,</l>
          <l>Como quem em mui grande estima tinha</l>
          <l>Gente que de tão longe à índia vinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E com grandes palavras lhe oferece</l>
          <l>Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,</l>
          <l>E que, se mantimento lhe falece,</l>
          <l>Como se próprio fosse, lho pedisse.</l>
          <l>Diz-lhe mais, que por fama bem conhece</l>
          <l>A gente Lusitana, sem que a visse;</l>
          <l>Que já ouviu dizer, que noutra terra</l>
          <l>Com gente de sua Lei tivesse guerra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="124" edRef="#instituto"/>
          <l>E como por toda África se soa,</l>
          <l>Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,</l>
          <l>Quando nela ganharam a coroa</l>
          <l>Do Reino, onde as Hespéridas viveram;</l>
          <l>E com muitas palavras apregoa</l>
          <l>O menos que os de Luso mereceram,</l>
          <l>E o mais que pela fama o Rei sabia.</l>
          <l>Mas desta sorte o Gama respondia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó tu, que só tiveste piedade,</l>
          <l>Rei benigno, da gente Lusitana,</l>
          <l>Que com tanta miséria e adversidade</l>
          <l>Dos mares experimenta a fúria insana;</l>
          <l>Aquela alta e divina Eternidade,</l>
          <l>Que o Céu revolve e rege a gente humana,</l>
          <l>Pois que de ti tais obras recebemos,</l>
          <l>Te pague o que nós outros não podemos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tu só, de todos quantos queima Apolo,</l>
          <l>Nos recebes em paz, do mar profundo;</l>
          <l>Em ti dos ventos hórridos de Eolo</l>
          <l>Refúgio achamos bom, fido e jocundo.</l>
          <l>Enquanto apascentar o largo Polo</l>
          <l>As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,</l>
          <l>Onde quer que eu viver, com fama e glória</l>
          <l>Viverão teus louvores em memória.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto dizendo, os barcos vão remando</l>
          <l>Para a frota, que o Mouro ver deseja;</l>
          <l>Vão as naus uma e uma rodeando,</l>
          <l>Porque de todas tudo note e veja.</l>
          <l>Mas para o céu Vulcano fuzilando,</l>
          <l>A frota co’as bombardas o festeja,</l>
          <l>E as trombetas canoras lhe tangiam;</l>
          <l>Co’os anafis os Mouros respondiam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="125" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas depois de ser tudo já notado</l>
          <l>Do generoso Mouro, que pasmava</l>
          <l>Ouvindo o instrumento inusitado,</l>
          <l>Que tamanho terror em si mostrava,</l>
          <l>Mandava estar quieto e ancorado</l>
          <l>N’água o batel ligeiro que os levava,</l>
          <l>Por falar de vagar co’o forte Gama,</l>
          <l>Nas cousas de que tem notícia e faina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em práticas o Mouro diferentes</l>
          <l>Se deleitava, perguntando agora</l>
          <l>Pelas guerras famosas e excelentes</l>
          <l>Co’o povo havidas, que a Mafoma adora;</l>
          <l>Agora lhe pergunta pelas gentes</l>
          <l>De toda a Hespéria última, onde mora;</l>
          <l>Agora pelos povos seus vizinhos,</l>
          <l>Agora pelos úmidos caminhos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas antes, valeroso Capitão,</l>
          <l>Nos conta, lhe dizia, diligente,</l>
          <l>Da terra tua o clima, e região</l>
          <l>Do mundo onde morais distintamente;</l>
          <l>E assim de vossa antiga geração,</l>
          <l>E o princípio do Reino tão potente,</l>
          <l>Co’os sucessos das guerras do começo,</l>
          <l>Que, sem sabê-las, sei que são de preço.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E assim também nos conta dos rodeios</l>
          <l>Longos, em que te traz o mar irado,</l>
          <l>Vendo os costumes bárbaros alheios.</l>
          <l>Que a nossa África ruda tem criado.</l>
          <l>Conta: que agora vêm co’os áureos freios</l>
          <l>Os cavalos que o carro marchetado</l>
          <l>Do novo Sol, da fria Aurora trazem,</l>
          <l>O vento dorme, o mar e as ondas jazem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="126" edRef="#instituto"/>
          <l>“E não menos co’o tempo se parece</l>
          <l>O desejo de ouvir-te o que contares;</l>
          <l>Que quem há, que por fama não conhece</l>
          <l>As obras Portuguesas singulares?</l>
          <l>Não tanto desviado resplandece</l>
          <l>De nós o claro Sol, para julgares</l>
          <l>Que os Melindanos têm tão rudo peito,</l>
          <l>Que não estimem muito um grande feito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Cometeram soberbos os Gigantes,</l>
          <l>Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;</l>
          <l>Tentou Perito e Téseu, de ignorantes,</l>
          <l>O Reino de Plutão horrendo e escuro.</l>
          <l>Se houve feitos no mundo tão possantes,</l>
          <l>Não menos é trabalho ilustre e duro,</l>
          <l>Quanto foi cometer Inferno o Céu,</l>
          <l>Que outrem cometa a fúria de Nereu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Queimou o sagrado templo de Diana,</l>
          <l>Do subtil Tesifónio fabricado,</l>
          <l>Heróstrato, por ser da gente humana</l>
          <l>Conhecido no mundo e nomeado:</l>
          <l>Se também com tais obras nos engana</l>
          <l>O desejo de um nome avantajado,</l>
          <l>Mais razão há que queira eterna glória</l>
          <l>Quem faz obras tão dignas de memória.”</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Terceiro</head>
        <lg>
          <pb n="146" edRef="#instituto"/>
          <l>Agora tu, Calíope, me ensina</l>
          <l>O que contou ao Rei o ilustre Gama:</l>
          <l>Inspira imortal canto e voz divina</l>
          <l>Neste peito mortal, que tanto te ama.</l>
          <l>Assi o claro inventor da Medicina,</l>
          <l>De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,</l>
          <l>Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,</l>
          <l>Te negue o amor devido, como soe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,</l>
          <l>Como merece a gente Lusitana;</l>
          <l>Que veja e saiba o mundo que do Tejo</l>
          <l>O licor de Aganipe corre e mana.</l>
          <l>Deixa as flores de Pindo, que já vejo</l>
          <l>Banhar-me Apolo na água soberana;</l>
          <l>Senão direi que tens algum receio,</l>
          <l>Que se escureça o teu querido Orfeio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Prontos estavam todos escutando</l>
          <l>O que o sublime Gama contaria,</l>
          <l>Quando, depois de um pouco estar cuidando,</l>
          <l>Alevantando o rosto, assim dizia:</l>
          <l>“Mandas-me, ó Rei, que conte declarando</l>
          <l>De minha gente a grão genealogia:</l>
          <l>Não me mandas contar estranha história,</l>
          <l>Mas mandas-me louvar dos meus a glória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="147" edRef="#instituto"/>
          <l>“Que outrem possa louvar esforço alheio,</l>
          <l>Cousa é que se costuma e se deseja;</l>
          <l>Mas louvar os meus próprios, arreceio</l>
          <l>Que louvor tão suspeito mal me esteja;</l>
          <l>E para dizer tudo, temo e creio,</l>
          <l>Que qualquer longo tempo curto seja:</l>
          <l>Mas, pois o mandas, tudo se te deve,</l>
          <l>Irei contra o que devo, e serei breve.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,</l>
          <l>É não poder mentir no que disser,</l>
          <l>Porque de feitos tais, por mais que diga,</l>
          <l>Mais me há-de ficar inda por dizer.</l>
          <l>Mas, porque nisto a ordens leve e siga,</l>
          <l>Segundo o que desejas de saber,</l>
          <l>Primeiro tratarei da larga terra,</l>
          <l>Depois direi da sanguinosa guerra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Entre a Zona que o Cancro senhoreia,</l>
          <l>Meta setentrional do Sol luzente,</l>
          <l>E aquela que por fria se arreceia</l>
          <l>Tanto, como a do meio por ardente,</l>
          <l>Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,</l>
          <l>Pela parte do Arcturo, e do Ocidente,</l>
          <l>Com suas salsas ondas o Oceano,</l>
          <l>E pela Austral o mar Mediterrano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Da parte donde o dia vem nascendo,</l>
          <l>Com Ásia se avizinha; mas o rio</l>
          <l>Que dos montes Rifeios vai correndo,</l>
          <l>Na alagoa Meotis, curvo o frio,</l>
          <l>As divide: e o mar que, fero e horrendo,</l>
          <l>Viu dos Gregos o irado senhorio,</l>
          <l>Onde agora de Tróia triunfante</l>
          <l>Não vê mais que a memória o navegante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="148" edRef="#instituto"/>
          <l>“Lá onde mais debaixo está do Polo,</l>
          <l>Os montes Hiperbóreos aparecem,</l>
          <l>E aqueles onde sempre sopra Eolo,</l>
          <l>E co’o nome, dos sopros se enobrecem.</l>
          <l>Aqui tão pouca força tem de Apolo</l>
          <l>Os raios que no mundo resplandecem,</l>
          <l>Que a neve está contido pelos montes,</l>
          <l>Gelado o mar, geladas sempre as fontes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui dos Citas grande quantidade</l>
          <l>Vivem, que antigamente grande guerra</l>
          <l>Tiveram, sobre a humana antiguidade,</l>
          <l>Co’os que tinham então a Egípcia terra;</l>
          <l>Mas quem tão fora estava da verdade,</l>
          <l>(Já que o juízo humano tanto erra)</l>
          <l>Para que do mais certo se informara,</l>
          <l>Ao campo Damasceno o perguntara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Agora nestas partes se nomeia</l>
          <l>A Lápia fria, a inculta Noruega,</l>
          <l>Escandinávia Ilha, que se arreia</l>
          <l>Das vitórias que Itália não lhe nega.</l>
          <l>Aqui, enquanto as águas não refreia</l>
          <l>O congelado inverno, se navega</l>
          <l>Um braço do Sarmático Oceano</l>
          <l>Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Entre este mar e o Tánais vive estranha</l>
          <l>Gente: Rutenos, Moscos e Livónios,</l>
          <l>Sármatas outro tempo; e na montanha</l>
          <l>Hircínia os Marcomanos são Polónios.</l>
          <l>Sujeitos ao Império de Alemanha</l>
          <l>São Saxones, Boêmios e Panónios,</l>
          <l>E outras várias nações, que o Reno frio</l>
          <l>Lava, e o Danúbio, Amásis e Albis rio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="149" edRef="#instituto"/>
          <l>“Entre o remoto Istro e o claro Estreito,</l>
          <l>Aonde Hele deixou co’o nome a vida,</l>
          <l>Estão os Traces de robusto peito,</l>
          <l>Do fero Marte pátria tão querida,</l>
          <l>Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito</l>
          <l>Ao Otomano está, que submetida</l>
          <l>Bizâncio tem a seu serviço indino:</l>
          <l>Boa injúria do grande Constantino!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Logo de Macedónia estão as gentes,</l>
          <l>A quem lava do Axio a água fria;</l>
          <l>E vós também, ó terras excelentes</l>
          <l>Nos costumes, engenhos e ousadia,</l>
          <l>Que criastes os peitos eloquentes</l>
          <l>E os juízos de alta fantasia,</l>
          <l>Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,</l>
          <l>E não menos por armas, que por letras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Logo os Dálmatas vivem; e no seio,</l>
          <l>Onde Antenor já muros levantou,</l>
          <l>A soberba Veneza está no meio</l>
          <l>Das águas, que tão baixa começou.</l>
          <l>Da terra um braço vem ao mar, que cheio</l>
          <l>De esforço, nações várias sujeitou,</l>
          <l>Braço forte, de gente sublimada,</l>
          <l>Não menos nos engenhos, que na espada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Em torno o cerca o Reino Neptunino,</l>
          <l>Co’os muros naturais por outra parte;</l>
          <l>Pelo meio o divide o Apenino,</l>
          <l>Que tão ilustre fez o pátrio Marte;</l>
          <l>Mas depois que o Porteiro tem divino,</l>
          <l>Perdendo o esforço veio, e bélica arte;</l>
          <l>Pobre está já de antiga potestade:</l>
          <l>Tanto Deus se contenta de humildade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="150" edRef="#instituto"/>
          <l>“Gália ali se verá que nomeada</l>
          <l>Co’os Cesáreos triunfos foi no mundo,</l>
          <l>Que do Séquana e Ródano é regada,</l>
          <l>E do Giruna frio e Reno fundo.</l>
          <l>Logo os montes da Ninfa sepultada</l>
          <l>Pirene se alevantam, que segundo</l>
          <l>Antiguidades contam, quando arderam,</l>
          <l>Rios de ouro e de prata então correram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis aqui se descobre a nobre Espanha,</l>
          <l>Como cabeça ali de Europa toda,</l>
          <l>Em cujo senhorio o glória estranha</l>
          <l>Muitas voltas tem dado a fatal roda;</l>
          <l>Mas nunca poderá, com força ou manha,</l>
          <l>A fortuna inquieta pôr-lhe noda,</l>
          <l>Que lhe não tire o esforço e ousadia</l>
          <l>Dos belicosos peitos que em si cria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com Tingitânia entesta, e ali parece</l>
          <l>Que quer fechar o mar Mediterrano,</l>
          <l>Onde o sabido Estreito se enobrece</l>
          <l>Co’o extremo trabalha do Tebano.</l>
          <l>Com nações diferentes se engrandece,</l>
          <l>Cercadas com as ondas do Oceano;</l>
          <l>Todas de tal nobreza e tal valor,</l>
          <l>Que qualquer delas cuida que é melhor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tem o Tarragonês, que se fez claro</l>
          <l>Sujeitando Parténope inquieta;</l>
          <l>O Navarro, as Astúrias, que reparo</l>
          <l>Já foram contra a gente Mahometa;</l>
          <l>Tem o Galego cauto, e o grande e raro</l>
          <l>Castelhano, a quem fez o seu Planeta</l>
          <l>Restituidor de Espanha e senhor dela,</l>
          <l>Bétis, Lião, Granada, com Castela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="151" edRef="#instituto"/>
          <l>“Eis aqui, quase cume da cabeça</l>
          <l>De Europa toda, o Reino Lusitano,</l>
          <l>Onde a terra se acaba e o mar começa,</l>
          <l>E onde Febo repousa no Oceano.</l>
          <l>Este quis o Céu justo que floresça</l>
          <l>Nas armas contra o torpe Mauritano,</l>
          <l>Deitando-o de si fora, e lá na ardente</l>
          <l>África estar quieto o não consente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esta é a ditosa pátria minha amada,</l>
          <l>A qual se o Céu me dá que eu sem perigo</l>
          <l>Torne, com esta empresa já acabada,</l>
          <l>Acabe-se esta luz ali comigo.</l>
          <l>Esta foi Lusitânia, derivada</l>
          <l>De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo</l>
          <l>Filhos foram, parece, ou companheiros,</l>
          <l>E nela então os Íncolas primeiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desta o pastor nasceu, que no seu nome</l>
          <l>Se vê que de homem forte os feitos teve;</l>
          <l>Cuja fama ninguém virá que dome,</l>
          <l>Pois a grande de Roma não se atreve.</l>
          <l>Esta, o velho que os filhos próprios come</l>
          <l>Por decreto do Céu, ligeiro e leve,</l>
          <l>Veio a fazer no mundo tanta parte,</l>
          <l>Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,</l>
          <l>Que fez aos Sarracenos tanta guerra,</l>
          <l>Que por armas sanguinas, força e manha,</l>
          <l>A muitos fez perder a vida o a terra;</l>
          <l>Voando deste Rei a fama estranha</l>
          <l>Do Herculano Calpe à Cáspia serra,</l>
          <l>Muitos, para na guerra esclarecer-se,</l>
          <l>Vinham a ele e à morte oferecer-se.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="152" edRef="#instituto"/>
          <l>“E com um amor intrínseco acendidos</l>
          <l>Da Fé, mais que das honras populares,</l>
          <l>Eram de várias terras conduzidos,</l>
          <l>Deixando a pátria amada e próprios lares.</l>
          <l>Depois que em feitos altos e subidos</l>
          <l>Se mostraram nas armas singulares,</l>
          <l>Quis o famoso Afonso que obras tais</l>
          <l>Levassem prémio digno e dons iguais.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Destes Anrique, dizem que segundo</l>
          <l>Filho de um Rei de Hungria exprimentado,</l>
          <l>Portugal houve em sorte, que no mundo</l>
          <l>Então não era ilustre nem prezado;</l>
          <l>E, para mais sinal d’amor profundo,</l>
          <l>Quis o Rei Castelhano, que casado</l>
          <l>Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;</l>
          <l>E com ela das terras tornou posse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este, depois que contra os descendentes</l>
          <l>Da escrava Agar vitórias grandes teve,</l>
          <l>Ganhando muitas terras adjacentes,</l>
          <l>Fazendo o que a seu forte peito deve,</l>
          <l>Em prémio destes feitos excelentes,</l>
          <l>Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,</l>
          <l>Um filho, que ilustrasse o nome ufano</l>
          <l>Do belicoso Reino Lusitano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já tinha vindo Anrique da conquista</l>
          <l>Da cidade Hierosólima sagrada,</l>
          <l>E do Jordão a areia tinha vista,</l>
          <l>Que viu de Deus a carne em si lavada;</l>
          <l>Que não tendo Gotfredo a quem resista,</l>
          <l>Depois de ter Judeia sojugada,</l>
          <l>Muitos, que nestas guerras o ajudaram,</l>
          <l>Para seus senhorios se tornaram;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="153" edRef="#instituto"/>
          <l>“Quando chegado ao fim de sua idade,</l>
          <l>O forte e famoso Húngaro estremado,</l>
          <l>Forçado da fatal necessidade,</l>
          <l>O esprito deu a quem lhe tinha dado,</l>
          <l>Ficava o filho em tenra mocidade,</l>
          <l>Em quem o pai deixava seu traslado,</l>
          <l>Que do mundo os mais fortes igualava;</l>
          <l>Que de tal pai tal filho se esperava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas o velho rumor, não sei se errado,</l>
          <l>Que em tanta antiguidade não há certeza,</l>
          <l>Conta que a mãe, tomando todo o estado,</l>
          <l>Do segundo himeneu não se despreza.</l>
          <l>O filho órfão deixava deserdado,</l>
          <l>Dizendo que nas terras a grandeza</l>
          <l>Do senhorio todo só sua era,</l>
          <l>Porque, para casar, seu pai lhes dera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas o Príncipe Afonso, que desta arte</l>
          <l>Se chamava, do avô tomando o nome,</l>
          <l>Vendo-se em suas terras não ter parte,</l>
          <l>Que a mãe, com seu marido, as manda e come,</l>
          <l>Fervendo-lhe no peito o duro Marte,</l>
          <l>Imagina consigo como as tome.</l>
          <l>Revolvidas as causas no conceito,</l>
          <l>Ao propósito firme segue o efeito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“De Guimarães o campo se tingia</l>
          <l>Co’o sangue próprio da intestina guerra,</l>
          <l>Onde a mãe, que tão pouco o parecia,</l>
          <l>A seu filho negava o amor e a terra.</l>
          <l>Com ele posta em campo já se via;</l>
          <l>E não vê a soberba o muito que erra</l>
          <l>Contra Deus, contra o maternal amor;</l>
          <l>Mas nela o sensual era maior.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="154" edRef="#instituto"/>
          <l>“Ó Progne crua! ó mágica Medeia!</l>
          <l>Se em vossos próprios filhos vos vingais</l>
          <l>Da maldade dos pais, da culpa alheia,</l>
          <l>Olhai que inda Teresa peca mais:</l>
          <l>Incontinência má, cobiça feia,</l>
          <l>São as causas deste erro principais:</l>
          <l>Cila, por uma, mata o velho pai,</l>
          <l>Esta, por ambas, contra o filho vai.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas já o Príncipe claro o vencimento</l>
          <l>Do padrasto e da iníqua mãe levava;</l>
          <l>Já lhe obedece a terra num momento,</l>
          <l>Que primeiro contra ele pelejava.</l>
          <l>Porém, vencido de ira o entendimento,</l>
          <l>A mãe em ferros ásperos atava;</l>
          <l>Mas de Deus foi vingada em tempo breve:</l>
          <l>Tanta veneração aos pais se deve!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis se ajunta o soberbo Castelhano,</l>
          <l>Para vingar a injúria de Teresa,</l>
          <l>Contra o tão raro em gente Lusitano,</l>
          <l>A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.</l>
          <l>Em batalha cruel o peito humano,</l>
          <l>Ajudado da angélica defesa,</l>
          <l>Não só contra tal fúria se sustenta,</l>
          <l>Mas o inimigo aspérrimo afugenta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não passa muito tempo, quando o forte</l>
          <l>Príncipe em Guimarães está cercado</l>
          <l>De infinito poder; que desta sorte</l>
          <l>Foi refazer-se o imigo magoado;</l>
          <l>Mas, com se oferecer à dura morte</l>
          <l>O fiel Egas amo, foi livrado;</l>
          <l>Que de outra arte pudera ser perdido,</l>
          <l>Segundo estava mal apercebido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="155" edRef="#instituto"/>
          <l>“lulas o leal vassalo, conhecendo</l>
          <l>Que seu senhor não tinha resistência,</l>
          <l>Se vai ao Castelhano, prometendo</l>
          <l>Que ele faria dar-lhe obediência.</l>
          <l>Levanta o inimigo o cerco horrendo,</l>
          <l>Fiado na promessa e consciência</l>
          <l>De Egas Moniz; mas não consente o peito</l>
          <l>Do moço ilustre a outrem ser sujeito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Chegado tinha o prazo prometido,</l>
          <l>Em que o Rei Castelhano já aguardava</l>
          <l>Que o Príncipe, a seu mando sometido,</l>
          <l>Lhe desse a obediência que esperava.</l>
          <l>Vendo Egas que ficava fementido,</l>
          <l>O que dele Castela não cuidava,</l>
          <l>Determina de dar a doce vida</l>
          <l>A troco da palavra mal cumprida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E com seus filhos e mulher se parte</l>
          <l>A alevantar com eles a fiança,</l>
          <l>Descalços e despidos, de tal arte,</l>
          <l>Que mais move a piedade que a vingança.</l>
          <l>— “Se pretendes, Rei alto, de vingar-te</l>
          <l>De minha temerária confiança,</l>
          <l>Dizia, eis aqui venho oferecido</l>
          <l>A te pagar, co’a vida, o prometido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês aqui trago as vidas inocentes</l>
          <l>Dos filhos sem pecado e da consorte;</l>
          <l>Se a peitos generosos e excelentes,</l>
          <l>Dos fracos satisfaz a fera morte.</l>
          <l>Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:</l>
          <l>Nelas sós exprimenta toda a sorte</l>
          <l>De tormentos, de mortes, pelo estilo</l>
          <l>De Cínis e do touro de Perilo”! —</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="156" edRef="#instituto"/>
          <l>“Qual diante do algoz o condenado,</l>
          <l>Que já na vida a morte tem bebido,</l>
          <l>Põe no cepo a garganta, e já entregado</l>
          <l>Espera pelo golpe tão temido:</l>
          <l>Tal diante do Príncipe indinado,</l>
          <l>Egas estava a tudo oferecido.</l>
          <l>Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,</l>
          <l>Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó grão fidelidade Portuguesa,</l>
          <l>De vassalo, que a tanto se obrigava!</l>
          <l>Que mais o Persa fez naquela empresa,</l>
          <l>Onde rosto e narizes se cortava?</l>
          <l>Do que ao grande Dario tanto pesa,</l>
          <l>Que mil vezes dizendo suspirava,</l>
          <l>Que mais o seu Zopiro são prezara,</l>
          <l>Que vinte Babilónias que tomara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas já o Príncipe Afonso aparelhava</l>
          <l>O Lusitano exército ditoso,</l>
          <l>Contra o Mouro que as terras habitava</l>
          <l>D’além do claro Tejo deleitoso;</l>
          <l>Já no campo de Ourique se assentava</l>
          <l>O arraial soberbo e belicoso,</l>
          <l>Defronte do inimigo Sarraceno,</l>
          <l>Posto que em força e gente tão pequeno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Em nenhuma outra cousa confiado,</l>
          <l>Senão no sumo Deus, que o Céu regia,</l>
          <l>Que tão pouco era o povo batizado,</l>
          <l>Que para um só cem Mouros haveria.</l>
          <l>Julga qualquer juízo sossegado</l>
          <l>Por mais temeridade que ousadia,</l>
          <l>Cometer um tamanho ajuntamento,</l>
          <l>Que para um cavaleiro houvesse cento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="157" edRef="#instituto"/>
          <l>“Cinco Reis Mouros são os inimigos,</l>
          <l>Dos quais o principal Ismar se chama;</l>
          <l>Todos exprimentados nos perigos</l>
          <l>Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.</l>
          <l>Seguem guerreiras damas seus amigos,</l>
          <l>Imitando a formosa e forte Dama,</l>
          <l>De quem tanto os Troianos se ajudaram,</l>
          <l>E as que o Termodonte já gostaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A matutina luz serena e fria,</l>
          <l>As estrelas do Polo já apartava,</l>
          <l>Quando na Cruz o Filho de Maria,</l>
          <l>Amostrando-se a Afonso, o animava.</l>
          <l>Ele, adorando quem lhe aparecia,</l>
          <l>Na Fé todo inflamado assim gritava:</l>
          <l>— “Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,</l>
          <l>E não a mim, que creio o que podeis!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com tal milagre os ânimos da gente</l>
          <l>Portuguesa inflamados, levantavam</l>
          <l>Por seu Rei natural este excelente</l>
          <l>Príncipe, que do peito tanto amavam;</l>
          <l>E diante do exército potente</l>
          <l>Dos imigos, gritando o céu tocavam,</l>
          <l>Dizendo em alta voz: — “Real, real,</l>
          <l>Por Afonso alto Rei de Portugal.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual co’os gritos e vozes incitado,</l>
          <l>Pela montanha o rábido Moloso,</l>
          <l>Contra o touro remete, que fiado</l>
          <l>Na força está do corno temeroso:</l>
          <l>Ora pega na orelha, ora no lado,</l>
          <l>Latindo mais ligeiro que forçoso,</l>
          <l>Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,</l>
          <l>Do bravo a força horrenda se quebranta:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="158" edRef="#instituto"/>
          <l>“Tal do Rei novo o estômago acendido</l>
          <l>Por Deus e pelo povo juntamente,</l>
          <l>O Bárbaro comete apercebido,</l>
          <l>Co’o animoso exército rompente.</l>
          <l>Levantam nisto os perros o alarido</l>
          <l>Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,</l>
          <l>As lanças e arcos tomam, tubas soam,</l>
          <l>Instrumentos de guerra tudo atroam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Bem como quando a flama, que ateada</l>
          <l>Foi nos áridos campos (assoprando</l>
          <l>O sibilante Bóreas) animada</l>
          <l>Co’o vento, o seco mato vai queimando;</l>
          <l>A pastoral companha, que deitada</l>
          <l>Co’o doce sono estava, despertando</l>
          <l>Ao estridor do fogo que se ateia,</l>
          <l>Recolhe o fato, e foge para a aldeia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desta arte o Mouro atónito e torvado,</l>
          <l>Toma sem tento as armas mui depressa;</l>
          <l>Não foge; mas espera confiado,</l>
          <l>E o ginete belígero arremessa.</l>
          <l>O Português o encontra denodado,</l>
          <l>Pelos peitos as lanças lhe atravessa:</l>
          <l>Uns caem meios mortos, e outros vão</l>
          <l>A ajuda convocando do Alcorão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali se veem encontros temerosos,</l>
          <l>Para se desfazer uma alta serra,</l>
          <l>E os animais correndo furiosos</l>
          <l>Que Neptuno amostrou ferindo a terra.</l>
          <l>Golpes se dão medonhos e forçosos;</l>
          <l>Por toda a parte andava acesa a guerra:</l>
          <l>Mas o de Luso arnês, couraça e malha</l>
          <l>Rompe, corta, desfaz, abola e talha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="159" edRef="#instituto"/>
          <l>“Cabeças pelo campo vão saltando</l>
          <l>Braços, pernas, sem dono e sem sentido;</l>
          <l>E doutros as entranhas palpitando,</l>
          <l>Pálida a cor, o gesto amortecido.</l>
          <l>Já perde o campo o exército nefando;</l>
          <l>Correm rios de sangue desparzido,</l>
          <l>Com que também do campo a cor se perde,</l>
          <l>Tornado carmesi de branco e verde.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já fica vencedor o Lusitano,</l>
          <l>Recolhendo os troféus e presa rica;</l>
          <l>Desbaratado e roto o Mauro Hispano,</l>
          <l>Três dias o grão Rei no campo fiei.</l>
          <l>Aqui pinta no branco escudo ufano,</l>
          <l>Que agora esta vitória certifica,</l>
          <l>Cinco escudos azuis esclarecidos,</l>
          <l>Em sinal destes cinco Reis vencidos,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E nestes cinco escudos pinta os trinta</l>
          <l>Dinheiros por que Deus fora vendido,</l>
          <l>Escrevendo a memória em vária tinta,</l>
          <l>Daquele de quem foi favorecido.</l>
          <l>Em cada um dos cinco, cinco pinta,</l>
          <l>Porque assim fica o número cumprido,</l>
          <l>Contando duas vezes o do meio,</l>
          <l>Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passado já algum tempo que passada</l>
          <l>Era esta grão vitória, o Rei subido</l>
          <l>A tomar vai Leiria, que tomada</l>
          <l>Fora, mui pouco havia, do vencido.</l>
          <l>Com esta a forte Arronches sojugada</l>
          <l>Foi juntamente, e o sempre enobrecido</l>
          <l>Scalabicastro, cujo campo ameno,</l>
          <l>Tu, claro Tejo, regas tão sereno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="160" edRef="#instituto"/>
          <l>“A estas nobres vilas sometidas,</l>
          <l>Ajunta também Mafra, em pouco espaço,</l>
          <l>E nas serras da Lua conhecidas,</l>
          <l>Sojuga a fria Sintra o duro braço;</l>
          <l>Sintra, onde as Naiades, escondidas</l>
          <l>Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,</l>
          <l>Onde Amor as enreda brandamente,</l>
          <l>Nas águas acendendo fogo ardente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E tu, nobre Lisboa, que no Mundo</l>
          <l>Facilmente das outras és princesa,</l>
          <l>Que edificada foste do facundo,</l>
          <l>Por cujo engano foi Dardânia acesa;</l>
          <l>Tu, a quem obedece o mar profundo,</l>
          <l>Obedeceste à força Portuguesa,</l>
          <l>Ajudada também da forte armada,</l>
          <l>Que das Boreais partes foi mandada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Lá do Germânico Álbis, e do Rene,</l>
          <l>E da fria Bretanha conduzidos,</l>
          <l>A destruir o povo Sarraceno,</l>
          <l>Muitos com tensão santa eram partidos.</l>
          <l>Entrando a boca já do Tejo ameno,</l>
          <l>Co’o arraial do grande Afonso unidos,</l>
          <l>Cuja alta fama então subia aos Céus,</l>
          <l>Foi posto cerco aos muros Ulisseus.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Cinco vezes a Lua se escondera,</l>
          <l>E outras tantas mostrara cheio o rosto,</l>
          <l>Quando a cidade entrada se rendera</l>
          <l>Ao duro cerco, que lhe estava posto.</l>
          <l>Foi a batalha tão sanguina e fera,</l>
          <l>Quanto obrigava o firme pressuposto</l>
          <l>De vencedores ásperos e ousados,</l>
          <l>E de vencidos já desesperados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="161" edRef="#instituto"/>
          <l>“Desta arte enfim tomada se rendeu</l>
          <l>Aquela que, nos tempos já passados,</l>
          <l>A grande força nunca obedeceu</l>
          <l>Dos frios povos Cíticos ousados,</l>
          <l>Cujo poder a tanto se estendeu</l>
          <l>Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;</l>
          <l>E enfim co’o Bétis tanto alguns puderam</l>
          <l>Que à terra de Vandália nome deram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que cidade tão forte por ventura</l>
          <l>Haverá que resista, se Lisboa</l>
          <l>Não pôde resistir à força dura</l>
          <l>Da gente, cuja fama tanto voa?</l>
          <l>Já lhe obedece toda a Estremadura,</l>
          <l>Óbidos, Alenquer, por onde soa</l>
          <l>O tom das frescas águas, entre as pedras,</l>
          <l>Que murmurando lava, e Torres Vedras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E vós também, ó terras Transtaganas,</l>
          <l>Afamadas co’o dom da flava Ceres,</l>
          <l>Obedeceis às forças mais que humanas,</l>
          <l>Entregando-lhe os muros e os poderes.</l>
          <l>E tu, lavrador Mouro, que te enganas,</l>
          <l>Se sustentar a fértil terra queres;</l>
          <l>Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,</l>
          <l>E Alcácere-do-Sal estão rendidas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis a nobre Cidade, certo assento</l>
          <l>Do rebelde Sertório antigamente,</l>
          <l>Onde ora as águas nítidas de argento</l>
          <l>Vem sustentar de longo a terra e a gente,</l>
          <l>Pelos arcos reais, que cento e cento</l>
          <l>Nos ares se alevantam nobremente,</l>
          <l>Obedeceu por meio e ousadia</l>
          <l>De Giraldo, que medos não temia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="162" edRef="#instituto"/>
          <l>“Já na cidade Beja vai tomar</l>
          <l>Vingança de Trancoso destruída</l>
          <l>Afonso, que não sabe sossegar,</l>
          <l>Por estender co’a fama a curta vida.</l>
          <l>Não se lhe pode muito sustentar</l>
          <l>A cidade; mas sendo já rendida,</l>
          <l>Em toda a cousa viva a gente irada</l>
          <l>Provando os fios vai da dura espada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com estas sojugada foi Palmela,</l>
          <l>E a piscosa Cezimbra, e juntamente,</l>
          <l>Sendo ajudado mais de sua estrela,</l>
          <l>Desbarata um exército potente:</l>
          <l>Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,</l>
          <l>Que a socorrê-la vinha diligente</l>
          <l>Pela fralda da serra, descuidado</l>
          <l>Do temeroso encontro inopinado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O Rei de Badajoz era alto Mouro,</l>
          <l>Com quatro mil cavalos furiosos,</l>
          <l>Inúmeros peões, d’armas e de ouro</l>
          <l>Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.</l>
          <l>Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,</l>
          <l>Co’os ciúmes da vaca, arreceosos,</l>
          <l>Sentindo gente o bruto e cego amante</l>
          <l>Salteia o descuidado caminhante:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desta arte Afonso súbito mostrado</l>
          <l>Na gente dá, que passa bem segura,</l>
          <l>Fere, mata, derriba denodado;</l>
          <l>Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.</l>
          <l>Dum pânico terror todo assombrado,</l>
          <l>Só de segui-lo o exército procura;</l>
          <l>Sendo estes que fizeram tanto abalo</l>
          <l>Não mais que só sessenta de cavalo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="163" edRef="#instituto"/>
          <l>“Logo segue a vitória sem tardança</l>
          <l>O grão Rei incansábil, ajuntando</l>
          <l>Gentes de todo o Reino, cuja usança</l>
          <l>Era andar sempre terras conquistando.</l>
          <l>Cercar vai Badajoz, e logo alcança</l>
          <l>O fim de seu desejo, pelejando</l>
          <l>Com tanto esforço, e arte, e valentia,</l>
          <l>Que a fez fazer às outras companhia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas o alto Deus, que para longe guarda</l>
          <l>O castigo daquele que o merece,</l>
          <l>Ou, para que se emende, às vezes tarda,</l>
          <l>Ou por segredos que homem não conhece,</l>
          <l>Se até que sempre o forte Rei resguarda</l>
          <l>Dos perigos a que ele se oferece;</l>
          <l>Agora lhe não deixa ter defesa</l>
          <l>Da maldição da mãe que estava presa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que estando na cidade, que cercara,</l>
          <l>Cercado nela foi dos Lioneses,</l>
          <l>Porque a conquista dela lhe tomara,</l>
          <l>De Lião sendo, e não dos Portugueses.</l>
          <l>A pertinácia aqui lhe custa cara,</l>
          <l>Assim como acontece muitas vezes,</l>
          <l>Que em ferros quebra as pernas, indo aceso</l>
          <l>A batalha, onde foi vencido e preso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó famoso Pompeio, não te pene</l>
          <l>De teus feitos ilustres a ruína,</l>
          <l>Nem ver que a justa Némesis ordene</l>
          <l>Ter teu sogro de ti vitória dina,</l>
          <l>Posto que o frio Fásis, ou Siene,</l>
          <l>Que para nenhum cabo a sombra inclina,</l>
          <l>O Bootes gelado e a linha ardente,</l>
          <l>Temessem o teu nome geralmente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="164" edRef="#instituto"/>
          <l>“Posto que a rica Arábia e que os ferozes</l>
          <l>Eníocos e Colcos, cuja fama</l>
          <l>O Véu dourado estende, e os Capadoces,</l>
          <l>E Judeia, que um Deus adora e ama,</l>
          <l>E que os moles Sofenos, e os atroces</l>
          <l>Cilícios, com a Arménia, que derrama</l>
          <l>As águas dos dous rios, cuja fonte</l>
          <l>Está noutro mais alto e santo monte;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E posto enfim que desde o mar de Atlante</l>
          <l>Até o Cítico Tauro monte erguido,</l>
          <l>Já vencedor te vissem, não te espanto</l>
          <l>Se o campo Emátio só te viu vencido,</l>
          <l>Porque Afonso verás, soberbo e ovante,</l>
          <l>Tudo render-se ser depois rendido.</l>
          <l>Assi o quis o conselho alto e celeste,</l>
          <l>Que vença o sogro a ti, e o genro a este.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tornado o Rei sublime finalmente,</l>
          <l>Do divino Juízo castigado,</l>
          <l>Depois que em Santarém soberbamente</l>
          <l>Em vão dos Sarracenos foi cercado,</l>
          <l>E depois que do mártire Vicente</l>
          <l>O santíssimo corpo venerado</l>
          <l>Do Sacro Promontório conhecido</l>
          <l>A cidade Ulisseia foi trazido;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque levasse avante seu desejo,</l>
          <l>Ao forte filho manda o lasso velho</l>
          <l>Que às terras se passasse d’Alentejo,</l>
          <l>Com gente e co’o belígero aparelho.</l>
          <l>Sancho, d’esforço o d’ânimo sobejo,</l>
          <l>Avante passa, e faz correr vermelho</l>
          <l>O rio que Sevilha vai regando,</l>
          <l>Co’o sangue Mauro, bárbaro e nefando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="165" edRef="#instituto"/>
          <l>“E com esta vitória cobiçoso,</l>
          <l>Já não descansa o moço até que veja</l>
          <l>Outro estrago como este, temeroso,</l>
          <l>No Bárbaro que tem cercado Beja.</l>
          <l>Não tarda muito o Príncipe ditoso</l>
          <l>Sem ver o fim daquilo que deseja.</l>
          <l>Assim estragado o Mouro, na vingança</l>
          <l>De tantas perdas põe sua esperança.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já se ajuntam do monte a quem Medusa</l>
          <l>O corpo fez perder, que teve o Céu;</l>
          <l>Já vem do promontório de Ampelusa</l>
          <l>E do Tinge, que assento foi de Anteu.</l>
          <l>O morador de Abila não se escusa,</l>
          <l>Que também com suas armas se moveu,</l>
          <l>Ao som da Mauritana e ronca tuba,</l>
          <l>Todo o Reino que foi do nobre Juba.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Entrava com toda esta companhia</l>
          <l>O Miralmomini em Portugal;</l>
          <l>Treze Reis mouros leva de valia,</l>
          <l>Entre os quais tem o ceptro imperial;</l>
          <l>E assim fazendo quanto mal podia,</l>
          <l>O que em partes podia fazer mal,</l>
          <l>Dom Sancho vai cercar em Santarém;</l>
          <l>Porém não lhe sucede muito bem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Dá-lhe combates ásperos, fazendo</l>
          <l>Ardis de guerra mil o Mouro iroso;</l>
          <l>Não lhe aproveita já trabuco horrendo,</l>
          <l>Mina secreta, aríete forçoso:</l>
          <l>Porque o filho de Afonso não perdendo</l>
          <l>Nada do esforço e acordo generoso,</l>
          <l>Tudo provê com ânimo e prudência;</l>
          <l>Que em toda a parte há esforço e resistência.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="166" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas o velho, a quem tinham já obrigado</l>
          <l>Os trabalhosos anos ao sossego,</l>
          <l>Estando na cidade, cujo prado</l>
          <l>Enverdecem as águas do Mondego,</l>
          <l>Sabendo como o filho está cercado</l>
          <l>Em Santarém do Mauro povo cego,</l>
          <l>Se parte diligente da cidade;</l>
          <l>Que não perde a presteza co’a idade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E co’a famosa gente à guerra usada</l>
          <l>Vai socorrer o filho; e assi ajuntados,</l>
          <l>A Portuguesa fúria costumada</l>
          <l>Em breve os Mouros tem desbaratados.</l>
          <l>A campina, que toda está coalhada</l>
          <l>De marlotas, capuzes variados,</l>
          <l>De cavalos, jaezes, presa rica,</l>
          <l>De seus senhores mortos cheia fica.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Logo todo o restante se partiu</l>
          <l>De Lusitânia, postos em fugida;</l>
          <l>O Miralmomini só não fugiu,</l>
          <l>Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.</l>
          <l>A quem lhe esta vitória permitiu</l>
          <l>Dão louvores e graças sem medida:</l>
          <l>Que em casos tão estranhos claramente</l>
          <l>Mais peleja o favor de Deus que a gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“De tamanhas vitórias triunfava</l>
          <l>O velho Afonso, Príncipe subido,</l>
          <l>Quando, quem tudo enfim vencendo andava,</l>
          <l>Da larga e muita idade foi vencido.</l>
          <l>A pálida doença lhe tocava</l>
          <l>Com fria mão o corpo enfraquecido;</l>
          <l>E pagaram seus anos deste jeito</l>
          <l>A triste Libitina seu direito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="167" edRef="#instituto"/>
          <l>“Os altos promontórios o choraram,</l>
          <l>E dos rios as águas saudosas</l>
          <l>Os semeados campos alagaram</l>
          <l>Com lágrimas correndo piedosas.</l>
          <l>Mas tanto pelo mundo se alargaram</l>
          <l>Com faina suas obras valerosas,</l>
          <l>Que sempre no seu Reino chamarão</l>
          <l>“Afonso, Afonso” os ecos, mas em vão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Sancho, forte mancebo, que ficara</l>
          <l>Imitando seu pai na valentia,</l>
          <l>E que em sua vida já se exprimentara,</l>
          <l>Quando o Bétis de sangue se tingia,</l>
          <l>E o bárbaro poder desbaratara</l>
          <l>Do Ismaelita Rei de Andaluzia;</l>
          <l>E mais quando os que Beja em vão cercaram,</l>
          <l>Os golpes de seu braço em si provaram;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Depois que foi por Rei alevantado,</l>
          <l>Havendo poucos anos que reinava,</l>
          <l>A cidade de Silves tem cercado,</l>
          <l>Cujos campos o bárbaro lavrava.</l>
          <l>Foi das valentes gentes ajudado</l>
          <l>Da Germânica armada que passava,</l>
          <l>De armas fortes e gente apercebida,</l>
          <l>A recobrar Judeia já perdida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passavam a ajudar na santa empresa</l>
          <l>O roxo Federico, que moveu</l>
          <l>O poderoso exército em defesa</l>
          <l>Da cidade onde Cristo padeceu,</l>
          <l>Quando Guido, co’a gente em sede acesa,</l>
          <l>Ao grande Saladino se rendeu,</l>
          <l>No lugar onde aos Mouros sobejavam</l>
          <l>As águas que os de Guido desejavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="168" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas a formosa armada, que viera</l>
          <l>Por contraste de vento àquela parte,</l>
          <l>Sancho quis ajudar na guerra fera,</l>
          <l>Já que em serviço vai do santo Marte.</l>
          <l>Assim como a seu pai acontecera</l>
          <l>Quando tomou Lisboa, da mesma arte</l>
          <l>Do Germano ajudado Silves toma,</l>
          <l>E o bravo morador destrue e doma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se tantos troféus do Mahometa</l>
          <l>Alevantando vai, também do forte</l>
          <l>Lionês não consente estar quieta</l>
          <l>A terra, usada aos casos de Mavorte,</l>
          <l>Até que na cerviz seu jugo meta</l>
          <l>Da soberba Tuí, que a mesma sorte</l>
          <l>Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,</l>
          <l>Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas entre tantas palmas salteado</l>
          <l>Da temerosa morte, fica herdeiro</l>
          <l>Um filho seu, de todos estimado,</l>
          <l>Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.</l>
          <l>No tempo deste, aos Mouros foi tomado</l>
          <l>Alcácere-do-Sal por derradeiro;</l>
          <l>Porque dantes os Mouros o tomaram,</l>
          <l>Mas agora estruídos o pagaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Morto depois Afonso, lhe sucede</l>
          <l>Sancho segundo, manso e descuidado,</l>
          <l>Que tanto em seus descuidos se desmede,</l>
          <l>Que de outrem, quem mandava, era mandado.</l>
          <l>De governar o Reino, que outro pede,</l>
          <l>Por causa dos privados foi privado,</l>
          <l>Porque, como por eles se regia,</l>
          <l>Em todos os seus vícios consentia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="169" edRef="#instituto"/>
          <l>“Não era Sancho, não, tão desonesto</l>
          <l>Como Nero, que um moço recebia</l>
          <l>Por mulher, e depois horrendo incesto</l>
          <l>Com a mãe Agripina cometia;</l>
          <l>Nem tão cruel às gentes e molesto,</l>
          <l>Que a cidade queimasse onde vivia,</l>
          <l>Nem tão mau como foi Heliogabalo,</l>
          <l>Nem como o mole Rei Sardanapalo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Nem era o povo seu tiranizado,</l>
          <l>Como Sicília foi de seus tiranos;</l>
          <l>Nem tinha como Fálaris achado</l>
          <l>Gênero de tormentos inumanos;</l>
          <l>Mas o Reino, de altivo e costumado</l>
          <l>A senhores em tudo soberanos,</l>
          <l>A Rei não obedece, nem consente,</l>
          <l>Que não for mais que todos excelente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Por esta causa o Reino governou</l>
          <l>O Conde Bolonhês, depois alçado</l>
          <l>Por Rei, quando da vida se apartou</l>
          <l>Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.</l>
          <l>Este, que Afonso o bravo, se chamou,</l>
          <l>Depois de ter o Reino segurado,</l>
          <l>Em dilatá-lo cuida, que em terreno</l>
          <l>Não cabe o altivo peito, tão pequeno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Da terra dos Algarves, que lhe fora</l>
          <l>Em casamento dada, grande parte</l>
          <l>Recupera co’o braço, e deita fora</l>
          <l>O Mouro, mal querido já de Marte.</l>
          <l>Este de todo fez livre e senhora</l>
          <l>Lusitânia, com força e bélica arte;</l>
          <l>E acabou de oprimir a nação forte,</l>
          <l>Na terra que aos de Luso coube em sorte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="170" edRef="#instituto"/>
          <l>“Eis depois vem Dinis, que bem parece</l>
          <l>Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,</l>
          <l>Com quem a fama grande se escurece</l>
          <l>Da liberalidade Alexandrina.</l>
          <l>Com este o Reino próspero floresce</l>
          <l>(Alcançada já a paz áurea divina)</l>
          <l>Em constituições, leis e costumes,</l>
          <l>Na terra já tranquila claros lumes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Fez primeiro em Coimbra exercitar-se</l>
          <l>O valeroso ofício de Minerva;</l>
          <l>E de Helicona as Musas fez passar-se</l>
          <l>A pisar do Mondego a fértil erva.</l>
          <l>Quanto pode de Atenas desejar-se,</l>
          <l>Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.</l>
          <l>Aqui as capelas dá tecidas de ouro,</l>
          <l>Do bácaro e do sempre verde louro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Nobres vilas de novo edificou</l>
          <l>Fortalezas, castelos mui seguros,</l>
          <l>E quase o Reino todo reformou</l>
          <l>Com edifícios grandes, e altos muros.</l>
          <l>Mas depois que a dura Átropos cortou</l>
          <l>O fio de seus dias já maduros,</l>
          <l>Ficou-lhe o filho pouco obediente,</l>
          <l>Quarto Afonso, mas forte e excelente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este sempre as soberbas Castelhanas</l>
          <l>Co’o peito desprezou firme e sereno,</l>
          <l>Porque não é das forças Lusitanas,</l>
          <l>Temer poder maior, por mais pequeno.</l>
          <l>Mas porém, quando as gentes Mauritanas,</l>
          <l>A possuir o Hespérico terreno</l>
          <l>Entraram pelas terras de Castela,</l>
          <l>Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="171" edRef="#instituto"/>
          <l>“Nunca com Semirâmis gente tanta</l>
          <l>Veio os campos idáspicos enchendo,</l>
          <l>Nem Atila, que Itália toda espanta,</l>
          <l>Chamando-se de Deus açoute horrendo,</l>
          <l>Gótica gente trouxe tanta, quanta</l>
          <l>Do Sarraceno bárbaro estupendo,</l>
          <l>Co’o poder excessivo de Granada,</l>
          <l>Foi nos campos Tartésios ajuntada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E vendo o Rei sublime Castelhano</l>
          <l>A força inexpugnábil, grande e forte,</l>
          <l>Temendo mais o fim do povo hispano,</l>
          <l>Já perdido uma vez, que a própria morte,</l>
          <l>Pedindo ajuda ao forte Lusitano,</l>
          <l>Lhe mandava a caríssima consorte,</l>
          <l>Mulher de quem a manda, e filha amada</l>
          <l>Daquele a cujo Reino foi mandada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Entrava a formosíssima Maria</l>
          <l>Pelos paternais paços sublimados,</l>
          <l>Lindo o gesto, mas fora de alegria,</l>
          <l>E seus olhos em lágrimas banhados;</l>
          <l>Os cabelos angélicos trazia</l>
          <l>Pelos ebúrneos ombros espalhados:</l>
          <l>Diante do pai ledo, que a agasalha,</l>
          <l>Estas palavras tais, chorando, espalha:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Quantos povos a terra produziu</l>
          <l>De África toda, gente fera e estranha,</l>
          <l>O grão Rei de Marrocos conduziu</l>
          <l>Para vir possuir a nobre Espanha:</l>
          <l>Poder tamanho junto não se viu,</l>
          <l>Depois que o salso mar a terra banha.</l>
          <l>Trazem ferocidade, e furor tanto,</l>
          <l>Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="172" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Aquele que me deste por marido,</l>
          <l>Por defender sua terra amedrontada,</l>
          <l>Co’o pequeno poder, oferecido</l>
          <l>Ao duro golpe está da Maura espada;</l>
          <l>E se não for contigo socorrido,</l>
          <l>Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,</l>
          <l>Viúva e triste, e posta em vida escura,</l>
          <l>Sem marido, sem Reino, e sem ventura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Portanto, ó Rei, de quem com puro medo</l>
          <l>O corrente Muluca se congela,</l>
          <l>Rompe toda a tardança, acude cedo</l>
          <l>A miseranda gente de Castela.</l>
          <l>Se esse gesto, que mostras claro e ledo,</l>
          <l>De pai o verdadeiro amor assela,</l>
          <l>Acude e corre, pai, que se não corres,</l>
          <l>Pode ser que não aches quem socorres.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não de outra sorte a tímida Maria</l>
          <l>Falando está, que a triste Vénus, quando</l>
          <l>A Júpiter, seu pai, favor pedia</l>
          <l>Para Eneias, seu filho, navegando;</l>
          <l>Que a tanta piedade o comovia</l>
          <l>Que, caído das mãos o raio infando,</l>
          <l>Tudo o clemente Padre lhe concede,</l>
          <l>Pesando-lhe do pouco que lhe pede.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas já co’os esquadrões da gente armada</l>
          <l>Os Eborenses campos vão coalhados:</l>
          <l>Lustra co’o Sol o arnês, a lança, a espada;</l>
          <l>Vão rinchando os cavalos jaezados.</l>
          <l>A canora trombeta embandeirada,</l>
          <l>Os corações à paz acostumados</l>
          <l>Vai às fulgentes armas incitando,</l>
          <l>Pelas concavidades retumbando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="173" edRef="#instituto"/>
          <l>“Entre todos no meio se sublima,</l>
          <l>Das insígnias Reais acompanhado,</l>
          <l>O valeroso Afonso, que por cima</l>
          <l>De todos leva o colo alevantado;</l>
          <l>E somente co’o gesto esforça e anima</l>
          <l>A qualquer coração amedrontado.</l>
          <l>Assim entra nas terras de Castela</l>
          <l>Com a filha gentil, Rainha dela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Juntos os dous Afonsos finalmente</l>
          <l>Nos campos de Tarifa estão defronte</l>
          <l>Da grande multidão da cega gente,</l>
          <l>Para quem são pequenos campo e monte.</l>
          <l>Não há peito tão alto e tão potente,</l>
          <l>Que de desconfiança não se afronte,</l>
          <l>Enquanto não conheça e claro veja</l>
          <l>Que co’o braço dos seus Cristo peleja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Estão de Agar os netos quase rindo</l>
          <l>Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,</l>
          <l>As terras como suas repartindo</l>
          <l>Antemão, entre o exército Agareno,</l>
          <l>Que com título falso possuindo</l>
          <l>Está o famoso nome Sarraceno.</l>
          <l>Assim também com falsa conta e nua,</l>
          <l>À nobre terra alheia chamam sua.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual o membrudo e bárbaro Gigante,</l>
          <l>Do rei Saul, com causa, tão temido,</l>
          <l>Vendo o pastor inerme estar diante,</l>
          <l>Só de pedras e esforço apercebido,</l>
          <l>Com palavras soberbas o arrogante</l>
          <l>Despreza o fraco moço mal vestido,</l>
          <l>Que, rodeando a funda, o desengana</l>
          <l>Quanto mais pode a Fé que a força humana:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="174" edRef="#instituto"/>
          <l>“Desta arte o Mouro pérfido despreza</l>
          <l>O poder dos Cristãos, e não entende</l>
          <l>Que está ajudado da Alta Fortaleza,</l>
          <l>A quem o inferno horrífico se rende.</l>
          <l>Co ela o Castelhano, e com destreza</l>
          <l>De Marrocos o Rei comete e ofende.</l>
          <l>O Português, que tudo estima em nada,</l>
          <l>Se faz temer ao Reino de Granada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis as lanças e espadas retiniam</l>
          <l>Por cima dos arneses: bravo estrago!</l>
          <l>Chamam (segundo as leis que ali seguiam)</l>
          <l>Uns Mafamede, e os outros Santiago.</l>
          <l>Os feridos com grita o Céu feriam,</l>
          <l>Fazendo de seu sangue bruto lago,</l>
          <l>Onde outros meios mortos se afogavam,</l>
          <l>Quando do ferro as vidas escapavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com esforço tamanho estrui e mata</l>
          <l>O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,</l>
          <l>Totalmente o poder lhe desbarata,</l>
          <l>Sem lhe valer defesa ou peito de aço.</l>
          <l>De alcançar tal vitória tão barata</l>
          <l>Inda não bem contente o forte braço,</l>
          <l>Vai ajudar ao bravo Castelhano,</l>
          <l>Que pelejando está co’o Mauritano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já se ia o Sol ardente recolhendo</l>
          <l>Para a casa de Tétis, e inclinado</l>
          <l>Para o Ponente, o Véspero trazendo,</l>
          <l>Estava o claro dia memorado,</l>
          <l>Quando o poder do Mauro grande e horrendo</l>
          <l>Foi pelos fortes Reis desbaratado,</l>
          <l>Com tanta mortandade, que a memória</l>
          <l>Nunca no mundo viu tão grã vitória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="175" edRef="#instituto"/>
          <l>“Não matou a quarta parte o forte Mário</l>
          <l>Dos que morreram neste vencimento,</l>
          <l>Quando as águas co’o sangue do adversário</l>
          <l>Fez beber ao exército sedento;</l>
          <l>Nem o Peno asperíssimo contrário</l>
          <l>Do Romano poder, de nascimento,</l>
          <l>Quando tantos matou da ilustro Roma,</l>
          <l>Que alqueires três de anéis dos mortos toma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se tu tantas almas só pudeste</l>
          <l>Mandar ao Reino escuro de Cocito,</l>
          <l>Quando a santa Cidade desfizeste</l>
          <l>Do povo pertinaz no antigo rito:</l>
          <l>Permissão e vingança foi celeste,</l>
          <l>E não força de braço, ó nobre Tito,</l>
          <l>Que assim dos Vates foi profetizado,</l>
          <l>E depois por Jesus certificado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passada esta tão próspera vitória,</l>
          <l>Tornando Afonso à Lusitana terra,</l>
          <l>A se lograr da paz com tanta glória</l>
          <l>Quanta soube ganhar na dura guerra,</l>
          <l>O caso triste, e dino da memória,</l>
          <l>Que do sepulcro os homens desenterra,</l>
          <l>Aconteceu da mísera e mesquinha</l>
          <l>Que depois de ser morta foi Rainha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tu só, tu, puro Amor, com força crua,</l>
          <l>Que os corações humanos tanto obriga,</l>
          <l>Deste causa à molesta morte sua,</l>
          <l>Como se fora pérfida inimiga.</l>
          <l>Se dizem, fero Amor, que a sede tua</l>
          <l>Nem com lágrimas tristes se mitiga,</l>
          <l>É porque queres, áspero e tirano,</l>
          <l>Tuas aras banhar em sangue humano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="176" edRef="#instituto"/>
          <l>“Estavas, linda Inês, posta em sossego,</l>
          <l>De teus anos colhendo doce fruto,</l>
          <l>Naquele engano da alma, ledo e cego,</l>
          <l>Que a fortuna não deixa durar muito,</l>
          <l>Nos saudosos campos do Mondego,</l>
          <l>De teus fermosos olhos nunca enxuto,</l>
          <l>Aos montes ensinando e às ervinhas</l>
          <l>O nome que no peito escrito tinhas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Do teu Príncipe ali te respondiam</l>
          <l>As lembranças que na alma lhe moravam,</l>
          <l>Que sempre ante seus olhos te traziam,</l>
          <l>Quando dos teus fermosos se apartavam:</l>
          <l>De noite em doces sonhos, que mentiam,</l>
          <l>De dia em pensamentos, que voavam.</l>
          <l>E quanto enfim cuidava, e quanto via,</l>
          <l>Eram tudo memórias de alegria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“De outras belas senhoras e Princesas</l>
          <l>Os desejados tálamos enjeita,</l>
          <l>Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,</l>
          <l>Quando um gesto suave te sujeita.</l>
          <l>Vendo estas namoradas estranhezas</l>
          <l>O velho pai sesudo, que respeita</l>
          <l>O murmurar do povo, e a fantasia</l>
          <l>Do filho, que casar-se não queria,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tirar Inês ao mundo determina,</l>
          <l>Por lhe tirar o filho que tem preso,</l>
          <l>Crendo co’o sangue só da morte indina</l>
          <l>Matar do firme amor o fogo aceso.</l>
          <l>Que furor consentiu que a espada fina,</l>
          <l>Que pôde sustentar o grande peso</l>
          <l>Do furor Mauro, fosse alevantada</l>
          <l>Contra uma fraca dama delicada?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="177" edRef="#instituto"/>
          <l>“Traziam-na os horríficos algozes</l>
          <l>Ante o Rei, já movido a piedade:</l>
          <l>Mas o povo, com falsas e ferozes</l>
          <l>Razões, à morte crua o persuade.</l>
          <l>Ela com tristes o piedosas vozes,</l>
          <l>Saídas só da mágoa, e saudade</l>
          <l>Do seu Príncipe, e filhos que deixava,</l>
          <l>Que mais que a própria morte a magoava,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Para o Céu cristalino alevantando</l>
          <l>Com lágrimas os olhos piedosos,</l>
          <l>Os olhos, porque as mãos lhe estava atando</l>
          <l>Um dos duros ministros rigorosos;</l>
          <l>E depois nos meninos atentando,</l>
          <l>Que tão queridos tinha, e tão mimosos,</l>
          <l>Cuja orfandade como mãe temia,</l>
          <l>Para o avô cruel assim dizia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Se já nas brutas feras, cuja mente</l>
          <l>Natura fez cruel de nascimento,</l>
          <l>E nas aves agrestes, que somente</l>
          <l>Nas rapinas aéreas têm o intento,</l>
          <l>Com pequenas crianças viu a gente</l>
          <l>Terem tão piedoso sentimento,</l>
          <l>Como co’a mãe de Nino já mostraram,</l>
          <l>E c’os irmãos que Roma edificaram;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito</l>
          <l>(Se de humano é matar uma donzela</l>
          <l>Fraca e sem força, só por ter sujeito</l>
          <l>O coração a quem soube vencê-la)</l>
          <l>A estas criancinhas tem respeito,</l>
          <l>Pois o não tens à morte escura dela;</l>
          <l>Mova-te a piedade sua e minha,</l>
          <l>Pois te não move a culpa que não tinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="178" edRef="#instituto"/>
          <l>— “E se, vencendo a Maura resistência,</l>
          <l>A morte sabes dar com fogo e ferro,</l>
          <l>Sabe também dar vida com clemência</l>
          <l>A quem para perdê-la não fez erro.</l>
          <l>Mas se to assim merece esta inocência,</l>
          <l>Põe-me em perpétuo e mísero desterro,</l>
          <l>Na Cítia fria, ou lá na Líbia ardente,</l>
          <l>Onde em lágrimas viva eternamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Põe-me onde se use toda a feridade,</l>
          <l>Entre leões e tigres, e verei</l>
          <l>Se neles achar posso a piedade</l>
          <l>Que entre peitos humanos não achei:</l>
          <l>Ali com o amor intrínseco e vontade</l>
          <l>Naquele por quem morro, criarei</l>
          <l>Estas relíquias suas que aqui viste,</l>
          <l>Que refrigério sejam da mãe triste.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Queria perdoar-lhe o Rei benino,</l>
          <l>Movido das palavras que o magoam;</l>
          <l>Mas o pertinaz povo, e seu destino</l>
          <l>(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.</l>
          <l>Arrancam das espadas de aço fino</l>
          <l>Os que por bom tal feito ali apregoam.</l>
          <l>Contra uma dama, ó peitos carniceiros,</l>
          <l>Feros vos amostrais, e cavaleiros?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual contra a linda moça Policena,</l>
          <l>Consolação extrema da mãe velha,</l>
          <l>Porque a sombra de Aquiles a condena,</l>
          <l>Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;</l>
          <l>Mas ela os olhos com que o ar serena</l>
          <l>(Bem como paciente e mansa ovelha)</l>
          <l>Na mísera mãe postos, que endoudece,</l>
          <l>Ao duro sacrifício se oferece:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="179" edRef="#instituto"/>
          <l>“Tais contra Inês os brutos matadores</l>
          <l>No colo de alabastro, que sustinha</l>
          <l>As obras com que Amor matou de amores</l>
          <l>Aquele que depois a fez Rainha;</l>
          <l>As espadas banhando, e as brancas flores,</l>
          <l>Que ela dos olhos seus regadas tinha,</l>
          <l>Se encarniçavam, férvidos e irosos,</l>
          <l>No futuro castigo não cuidosos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Bem puderas, ó Sol, da vista destes</l>
          <l>Teus raios apartar aquele dia,</l>
          <l>Como da seva mesa de Tiestes,</l>
          <l>Quando os filhos por mão de Atreu comia.</l>
          <l>Vós, ó côncavos vales, que pudestes</l>
          <l>A voz extrema ouvir da boca fria,</l>
          <l>O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,</l>
          <l>Por muito grande espaço repetisses!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Assim como a bonina, que cortada</l>
          <l>Antes do tempo foi, cândida e bela,</l>
          <l>Sendo das mãos lascivas maltratada</l>
          <l>Da menina que a trouxe na capela,</l>
          <l>O cheiro traz perdido e a cor murchada:</l>
          <l>Tal está morta a pálida donzela,</l>
          <l>Secas do rosto as rosas, e perdida</l>
          <l>A branca e viva cor, co’a doce vida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“As filhas do Mondego a morte escura</l>
          <l>Longo tempo chorando memoraram,</l>
          <l>E, por memória eterna, em fonte pura</l>
          <l>As lágrimas choradas transformaram;</l>
          <l>O nome lhe puseram, que inda dura,</l>
          <l>Dos amores de Inês que ali passaram.</l>
          <l>Vede que fresca fonte rega as flores,</l>
          <l>Que lágrimas são a água, e o nome amores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="180" edRef="#instituto"/>
          <l>“Não correu muito tempo que a vingança</l>
          <l>Não visse Pedro das mortais feridas,</l>
          <l>Que, em tomando do Reino a governança,</l>
          <l>A tomou dos fugidos homicidas.</l>
          <l>Do outro Pedro cruíssimo os alcança,</l>
          <l>Que ambos, imigos das humanas vidas,</l>
          <l>O concerto fizeram, duro e injusto,</l>
          <l>Que com Lépido e António fez Augusto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este, castigador foi rigoroso</l>
          <l>De latrocínios, mortes e adultérios:</l>
          <l>Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,</l>
          <l>Eram os seus mais certos refrigérios.</l>
          <l>As cidades guardando justiçoso</l>
          <l>De todos os soberbos vitupérios,</l>
          <l>Mais ladrões castigando à morte deu,</l>
          <l>Que o vagabundo Aleides ou Teseu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Do justo e duro Pedro nasce o brando,</l>
          <l>(Vede da natureza o desconcerto!)</l>
          <l>Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,</l>
          <l>Que todo o Reino pôs em muito aperto:</l>
          <l>Que, vindo o Castelhano devastando</l>
          <l>As terras sem defesa, esteve perto</l>
          <l>De destruir-se o Reino totalmente;</l>
          <l>Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ou foi castigo claro do pecado</l>
          <l>De tirar Lianor a seu marido,</l>
          <l>E casar-se com ela, de enlevado</l>
          <l>Num falso parecer mal entendido;</l>
          <l>Ou foi que o coração sujeito e dado</l>
          <l>Ao vício vil, de quem se viu rendido,</l>
          <l>Mole se fez e fraco; e bem parece,</l>
          <l>Que um baixo amor os fortes enfraquece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="181" edRef="#instituto"/>
          <l>“Do pecado tiveram sempre a pena</l>
          <l>Muitos, que Deus o quis, e permitiu:</l>
          <l>Os que foram roubar a bela Helena,</l>
          <l>E com Ápio também Tarquino o viu.</l>
          <l>Pois por quem <choice><orig>David</orig><seg>Davi</seg></choice> Santo se condena?</l>
          <l>Ou quem o Tribo ilustre destruiu</l>
          <l>De Benjamim? Bem claro no-lo ensina</l>
          <l>Por Sara Faraó, Siquém por Dina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E pois se os peitos fortes enfraquece</l>
          <l>Um inconcesso amor desatinado,</l>
          <l>Bem no filho de Alcmena se parece,</l>
          <l>Quando em Ônfale andava transformado.</l>
          <l>De Marco António a faina se escurece</l>
          <l>Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.</l>
          <l>Tu também, Peno próspero, o sentiste</l>
          <l st:symbols="ok">Depois que u’a moça vil na Apúlia viste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas quem pode livrar-se por ventura</l>
          <l>Dos laços que Amor arma brandamente</l>
          <l>Entre as rosas e a neve humana pura,</l>
          <l>O ouro e o alabastro transparente?</l>
          <l>Quem de uma peregrina formosura,</l>
          <l>De um vulto de Medusa propriamente,</l>
          <l>Que o coração converte, que tem preso,</l>
          <l>Em pedra não, mas em desejo aceso?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,</l>
          <l>Uma suave e angélica excelência,</l>
          <l>Que em si está sempre as almas transformando,</l>
          <l>Que tivesse contra ela resistência?</l>
          <l>Desculpado por certo está Fernando,</l>
          <l>Para quem tem de amor experiência;</l>
          <l>Mas antes, tendo livre a fantasia,</l>
          <l>Por muito mais culpado o julgaria.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Quarto</head>
        <lg>
          <pb n="214" edRef="#instituto"/>
          <l>“Depois de procelosa tempestade,</l>
          <l>Noturna sombra e sibilante vento,</l>
          <l>Traz a manhã serena claridade,</l>
          <l>Esperança de porto e salvamento;</l>
          <l>Aparta o sol a negra escuridade,</l>
          <l>Removendo o temor do pensamento:</l>
          <l>Assim no Reino forte aconteceu,</l>
          <l>Depois que o Rei Fernando faleceu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque, se muito os nossos desejaram</l>
          <l>Quem os danos e ofensas vá vingando</l>
          <l>Naqueles que tão bem se aproveitaram</l>
          <l>Do descuido remisso de Fernando,</l>
          <l>Depois de pouco tempo o alcançaram,</l>
          <l>Joane, sempre ilustre, alevantando</l>
          <l>Por Rei, como de Pedro único herdeiro,</l>
          <l>(Ainda que bastardo) verdadeiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ser isto ordenação dos céus divina,</l>
          <l>Por sinais muito claros se mostrou,</l>
          <l>Quando em Évora a voz de uma menina,</l>
          <l>Ante tempo falando o nomeou;</l>
          <l>E como cousa enfim que o Céu destina,</l>
          <l>No berço o corpo e a voz alevantou:</l>
          <l>— “Portugal! Portugal!” alçando a mão</l>
          <l>Disse “pelo Rei novo, Dom João.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="215" edRef="#instituto"/>
          <l>“Alteradas então do Reino as gentes</l>
          <l>Co’o ódio, que ocupado os peitos tinha,</l>
          <l>Absolutas cruezas e evidentes</l>
          <l>Faz do povo o furor por onde vinha;</l>
          <l>Matando vão amigos e parentes</l>
          <l>Do adúltero Conde e da Rainha,</l>
          <l>Com quem sua incontinência desonesta</l>
          <l>Mais (depois de viúva) manifesta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas ele enfim, com causa desonrado,</l>
          <l>Diante dela a ferro frio morre,</l>
          <l>De outros muitos na morte acompanhado,</l>
          <l>Que tudo o fogo erguido queima e corre:</l>
          <l>Quem, como Astianás, precipitado,</l>
          <l>(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,</l>
          <l>A quem ordens, nem aras, nem respeito;</l>
          <l>Quem nu por ruas, e em pedaços feito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Podem-se pôr em longo esquecimento</l>
          <l>As cruezas mortais que Roma viu</l>
          <l>Feitas do feroz Mário e do cruento</l>
          <l>Sila, quando o contrário lhe fugiu.</l>
          <l>Por isso Lianor, que o sentimento</l>
          <l>Do morto Conde ao mundo descobriu,</l>
          <l>Faz contra Lusitânia vir Castela,</l>
          <l>Dizendo ser sua filha herdeira dela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Beatriz era a filha, que casada</l>
          <l>Co’o Castelhano está, que o Reino pede,</l>
          <l>Por filha de Fernando reputada,</l>
          <l>Se a corrompida fama lhe concede.</l>
          <l>Com esta voz Castela alevantada,</l>
          <l>Dizendo que esta filha ao pai sucede,</l>
          <l>Suas forças ajunta para as guerras</l>
          <l>De várias regiões e várias terras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="216" edRef="#instituto"/>
          <l>Vem de toda a província que de um Brigo</l>
          <l>(Se foi) já teve o nome derivado;</l>
          <l>Das terras que Fernando e que Rodrigo</l>
          <l>Ganharam do tirano e Mauro estado.</l>
          <l>Não estimam das armas o perigo</l>
          <l>Os que cortando vão co’o duro arado</l>
          <l>Os campos Lioneses, cuja gente</l>
          <l>C’os Mouros foi nas armas excelente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Os Vândalos, na antiga valentia</l>
          <l>Ainda confiados, se ajuntavam</l>
          <l>Da cabeça de toda Andaluzia,</l>
          <l>Que do Guadalquibir as águas lavam.</l>
          <l>A nobre Ilha também se apercebia,</l>
          <l>Que antigamente os Tírios habitavam,</l>
          <l>Trazendo por insígnias verdadeiras</l>
          <l>As Hercúleas colunas nas bandeiras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Também vem lá do Reino de Toledo,</l>
          <l>Cidade nobre e antiga, a quem cercando</l>
          <l>O Tejo em torno vai suave e ledo</l>
          <l>Que das serras de Conca vem manando.</l>
          <l>A vós outros também não tolhe o medo,</l>
          <l>Ó sórdidos Galegos, duro bando,</l>
          <l>Que para resistirdes vos armastes,</l>
          <l>Aqueles, cujos golpes já provasses.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Também movem da guerra as negras fúrias</l>
          <l>A gente Biscainha, que carece</l>
          <l>De polidas razões, e que as injúrias</l>
          <l>Muito mal dos estranhos compadece.</l>
          <l>A terra de Guipúscua e das Astúrias,</l>
          <l>Que com minas de ferro se enobrece,</l>
          <l>Armou dele os soberbos moradores,</l>
          <l>Para ajudar na guerra a seus senhores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="217" edRef="#instituto"/>
          <l>“Joane, a quem do peito o esforço cresce,</l>
          <l>Como a Sansão Hebréio da guedelha,</l>
          <l>Posto que tudo pouco lhe parece,</l>
          <l>Co’os poucos de seu Reino se aparelha;</l>
          <l>E não porque conselho lhe falece,</l>
          <l>Co’os principais senhores se aconselha,</l>
          <l>Mas só por ver das gentes as sentenças:</l>
          <l>Que sempre houve entre muitos diferenças.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não falta com razões quem desconcerte</l>
          <l>Da opinião de todos, na vontade,</l>
          <l>Em quem o esforço antigo se converte</l>
          <l>Em desusada e má deslealdade;</l>
          <l>Podendo o temor mais, gelado, inerte,</l>
          <l>Que a própria e natural fidelidade:</l>
          <l>Negam o Rei e a pátria, e, se convém,</l>
          <l>Negarão (como Pedro) o Deus que têm.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas nunca foi que este erro se sentisse</l>
          <l>No forte Dom Nuno Álvares; mas antes,</l>
          <l>Posto que em seus irmãos tão claro o visse,</l>
          <l>Reprovando as vontades inconstantes,</l>
          <l>Aquelas duvidosas gentes disse,</l>
          <l>Com palavras mais duras que elegantes,</l>
          <l>A mão na espada, irado, e não facundo,</l>
          <l>Ameaçando a terra, o mar e o mundo:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Como! Da gente ilustre Portuguesa</l>
          <l>Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,</l>
          <l>Como! Desta província, que princesa</l>
          <l>Foi das gentes na guerra em toda a parte,</l>
          <l>Há-de sair quem negue ter defesa?</l>
          <l>Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte</l>
          <l>De Português, e por nenhum respeito</l>
          <l>O próprio Reino queira ver sujeito?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="218" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Como! Não seis vós inda os descendentes</l>
          <l>Daqueles, que debaixo da bandeira</l>
          <l>Do grande Henriques, feros e valentes,</l>
          <l>Vencestes esta gente tão guerreira?</l>
          <l>Quando tantas bandeiras, tantas gentes</l>
          <l>Puseram em fugida, de maneira</l>
          <l>Que sete ilustres Condes lhe trouxeram</l>
          <l>Presos, afora a presa que tiveram?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Com quem foram contino sopeados</l>
          <l>Estes, de quem o estais agora vós,</l>
          <l>Por Dinis e seu filho, sublimados,</l>
          <l>Senão co’os vossos fortes pais, e avôs?</l>
          <l>Pois se com seus descuidos, ou pecados,</l>
          <l>Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,</l>
          <l>Torne-vos vossas forças o Rei novo:</l>
          <l>Se é certo que co’o Rei se muda o povo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Rei tendes tal, que se o valor tiverdes</l>
          <l>Igual ao Rei que agora alevantastes,</l>
          <l>Desbaratareis tudo o que quiserdes,</l>
          <l>Quanto mais a quem já desbaratasses.</l>
          <l>E se com isto enfim vos não moverdes</l>
          <l>Do penetrante medo que tomastes,</l>
          <l>Atai as mãos a vosso vão receio,</l>
          <l>Que eu só resistirei ao jugo alheio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Eu só com meus vassalos, e com esta</l>
          <l>(E dizendo isto arranca meia espada)</l>
          <l>Defenderei da força dura e infesta</l>
          <l>A terra nunca de outrem sojugada.</l>
          <l>Em virtude do Rei, da pátria mesta,</l>
          <l>Da lealdade já por vós negada,</l>
          <l>Vencerei (não só estes adversários)</l>
          <l>Mas quantos a meu Rei forem contrários.”—</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="219" edRef="#instituto"/>
          <l>Bem como entre os mancebos recolhidos</l>
          <l>Em Canúsio, relíquias sós de Canas,</l>
          <l>Já para se entregar quase movidos</l>
          <l>A fortuna das forças Africanas,</l>
          <l>Cornélio moço os faz que, compelidos</l>
          <l>Da sua espada, jurem que as Romanas</l>
          <l>Armas não deixarão, enquanto a vida</l>
          <l>Os não deixar, ou nelas for perdida:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Destarte a gente força e esforça Nuno,</l>
          <l>Que, com lhe ouvir as últimas razões,</l>
          <l>Removem o temor frio, importuno,</l>
          <l>Que gelados lhe tinha os corações.</l>
          <l>Nos animais cavalgam de Neptuno,</l>
          <l>Brandindo e volteando arremessões;</l>
          <l>Vão correndo e gritando a boca aberta:</l>
          <l>— “Viva o famoso Rei que nos liberta!”—</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Das gentes populares, uns aprovam</l>
          <l>A guerra com que a pátria se sustinha;</l>
          <l>Uns as armas alimpam e renovam,</l>
          <l>Que a ferrugem da paz gastadas tinha;</l>
          <l>Capacetes estofam, peitos provam,</l>
          <l>Arma-se cada um como convinha;</l>
          <l>Outros fazem vestidos de mil cores,</l>
          <l>Com letras e tenções de seus amores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com toda esta lustrosa companhia</l>
          <l>Joane forte sai da fresca Abrantes,</l>
          <l>Abrantes, que também da fonte fria</l>
          <l>Do Tejo logra as águas abundantes.</l>
          <l>Os primeiros armígeros regia</l>
          <l>Quem para reger era os mui possantes</l>
          <l>Orientais exércitos, sem conto,</l>
          <l>Com que passava Xerxes o Helesponto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="220" edRef="#instituto"/>
          <l>“Dom Nuno Álvares digo, verdadeiro</l>
          <l>Açoute de soberbos Castelhanos</l>
          <l>Como já o fero Huno o foi primeiro</l>
          <l>Para Franceses, para Italianos.</l>
          <l>Outro também famoso cavaleiro,</l>
          <l>Que a ala direita tem dos Lusitanos,</l>
          <l>Apto para mandá-los, e regê-los,</l>
          <l>Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E da outra ala, que a esta corresponde,</l>
          <l>Antão Vasques de Almada é capitão,</l>
          <l>Que depois foi de Abranches nobre Conde,</l>
          <l>Das gentes vai regendo a sestra mão.</l>
          <l>Logo na retaguarda não se esconde</l>
          <l>Das quinas e castelos o pendão,</l>
          <l>Com Joane, Rei forte em toda parte,</l>
          <l>Que escurecendo o preço vai de Alarte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Estavam pelos muros, temerosas,</l>
          <l>E de um alegre medo quase frias,</l>
          <l>Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,</l>
          <l>Prometendo jejuns e romarias.</l>
          <l>Já chegam as esquadras belicosas</l>
          <l>Defronte das amigas companhias,</l>
          <l>Que com grita grandíssima os recebem,</l>
          <l>E todas grande dúvida concebem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Respondem as trombetas mensageiras,</l>
          <l>Pífaros sibilantes e atambores;</l>
          <l>Alférezes volteam as bandeiras,</l>
          <l>Que variadas são de muitas cores.</l>
          <l>Era no seco tempo, que nas eiras</l>
          <l>Ceres o fruto deixa aos lavradores,</l>
          <l>Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,</l>
          <l>Baco das uvas tira o doce mosto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="221" edRef="#instituto"/>
          <l>“Deu sinal a trombeta Castelhana,</l>
          <l>Horrendo, fero, ingente e temeroso;</l>
          <l>Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana</l>
          <l>Atrás tornou as ondas de medroso;</l>
          <l>Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;</l>
          <l>Correu ao mar o Tejo duvidoso;</l>
          <l>E as mães, que o som terríbil escutaram,</l>
          <l>Aos peitos os filhinhos apertaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Quantos rostos ali se veem sem cor,</l>
          <l>Que ao coração acode o sangue amigo!</l>
          <l>Que, nos perigos grandes, o temor</l>
          <l>É maior muitas vezes que o perigo;</l>
          <l>E se o não é, parece-o; que o furor</l>
          <l>De ofender ou vencer o duro amigo</l>
          <l>Faz não sentir que é perda grande e rara,</l>
          <l>Dos membros corporais, da vida cara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Começa-se a travar a incerta guerra;</l>
          <l>De ambas partes se move a primeira ala;</l>
          <l>Uns leva a defensão da própria terra,</l>
          <l>Outros as esperanças de ganhá-la;</l>
          <l>Logo o grande Pereira, em quem se encerra</l>
          <l>Todo o valor, primeiro se assinala:</l>
          <l>Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia</l>
          <l>Dos que a tanto desejam, sendo alheia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já pelo espesso ar os estridentes</l>
          <l>Farpões, setas e vários tiros voam;</l>
          <l>Debaixo dos pés duros dos ardentes</l>
          <l>Cavalos treme a terra, os vales soam;</l>
          <l>Espedaçam-se as lanças; e as frequentes</l>
          <l>Quedas co’as duras armas, tudo atroam;</l>
          <l>Recrescem os amigos sobre a pouca</l>
          <l>Gente do fero Nuno, que os apouca.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="222" edRef="#instituto"/>
          <l>“Eis ali seus irmãos contra ele vão,</l>
          <l>(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,</l>
          <l>Que menos é querer matar o irmão,</l>
          <l>Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:</l>
          <l>Destes arrenegados muitos são</l>
          <l>No primeiro esquadrão, que se adianta</l>
          <l>Contra irmãos e parentes (caso estranho!)</l>
          <l>Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,</l>
          <l>Catilina, e vós outros dos antigos,</l>
          <l>Que contra vossas pátrias, com profano</l>
          <l>Coração, vos fizestes inimigos,</l>
          <l>Se lá no reino escuro de Sumano</l>
          <l>Receberdes gravíssimos castigos,</l>
          <l>Dizei-lhe que também dos Portugueses</l>
          <l>Alguns tredores houve algumas vezes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,</l>
          <l>Tantos dos inimigos a eles vão!</l>
          <l>Está ali Nuno, qual pelos outeiros</l>
          <l>De Ceita está o fortíssimo leão,</l>
          <l>Que cercado se vê dos cavaleiros</l>
          <l>Que os campos vão correr de Tetuão:</l>
          <l>Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,</l>
          <l>Torvado um pouco está, mas não medroso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com torva vista os vê, mas a natura</l>
          <l>Ferina e a ira não lhe compadecem</l>
          <l>Que as costas dê, mas antes na espessura</l>
          <l>Das lanças se arremessa, que recrescem.</l>
          <l>Tal está o cavaleiro, que a verdura</l>
          <l>Tinge co’o sangue alheio; ali perecem</l>
          <l>Alguns dos seus, que o ânimo valente</l>
          <l>Perde a virtude contra tanta gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="223" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sentiu Joane a afronta que passava</l>
          <l>Nuno, que, como sábio capitão,</l>
          <l>Tudo corria e via, e a todos dava,</l>
          <l>Com presença e palavras, coração.</l>
          <l>Qual parida leoa, fera e brava,</l>
          <l>Que os filhos que no ninho sós estão,</l>
          <l>Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,</l>
          <l>O pastor de Massília lhos furtara;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Corre raivosa, e freme, e com bramidos</l>
          <l>Os montes Sete Irmãos atroa e abala:</l>
          <l>Tal Joane, com outros escolhidos</l>
          <l>Dos seus, correndo acode à primeira ala:</l>
          <l>— “Ó fortes companheiros, ó subidos</l>
          <l>Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,</l>
          <l>Defendei vossas terras, que a esperança</l>
          <l>Da liberdade está na vossa lança.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,</l>
          <l>Que entre as lanças, e setas, e os arneses</l>
          <l>Dos inimigos corro e vou primeiro:</l>
          <l>Pelejai, verdadeiros Portugueses!”—</l>
          <l>Isto disse o magnânimo guerreiro,</l>
          <l>E, sopesando a lança quatro vezes,</l>
          <l>Com força tira; e, deste único tiro,</l>
          <l>Muitos lançaram o último suspiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque eis os seus acesos novamente</l>
          <l>Duma nobre vergonha e honroso fogo,</l>
          <l>Sobre qual mais com ânimo valente</l>
          <l>Perigos vencerá do Márcio jogo,</l>
          <l>Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;</l>
          <l>Rompem malhas primeiro, e peitos logo:</l>
          <l>Assim recebem junto e dão feridas,</l>
          <l>Como a quem já não dói perder as vidas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="224" edRef="#instituto"/>
          <l>“A muitos mandam ver o Estígio lago,</l>
          <l>Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:</l>
          <l>O Mestre morre ali de Santiago,</l>
          <l>Que fortissimamente pelejava;</l>
          <l>Morre também, fazendo grande estrago,</l>
          <l>Outro Mestre cruel de Calatrava;</l>
          <l>Os Pereiras também arrenegados</l>
          <l>Morrem, arrenegando o Céu e os fados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Muitos também do vulgo vil sem nome</l>
          <l>Vão, e também dos nobres, ao profundo,</l>
          <l>Onde o trifauce Cão perpétua fome</l>
          <l>Tem das almas que passam deste mundo.</l>
          <l>E porque mais aqui se amanse e dome</l>
          <l>A soberba do amigo furibundo,</l>
          <l>A sublime bandeira Castelhana</l>
          <l>Foi derribada aos pés da Lusitana.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui a fera batalha se encruece</l>
          <l>Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;</l>
          <l>A multidão da gente que perece</l>
          <l>Tem as flores da própria cor mudadas;</l>
          <l>Já as costas dão e as vidas; já falece</l>
          <l>O furor e sobejam as lançadas;</l>
          <l>Já de Castela o Rei desbaratado</l>
          <l>Se vê, e de seu propósito mudado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O campo vai deixando ao vencedor,</l>
          <l>Contente de lhe não deixar a vida.</l>
          <l>Seguem-no os que ficaram, e o temor</l>
          <l>Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.</l>
          <l>Encobrem no profundo peito a dor</l>
          <l>Da morte, da fazenda despendida,</l>
          <l>Da mágoa, da desonra, e triste nojo</l>
          <l>De ver outrem triunfar de seu despojo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="225" edRef="#instituto"/>
          <l>“Alguns vão maldizendo e blasfemando</l>
          <l>Do primeiro que guerra fez no mundo;</l>
          <l>Outros a sede dura vão culpando</l>
          <l>Do peito cobiçoso e sitibundo,</l>
          <l>Que, por tomar o alheio, o miserando</l>
          <l>Povo aventura às penas do profundo,</l>
          <l>Deixando tantas mães, tantas esposas</l>
          <l>Sem filhos, sem maridos, desditosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O vencedor Joane esteve os dias</l>
          <l>Costumados no campo, em grande glória;</l>
          <l>Com ofertas depois, e romarias,</l>
          <l>As graças deu a quem lhe deu vitória.</l>
          <l>Mas Nuno, que não quer por outras vias</l>
          <l>Entre as gentes deixar de si memória</l>
          <l>Senão por armas sempre soberanas,</l>
          <l>Para as terras se passa Transtaganas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ajuda-o seu destino de maneira</l>
          <l>Que fez igual o efeito ao pensamento,</l>
          <l>Porque a terra dos Vândalos fronteira</l>
          <l>Lhe concede o despojo e o vencimento.</l>
          <l>Já de Sevilha a Bética bandeira</l>
          <l>E de vários senhores num momento</l>
          <l>Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa</l>
          <l>Obrigados da força Portuguesa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Destas e outras vitórias longamente</l>
          <l>Eram os Castelhanos oprimidos,</l>
          <l>Quando a paz, desejada já da gente,</l>
          <l>Deram os vencedores aos vencidos,</l>
          <l>Depois que quis o Padre onipotente</l>
          <l>Dar os Reis inimigos por maridos</l>
          <l>As duas ilustríssimas Inglesas,</l>
          <l>Gentis, formosas, ínclitas princesas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="226" edRef="#instituto"/>
          <l>“Não sofre o peito forte, usado à guerra,</l>
          <l>Não ter amigo já a quem faça dano;</l>
          <l>E assim não tendo a quem vencer na terra,</l>
          <l>Vai cometer as ondas do Oceano.</l>
          <l>Este é o primeiro Rei que se desterra</l>
          <l>Da Pátria, por fazer que o Africano</l>
          <l>Conheça, pelas armas, quanto excede</l>
          <l>A lei de Cristo à lei de Mafamede.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis mil nadantes aves pelo argento</l>
          <l>Da furiosa Tétis inquieta</l>
          <l>Abrindo as pandas asas vão ao vento,</l>
          <l>Para onde Alcides pôs a extrema meta.</l>
          <l>O monte Abila e o nobre fundamento</l>
          <l>De Ceita toma, e o torpe Mahometa</l>
          <l>Deita fora, e segura toda Espanha</l>
          <l>Da Juliana, má, e desleal manha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não consentiu a morte tantos anos</l>
          <l>Que de Herói tão ditoso se lograsse</l>
          <l>Portugal, mas os coros soberanos</l>
          <l>Do Céu supremo quis que povoasse.</l>
          <l>Mas para defensão dos Lusitanos</l>
          <l>Deixou, quem o levou quem governasse,</l>
          <l>E aumentasse a terra mais que dantes,</l>
          <l>Ínclita geração, altos Infantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não foi do Rei Duarte tão ditoso</l>
          <l>O tempo que ficou na suma alteza,</l>
          <l>Que assim vai alternando o tempo iroso</l>
          <l>O bem co’o mal, o gosto co’a tristeza.</l>
          <l>Quem viu sempre um estado deleitoso?</l>
          <l>Ou quem viu em fortuna haver firmeza?</l>
          <l>Pois inda neste Reino e neste Rei</l>
          <l>Não ousou ela tanto desta lei.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="227" edRef="#instituto"/>
          <l>“Viu ser cativo o santo irmão Fernando,</l>
          <l>Que a tão altas empresas aspirava,</l>
          <l>Que, por salvar o povo miserando</l>
          <l>Cercado, ao Sarraceno se entregava.</l>
          <l>Só por amor da pátria está passando</l>
          <l>A vida de senhora feita escrava,</l>
          <l>Por não se dar por ele a forte Ceita:</l>
          <l>Mais o público bem que o seu respeita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Codro, porque o inimigo não vencesse,</l>
          <l>Deixou antes vencer da morte a vida;</l>
          <l>Régulo, porque a pátria não perdesse,</l>
          <l>Quis mais a liberdade ver perdida.</l>
          <l>Este, porque se Espanha não temesse,</l>
          <l>Ao cativeiro eterno se convida:</l>
          <l>Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,</l>
          <l>Nem os Décios leais fizeram tanto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas Afonso, do Reino único herdeiro,</l>
          <l>Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,</l>
          <l>Que a soberba do bárbaro fronteira</l>
          <l>Tornou em baixa e humílima miséria,</l>
          <l>Fora por certo invicto cavaleiro,</l>
          <l>Se não quisera ir ver a terra Ibéria.</l>
          <l>Mas África dirá ser impossíbil</l>
          <l>Poder ninguém vencer o Rei terríbil.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este pôde colher as maçãs de ouro,</l>
          <l>Que somente o Tiríntio colher pôde:</l>
          <l>Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro</l>
          <l>A cerviz inda agora não sacode.</l>
          <l>Na fronte a palma leva e o verde louro</l>
          <l>Das vitórias do Bárbaro, que acode</l>
          <l>A defender Alcácer, forte vila,</l>
          <l>Tângere populoso e a dura Arzila.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="228" edRef="#instituto"/>
          <l>“Porém elas enfim por força entradas,</l>
          <l>Os muros abaixaram de diamante</l>
          <l>As Portuguesas forças, costumadas</l>
          <l>A derribarem quanto acham diante.</l>
          <l>Maravilhas em armas estremadas,</l>
          <l>E de escritura dinas elegante,</l>
          <l>Fizeram cavaleiros nesta empresa,</l>
          <l>Mais afinando a fama Portuguesa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porém depois, tocado de ambição</l>
          <l>E glória de mandar, amara e bela,</l>
          <l>Vai cometer Fernando de Aragão,</l>
          <l>Sobre o potente Reino de Castela.</l>
          <l>Ajunta-se a inimiga multidão</l>
          <l>Das soberbas e várias gentes dela,</l>
          <l>Desde Cádis ao alto Pireneu,</l>
          <l>Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não quis ficar nos Reinos ocioso</l>
          <l>O mancebo Joane, e logo ordena</l>
          <l>De ir ajudar o pai ambicioso,</l>
          <l>Que então lhe foi ajuda não pequena.</l>
          <l>Saiu-se enfim do trance perigoso</l>
          <l>Com fronte não torvada, mas serena,</l>
          <l>Desbaratado o pai sanguinolento</l>
          <l>Mas ficou duvidoso o vencimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque o filho sublime e soberano,</l>
          <l>Gentil, forte, animoso cavaleiro,</l>
          <l>Nos contrários fazendo imenso dano,</l>
          <l>Todo um dia ficou no campo inteiro.</l>
          <l>Desta arte foi vencido Octaviano,</l>
          <l>E António vencedor, sem companheiro,</l>
          <l>Quando daqueles que César mataram</l>
          <l>Nos Filípicos campos se vingaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="229" edRef="#instituto"/>
          <l>“Porém depois que a escura noite eterna</l>
          <l>Afonso aposentou no Céu sereno,</l>
          <l>O Príncipe, que o Reino então governa,</l>
          <l>Foi Joane segundo e Rei trezeno.</l>
          <l>Este, por haver fama sempiterna,</l>
          <l>Mais do que tentar pode homem terreno</l>
          <l>Tentou, que foi buscar da roxa Aurora</l>
          <l>Os términos, que eu vou buscando agora.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Manda seus mensageiros, que passaram</l>
          <l>Espanha, França, Itália celebrada,</l>
          <l>E lá no ilustre porto se embarcaram</l>
          <l>Onde já foi Parténope enterra a:</l>
          <l>Nápoles, onde os Xados se mostraram,</l>
          <l>Fazendo-a a várias gentes subjugada,</l>
          <l>Pola ilustrar no fim de tantos anos</l>
          <l>Co’o senhorio de ínclitos Hispanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Pelo mar alto Sículo navegam;</l>
          <l>Vão-se às praias de Rodes arenosas;</l>
          <l>E dali às ribeiras altas chegam,</l>
          <l>Que com morte de Magno são famosas;</l>
          <l>Vão a Mênfis e às terras, que se regam</l>
          <l>Das enchentes Nilóticas undosas;</l>
          <l>Sobem à Etiópia, sobre Egito,</l>
          <l>Que de Cristo lá guarda o santo rito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passam também as ondas Eritreias,</l>
          <l>Que o povo de Israel sem nau passou;</l>
          <l>Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,</l>
          <l>Que o filho de Ismael co’o nome ornou.</l>
          <l>As costas odoríferas Sabeias,</l>
          <l>Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,</l>
          <l>Cercam, com toda a Arábia descoberta</l>
          <l>Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="230" edRef="#instituto"/>
          <l>“Entram no estreito Pérsico, onde dura</l>
          <l>Da confusa Babel inda a memória;</l>
          <l>Ali co’o Tigre o Eufrates se mistura,</l>
          <l>Que as fontes onde nascem tem por glória.</l>
          <l>Dali vão em demanda da água pura,</l>
          <l>Que causa inda será de larga história,</l>
          <l>Do Indo, pelas ondas do Oceano,</l>
          <l>Onde não se atreveu passar Trajano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Viram gentes incógnitas e estranhas</l>
          <l>Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,</l>
          <l>Vendo vários costumes, várias manhas,</l>
          <l>Que cada região produze e cria.</l>
          <l>Mas de vias tão ásperas, tamanhas,</l>
          <l>Tornar-se facilmente não podia:</l>
          <l>Lá morreram enfim, e lá ficaram,</l>
          <l>Que à desejada pátria não tornaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Parece que guardava o claro Céu</l>
          <l>A Manuel, e seus merecimentos,</l>
          <l>Esta empresa tão árdua, que o moveu</l>
          <l>A subidos e ilustres movimentos:</l>
          <l>Manuel, que a Joane sucedeu</l>
          <l>No Reino e nos altivos pensamentos,</l>
          <l>Logo, corno tornou do Reino o cargo,</l>
          <l>Tomou mais a conquista do mar largo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O qual, como do nobre pensamento</l>
          <l>Daquela obrigação, que lhe ficara</l>
          <l>De seus antepassados, (cujo intento</l>
          <l>Foi sempre acrescentar a terra cara)</l>
          <l>Não deixasse de ser um só momento</l>
          <l>Conquistado: no tempo que a luz clara</l>
          <l>Foge, e as estrelas nítidas, que saem,</l>
          <l>A repouso convidam quando caem,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="231" edRef="#instituto"/>
          <l>“Estando já deitado no áureo leito,</l>
          <l>Onde imaginações mais certas são?</l>
          <l>Revolvendo contino no conceito</l>
          <l>Seu ofício e sangue a obrigação,</l>
          <l>Os olhos lhe ocupou o sono aceito,</l>
          <l>Sem lhe desocupar o coração;</l>
          <l>Porque, tanto que lasso se adormece,</l>
          <l>Morfeu em várias formas lhe aparece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui se lhe apresenta que subia</l>
          <l>Tão alto, que tocava a prima Esfera,</l>
          <l>Donde diante vários mundos via,</l>
          <l>Nações de muita gente estranha e fera;</l>
          <l>E lá bem junto donde nasce o dia,</l>
          <l>Depois que os olhos longos estendera,</l>
          <l>Viu de antigos, longínquos e altos montes</l>
          <l>Nascerem duas claras e altas fontes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aves agrestes, feras e alimárias,</l>
          <l>Pelo monte selvático habitavam;</l>
          <l>Mil árvores silvestres e ervas várias</l>
          <l>O passo e o tracto às gentes atalhavam.</l>
          <l>Estas duras montanhas, adversárias</l>
          <l>De mais conversação, por si mostravam</l>
          <l>Que, desque Adão pecou aos nossos anos,</l>
          <l>Não as romperam nunca pés humanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Das águas se lhe antolha que saíam,</l>
          <l>Para ele os largos passos inclinando,</l>
          <l>Dois homens, que mui velhos pareciam,</l>
          <l>De aspecto, inda que agreste, venerando:</l>
          <l>Das pontas dos cabelos lhe caíam</l>
          <l>Gotas, que o corpo todo vão banhando;</l>
          <l>A cor da pele baça e denegrida,</l>
          <l>A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="232" edRef="#instituto"/>
          <l>“Dambos de dois a fronte coroada</l>
          <l>Ramos não conhecidos e ervas tinha;</l>
          <l>Um deles a presença traz cansada,</l>
          <l>Como quem de mais longe ali caminha.</l>
          <l>E assim a água, com ímpeto alterada,</l>
          <l>Parecia que doutra parte vinha,</l>
          <l>Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa</l>
          <l>Vai buscar os abraços de Aretusa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este, que era o mais grave na pessoa,</l>
          <l>Destarte para o Rei de longe brada:</l>
          <l>— “Ó tu, a cujos reinos e coroa</l>
          <l>Grande parte do mundo está guardada,</l>
          <l>Nós outros, cuja fama tanto voa,</l>
          <l>Cuja cerviz bem nunca foi domada,</l>
          <l>Te avisamos que é tempo que já mandes</l>
          <l>A receber de nós tributos grandes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Eu sou o ilustre Ganges, que na terra</l>
          <l>Celeste tenho o berço verdadeiro;</l>
          <l>Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra</l>
          <l>Que vês, seu nascimento tem primeiro.</l>
          <l>Custar-te-emos contudo dura guerra;</l>
          <l>Mas insistindo tu, por derradeiro,</l>
          <l>Com não vistas vitórias, sem receio,</l>
          <l>A quantas gentes vês, porás o freio.”—</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não disse mais o rio ilustre e santo,</l>
          <l>Mas ambos desparecem num momento.</l>
          <l>Acorda Emanuel c’um novo espanto</l>
          <l>E grande alteração de pensamento.</l>
          <l>Estendeu nisto Febo o claro manto</l>
          <l>Pelo escuro Hemisfério sonolento;</l>
          <l>Veio a manhã no céu pintando as cores</l>
          <l>De pudibunda rosa e roxas flores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="233" edRef="#instituto"/>
          <l>“Chama o Rei os senhores a conselho,</l>
          <l>E propõe-lhe as figuras da visão;</l>
          <l>As palavras lhe diz do santo velho,</l>
          <l>Que a todos foram grande admiração.</l>
          <l>Determinam o náutico aparelho,</l>
          <l>Para que com sublime coração</l>
          <l>Vá a gente que mandar cortando os mares</l>
          <l>A buscar novos climas, novos ares.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eu, que bem mal cuidava que em efeito</l>
          <l>Se pusesse o que o peito me pedia,</l>
          <l>Que sempre grandes cousas deste jeito</l>
          <l>Pressago o coração me prometia,</l>
          <l>Não sei por que razão, por que respeito,</l>
          <l>Ou por que bom sinal que em mi se via,</l>
          <l>Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave</l>
          <l>Deste cometimento grande e grave.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E com rogo o palavras amorosas,</l>
          <l>Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,</l>
          <l>Me disse: — “As cousas árduas e lustrosas</l>
          <l>Se alcançam com trabalho e com fadiga;</l>
          <l>Faz as pessoas altas e famosas</l>
          <l>A vida que se perde e que periga;</l>
          <l>Que, quando ao medo infame não se rende,</l>
          <l>Então, se menos dura, mais se estende.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Eu vos tenho entre todos escolhido</l>
          <l>Para uma empresa, qual a vós se deve,</l>
          <l>Trabalho ilustre, duro e esclarecido,</l>
          <l>O que eu sei que por mi vos será leve.”—</l>
          <l>Não sofri mais, mas logo: — “Ó Rei subido,</l>
          <l>Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,</l>
          <l>É tão pouco por vós, que mais me pena</l>
          <l>Ser esta vida cousa tão pequena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="234" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Imaginai tamanhas aventuras,</l>
          <l>Quais Euristeu a Alcides inventava,</l>
          <l>O leão Cleoneu, Harpias duras,</l>
          <l>O porco de Erimanto, a Hidra brava,</l>
          <l>Descer enfim às sombras vãs e escuras</l>
          <l>Onde os campos de Dite a Estige lava;</l>
          <l>Porque a maior perigo, a mor afronta,</l>
          <l>Por vós, ó Rei, o esprito e a carne é pronta.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com mercês sumptuosas me agradece</l>
          <l>E com razões me louva esta vontade;</l>
          <l>Que a virtude louvada vive e cresce,</l>
          <l>E o louvor altos casos persuade.</l>
          <l>A acompanhar-me logo se oferece,</l>
          <l>Obrigado d’amor e d’amizade,</l>
          <l>Não menos cobiçoso de honra e fama,</l>
          <l>O caro meu irmão Paulo da Gama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mais se me ajunta Nicolau Coelho,</l>
          <l>De trabalhos mui grande sofredor;</l>
          <l>Ambos são de valia e de conselho,</l>
          <l>De experiência em armas e furor.</l>
          <l>Já de manceba gente me aparelho,</l>
          <l>Em que cresce o desejo do valor;</l>
          <l>Todos de grande esforço; e assim parece</l>
          <l>Quem a tamanhas cousas se oferece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Foram de Emanuel remunerados,</l>
          <l>Porque com mais amor se apercebessem,</l>
          <l>E com palavras altas animados</l>
          <l>Para quantos trabalhos sucedessem.</l>
          <l>Assim foram os Mínias ajuntados,</l>
          <l>Para que o Véu dourado combatessem,</l>
          <l>Na fatídica Nau, que ousou primeira</l>
          <l>Tentar o mar Euxínio, aventureira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="235" edRef="#instituto"/>
          <l>“E já no porto da ínclita Ulisseia</l>
          <l>C’um alvoroço nobre, e é um desejo,</l>
          <l>(Onde o licor mistura e branca areia</l>
          <l>Co’o salgado Neptuno o doce Tejo)</l>
          <l>As naus prestes estão; e não refreia</l>
          <l>Temor nenhum o juvenil despejo,</l>
          <l>Porque a gente marítima e a de Marte</l>
          <l>Estão para seguir-me a toda parte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Pelas praias vestidos os soldados</l>
          <l>De várias cores vêm e várias artes,</l>
          <l>E não menos de esforço aparelhados</l>
          <l>Para buscar do inundo novas partes.</l>
          <l>Nas fortes naus os ventos sossegados</l>
          <l>Ondeiam os aéreos estandartes;</l>
          <l>Elas prometem, vendo os mares largos,</l>
          <l>De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Depois de aparelhados desta sorte</l>
          <l>De quanto tal viagem pede e manda,</l>
          <l>Aparelhamos a alma para a morte,</l>
          <l>Que sempre aos nautas ante os olhos anda.</l>
          <l>Para o sumo Poder que a etérea corte</l>
          <l>Sustenta só co’a vista veneranda,</l>
          <l>Imploramos favor que nos guiasse,</l>
          <l>E que nossos começos aspirasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Partimo-nos assim do santo templo</l>
          <l>Que nas praias do mar está assentado,</l>
          <l>Que o nome tem da terra, para exemplo,</l>
          <l>Donde Deus foi em carne ao mundo dado.</l>
          <l>Certifico-te, ó Rei, que se contemplo</l>
          <l>Como fui destas praias apartado,</l>
          <l>Cheio dentro de dúvida e receio,</l>
          <l>Que apenas nos meus olhos ponho o freio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="236" edRef="#instituto"/>
          <l>“A gente da cidade aquele dia,</l>
          <l>(Uns por amigos, outros por parentes,</l>
          <l>Outros por ver somente) concorria,</l>
          <l>Saudosos na vista e descontentes.</l>
          <l>E nós co’a virtuosa companhia</l>
          <l>De mil Religiosos diligentes,</l>
          <l>Em procissão solene a Deus orando,</l>
          <l>Para os batéis viemos caminhando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Em tão longo caminho e duvidoso</l>
          <l>Por perdidos as gentes nos julgavam;</l>
          <l>As mulheres c’um choro piedoso,</l>
          <l>Os homens com suspiros que arrancavam;</l>
          <l>Mães, esposas, irmãs, que o temeroso</l>
          <l>Amor mais desconfia, acrescentavam</l>
          <l>A desesperarão, e frio medo</l>
          <l>De já nos não tornar a ver tão cedo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual vai dizendo: — “Ó filho, a quem eu tinha</l>
          <l>Só para refrigério, e doce amparo</l>
          <l>Desta cansada já velhice minha,</l>
          <l>Que em choro acabará, penoso e amaro,</l>
          <l>Por que me deixas, mísera e mesquinha?</l>
          <l>Por que de mim te vás, ó filho caro,</l>
          <l>A fazer o funéreo enterramento,</l>
          <l>Onde sejas de peixes mantimento!” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual em cabelo: — “Ó doce e amado esposo,</l>
          <l>Sem quem não quis Amor que viver possa,</l>
          <l>Por que is aventurar ao mar iroso</l>
          <l>Essa vida que é minha, e não é vossa?</l>
          <l>Como por um caminho duvidoso</l>
          <l>Vos esquece a afeição tão doce nossa?</l>
          <l>Nosso amor, nosso vão contentamento</l>
          <l>Quereis que com as velas leve o vento?” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="237" edRef="#instituto"/>
          <l>“Nestas e outras palavras que diziam</l>
          <l>De amor e de piedosa humanidade,</l>
          <l>Os velhos e os meninos os seguiam,</l>
          <l>Em quem menos esforço põe a idade.</l>
          <l>Os montes de mais perto respondiam,</l>
          <l>Quase movidos de alta piedade;</l>
          <l>A branca areia as lágrimas banhavam,</l>
          <l>Que em multidão com elas se igualavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Nós outros sem a vista alevantarmos</l>
          <l>Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,</l>
          <l>Por nos não magoarmos, ou mudarmos</l>
          <l>Do propósito firme começado,</l>
          <l>Determinei de assim nos embarcarmos</l>
          <l>Sem o despedimento costumado,</l>
          <l>Que, posto que é de amor usança boa,</l>
          <l>A quem se aparta, ou fica, mais magoa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas um velho d’aspeito venerando,</l>
          <l>Que ficava nas praias, entre a gente,</l>
          <l>Postos em nós os olhos, meneando</l>
          <l>Três vezes a cabeça, descontente,</l>
          <l>A voz pesada um pouco alevantando,</l>
          <l>Que nós no mar ouvimos claramente,</l>
          <l>C’um saber só de experiências feito,</l>
          <l>Tais palavras tirou do experto peito:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça</l>
          <l>Desta vaidade, a quem chamamos Fama!</l>
          <l>Ó fraudulento gosto, que se atiça</l>
          <l>C’uma aura popular, que honra se chama!</l>
          <l>Que castigo tamanho e que justiça</l>
          <l>Fazes no peito vão que muito te ama!</l>
          <l>Que mortes, que perigos, que tormentas,</l>
          <l>Que crueldades neles experimentas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="238" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Dura inquietação d’alma e da vida,</l>
          <l>Fonte de desamparos e adultérios,</l>
          <l>Sagaz consumidora conhecida</l>
          <l>De fazendas, de reinos e de impérios:</l>
          <l>Chamam-te ilustre, chamam-te subida,</l>
          <l>Sendo dina de infames vitupérios;</l>
          <l>Chamam-te Fama e Glória soberana,</l>
          <l>Nomes com quem se o povo néscio engana!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “A que novos desastres determinas</l>
          <l>De levar estes reinos e esta gente?</l>
          <l>Que perigos, que mortes lhe destinas</l>
          <l>Debaixo dalgum nome preminente?</l>
          <l>Que promessas de reinos, e de minas</l>
          <l>D’ouro, que lhe farás tão facilmente?</l>
          <l>Que famas lhe prometerás? que histórias?</l>
          <l>Que triunfos, que palmas, que vitórias?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Mas ó tu, geração daquele insano,</l>
          <l>Cujo pecado e desobediência,</l>
          <l>Não somente do reino soberano</l>
          <l>Te pôs neste desterro e triste ausência,</l>
          <l>Mas inda doutro estado mais que humano</l>
          <l>Da quieta e da simples inocência,</l>
          <l>Idade d’ouro, tanto te privou,</l>
          <l>Que na de ferro e d’armas te deitou:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Já que nesta gostosa vaidade</l>
          <l>Tanto enlevas a leve fantasia,</l>
          <l>Já que à bruta crueza e feridade</l>
          <l>Puseste nome esforço e valentia,</l>
          <l>Já que prezas em tanta quantidades</l>
          <l>O desprezo da vida, que devia</l>
          <l>De ser sempre estimada, pois que já</l>
          <l>Temeu tanto perdê-la quem a dá:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="239" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Não tens junto contigo o Ismaelita,</l>
          <l>Com quem sempre terás guerras sobejas?</l>
          <l>Não segue ele do Arábio a lei maldita,</l>
          <l>Se tu pela de Cristo só pelejas?</l>
          <l>Não tem cidades mil, terra infinita,</l>
          <l>Se terras e riqueza mais desejas?</l>
          <l>Não é ele por armas esforçado,</l>
          <l>Se queres por vitórias ser louvado?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Deixas criar às portas o inimigo,</l>
          <l>Por ires buscar outro de tão longe,</l>
          <l>Por quem se despovoe o Reino antigo,</l>
          <l>Se enfraqueça e se vá deitando a longe?</l>
          <l>Buscas o incerto e incógnito perigo</l>
          <l>Por que a fama te exalte e te lisonje,</l>
          <l>Chamando-te senhor, com larga cópia,</l>
          <l>Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Ó maldito o primeiro que no mundo</l>
          <l>Nas ondas velas pôs em seco lenho,</l>
          <l>Dino da eterna pena do profundo,</l>
          <l>Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!</l>
          <l>Nunca juízo algum alto e profundo,</l>
          <l>Nem cítara sonora, ou vivo engenho,</l>
          <l>Te dê por isso fama nem memória,</l>
          <l>Mas contigo se acabe o nome e glória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Trouxe o filho de Jápeto do Céu</l>
          <l>O fogo que ajuntou ao peito humano,</l>
          <l>Fogo que o mundo em armas acendeu</l>
          <l>Em mortes, em desonras (grande engano).</l>
          <l>Quanto melhor nos fora, Prometeu,</l>
          <l>E quanto para o mundo menos dano,</l>
          <l>Que a tua estátua ilustre não tivera</l>
          <l>Fogo de altos desejos, que a movera!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="240" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Não cometera o moço miserando</l>
          <l>O carro alto do pai, nem o ar vazio</l>
          <l>O grande Arquitetor co’o filho, dando</l>
          <l>Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.</l>
          <l>Nenhum cometimento alto e nefando,</l>
          <l>Por fogo, ferro, água, calma e frio,</l>
          <l>Deixa intentado a humana geração.</l>
          <l>Mísera sorte, estranha condição!”</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Quinto</head>
        <lg>
          <pb n="260" edRef="#instituto"/>
          <l>“Estas sentenças tais o velho honrado</l>
          <l>Vociferando estava, quando abrimos</l>
          <l>As asas ao sereno e sossegado</l>
          <l>Vento, e do porto amado nos partimos.</l>
          <l>E, como é já no mar costume usado,</l>
          <l>A vela desfraldando, o céu ferimos,</l>
          <l>Dizendo: “Boa viagem”, logo o vento</l>
          <l>Nos troncos fez o usado movimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Entrava neste tempo o eterno lume</l>
          <l>No animal Nemeio truculento,</l>
          <l>E o mundo, que com tempo se consume,</l>
          <l>Na sexta idade andava enfermo e lento:</l>
          <l>Nela vê, como tinha por costume,</l>
          <l>Cursos do sol quatorze vezes cento,</l>
          <l>Com mais noventa e sete, em que corria,</l>
          <l>Quando no mar a armada se estendia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já a vista pouco e pouco se desterra</l>
          <l>Daqueles pátrios montes que ficavam;</l>
          <l>Ficava o caro Tejo, e a fresca serra</l>
          <l>De Sintra, e nela os olhos se alongavam.</l>
          <l>Ficava-nos também na amada terra</l>
          <l>O coração, que as mágoas lá deixavam;</l>
          <l>E já depois que toda se escondeu,</l>
          <l>Não vimos mais enfim que mar e céu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="261" edRef="#instituto"/>
          <l>“Assim fomos abrindo aqueles mares,</l>
          <l>Que geração alguma não abriu,</l>
          <l>As novas ilhas vendo e os novos ares,</l>
          <l>Que o generoso Henrique descobriu;</l>
          <l>De Mauritânia os montes e lugares,</l>
          <l>Terra que Anteu num tempo possuiu,</l>
          <l>Deixando à mão esquerda; que à direita</l>
          <l>Não há certeza doutra, mas suspeita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passamos a grande Ilha da Madeira,</l>
          <l>Que do muito arvoredo assim se chama,</l>
          <l>Das que nós povoamos, a primeira,</l>
          <l>Mais célebre por nome que por fama:</l>
          <l>Mas nem por ser do mundo a derradeira</l>
          <l>Se lhe aventajam quantas Vénus ama,</l>
          <l>Antes, sendo esta sua, se esquecera</l>
          <l>De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Deixamos de Massília a estéril costa,</l>
          <l>Onde seu gado os Azenegues pastam,</l>
          <l>Gente que as frescas águas nunca gosta</l>
          <l>Nem as ervas do campo bem lhe abastam:</l>
          <l>A terra a nenhum fruto enfim disposta,</l>
          <l>Onde as aves no ventre o ferro gastam,</l>
          <l>Padecendo de tudo extrema inópia,</l>
          <l>Que aparta a Barbaria de Etiópia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Passamos o limite aonde chega</l>
          <l>O Sol, que para o Norte os carros guia,</l>
          <l>Onde jazem os povos a quem nega</l>
          <l>O filho de Climene a cor do dia.</l>
          <l>Aqui gentes estranhas lava e rega</l>
          <l>Do negro Sanagá a corrente fria,</l>
          <l>Onde o Cabo Arsinário o nome perde,</l>
          <l>Chamando-se dos nossos Cabo Verde.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="262" edRef="#instituto"/>
          <l>“Passadas tendo já as Canárias ilhas,</l>
          <l>Que tiveram por nome Fortunadas,</l>
          <l>Entramos, navegando, pelas filhas</l>
          <l>Do velho Hespério, Hespérides chamadas;</l>
          <l>Terras por onde novas maravilhas</l>
          <l>Andaram vendo já nossas armadas.</l>
          <l>Ali tomamos porto com bom vento,</l>
          <l>Por tomarmos da terra mantimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aquela ilha apartamos, que tomou</l>
          <l>O nome do guerreiro Santiago,</l>
          <l>Santo que os Espanhóis tanto ajudou</l>
          <l>A fazerem nos Mouros bravo estrago.</l>
          <l>Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,</l>
          <l>Tornamos a cortar o imenso lago</l>
          <l>Do salgado Oceano, e assim deixamos</l>
          <l>A terra onde o refresco doce achamos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Por aqui rodeando a larga parte</l>
          <l>De África, que ficava ao Oriente,</l>
          <l>A província Jalofo, que reparte</l>
          <l>Por diversas nações a negra gente;</l>
          <l>A mui grande Mandinga, por cuja arte</l>
          <l>Logramos o metal rico e luzente,</l>
          <l>Que do curvo Gambeia as águas bebe,</l>
          <l>As quais o largo Atlântico recebe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“As Dórcadas passamos, povoadas</l>
          <l>Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,</l>
          <l>Que de vista total sendo privadas,</l>
          <l>Todas três dum só olho se serviam.</l>
          <l>Tu só, tu, cujas tranças encrespadas</l>
          <l>Netuno lá nas águas acendiam,</l>
          <l>Tornada já de todas a mais feia,</l>
          <l>De bívoras encheste a ardente areia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="263" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sempre enfim para o Austro a aguda proa</l>
          <l>No grandíssimo gólfão nos metemos,</l>
          <l>Deixando a serra aspérrima Leoa,</l>
          <l>Co’o cabo a quem das Palmas nome demos.</l>
          <l>O grande rio, onde batendo soa</l>
          <l>O mar nas praias notas que ali temos,</l>
          <l>Ficou, com a Ilha ilustre que tomou</l>
          <l>O nome dum que o lado a Deus tocou.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali o mui grande reino está de Congo,</l>
          <l>Por nós já convertido à fé de Cristo,</l>
          <l>Por onde o Zaire passa, claro e longo,</l>
          <l>Rio pelos antigos nunca visto.</l>
          <l>Por este largo mar enfim me alongo</l>
          <l>Do conhecido polo de Calisto,</l>
          <l>Tendo o término ardente já passado,</l>
          <l>Onde o meio do mundo é limitado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já descoberto tínhamos diante,</l>
          <l>Lá no novo Hemisfério, nova estrela,</l>
          <l>Não vista de outra gente, que ignorante</l>
          <l>Alguns tempos esteve incerta dela.</l>
          <l>Vimos a parte menos rutilante,</l>
          <l>E, por falta de estrelas, menos bela,</l>
          <l>Do Polo fixo, onde ainda se não sabe</l>
          <l>Que outra terra comece, ou mar acabe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Assim passando aquelas regiões</l>
          <l>Por onde duas vezes passa Apolo,</l>
          <l>Dois invernos fazendo e dois verões,</l>
          <l>Enquanto corre dum ao outro Polo,</l>
          <l>Por calmas, por tormentas e opressões,</l>
          <l>Que sempre faz no mar o irado Eolo,</l>
          <l>Vimos as Ursas, apesar de Juno,</l>
          <l>Banharem-se nas águas de Netuno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="264" edRef="#instituto"/>
          <l>“Contar-te longamente as perigosas</l>
          <l>Coisas do mar, que os homens não entendem:</l>
          <l>Súbitas trovoadas temerosas,</l>
          <l>Relâmpagos que o ar em fogo acendem,</l>
          <l>Negros chuveiros, noites tenebrosas,</l>
          <l>Bramidos de trovões que o mundo fendem,</l>
          <l>Não menos é trabalho, que grande erro,</l>
          <l>Ainda que tivesse a voz de ferro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Os casos vi que os rudos marinheiros,</l>
          <l>Que têm por mestra a longa experiência,</l>
          <l>Contam por certos sempre e verdadeiros,</l>
          <l>Julgando as cousas só pela aparência,</l>
          <l>E que os que têm juízos mais inteiros,</l>
          <l>Que só por puro engenho e por ciência,</l>
          <l>Veem do mundo os segredos escondidos,</l>
          <l>Julgam por falsos, ou mal entendidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vi, claramente visto, o lume vivo</l>
          <l>Que a marítima gente tem por santo</l>
          <l>Em tempo de tormenta e vento esquivo,</l>
          <l>De tempestade escura e triste pranto.</l>
          <l>Não menos foi a todos excessivo</l>
          <l>Milagre, e coisa certo de alto espanto,</l>
          <l>Ver as nuvens do mar com largo cano</l>
          <l>Sorver as altas águas do Oceano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eu o vi certamente (e não presumo</l>
          <l>Que a vista me enganava) levantar-se</l>
          <l>No ar um vaporzinho e subtil fumo,</l>
          <l>E, do vento trazido, rodear-se:</l>
          <l>Daqui levado um cano ao polo sumo</l>
          <l>Se via, tão delgado, que enxergar-se</l>
          <l>Dos olhos facilmente não podia:</l>
          <l>Da matéria das nuvens parecia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="265" edRef="#instituto"/>
          <l>“Ia-se pouco e pouco acrescentando</l>
          <l>E mais que um largo masto se engrossava;</l>
          <l>Aqui se estreita, aqui se alarga, quando</l>
          <l>Os golpes grandes de água em si chupava;</l>
          <l>Estava-se co’as ondas ondeando:</l>
          <l st:symbols="ok">Em cima dele u’a nuvem se espessava,</l>
          <l>Fazendo-se maior, mais carregada</l>
          <l>Co’o cargo grande d’água em si tomada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual roxa sanguessuga se veria</l>
          <l>Nos beiços da alimária (que imprudente,</l>
          <l>Bebendo a recolheu na fonte fria)</l>
          <l>Fartar co’o sangue alheio a sede ardente;</l>
          <l>Chupando mais e mais se engrossa e cria,</l>
          <l>Ali se enche e se alarga grandemente:</l>
          <l>Tal a grande coluna, enchendo, aumenta</l>
          <l>A si, e a nuvem negra que sustenta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas depois que de todo se fartou,</l>
          <l>O pó que tem no mar a si recolhe,</l>
          <l>E pelo céu chovendo enfim voou,</l>
          <l>Porque co’a água a jacente água molhe:</l>
          <l>As ondas torna as ondas que tomou,</l>
          <l>Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.</l>
          <l>Vejam agora os sábios na escritura,</l>
          <l>Que segredos são estes de Natura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Se os antigos filósofos, que andaram</l>
          <l>Tantas terras, por ver segredos delas,</l>
          <l>As maravilhas que eu passei, passaram,</l>
          <l>A tão diversos ventos dando as velas,</l>
          <l>Que grandes escrituras que deixaram!</l>
          <l>Que influição de signos e de estrelas!</l>
          <l>Que estranhezas, que grandes qualidades!</l>
          <l>E tudo sem mentir, puras verdades.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="266" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas já o Planeta que no céu primeiro</l>
          <l>Habita, cinco vezes apressada,</l>
          <l>Agora meio rosto, agora inteiro</l>
          <l>Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,</l>
          <l>Quando da etérea gávea um marinheiro,</l>
          <l>Pronto co’a vista, “Terra! Terra!” brada.</l>
          <l>Salta no bordo alvoroçada a gente</l>
          <l>Co’os olhos no horizonte do Oriente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A maneira de nuvens se começam</l>
          <l>A descobrir os montes que enxergamos;</l>
          <l>As âncoras pesadas se adereçam;</l>
          <l>As velas, já chegados, amainamos.</l>
          <l>E para que mais certas se conheçam</l>
          <l>As partes tão remotas onde estamos,.</l>
          <l>Pelo novo instrumento do Astrolábio,</l>
          <l>Invenção de subtil juízo e sábio,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desembarcamos logo na espaçosa,</l>
          <l>Parte, por onde a gente se espalhou,</l>
          <l>De ver cousas estranhas desejosa</l>
          <l>Da terra que outro povo não pisou;</l>
          <l>Porém eu co’os pilotos na arenosa</l>
          <l>Praia, por vermos em que parte estou,</l>
          <l>Me detenho em tomar do Sol a altura</l>
          <l>E compassar a universal pintura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Achamos ter de todo já passado</l>
          <l>Do Semicapro peixe a grande meta,</l>
          <l>Estando entre ele e o círculo gelado</l>
          <l>Austral, parte do mundo mais secreta.</l>
          <l>Eis, de meus companheiros rodeado,</l>
          <l>Vejo um estranho vir de pele preta,</l>
          <l>Que tomaram por força, enquanto apanha</l>
          <l>De mel os doces favos na montanha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="267" edRef="#instituto"/>
          <l>“Torvado vem na vista, como aquele</l>
          <l>Que não se vira nunca em tal extremo;</l>
          <l>Nem ele entende a nós, nem nós a ele,</l>
          <l>Selvagem mais que o bruto Polifemo.</l>
          <l>Começo-lhe a mostrar da rica pelo</l>
          <l>De Colcos o gentil metal supremo,</l>
          <l>A prata fina, a quente especiaria:</l>
          <l>A nada disto o bruto se movia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mando mostrar-lhe peças mais somenos:</l>
          <l>Contas de cristalino transparente,</l>
          <l>Alguns soantes cascavéis pequenos,</l>
          <l>Um barrete vermelho, cor contente.</l>
          <l>Vi logo, por sinais e por acenos,</l>
          <l>Que com isto se alegra grandemente.</l>
          <l>Mando-o soltar com tudo, e assim caminha</l>
          <l>Para a povoação que perto tinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas logo ao outro dia, seus parceiros,</l>
          <l>Todos nus, e da cor da escura treva,</l>
          <l>Descendo pelos ásperos outeiros,</l>
          <l>As peças vêm buscar que estoutro leva:</l>
          <l>Domésticos já tanto e companheiros</l>
          <l>Se nos mostram, que fazem que se atreva</l>
          <l>Fernão Veloso a ir ver da terra o trato</l>
          <l>E partir-se com eles pelo mato.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“É Veloso no braço confiado,</l>
          <l>E de arrogante crê que vai seguro;</l>
          <l>Mas, sendo um grande espaço já passado,</l>
          <l>Em que algum bom sinal saber procuro,</l>
          <l>Estando, a vista alçada, co’o cuidado</l>
          <l>No aventureiro, eis pelo monto duro</l>
          <l>Aparece, e, segundo ao mar caminha,</l>
          <l>Mais apressado do que fora, vinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="268" edRef="#instituto"/>
          <l>“O batel de Coelho foi depressa</l>
          <l>Pelo tomar; mas, antes que chegasse,</l>
          <l>Um Etíope ousado se arremessa</l>
          <l>A ele, por que não se lhe escapasse;</l>
          <l>Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa</l>
          <l>Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;</l>
          <l>Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,</l>
          <l>Se mostra um bando negro descoberto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Da espessa nuvem setas e pedradas</l>
          <l>Chovem sobre nós outros sem medida;</l>
          <l>E não foram ao vento em vão deitadas,</l>
          <l>Que esta perna trouxe eu dali ferida;</l>
          <l>Mas nós, como pessoas magoadas,</l>
          <l>A resposta lhe demos tão tecida,</l>
          <l>Que, em mais que nos barretes, se suspeita</l>
          <l>Que a cor vermelha levam desta feita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E sendo já, Veloso em salvamento,</l>
          <l>Logo nos recolhemos para a armada,</l>
          <l>Vendo a malícia feia e rudo intento</l>
          <l>Da gente bestial, bruta e malvada,</l>
          <l>De quem nenhum melhor conhecimento</l>
          <l>Pudemos ter da índia desejada</l>
          <l>Que estarmos ainda muito longe dela;</l>
          <l>E assim tornei a dar ao vento a vela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Disse então a Veloso um companheiro</l>
          <l>(Começando-se todos a sorrir)</l>
          <l>— “Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro</l>
          <l>É melhor de descer que de subir.”</l>
          <l>— “Sim, é, (responde o ousado aventureiro)</l>
          <l>Mas quando eu para cá vi tantos vir</l>
          <l>Daqueles cães, depressa um pouco vim,</l>
          <l>Por me lembrar que estáveis cá sem mim</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="269" edRef="#instituto"/>
          <l>“Contou então que, tanto que passaram</l>
          <l>Aquele monte, os negros de quem falo,</l>
          <l>Avante mais passar o não deixaram,</l>
          <l>Querendo, se não torna, ali matá-lo;</l>
          <l>E tornando-se, logo se emboscaram,</l>
          <l>Por que, saindo nós para tomá-lo,</l>
          <l>Nos pudessem mandar ao reino escuro,</l>
          <l>Por nos roubarem mais a seu seguro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porém já cinco Sóis eram passados</l>
          <l>Que dali nos partíramos, cortando</l>
          <l>Os mares nunca doutrem navegados,</l>
          <l>Prosperamente os ventos assoprando,</l>
          <l>Quando uma noite estando descuidados,</l>
          <l>Na cortadora proa vigiando,</l>
          <l>Uma nuvem que os ares escurece</l>
          <l>Sobre nossas cabeças aparece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tão temerosa vinha e carregada,</l>
          <l>Que pôs nos corações um grande medo;</l>
          <l>Bramindo o negro mar, de longe brada</l>
          <l>Como se desse em vão nalgum rochedo.</l>
          <l>— “Ó Potestade, disse, sublimada!</l>
          <l>Que ameaço divino, ou que segredo</l>
          <l>Este clima e este mar nos apresenta,</l>
          <l>Que mor cousa parece que tormenta?” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não acabava, quando uma figura</l>
          <l>Se nos mostra no ar, robusta e válida,</l>
          <l>De disforme e grandíssima estatura,</l>
          <l>O rosto carregado, a barba esquálida,</l>
          <l>Os olhos encovados, e a postura</l>
          <l>Medonha e má, e a cor terrena e pálida,</l>
          <l>Cheios de terra e crespos os cabelos,</l>
          <l>A boca negra, os dentes amarelos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="270" edRef="#instituto"/>
          <l>“Tão grande era de membros, que bem posso</l>
          <l>Certificar-te, que este era o segundo</l>
          <l>De Rodes estranhíssimo Colosso,</l>
          <l>Que um dos sete milagres foi do mundo:</l>
          <l>Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,</l>
          <l>Que pareceu sair do mar profundo:</l>
          <l>Arrepiam-se as carnes e o cabelo</l>
          <l>A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E disse: — “Ó gente ousada, mais que quantas</l>
          <l>No mundo cometeram grandes cousas,</l>
          <l>Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,</l>
          <l>E por trabalhos vãos nunca repousas,</l>
          <l>Pois os vedados términos quebrantas,</l>
          <l>E navegar meus longos mares ousas,</l>
          <l>Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,</l>
          <l>Nunca arados d’estranho ou próprio lenho:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Pois vens ver os segredos escondidos</l>
          <l>Da natureza e do úmido elemento,</l>
          <l>A nenhum grande humano concedidos</l>
          <l>De nobre ou de imortal merecimento,</l>
          <l>Ouve os danos de mim, que apercebidos</l>
          <l>Estão a teu sobejo atrevimento,</l>
          <l>Por todo o largo mar e pela terra,</l>
          <l>Que ainda hás de sojugar com dura guerra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Sabe que quantas naus esta viagem</l>
          <l>Que tu fazes, fizerem de atrevidas,</l>
          <l>Inimiga terão esta paragem</l>
          <l>Com ventos e tormentas desmedidas.</l>
          <l>E da primeira armada que passagem</l>
          <l>Fizer por estas ondas insofridas,</l>
          <l>Eu farei d’improviso tal castigo,</l>
          <l>Que seja mor o dano que o perigo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="271" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Aqui espero tomar, se não me engano,</l>
          <l>De quem me descobriu, suma vingança.</l>
          <l>E não se acabará só nisto o dano</l>
          <l>Da vossa pertinace confiança;</l>
          <l>Antes em vossas naus vereis cada ano,</l>
          <l>Se é verdade o que meu juízo alcança,</l>
          <l>Naufrágios, perdições de toda sorte,</l>
          <l>Que o menor mal de todos seja a morte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “É do primeiro Ilustre, que a ventura</l>
          <l>Com fama alta fizer tocar os Céus,</l>
          <l>Serei eterna e nova sepultura,</l>
          <l>Por juízos incógnitos de Deus.</l>
          <l>Aqui porá da Turca armada dura</l>
          <l>Os soberbos e prósperos troféus;</l>
          <l>Comigo de seus danos o ameaça</l>
          <l>A destruída Quíloa com Mombaça.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Outro também virá de honrada fama,</l>
          <l>Liberal, cavaleiro, enamorado,</l>
          <l>E consigo trará a formosa dama</l>
          <l>Que Amor por grã mercê lhe terá dado.</l>
          <l>Triste ventura e negro fado os chama</l>
          <l>Neste terreno meu, que duro e irado</l>
          <l>Os deixará dum cru naufrágio vivos</l>
          <l>Para verem trabalhos excessivos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Verão morrer com fome os filhos caros,</l>
          <l>Em tanto amor gerados e nascidos;</l>
          <l>Verão os Cafres ásperos e avaros</l>
          <l>Tirar à linda dama seus vestidos;</l>
          <l>Os cristalinos membros e perclaros</l>
          <l>A calma, ao frio, ao ar verão despidos,</l>
          <l>Depois de ter pisada longamente</l>
          <l>Co’os delicados pés a areia ardente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="272" edRef="#instituto"/>
          <l>— “E verão mais os olhos que escaparem</l>
          <l>De tanto mal, de tanta desventura,</l>
          <l>Os dois amantes míseros ficarem</l>
          <l>Na férvida e implacável espessura.</l>
          <l>Ali, depois que as pedras abrandarem</l>
          <l>Com lágrimas de dor, de mágoa pura,</l>
          <l>Abraçados as almas soltarão</l>
          <l>Da formosa e misérrima prisão.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mais ia por diante o monstro horrendo</l>
          <l>Dizendo nossos fados, quando alçado</l>
          <l>Lhe disse eu: — Quem és tu? que esse estupendo</l>
          <l>Corpo certo me tem maravilhado. —</l>
          <l>A boca e os olhos negros retorcendo,</l>
          <l>E dando um espantoso e grande brado,</l>
          <l>Me respondeu, com voz pesada e amara,</l>
          <l>Como quem da pergunta lhe pesara:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Eu sou aquele oculto e grande Cabo,</l>
          <l>A quem chamais vós outros Tormentório,</l>
          <l>Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,</l>
          <l>Plínio, e quantos passaram, fui notório.</l>
          <l>Aqui toda a Africana costa acabo</l>
          <l>Neste meu nunca visto Promontório,</l>
          <l>Que para o Polo Antárctico se estende,</l>
          <l>A quem vossa ousadia tanto ofende.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Fui dos filhos aspérrimos da Terra,</l>
          <l>Qual Encélado, Egeu e o Centimano;</l>
          <l>Chamei-me Adamastor, e fui na guerra</l>
          <l>Contra o que vibra os raios de Vulcano;</l>
          <l>Não que pusesse serra sobre serra,</l>
          <l>Mas conquistando as ondas do Oceano,</l>
          <l>Fui capitão do mar, por onde andava</l>
          <l>A armada de Netuno, que eu buscava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="273" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Amores da alta esposa de Peleu</l>
          <l>Me fizeram tomar tamanha empresa.</l>
          <l>Todas as Deusas desprezei do céu,</l>
          <l>Só por amar das águas a princesa.</l>
          <l>Um dia a vi co’as filhas de Nereu</l>
          <l>Sair nua na praia, e logo presa</l>
          <l>A vontade senti de tal maneira</l>
          <l>Que ainda não sinto coisa que mais queira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Como fosse impossível alcançá-la</l>
          <l>Pela grandeza feia de meu gesto,</l>
          <l>Determinei por armas de tomá-la,</l>
          <l>E a Doris este caso manifesto.</l>
          <l>De medo a Deusa então por mim lhe fala;</l>
          <l>Mas ela, com um formoso riso honesto,</l>
          <l>Respondeu: — “Qual será o amor bastante</l>
          <l>De Ninfa que sustente o dum Gigante?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Contudo, por livrarmos o Oceano</l>
          <l>De tanta guerra, eu buscarei maneira,</l>
          <l>Com que, com minha honra, escuse o dano.”</l>
          <l>Tal resposta me torna a mensageira.</l>
          <l>Eu, que cair não pude neste engano,</l>
          <l>(Que é grande dos amantes a cegueira)</l>
          <l>Encheram-me com grandes abondanças</l>
          <l>O peito de desejos e esperanças.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Já néscio, já da guerra desistindo,</l>
          <l>Uma noite de Dóris prometida,</l>
          <l>Me aparece de longe o gesto lindo</l>
          <l>Da branca Tétis única despida:</l>
          <l>Como doido corri de longe, abrindo</l>
          <l>Os braços, para aquela que era vida</l>
          <l>Deste corpo, e começo os olhos belos</l>
          <l>A lhe beijar, as faces e os cabelos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="274" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Ó que não sei de nojo como o conte!</l>
          <l>Que, crendo ter nos braços quem amava,</l>
          <l>Abraçado me achei com um duro monte</l>
          <l>De áspero mato e de espessura brava.</l>
          <l>Estando com um penedo fronte a fronte,</l>
          <l>Que eu pelo rosto angélico apertava</l>
          <l>Não fiquei homem não, mas mudo e quedo,</l>
          <l>E junto dum penedo outro penedo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,</l>
          <l>Já que minha presença não te agrada,</l>
          <l>Que te custava ter-me neste engano,</l>
          <l>Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?</l>
          <l>Daqui me parto irado, e quase insano</l>
          <l>Da mágoa e da desonra ali passada,</l>
          <l>A buscar outro inundo, onde não visse</l>
          <l>Quem de meu pranto e de meu mal se risse,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Eram já neste tempo meus irmãos</l>
          <l>Vencidos e em miséria extrema postos;</l>
          <l>E por mais segurar-se os Deuses vãos,</l>
          <l>Alguns a vários montes sotopostos:</l>
          <l>E como contra o Céu não valem mãos,</l>
          <l>Eu, que chorando andava meus desgostos,</l>
          <l>Comecei a sentir do fado imigo</l>
          <l>Por meus atrevimentos o castigo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Converte-se-me a carne em terra dura,</l>
          <l>Em penedos os ossos se fizeram,</l>
          <l>Estes membros que vês e esta figura</l>
          <l>Por estas longas águas se estenderam;</l>
          <l>Enfim, minha grandíssima estatura</l>
          <l>Neste remoto cabo converteram</l>
          <l>Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,</l>
          <l>Me anda Tétis cercando destas águas.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="275" edRef="#instituto"/>
          <l>“Assim contava, e com um medonho choro</l>
          <l>Súbito diante os olhos se apartou;</l>
          <l>Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro</l>
          <l>Bramido muito longe o mar soou.</l>
          <l>Eu, levantando as mãos ao santo coro</l>
          <l>Dos anjos, que tão longe nos guiou,</l>
          <l>A Deus pedi que removesse os duros</l>
          <l>Casos, que Adamastor contou futuros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já Flegon e Piróis vinham tirando</l>
          <l>Com os outros dois o carro radiante,</l>
          <l>Quando a terra alta se nos foi mostrando,</l>
          <l>Em que foi convertido o grão Gigante.</l>
          <l>Ao longo desta costa, começando</l>
          <l>Já de cortar as ondas do Levante,</l>
          <l>Por ela abaixo um pouco navegamos,</l>
          <l>Onde segunda vez terra tomamos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A gente que esta terra possuía,</l>
          <l>Posto que todos Etiopes eram,</l>
          <l>Mais humana no trato parecia</l>
          <l>Que os outros, que tão mal nos receberam.</l>
          <l>Com bailos e com festas de alegria</l>
          <l>Pela praia arenosa a nós vieram,</l>
          <l>As mulheres consigo e o manso gado</l>
          <l>Que apascentavam, gordo e bem criado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“As mulheres queimadas vêm em cima</l>
          <l>Dos vagarosos bois, ali sentadas,</l>
          <l>Animais que eles têm em mais estima</l>
          <l>Que todo o outro gado das manadas.</l>
          <l>Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,</l>
          <l>Na sua língua cantam concertadas</l>
          <l>Com o doce som das rústicas avenas,</l>
          <l>Imitando de Títiro as Camenas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="276" edRef="#instituto"/>
          <l>“Estes, como na vista prazenteiros</l>
          <l>Fossem, humanamente nos trataram,</l>
          <l>Trazendo-nos galinhas e carneiros,</l>
          <l>A troco doutras peças, que levaram.</l>
          <l>Mas como nunca enfim meus companheiros</l>
          <l>Palavra sua alguma lhe alcançaram</l>
          <l>Que desse algum sinal do que buscamos,</l>
          <l>As velas dando, as âncoras levamos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já aqui tínhamos dado um grã rodeio</l>
          <l>A costa negra de África, e tornava</l>
          <l>A proa a demandar o ardente meio</l>
          <l>Do Céu, e o polo Antártico ficava:</l>
          <l>Aquele ilhéu deixamos, onde veio</l>
          <l>Outra armada primeira, que buscava</l>
          <l>O Tormentório cabo, e descoberto,</l>
          <l>Naquele ilhéu fez seu limite certo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Daqui fomos cortando muitos dias</l>
          <l>Entre tormentas tristes e bonanças,</l>
          <l>No largo mar fazendo novas vias,</l>
          <l>Só conduzidos de árduas esperanças.</l>
          <l>C’o mar um tempo andamos em porfias,</l>
          <l>Que, como tudo nele são mudanças.</l>
          <l>Corrente nele achamos tão possante</l>
          <l>Que passar não deixava por diante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Era maior a força em demasia,</l>
          <l>Segundo para trás nos obrigava,</l>
          <l>Do mar, que contra nós ali corria,</l>
          <l>Que por nós a do vento que assoprava.</l>
          <l>Injuriado Noto da porfia</l>
          <l>Em que c’o mar (parece) tanto estava,</l>
          <l>Os assopros esforça iradamente,</l>
          <l>Com que nos fez vencer a grão corrente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="277" edRef="#instituto"/>
          <l>“Trazia o Sol o dia celebrado,</l>
          <l>Em que três Reis das partes do Oriento</l>
          <l>Foram buscar um Rei de pouco nado,</l>
          <l>No qual Rei outros três há juntamente.</l>
          <l>Neste dia outro porto foi tomado</l>
          <l>Por nós, da mesma já contada gente,</l>
          <l>Num largo rio, ao qual o no e demos</l>
          <l>Do dia, em que por ele nos metemos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desta gente refresco algum tomamos,</l>
          <l>E do rio fresca água; mas contudo</l>
          <l>Nenhum sinal aqui da Índia achamos</l>
          <l>No Povo, com nós outros quase mudo.</l>
          <l>Ora vê, Rei, quamanha terra andamos,</l>
          <l>Sem sair nunca deste povo rudo,</l>
          <l>Sem vermos nunca nova nem sinal</l>
          <l>Da desejada parte Oriental.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ora imagina agora quão coitados</l>
          <l>Andaríamos todos, quão perdidos,</l>
          <l>De fomes, de tormentas quebrantados,</l>
          <l>Por climas e por mares não sabidos,</l>
          <l>E do esperar comprido tão cansados,</l>
          <l>Quanto a desesperar já compelidos,</l>
          <l>Por céus não naturais, de qualidade</l>
          <l>Inimiga de nossa humanidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Corrupto já e danado o mantimento,</l>
          <l>Danoso e mau ao fraco corpo humano,</l>
          <l>E além disso nenhum contentamento,</l>
          <l>Que sequer da esperança fosse engano.</l>
          <l>Crês tu que, se este nosso ajuntamento</l>
          <l>De soldados não fora Lusitano,</l>
          <l>Que durara ele tanto obediente</l>
          <l>Por ventura a seu Rei e a seu regente?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="278" edRef="#instituto"/>
          <l>“Crês tu que já não foram levantados</l>
          <l>Contra seu Capitão, se os resistira,</l>
          <l>Fazendo-se piratas, obrigados</l>
          <l>De desesperação, de fome, de ira?</l>
          <l>Grandemente, por certo, estão provados,</l>
          <l>Pois que nenhum trabalho grande os tira</l>
          <l>Daquela Portuguesa alta excelência</l>
          <l>De lealdade firme, e obediência.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Deixando o porto enfim do doce rio</l>
          <l>E tornando a cortar a água salgada,</l>
          <l>Fizemos desta costa algum desvio,</l>
          <l>Deitando para o pego toda a armada;</l>
          <l>Porque, ventando Noto manso e frio,</l>
          <l>Não nos apanhasse a água da enseada,</l>
          <l>Que a costa faz ali daquela banda</l>
          <l>Donde a rica Sofala o ouro manda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esta passada, logo o leve leme</l>
          <l>Encomendado ao sacro Nicolau,</l>
          <l>Para onde o mar na costa brada e geme,</l>
          <l>A proa inclina duma e doutra nau;</l>
          <l>Quando indo o coração que espera e teme</l>
          <l>E que tanto fiou dum fraco pau</l>
          <l>Do que esperava já desesperado,</l>
          <l>Foi duma novidade alvoroçado</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E foi que, estando já da costa perto,</l>
          <l>Onde as praias e vales bem se viam,</l>
          <l>Num rio, que ali sai ao mar aberto,</l>
          <l>Batéis à vela entravam e saíam.</l>
          <l>Alegria mui grande foi por certo</l>
          <l>Acharmos já pessoas que sabiam</l>
          <l>Navegar, porque entre elas esperamos</l>
          <l>De achar novas algumas, como achamos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="279" edRef="#instituto"/>
          <l>“Etíopes são todos, mas parece</l>
          <l>Que com gente melhor comunicavam;</l>
          <l>Palavra alguma Arábia se conhece</l>
          <l>Entre a linguagem sua que falavam;</l>
          <l>E com pano delgado, que se tece</l>
          <l>De algodão, as cabeças apertavam;</l>
          <l>Com outro, que de tinta azul se tinge,</l>
          <l>Cada um as vergonhosas partes cinge.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Pela Arábica língua, que mal falam,</l>
          <l>E que Fernão Martins mui bem entende,</l>
          <l>Dizem que por naus, que em grandeza igualam</l>
          <l>As nossas, o seu mar se corta e fende;</l>
          <l>Mas que lá donde sai o Sol, se abalam</l>
          <l>Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,</l>
          <l>E do Sul para o Sol, terra onde havia</l>
          <l>Gente, assim como nós, da cor do dia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mui grandemente aqui nos alegramos</l>
          <l>Com a gente, e com as novas muito mais:</l>
          <l>Pelos sinais que neste rio achamos</l>
          <l>O nome lhe ficou dos Bons Sinais.</l>
          <l>Um padrão nesta terra alevantamos,</l>
          <l>Que, para assinalar lugares tais,</l>
          <l>Trazia alguns; o nome tem do belo</l>
          <l>Guiador de Tobias a Gabelo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui de limos, cascas e d’ostrinhos,</l>
          <l>Nojosa criação das águas fundas,</l>
          <l>Alimpamos as naus, que dos caminhos</l>
          <l>Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.</l>
          <l>Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,</l>
          <l>Com mostras aprazíveis e jocundas,</l>
          <l>louvemos sempre o usado mantimento,</l>
          <l>Limpos de todo o falso pensamento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="280" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas não foi, da esperança grande e imensa</l>
          <l>Que nesta terra houvemos, limpa e pura</l>
          <l>A alegria; mas logo a recompensa</l>
          <l>A Ramnúsia com nova desventura.</l>
          <l>Assim no céu sereno se dispensa:</l>
          <l>Com esta condição pesada e dura</l>
          <l>Nascemos: o pesar terá firmeza,</l>
          <l>Mas o bem logo muda a natureza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E foi que de doença crua e feia,</l>
          <l>A mais que eu nunca vi, desampararam</l>
          <l>Muitos a vida, e em terra estranha e alheia</l>
          <l>Os ossos para sempre sepultaram.</l>
          <l>Quem haverá que, sem o ver, o creia?</l>
          <l>Que tão disformemente ali lhe incharam</l>
          <l>As gengivas na boca, que crescia</l>
          <l>A carne, e juntamente apodrecia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“— Apodrecia com um fétido e bruto</l>
          <l>Cheiro, que o ar vizinho inficionava;</l>
          <l>Não tínhamos ali médico astuto,</l>
          <l>Cirurgião subtil menos se achava;</l>
          <l>Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,</l>
          <l>Pela carne já podre assim cortava</l>
          <l>Como se fora morta, e bem convinha,</l>
          <l>Pois que morto ficava quem a tinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Enfim que nesta incógnita espessura</l>
          <l>Deixamos para sempre os companheiros,</l>
          <l>Que em tal caminho e em tanta desventura</l>
          <l>Foram sempre conosco aventureiros.</l>
          <l>Quão fácil é ao corpo a sepultura!</l>
          <l>Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros</l>
          <l>Estranhos, assim mesmo como aos nossos,</l>
          <l>Receberão de todo o Ilustre os ossos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="281" edRef="#instituto"/>
          <l>“Assim que, deste porto nos partirmos</l>
          <l>Com maior esperança e mor tristeza,</l>
          <l>E pela costa abaixo o mar abrirmos</l>
          <l>Buscando algum sinal de mais firmeza.</l>
          <l>Na dura Moçambique enfim surgimos,</l>
          <l>De cuja falsidade e má vileza</l>
          <l>Já serás sabedor, e dos enganos</l>
          <l>Dos povos de Mombaça pouco humanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Até que aqui no teu seguro porto,</l>
          <l>Cuja brandura e doce tratamento</l>
          <l>Dará saúde a um vivo, e vida a um morto,</l>
          <l>Nos trouxe a piedade do alto assento.</l>
          <l>Aqui repouso, aqui doce conforto,</l>
          <l>Nova quietação do pensamento</l>
          <l>Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste,</l>
          <l>Te contei tudo quanto me pediste.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Julgas agora, Rei, se houve no mundo</l>
          <l>Gentes que tais caminhos cometessem?</l>
          <l>Crês tu que tanto Eneias e o facundo</l>
          <l>Ulisses pelo inundo se estendessem?</l>
          <l>Ousou algum a ver do mar profundo,</l>
          <l>Por mais versos que dele se escrevessem,</l>
          <l>Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,</l>
          <l>E do que ainda hei de ver, a oitava parte?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esse que bebeu tanto da água Aónia,</l>
          <l>Sobre quem tem contenda peregrina,</l>
          <l>Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia,</l>
          <l>Atenas, Ios, Argo e Salamina:</l>
          <l>Esse outro que esclarece toda Ausónia,</l>
          <l>A cuja voz altíssona e divina</l>
          <l>Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece,</l>
          <l>Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="282" edRef="#instituto"/>
          <l>Cantem, louvem e escrevam sempre extremos</l>
          <l>Desses seus Semideuses, e encareçam,</l>
          <l>Fingindo Magis Circes, Polifemos,</l>
          <l>Sirenas que com o canto os adormeçam;</l>
          <l>Deem-lhe mais navegar à vela e remos</l>
          <l>Os Cicones, e a torra onde se esqueçam</l>
          <l>Os companheiros, em gostando o Loto;</l>
          <l>Deem-lhe perder nas águas o piloto;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ventos soltos lhe finjam, e imaginem</l>
          <l>Dos odres e Calipsos namoradas;</l>
          <l>Harpias que o manjar lhe contaminem;</l>
          <l>Descer às sombras nuas já passadas:</l>
          <l>Que por muito e por muito que se afinem</l>
          <l>Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,</l>
          <l>A verdade que eu conto nua e pura</l>
          <l>Vence toda grandíloqua escritura.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da boca do facundo Capitão</l>
          <l>Pendendo estavam todos embebidos,</l>
          <l>Quando deu fim à longa narração</l>
          <l>Dos altos feitos grandes e subidos.</l>
          <l>Louva o Rei o sublime coração</l>
          <l>Dos Reis em tantas guerras conhecidos;</l>
          <l>Da gente louva a antiga fortaleza,</l>
          <l>A lealdade de ânimo e nobreza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vai recontando o povo, que se admira,</l>
          <l>O caso cada qual que mais notou;</l>
          <l>Nenhum deles da gente os olhos tira,</l>
          <l>Que tão longos caminhos rodeou.</l>
          <l>Mas já o mancebo Délio as rédeas vira</l>
          <l>Que o irmão de Lampécia mal guiou,</l>
          <l>Por vir a descansar nos Tétios braços;</l>
          <l>E El-Rei se vai do mar aos nobres paços.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="283" edRef="#instituto"/>
          <l>Quão doce é o louvor e a justa glória</l>
          <l>Dos próprios feitos, quando são soados!</l>
          <l>Qualquer nobre trabalha que em memória</l>
          <l>Vença ou iguale os grandes já passados.</l>
          <l>As invejas da ilustre e alheia história</l>
          <l>Fazem mil vezes feitos sublimados.</l>
          <l>Quem valerosas obras exercita,</l>
          <l>Louvor alheio muito o esperta e incita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não tinha em tanto os feitos gloriosos</l>
          <l>De Aquiles, Alexandro na peleja,</l>
          <l>Quanto de quem o canta, os numerosos</l>
          <l>Versos; isso só louva, isso deseja.</l>
          <l>Os troféus de Melcíades famosos</l>
          <l>Temístocles despertam só de inveja,</l>
          <l>E diz que nada tanto o deleitava</l>
          <l>Como a voz que seus feitos celebrava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Trabalha por mostrar Vasco da Gama</l>
          <l>Que essas navegações que o mundo canta</l>
          <l>Não merecem tamanha glória e fama</l>
          <l>Como a sua, que o céu e a terra espanta.</l>
          <l>Si; mas aquele Herói, que estima e ama</l>
          <l>Com dons, mercês, favores e honra tanta</l>
          <l>A lira Mantuana, faz que soe</l>
          <l>Eneias, e a Romana glória voe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dá a terra lusitana Cipiões,</l>
          <l>Césares, Alexandros, e dá Augustos;</l>
          <l>Mas não lhe dá contudo aqueles dois</l>
          <l>Cuja falta os faz duros e robustos.</l>
          <l>Octávio, entre as maiores opressões,</l>
          <l>Compunha versos doutos e venustos.</l>
          <l>Não dirá Fúlvia certo que é mentira,</l>
          <l>Quando a deixava António por Glafira,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="284" edRef="#instituto"/>
          <l>Vai César, sojugando toda França,</l>
          <l>E as armas não lhe impedem a ciência;</l>
          <l>Mas, numa mão a pena e noutra a lança,</l>
          <l>Igualava de Cícero a eloquência.</l>
          <l>O que de Cipião se sabe e alcança,</l>
          <l>É nas comédias grande experiência.</l>
          <l>Lia Alexandro a Homero de maneira</l>
          <l>Que sempre se lhe sabe à cabeceira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Enfim, não houve forte capitão,</l>
          <l>Que não fosse também douto e ciente,</l>
          <l>Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,</l>
          <l>Senão da Portuguesa tão somente.</l>
          <l>Sem vergonha o não digo, que a razão</l>
          <l>De algum não ser por versos excelente,</l>
          <l>É não se ver prezado o verso e rima,</l>
          <l>Porque, quem não sabe arte, não na estima.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por isso, e não por falta de natura,</l>
          <l>Não há também Virgílios nem Homeros;</l>
          <l>Nem haverá, se este costume dura,</l>
          <l>Pios Eneias, nem Aquiles feros.</l>
          <l>Mas o pior de tudo é que a ventura</l>
          <l>Tão ásperos os fez, e tão austeros,</l>
          <l>Tão rudos, e de engenho tão remisso,</l>
          <l>Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As Musas agradeça o nosso Gama</l>
          <l>o Muito amor da Pátria, que as obriga</l>
          <l>A dar aos seus na lira nome e fama</l>
          <l>De toda a ilustro e bélica fadiga:</l>
          <l>Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,</l>
          <l>Calíope não tem por tão amiga,</l>
          <l>Nem as filhas do Tejo, que deixassem</l>
          <l>As telas douro fino, e que o cantassem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="285" edRef="#instituto"/>
          <l>Porque o amor fraterno e puro gosto</l>
          <l>De dar a todo o Lusitano feito</l>
          <l>Seu louvor, é somente o pressuposto</l>
          <l>Das Tágides gentis, e seu respeito.</l>
          <l>Porém não deixe enfim de ter disposto</l>
          <l>Ninguém a grandes obras sempre o peito,</l>
          <l>Que por esta, ou por outra qualquer via,</l>
          <l>Não perderá seu preço, e sua valia.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Sexto</head>
        <lg>
          <pb n="305" edRef="#instituto"/>
          <l>Não sabia em que modo festejasse</l>
          <l>O Rei Pagão os fortes navegantes,</l>
          <l>Para que as amizades alcançasse</l>
          <l>Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;</l>
          <l>Pesa-lhe que tão longe o aposentasse</l>
          <l>Das Europeias terras abundantes</l>
          <l>A ventura, que não no fez vizinho</l>
          <l>Donde Hércules ao mar abriu caminho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com jogos, danças e outras alegrias,</l>
          <l>A segundo a polícia Melindana,</l>
          <l>Com usadas e ledas pescarias,</l>
          <l>Com que a Lageia António alegra e engana</l>
          <l>Este famoso Rei, todos os dias,</l>
          <l>Festeja a companhia Lusitana,</l>
          <l>Com banquetes, manjares desusados,</l>
          <l>Com frutas, aves, carnes e pescados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas vendo o Capitão que se detinha</l>
          <l>Já mais do que devia, e o fresco vento</l>
          <l>O convida que parta e tome asinha</l>
          <l>Os pilotos da terra e mantimento,</l>
          <l>Não se quer mais deter, que ainda tinha</l>
          <l>Muito para cortar do salso argento;</l>
          <l>Já do Pagão benigno se despede,</l>
          <l>Que a todos amizade longa pede.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="306" edRef="#instituto"/>
          <l>Pede-lhe mais que aquele porto seja</l>
          <l>Sempre com suas frotas visitado,</l>
          <l>Que nenhum outro bem maior deseja,</l>
          <l>Que dar a tais barões seu reino e estado;</l>
          <l>E que enquanto seu corpo o esprito reja,</l>
          <l>Estará de contino aparelhado</l>
          <l>A pôr a vida e reino totalmente</l>
          <l>Por tão bom Rei, por tão sublime gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Outras palavras tais lhe respondia</l>
          <l>O Capitão, o logo as velas dando,</l>
          <l>Para as terras da Aurora se partia,</l>
          <l>Que tanto tempo há já que vai buscando.</l>
          <l>No piloto que leva não havia</l>
          <l>Falsidade, mas antes vai mostrando</l>
          <l>A navegação certa, e assim caminha</l>
          <l>Já mais seguro do que dantes vinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As ondas navegavam do Oriente</l>
          <l>Já nos mares da Índia, e enxergavam</l>
          <l>Os tálamos do Sol, que nasce ardente;</l>
          <l>Já quase seus desejos se acabavam.</l>
          <l>Mas o mau de Tioneu, que na alma sente</l>
          <l>As venturas, que então se aparelhavam</l>
          <l>A gente Lusitana, delas dina,</l>
          <l>Arde, morre, blasfema e desatina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Via estar todo o Céu determinado</l>
          <l>De fazer de Lisboa nova Roma;</l>
          <l>Não no pode estorvar, que destinado</l>
          <l>Está doutro poder que tudo doma.</l>
          <l>Do Olimpo desce enfim desesperado;</l>
          <l>Novo remédio em terra busca e toma:</l>
          <l>Entra no úmido reino, e vai-se à corte</l>
          <l>Daquele a quem o mar caiu em sorte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="307" edRef="#instituto"/>
          <l>No mais interno fundo das profundas</l>
          <l>Cavernas altas, onde o mar se esconde,</l>
          <l>Lá donde as ondas saem furibundas,</l>
          <l>Quando às iras do vento o mar responde,</l>
          <l>Netuno mora, e moram as jocundas</l>
          <l>Nereidas, e outros Deuses do mar, onde</l>
          <l>As águas campo deixam às cidades,</l>
          <l>Que habitam estas úmidas deidades.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Descobre o fundo nunca descoberto</l>
          <l>Das areias ali de prata fina;</l>
          <l>Torres altas se veem no campo aberto</l>
          <l>Da transparente massa cristalina:</l>
          <l>Quanto se chegam mais os olhos perto,</l>
          <l>Tanto menos a vista determina</l>
          <l>Se é cristal o que vê, se diamante,</l>
          <l>Que assim se mostra claro e radiante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As portas douro fino, e marchetadas</l>
          <l>Do rico aljôfar que nas conchas nasce,</l>
          <l>De escultura formosa estão lavradas,</l>
          <l>Na qual o irado Baco a vista pasce;</l>
          <l>E vê primeiro em cores variadas</l>
          <l>Do velho Caos a tão confusa face;</l>
          <l>Veem-se os quatro elementos trasladados</l>
          <l>Em diversos ofícios ocupados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali sublime o Fogo estava em cima,</l>
          <l>Que em nenhuma matéria se sustinha;</l>
          <l>Daqui as coisas vivas sempre anima,</l>
          <l>Depois que Prometeu furtado o tinha.</l>
          <l>Logo após ele leve se sublima</l>
          <l>O invisível Ar, que mais asinha</l>
          <l>Tomou lugar, e nem por quente ou frio,</l>
          <l>Algum deixa no mundo estar vazio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="308" edRef="#instituto"/>
          <l>Estava a terra em montes revestida</l>
          <l>De verdes ervas, e árvores floridas,</l>
          <l>Dando pasto diverso e dando vida</l>
          <l>As alimárias nela produzidas.</l>
          <l>A clara forma ali estava esculpida</l>
          <l>Das águas entre a terra desparzidas,</l>
          <l>De pescados criando vários modos,</l>
          <l>Com seu humor mantendo os corpos todos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Noutra parte esculpida estava a guerra,</l>
          <l>Que tiveram os Deuses com os Gigantes;</l>
          <l>Está Tifeu debaixo da alta serra</l>
          <l>De Etna, que as flamas lança crepitantes;</l>
          <l>Esculpido se vê ferindo a terra</l>
          <l>Netuno, quando as gentes ignorantes</l>
          <l>Dele o cavalo houveram, e a primeira</l>
          <l>De Minerva pacífica oliveira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pouca tardança faz Lieu irado</l>
          <l>Na vista destas coisas, mas entrando</l>
          <l>Nos paços de Netuno, que avisado</l>
          <l>Da vinda sua, o estava já aguardando,</l>
          <l>As portas o recebe, acompanhado</l>
          <l>Das Ninfas, que se estão maravilhando</l>
          <l>De ver que, cometendo tal caminho,</l>
          <l>Entre no reino d’água o Rei do vinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó Netuno, lhe disse, não te espantes</l>
          <l>De Baco nos teus reinos receberes,</l>
          <l>Porque também com os grandes e possantes</l>
          <l>Mostra a Fortuna injusta seus poderes.</l>
          <l>Manda chamar os Deuses do mar, antes</l>
          <l>Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;</l>
          <l>Verão da desventura grandes modos:</l>
          <l>Ouçam todos o mal, que toca a todos.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="309" edRef="#instituto"/>
          <l>Julgando já Netuno que seria</l>
          <l>Estranho caso aquele, logo manda</l>
          <l>Tritão, que chame os Deuses da água fria,</l>
          <l>Que o mar habitam duma e doutra banda.</l>
          <l>Tritão, que de ser filho se gloria</l>
          <l>Do Rei e de Salácia veneranda,</l>
          <l>Era mancebo grande, negro e feio,</l>
          <l>Trombeta de seu pai, e seu correio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os cabelos da barba, e os que descem</l>
          <l>Da cabeça nos ombros, todos eram</l>
          <l>Uns limos prenhes d’água, e bem parecem</l>
          <l>Que nunca brando pêntem conheceram;</l>
          <l>Nas pontas pendurados não falecem</l>
          <l>Os negros misilhões, que ali se geram,</l>
          <l>Na cabeça por gorra tinha posta</l>
          <l>Uma muito grande casca de lagosta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O corpo nu, e os membros genitais,</l>
          <l>Por não ter ao nadar impedimento,</l>
          <l>Mas porém de pequenos animais</l>
          <l>Do mar todos cobertos cento e cento:</l>
          <l>Camarões e cangrejos, e outros mais</l>
          <l>Que recebem de Febe crescimento,</l>
          <l>Ostras, e camarões do musgo sujos,</l>
          <l>As costas com a casca os caramujos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na mão a grande concha retorcida</l>
          <l>Que trazia, com força, já tocava;</l>
          <l>A voz grande canora foi ouvida</l>
          <l>Por todo o mar, que longe retumbava.</l>
          <l>Já toda a companhia apercebida</l>
          <l>Dos Deuses para os paços caminhava</l>
          <l>Do Deus, que fez os muros de Dardânia,</l>
          <l>Destruídos depois da Grega insânia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="310" edRef="#instituto"/>
          <l>Vinha o padre Oceano acompanhado</l>
          <l>Dos filhos e das filhas que gerara;</l>
          <l>Vem Nereu, que com Dóris foi casado,</l>
          <l>Que todo o mar de Ninfas povoara;</l>
          <l>O profeta Proteu, deixando o gado</l>
          <l>Marítimo pascer pela água amara,</l>
          <l>Ali veio também, mas já sabia</l>
          <l>O que o padre Lieu no mar queria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinha por outra parte a linda esposa</l>
          <l>De Netuno, de Celo e Vesta filha,</l>
          <l>Grave e Ieda no gesto, e tão formosa</l>
          <l>Que se amansava o mar de maravilha.</l>
          <l>Vestida uma camisa preciosa</l>
          <l>Trazia de delgada beatilha,</l>
          <l>Que o corpo cristalino deixa ver-se,</l>
          <l>Que tanto bem não é para esconder-se.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Anfitrite, formosa como as flores,</l>
          <l>Neste caso não quis que falecesse;</l>
          <l>O Delfim traz consigo, que aos amores</l>
          <l>Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.</l>
          <l>Com os olhos, que de tudo são senhores,</l>
          <l>Qualquer parecerá que o Sol vencesse:</l>
          <l>Ambas vêm pela mão, igual partido,</l>
          <l>Pois ambas são esposas dum marido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aquela que das fúrias de Atamante</l>
          <l>Fugindo, veio a ter divino estado,</l>
          <l>Consigo traz o filho, belo Infante,</l>
          <l>No número dos Deuses relatado.</l>
          <l>Pela praia brincando vem diante</l>
          <l>Com as lindas conchinhas, que o salgado</l>
          <l>Mar sempre cria, e às vezes pela areia</l>
          <l>No colo o toma a bela Panopeia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="311" edRef="#instituto"/>
          <l>E o Deus que foi num tempo corpo humano,</l>
          <l>E por virtude da erva poderosa</l>
          <l>Foi convertido em peixe, e deste dano</l>
          <l>Lhe resultou deidade gloriosa,</l>
          <l>Inda vinha chorando o feio engano</l>
          <l>Que Circe tinha usado com a formosa</l>
          <l>Cila, que ele ama, desta sendo amado,</l>
          <l>Que a mais obriga amor mal empregado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já finalmente todos assentados</l>
          <l>Na grande sala, nobre e divinal;</l>
          <l>As Deusas em riquíssimos estrados,</l>
          <l>Os Deuses em cadeiras de cristal,</l>
          <l>Foram todos do Padre agasalhados,</l>
          <l>Que com o Tebano tinha assento igual.</l>
          <l>De fumos enche a casa a rica massa</l>
          <l>Que no mar nasce, e Arábia em cheiro passa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estando sossegado já o tumulto</l>
          <l>Dos Deuses, e de seus recebimentos,</l>
          <l>Começa a descobrir do peito oculto</l>
          <l>A causa o Tioneu de seus tormentos:</l>
          <l>Um pouco carregando-se no vulto,</l>
          <l>Dando mostra de grandes sentimentos,</l>
          <l>Só por dar aos de Luso triste morte</l>
          <l>Com o ferro alheio, fala desta sorte:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Príncipe, que de juro senhoreias</l>
          <l>Dum Polo ao outro Polo o mar irado,</l>
          <l>Tu, que as gentes da terra toda enfreias,</l>
          <l>Que não passem o termo limitado;</l>
          <l>E tu, padre Oceano, que rodeias</l>
          <l>O inundo universal, e o tens cercado,</l>
          <l>E com justo decreto assim permites</l>
          <l>Que dentro vivam só de seus limites;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="312" edRef="#instituto"/>
          <l>“E vós, Deuses do mar, que não sofreis</l>
          <l>Injúria alguma em vosso reino grande,</l>
          <l>Que com castigo igual vos não vingueis</l>
          <l>De quem quer que por ele corra e ande:</l>
          <l>Que descuido foi este em que viveis?</l>
          <l>Quem pode ser que tanto vos abrande</l>
          <l>Os peitos, com razão endurecidos</l>
          <l>Contra os humanos fracos e atrevidos?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vistes que com grandíssima ousadia</l>
          <l>Foram já cometer o Céu supremo;</l>
          <l>Vistes aquela insana fantasia</l>
          <l>De tentarem o mar com vela e reino;</l>
          <l>Vistes, e ainda vemos cada dia,</l>
          <l>Soberbas e insolências tais, que temo</l>
          <l>Que do mar e do Céu em poucos anos</l>
          <l>Venham Deuses a ser, e nós humanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vedes agora a fraca geração</l>
          <l>Que dum vassalo meu o nome toma,</l>
          <l>Com soberbo e altivo coração,</l>
          <l>A vós, e a mi, e o mundo todo doma;</l>
          <l>Vedes, o vosso mar cortando vão,</l>
          <l>Mais do que fez a gente alta de Roma;</l>
          <l>Vedes, o vosso reino devassando,</l>
          <l>Os vossos estatutos vão quebrando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eu vi que contra os Mínias, que primeiro</l>
          <l>No vosso reino este caminho abriram,</l>
          <l>Bóreas injuriado, e o companheiro</l>
          <l>Aquilo, e os outros todos resistiram.</l>
          <l>Pois se do ajuntamento aventureiro</l>
          <l>Os ventos esta injúria assim sentiram,</l>
          <l>Vós, a quem mais compete esta vingança,</l>
          <l>Que esperais? Porque a pondes em tardança?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="313" edRef="#instituto"/>
          <l>“E não consinto, Deuses, que cuideis</l>
          <l>Que por amor de vós do céu desci,</l>
          <l>Nem da mágoa da injúria que sofreis,</l>
          <l>Mas da que se me faz também a mi;</l>
          <l>Que aquelas grandes honras, que sabeis</l>
          <l>Que no mundo ganhei, quando venci</l>
          <l>As terras Indianas do Oriente,</l>
          <l>Todas vejo abatidas desta gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que o grã Senhor e Fados que destinam,</l>
          <l>Como lhe bem parece, o baixo mundo,</l>
          <l>Famas mores que nunca determinam</l>
          <l>De dar a estes barões no mar profundo.</l>
          <l>Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam</l>
          <l>O mal também a Deuses: que, a segundo</l>
          <l>Se vê, ninguém já tem menos valia,</l>
          <l>Que quem com mais razão valer devia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E por isso do Olimpo já fugi,</l>
          <l>Buscando algum remédio a meus pesares,</l>
          <l>Por ver o preço que no Céu perdi,</l>
          <l>Se por dita acharei nos vossos mares.”</l>
          <l>Mais quis dizer, e não passou daqui,</l>
          <l>Porque as lágrimas já correndo a pares</l>
          <l>Lhe saltaram dos olhos, com que logo</l>
          <l>Se acendem as Deidades d’água em fogo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A ira com que súbito alterado</l>
          <l>O coração dos Deuses foi num ponto,</l>
          <l>Não sofreu mais conselho bem cuidado,</l>
          <l>Nem dilação, nem outro algum desconto.</l>
          <l>Ao grande Eolo mandam já recado</l>
          <l>Da parte de Netuno, que sem conto</l>
          <l>Solte as fúrias dos ventos repugnantes,</l>
          <l>Que não haja no mar mais navegantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="314" edRef="#instituto"/>
          <l>Bem quisera primeiro ali Proteu</l>
          <l>Dizer neste negócio o que sentia,</l>
          <l>E segundo o que a todos pareceu,</l>
          <l>Era alguma profunda profecia.</l>
          <l>Porém tanto o tumulto se moveu</l>
          <l>Súbito na divina companhia,</l>
          <l>Que Tétis indignada lhe bradou:</l>
          <l>“Netuno sabe bem o que mandou”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já lá o soberbo Hipótades soltava</l>
          <l>Do cárcere fechado os furiosos</l>
          <l>Ventos, que com palavras animava</l>
          <l>Contra os varões audazes e animosos.</l>
          <l>Súbito o céu sereno se obumbrava,</l>
          <l>Que os ventos, mais que nunca impetuosos,</l>
          <l>Começam novas forças a ir tomando,</l>
          <l>Torres, montes e casas derribando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Enquanto este conselho se fazia</l>
          <l>No fundo aquoso, a leda lassa frota</l>
          <l>Com vento sossegado prosseguia,</l>
          <l>Pelo tranquilo mar, a longa rota.</l>
          <l>Era no tempo quando a luz do dia</l>
          <l>Do Eoo Hemisfério está remota;</l>
          <l>Os do quarto da prima se deitavam,</l>
          <l>Para o segundo os outros despertavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vencidos vêm do sono, e mal despertos;</l>
          <l>Bocejando a miúdo se encostavam</l>
          <l>Pelas antenas, todos mal cobertos</l>
          <l>Contra os agudos ares, que assopravam;</l>
          <l>Os olhos contra seu querer abertos,</l>
          <l>Mas estregando, os membros estiravam;</l>
          <l>Remédios contra o sono buscar querem,</l>
          <l>Histórias contam, casos mil referem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="315" edRef="#instituto"/>
          <l>“Com que melhor podemos, um dizia,</l>
          <l>Este tempo passar, que é tão pesado,</l>
          <l>Senão com algum conto de alegria,</l>
          <l>Com que nos deixe o sono carregado?”</l>
          <l>Responde Leonardo, que trazia</l>
          <l>Pensamentos de firme namorado:</l>
          <l>“Que contos poderemos ter melhores,</l>
          <l>Para passar o tempo, que de amores?”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não é, disse Veloso, coisa justa</l>
          <l>Tratar branduras em tanta aspereza;</l>
          <l>Que o trabalho do mar, que tanto custa,</l>
          <l>Não sofre amores, nem delicadeza;</l>
          <l>Antes de guerra férvida e robusta</l>
          <l>A nossa história seja, pois dureza</l>
          <l>Nossa vida há de ser, segundo entendo,</l>
          <l>Que o trabalho por vir me está dizendo.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Consentem nisto todos, e encomendam</l>
          <l>A Veloso que conte isto que aprova.</l>
          <l>“Contarei, disse, sem que me repreendam</l>
          <l>De contar cousa fabulosa ou nova;</l>
          <l>E porque os que me ouvirem daqui aprendam</l>
          <l>A fazer feitos grandes de alta prova,</l>
          <l>Dos nascidos direi na nossa terra,</l>
          <l>E estes sejam os doze de Inglaterra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“No tempo que do Reino a rédea leve</l>
          <l>João, filho de Pedro, moderava,</l>
          <l>Depois que sossegado e livre o teve</l>
          <l>Do vizinho poder, que o molestava,</l>
          <l>Lá na grande Inglaterra, que da neve</l>
          <l>Boreal sempre abunda, semeava</l>
          <l>A fera Erínis dura e má cizânia,</l>
          <l>Que lustre fosse a nossa Lusitânia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="316" edRef="#instituto"/>
          <l>“Entre as damas gentis da corte Inglesa</l>
          <l>E nobres cortesãos, acaso um dia</l>
          <l>Se levantou discórdia em ira acesa,</l>
          <l>Ou foi opinião, ou foi porfia.</l>
          <l>Os cortesãos, a quem tão pouco pesa</l>
          <l>Soltar palavras graves de ousadia,</l>
          <l>Dizem que provarão, que honras e famas</l>
          <l>Em tais damas não há para ser damas;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E que se houver alguém, com lança e espada,</l>
          <l>Que queira sustentar a parte sua,</l>
          <l>Que eles, em campo raso ou estacada,</l>
          <l>Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.</l>
          <l>A feminil fraqueza Pouco usada,</l>
          <l>Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua</l>
          <l>De forças naturais convenientes,</l>
          <l>Socorro pede a amigos e parentes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas como fossem grandes e possantes</l>
          <l>No reino os inimigos, não se atrevem</l>
          <l>Nem parentes, nem férvidos amantes,</l>
          <l>A sustentar as damas, como devem.</l>
          <l>Com lágrimas formosas e bastantes</l>
          <l>A fazer que em socorro os Deuses levem</l>
          <l>De todo o Céu, por rostos de alabastro,</l>
          <l>Se vão todas ao duque de Alencastro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Era este Inglês potente, e militara</l>
          <l>Com os Portugueses já contra Castela,</l>
          <l>Onde as forças magnânimas provara</l>
          <l>Dos companheiros, e benigna estrela:</l>
          <l>Não menos nesta terra exprimentara</l>
          <l>Namorados afeitos, quando nela</l>
          <l>A filha viu, que tinto o peito doma</l>
          <l>Do forte Rei, que por mulher a toma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="317" edRef="#instituto"/>
          <l>“Este, que socorrer-lhe não queria,</l>
          <l>Por não causar discórdias intestinas,</l>
          <l>Lhe diz: — “Quando o direito pretendia</l>
          <l>Do reino lá das terras Iberinas,</l>
          <l>Nos Lusitanos vi tanta ousadia,</l>
          <l>Tanto primor, e partes tão divinas,</l>
          <l>Que eles sós poderiam, se não erro,</l>
          <l>Sustentar vossa parte a fogo e ferro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se, agravadas damas, sois servidas,</l>
          <l>Por vós lhe mandarei embaixadores,</l>
          <l>Que, por cartas discretas e polidas,</l>
          <l>De vosso agravo os façam sabedores.</l>
          <l>Também por vossa parto encarecidas</l>
          <l>Com palavras de afagos e de amores</l>
          <l>Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio</l>
          <l>Que ali tereis socorro e forte esteio.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Destarte as aconselha o Duque experto,</l>
          <l>E logo lhe nomeia doze fortes;</l>
          <l>E por que cada dama um tenha certo,</l>
          <l>Lhe manda que sobre eles lancem sortes,</l>
          <l>Que elas só doze são; e descoberto</l>
          <l>Qual a qual tem caído das consertes,</l>
          <l>Cada uma escreve ao seu por vários modos,</l>
          <l>E todas a seu Rei, e o Duque a todos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já chega a Portugal o mensageiro;</l>
          <l>Toda a corte alvoroça a novidade;</l>
          <l>Quisera o Rei sublime ser primeiro,</l>
          <l>Mas não lhe sofre a Régia Majestade.</l>
          <l>Qualquer dos cortesãos aventureiro</l>
          <l>Deseja ser, com férvida vontade,</l>
          <l>E, só fica por bem-aventurado</l>
          <l>Quem já vem pelo Duque nomeado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="318" edRef="#instituto"/>
          <l>“Lá na leal Cidade, donde teve</l>
          <l>Origem (como é fama) o nome eterno</l>
          <l>De Portugal, armar madeiro leve</l>
          <l>Manda o que tem o leme do governo.</l>
          <l>Apercebem-se os doze, em tempo breve,</l>
          <l>De armas, e roupas de uso mais moderno,</l>
          <l>De elmos, cimeiras, letras, e primores,</l>
          <l>Cavalos, e concertos de mil cores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Já do seu Rei tomado têm licença</l>
          <l>Para partir do Douro celebrado</l>
          <l>Aqueles, que escolhidos por sentença</l>
          <l>Foram do Duque Inglês experimentado.</l>
          <l>Não há na companhia diferença</l>
          <l>De cavaleiro destro ou esforçado;</l>
          <l>Mas um só, que Magriço se dizia,</l>
          <l>Destarte fala à forte companhia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Fortíssimos consócios, eu desejo</l>
          <l>Há muito já de andar terras estranhas,</l>
          <l>Por ver mais águas que as do Douro o Tejo,</l>
          <l>Várias gentes, e leis, e várias manhas.</l>
          <l>Agora, que aparelho certo vejo,</l>
          <l>(Pois que do mundo as coisas são tamanhas)</l>
          <l>Quero, se me deixais, ir só por terra,</l>
          <l>Porque eu serei convosco em Inglaterra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “E quando caso for que eu impedido</l>
          <l>Por quem das cousas é última linha,</l>
          <l>Não for convosco ao prazo instituído,</l>
          <l>Pouca falta vos faz a falta minha:</l>
          <l>Todos por mim fareis o que é devido;</l>
          <l>Mas, se a verdade o esprito me adivinha,</l>
          <l>Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,</l>
          <l>Não farão que eu convosco lá não seja.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="319" edRef="#instituto"/>
          <l>“Assim diz, e abraçados os amigos,</l>
          <l>E tomada licença, enfim se parte:</l>
          <l>Passa Lião, Castela, vendo antigos</l>
          <l>Lugares, que ganhara o pátrio Marte;</l>
          <l>Navarra, com os altíssimos perigos</l>
          <l>Do Perineu, que Espanha e Gália parte;</l>
          <l>Vistas enfim de França as coisas grandes,</l>
          <l>No grande empório foi parar de Frandes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali chegado, ou fosse caso ou manha,</l>
          <l>Sem passar se deteve muitos dias:</l>
          <l>Mas dos onze a ilustríssima companha</l>
          <l>Cortam do mar do Norte as ondas frias.</l>
          <l>Chegados de Inglaterra à costa estranha,</l>
          <l>Para Londres já fazem todos vias.</l>
          <l>Do Duque são com festa agasalhados,</l>
          <l>E das damas servidos e amimados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Chega-se o prazo e dia assinalado</l>
          <l>De entrar em campo já com os doze Ingleses,</l>
          <l>Que pelo Rei já tinham segurado:</l>
          <l>Armam-se de elmos, grevas e de arneses:</l>
          <l>Já as damas têm por si, fulgente e armado,</l>
          <l>O Mavorte feroz dos Portugueses;</l>
          <l>Vestem-se elas de cores e de sedas,</l>
          <l>De ouro e de joias mil, ricas e ledas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas aquela, a quem fora em sorte dado</l>
          <l>Magriço, que não vinha, com tristeza</l>
          <l>Se veste, por não ter quem nomeado</l>
          <l>Seja seu cavaleiro nesta empresa;</l>
          <l>Bem que os onze apregoam, que acabado</l>
          <l>Será o negócio assim na corte Inglesa,</l>
          <l>Que as damas vencedoras se conheçam,</l>
          <l>Posto que dois e três dos seus faleçam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="320" edRef="#instituto"/>
          <l>“Já num sublime e público teatro</l>
          <l>Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:</l>
          <l>Estavam três e três, e quatro e quatro,</l>
          <l>Bem como a cada qual coubera em sorte.</l>
          <l>Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,</l>
          <l>De força, esforço e de ânimo mais forte</l>
          <l>Outros doze sair, como os Ingleses,</l>
          <l>No campo, contra os onze Portugueses.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mastigam os cavalos, escumando,</l>
          <l>Os áureos freios com feroz semblante;</l>
          <l>Estava o Sol nas armas rutilando</l>
          <l>Como em cristal ou rígido diamante;</l>
          <l>Mas enxerga-se num e noutro bando</l>
          <l>Partido desigual e dissonante</l>
          <l>Dos onze contra os doze: quando a gente</l>
          <l>Começa a alvoroçar-se geralmente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Viram todos o rosto aonde havia</l>
          <l>A causa principal do reboliço:</l>
          <l>Eis entra um cavaleiro, que trazia</l>
          <l>Armas, cavalo, ao bélico serviço.</l>
          <l>Ao Rei e às damas fala, e logo se ia</l>
          <l>Para os onze, que este era o grã Magriço;</l>
          <l>Abraça os companheiros como amigos,</l>
          <l>A quem não falta certo nos perigos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A dama, como ouviu que este era aquele</l>
          <l>Que vinha a defender seu nome e fama,</l>
          <l>Se alegra, e veste ali do animal de Hele,</l>
          <l>Que a gente bruta mais que virtude ama.</l>
          <l>Já dão sinal, e o som da tuba impele</l>
          <l>Os belicosos ânimos, que inflama:</l>
          <l>Picam de esporas, largam rédeas logo,</l>
          <l>Abaixam lanças, fere a terra fogo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="321" edRef="#instituto"/>
          <l>“Dos cavalos o estrépito parece</l>
          <l>Que faz que o chão debaixo todo treme;</l>
          <l>O coração no peito, que estremece</l>
          <l>De quem os olha, se alvoroça e teme:</l>
          <l>Qual do cavalo voa, que não desce;</l>
          <l>Qual, com o cavalo em terra dando, geme;</l>
          <l>Qual vermelhas as armas faz de brancas;</l>
          <l>Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Algum dali tomou perpétuo sono</l>
          <l>E fez da vida ao fim breve intervalo;</l>
          <l>Correndo algum cavalo vai sem dono</l>
          <l>E noutra parte o dono sem cavalo.</l>
          <l>Cai a soberba Inglesa de seu trono,</l>
          <l>Que dois ou três já fora vão do vale;</l>
          <l>Os que de espada vêm fazer batalha,</l>
          <l>Mais acham já que arnês, escudo e malha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Gastar palavras em contar extremos</l>
          <l>De golpes feros, cruas estocadas,</l>
          <l>É desses gastadores, que sabemos,</l>
          <l>Maus do tempo, com fábulas sonhadas.</l>
          <l>Basta, por fim do caso, que entendemos</l>
          <l>Que com finezas altas e afamadas,</l>
          <l>Com os nossos fica a palma da vitória,</l>
          <l>E as damas vencedoras, e com glória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Recolhe o Duque os doze vencedores</l>
          <l>Nos seus paços, com festas e alegria;</l>
          <l>Cozinheiros ocupa e caçadores</l>
          <l>Das damas a formosa companhia,</l>
          <l>Que querem dar aos seus libertadores</l>
          <l>Banquetes mil cada hora e cada dia,</l>
          <l>Enquanto se detêm em Inglaterra,</l>
          <l>Até tornar à doce e cara terra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="322" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,</l>
          <l>Desejoso de ver as coisas grandes,</l>
          <l>Lá se deixou ficar, onde um serviço</l>
          <l>Notável à condessa fez de Frandes;</l>
          <l>E como quem não era já noviço</l>
          <l>Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,</l>
          <l>Um Francês mata em campo, que o destino</l>
          <l>Lá teve de Torcato e de Corvino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Outro também dos doze em Alemanha</l>
          <l>Se lança, e teve um fero desafio</l>
          <l>Com um Germano enganoso, que com manha</l>
          <l>Não devida o quis pôr no extremo fio.”</l>
          <l>Contando assim Veloso, já a companha</l>
          <l>Lhe pede que não faça tal desvio</l>
          <l>Do caso de Magriço, e vencimento,</l>
          <l>Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, neste passo, assim prontos estando</l>
          <l>Eis o mestre, que olhando os ares anda,</l>
          <l>O apito toca; acordam despertando</l>
          <l>Os marinheiros duma e doutra banda;</l>
          <l>E porque o vento vinha refrescando,</l>
          <l>Os traquetes das gáveas tomar manda:</l>
          <l>“Alerta, disse, estai, que o vento cresce</l>
          <l>Daquela nuvem negra que aparece.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não eram os traquetes bem tomados,</l>
          <l>Quando dá a grande e súbita procela:</l>
          <l>“Amaina, disse o mestre a grandes brados,</l>
          <l>Amaina, disse, amaina a grande vela!”</l>
          <l>Não esperam os ventos indinados</l>
          <l>Que amainassem; mas juntos dando nela,</l>
          <l>Em pedaços a fazem, com um ruído</l>
          <l>Que o mundo pareceu ser destruído.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="323" edRef="#instituto"/>
          <l>O céu fere com gritos nisto a gente,</l>
          <l>Com súbito temor e desacordo,</l>
          <l>Que, no romper da vela, a nau pendente</l>
          <l>Toma grã suma d’água pelo bordo:</l>
          <l>“Alija, disse o mestre rijamente,</l>
          <l>Alija tudo ao mar; não falte acordo.</l>
          <l>Vão outros dar à bomba, não cessando;</l>
          <l>A bomba, que nos imos alagando!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Correm logo os soldados animosos</l>
          <l>A dar à bomba; e, tanto que chegaram,</l>
          <l>Os balanços que os mares temerosos</l>
          <l>Deram à nau, num bordo os derribaram.</l>
          <l>Três marinheiros, duros e forçosos,</l>
          <l>A menear o leme não bastaram;</l>
          <l>Talhas lhe punham duma e doutra parte,</l>
          <l>Sem aproveitar dos homens força e arte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os ventos eram tais, que não puderam</l>
          <l>Mostrar mais força do ímpeto cruel,</l>
          <l>Se para derribar então vieram</l>
          <l>A fortíssima torre de Babel.</l>
          <l>Nos altíssimos mares, que cresceram,</l>
          <l>A pequena grandura dum batel</l>
          <l>Mostra a possante nau, que move espanto,</l>
          <l>Vendo que se sustém nas ondas tanto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A nau grande, em que vai Paulo da Gama,</l>
          <l>Quebrado leva o masto pelo meio.</l>
          <l>Quase toda alagada: a gente chama</l>
          <l>Aquele que a salvar o mundo veio.</l>
          <l>Não menos gritos vãos ao ar derrama</l>
          <l>Toda a nau de Coelho, com receio,</l>
          <l>Conquanto teve o mestre tanto tento,</l>
          <l>Que primeiro amainou, que desse o vento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="324" edRef="#instituto"/>
          <l>Agora sobre as nuvens os subiam</l>
          <l>As ondas de Netuno furibundo;</l>
          <l>Agora a ver parece que desciam</l>
          <l>As íntimas entranhas do Profundo.</l>
          <l>Noto, Austro, Bóreas, Áquilo queriam</l>
          <l>Arruinar a máquina do mundo:</l>
          <l>A noite negra e feia se alumia</l>
          <l>Com os raios, em que o Polo todo ardia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As Alcióneas aves triste canto</l>
          <l>Junto da costa brava levantaram,</l>
          <l>Lembrando-se do seu passado pranto,</l>
          <l>Que as furiosas águas lhe causaram.</l>
          <l>Os delfins namorados entretanto</l>
          <l>Lá nas covas marítimas entraram,</l>
          <l>Fugindo à tempestade e ventos duros,</l>
          <l>Que nem no fundo os deixa estar segui-os.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca tão vivos raios fabricou</l>
          <l>Contra a fera soberba dos Gigantes</l>
          <l>O grã ferreiro sórdido, que obrou</l>
          <l>Do enteado as armas radiantes;</l>
          <l>Nem tanto o grã Tonante arremessou</l>
          <l>Relâmpados ao mundo fulminantes,</l>
          <l>No grã dilúvio, donde sós viveram</l>
          <l>Os dois que em gente as pedras converteram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quantos montes, então, que derribaram</l>
          <l>As ondas que batiam denodadas!</l>
          <l>Quantas árvores velhas arrancaram</l>
          <l>Do vento bravo as fúrias indinadas!</l>
          <l>As forçosas raízes não cuidaram</l>
          <l>Que nunca para o céu fossem viradas,</l>
          <l>Nem as fundas areias que pudessem</l>
          <l>Tanto os mares que em cima as revolvessem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="325" edRef="#instituto"/>
          <l>Vendo Vasco da Gama que tão perto</l>
          <l>Do fim de seu desejo se perdia;</l>
          <l>Vendo ora o mar até o inferno aberto,</l>
          <l>Ora com nova fúria ao céu subia,</l>
          <l>Confuso de temor, da vida incerto,</l>
          <l>Onde nenhum remédio lhe valia,</l>
          <l>Chama aquele remédio santo é forte,</l>
          <l>Que o impossível pode, desta sorte:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Divina Guarda, angélica, celeste,</l>
          <l>Que os céus, o mar e terra senhoreias;</l>
          <l>Tu, que a todo Israel refúgio deste</l>
          <l>Por metade das águas Eritreias;</l>
          <l>Tu, que livraste Paulo e o defendeste</l>
          <l>Das Sirtes arenosas e ondas feias,</l>
          <l>E guardaste com os filhos o segundo</l>
          <l>Povoador do alagado e vácuo mundo;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Se tenho novos modos perigosos</l>
          <l>Doutra Cila e Caríbdis já passados,</l>
          <l>Outras Sirtes e baixos arenosos,</l>
          <l>Outros Acroceráunios infamados,</l>
          <l>No fim de tantos casos trabalhosos,</l>
          <l>Por que somos de ti desamparados,</l>
          <l>Se este nosso trabalho não te ofende,</l>
          <l>Mas antes teu serviço só pretende?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó ditosos aqueles que puderam</l>
          <l>Entre as agudas lanças Africanas</l>
          <l>Morrer, enquanto fortes sostiveram</l>
          <l>A santa Fé nas terras Mauritanas!</l>
          <l>De quem feitos ilustres se souberam,</l>
          <l>De quem ficam memórias soberanas,</l>
          <l>De quem se ganha a vida com perdê-la,</l>
          <l>Doce fazendo a morte as honras dela!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="326" edRef="#instituto"/>
          <l>Assim dizendo, os ventos que lutavam</l>
          <l>Como touros indómitos bramando,</l>
          <l>Mais e mais a tormenta acrescentavam</l>
          <l>Pela miúda enxárcia assoviando.</l>
          <l>Relâmpados medonhos não cessavam,</l>
          <l>Feros trovões, que vêm representando</l>
          <l>Cair o céu dos eixos sobre a terra,</l>
          <l>Consigo os elementos terem guerra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas já a amorosa estrela cintilava</l>
          <l>Diante do Sol claro, no Horizonte,</l>
          <l>Mensageira do dia, e visitava</l>
          <l>A terra e o largo mar, com leda fronte.</l>
          <l>A densa que nos céus a governava,</l>
          <l>De quem foge o ensífero Orionte,</l>
          <l>Tanto que o mar e a cara armada vira,</l>
          <l>Tocada junto foi de medo e de ira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Estas obras de Baco são, por certo,</l>
          <l>Disse; mas não será que avante leve</l>
          <l>Tão danada tenção, que descoberto</l>
          <l>Me será sempre o mil a que se atreve.”</l>
          <l>Isto dizendo, desce ao mar aberto,</l>
          <l>No caminho gastando espaço breve,</l>
          <l>Enquanto manda as Ninfas amorosas</l>
          <l>Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Grinaldas manda pôr de várias cores</l>
          <l>Sobre cabelo; louros à porfia.</l>
          <l>Quem não dirá que nascem roxas flores</l>
          <l>Sobre ouro natural, que Amor enfia?</l>
          <l>Abrandar determina, por amores,</l>
          <l>Dos ventos a nojosa companhia,</l>
          <l>Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,</l>
          <l>Que mais formosas vinham que as estrelas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="327" edRef="#instituto"/>
          <l>Assim foi; porque, tanto que chegaram</l>
          <l>A vista delas, logo lhe falecem</l>
          <l>As forças com que dantes pelejaram,</l>
          <l>E já como rendidos lhe obedecem.</l>
          <l>Os pés e mãos parece que lhe ataram</l>
          <l>Os cabelos que os raios escurecem.</l>
          <l>A Bóreas, que do peito mais queria,</l>
          <l>Assim disse a belíssima Oritia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não creias, fero Bóreas, que te creio</l>
          <l>Que me tiveste nunca amor constante,</l>
          <l>Que brandura é de amor mais certo arreio,</l>
          <l>E não convém furor a firme amante.</l>
          <l>Se já não pões a tanta insânia freio,</l>
          <l>Não esperes de mi, daqui em diante,</l>
          <l>Que possa mais amar-te, mas temer-te;</l>
          <l>Que amor contigo em medo se converte.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim mesmo a formosa Galateia</l>
          <l>Dizia ao fero Noto, que bem sabe</l>
          <l>Que dias há que em vê-la se recreia,</l>
          <l>E bem crê que com ele tudo acabe.</l>
          <l>Não sabe o bravo tanto bem se o creia,</l>
          <l>Que o coração no peito lhe não cabe,</l>
          <l>De contente de ver que a dama o manda,</l>
          <l>Pouco cuida que faz, se logo abranda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desta maneira as outras amansavam</l>
          <l>Subitamente os outros amadores;</l>
          <l>E logo à linda Vénus se entregavam,</l>
          <l>Amansadas as iras e os furores.</l>
          <l>Ela lhe prometeu, vendo que amavam,</l>
          <l>Sempiterno favor em seus amores,</l>
          <l>Nas belas mãos tomando-lhe homenagem</l>
          <l>De lhe serem leais esta viagem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="328" edRef="#instituto"/>
          <l>Já a manhã clara dava nos outeiros</l>
          <l>Por onde o Ganges murmurando soa,</l>
          <l>Quando da celsa gávea os marinheiros</l>
          <l>Enxergaram terra alta pela proa.</l>
          <l>Já fora de tormenta, e dos primeiros</l>
          <l>Mares, o temor vão do peito voa.</l>
          <l>Disse alegre o piloto Melindano:</l>
          <l>“Terra é de Calecu, se não me engano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esta é por certo a terra que buscais</l>
          <l>Da verdadeira Índia, que aparece;</l>
          <l>E se do mundo mais não desejais,</l>
          <l>Vosso trabalho longo aqui fenece.”</l>
          <l>Sofrer aqui não pode o Gama mais,</l>
          <l>De ledo em ver que a terra se conhece:</l>
          <l>Os giolhos no chão, as mãos ao céu,</l>
          <l>A mercê grande a Deus agradeceu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As graças a Deus dava, e razão tinha,</l>
          <l>Que não somente a terra lhe mostrava,</l>
          <l>Que com tanto temor buscando vinha,</l>
          <l>Por quem tanto trabalho exprimentava;</l>
          <l>Mas via-se livrado tão asinha</l>
          <l>Da morte, que no mar lhe aparelhava</l>
          <l>O vento duro, férvido e medonho,</l>
          <l>Como quem despertou de horrendo sonho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por meio destes hórridos perigos,</l>
          <l>Destes trabalhos graves e temores,</l>
          <l>Alcançam os que são de fama amigos</l>
          <l>As honras imortais e graus maiores:</l>
          <l>Não encostados sempre nos antigos</l>
          <l>Troncos nobres de seus antecessores;</l>
          <l>Não nos leitos dourados, entre os finos</l>
          <l>Animais de Moscóvia zebelinos;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="329" edRef="#instituto"/>
          <l>Não com os manjares novos e esquisitos,</l>
          <l>Não com os passeios moles e ociosos,</l>
          <l>Não com os vários deleites e infinitos,</l>
          <l>Que afeminam os peitos generosos,</l>
          <l>Não com os nunca vencidos apetitos</l>
          <l>Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,</l>
          <l>Que não sofre a nenhum que o passo mude</l>
          <l>Para alguma obra heroica de virtude;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas com buscar com o seu forçoso braço</l>
          <l>As honras, que ele chame próprias suas;</l>
          <l>Vigiando, e vestindo o forjado aço,</l>
          <l>Sofrendo tempestades e ondas cruas;</l>
          <l>Vencendo os torpes frios no regaço</l>
          <l>Do Sul e regiões de abrigo nuas;</l>
          <l>Engolindo o corrupto mantimento,</l>
          <l>Temperado com um árduo sofrimento;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E com forçar o rosto, que se enfia,</l>
          <l>A parecer seguro, ledo, inteiro,</l>
          <l>Para o pelouro ardente, que assovia</l>
          <l>E leva a perna ou braço ao companheiro.</l>
          <l>Destarte, o peito um calo honroso cria,</l>
          <l>Desprezador das honras e dinheiro,</l>
          <l>Das honras e dinheiro, que a ventura</l>
          <l>Forjou, e não virtude justa e dura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Destarte se esclarece o entendimento,</l>
          <l>Que experiências fazem repousado,</l>
          <l>E fica vendo, corno de alto assento,</l>
          <l>O baixo trato humano embaraçado.</l>
          <l>Este, onde tiver força o regimento</l>
          <l>Direito, e não de afeitos ocupado,</l>
          <l>Subirá (como deve) a ilustre mando,</l>
          <l>Contra vontade sua, e não rogando.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Sétimo</head>
        <lg>
          <pb n="347" edRef="#instituto"/>
          <l>Já se viam chegados junto à terra,</l>
          <l>Que desejada já de tantos fora,</l>
          <l>Que entre as correntes Índicas se encerra,</l>
          <l>E o Ganges, que no céu terreno mora.</l>
          <l>Ora, sus, gente forte, que na guerra</l>
          <l>Quereis levar a palma vencedora,</l>
          <l>Já sois chegados, já tendes diante</l>
          <l>A terra de riquezas abundante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A vós, ó geração de Luso, digo,</l>
          <l>Que tão pequena parte sois no inundo;</l>
          <l>Não digo ainda no mundo, mas no amigo</l>
          <l>Curral de quem governa o céu rotundo;</l>
          <l>Vós, a quem não somente algum perigo</l>
          <l>Estorva conquistar o povo imundo,</l>
          <l>Mas nem cobiça, ou pouca obediência</l>
          <l>Da Madre, que nos céus está em essência;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,</l>
          <l>Que o fraco poder vosso não pesais;</l>
          <l>Vós, que à custa de vossas várias mortes</l>
          <l>A lei da vida eterna dilatais:</l>
          <l>Assim do céu deitadas são as sortes,</l>
          <l>Que vós, por muito poucos que sejais,</l>
          <l>Muito façais na santa Cristandade:</l>
          <l>Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="348" edRef="#instituto"/>
          <l>Vede-los Alemães, soberbo gado,</l>
          <l>Que por tão largos campos se apascenta,</l>
          <l>Do sucessor de Pedro, rebelado,</l>
          <l>Novo pastor, e nova seita inventa:</l>
          <l>Vede-lo em feias guerras ocupado,</l>
          <l>Que ainda com o cego error se não contenta,</l>
          <l>Não contra o soberbíssimo Otomano,</l>
          <l>Mas por sair do jugo soberano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vede-lo duro Inglês, que se nomeia</l>
          <l>Rei da velha e santíssima cidade,</l>
          <l>Que o torpe Ismaelita senhoreia,</l>
          <l>(Quem viu honra tão longe da verdade?)</l>
          <l>Entre as Boreais neves se recreia,</l>
          <l>Nova maneira faz de Cristandade:</l>
          <l>Para os de Cristo tem a espada nua,</l>
          <l>Não por tomar a terra que era sua.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Guarda-lhe por entanto um falso Rei</l>
          <l>A cidade Hierosólima terrestre,</l>
          <l>Enquanto ele não guarda a santa lei</l>
          <l>Da cidade Hierosólima celeste.</l>
          <l>Pois de ti, Galo indigno, que direi?</l>
          <l>Que o nome Cristianíssimo quiseste,</l>
          <l>Não para defendê-lo, nem guardá-lo,</l>
          <l>Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Achas que tens direito em senhorios</l>
          <l>De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,</l>
          <l>E não contra o Cinífio e Nilo, rios</l>
          <l>Inimigos do antigo nome santo?</l>
          <l>Ali se hão de provar da espada os fios</l>
          <l>Em quem quer reprovar da Igreja o canto.</l>
          <l>De Carlos, de Luís, o nome e a terra</l>
          <l>Herdaste, e as causas não da justa guerra?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="349" edRef="#instituto"/>
          <l>Pois que direi daqueles que em delícias,</l>
          <l>Que o vil ócio no mundo traz consigo,</l>
          <l>Gastam as vidas, logram as divícias,</l>
          <l>Esquecidos de seu valor antigo?</l>
          <l>Nascem da tirania inimicícias,</l>
          <l>Que o povo forte tem de si inimigo:</l>
          <l>Contigo, Itália, falo, já submersa</l>
          <l>Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó míseros Cristãos, pela ventura,</l>
          <l>Sois os dentes de Cadmo desparzidos,</l>
          <l>Que uns aos outros se dão a morte dura,</l>
          <l>Sendo todos de um ventre produzidos?</l>
          <l>Não vedes a divina sepultura</l>
          <l>Possuída de cães, que sempre unidos</l>
          <l>Vos vêm tomar a vossa antiga terra,</l>
          <l>Fazendo-se famosos pela guerra?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vedes que têm por uso e por decreto,</l>
          <l>Do qual são tão inteiros observantes,</l>
          <l>Ajuntarem o exército inquieto</l>
          <l>Contra os povos que são de Cristo amantes;</l>
          <l>Entre vós nunca deixa a fera Aleto</l>
          <l>De semear cizânias repugnantes:</l>
          <l>Olhai se estais seguros de perigos,</l>
          <l>Que eles e vós sois vossos inimigos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se cobiça de grandes senhorios</l>
          <l>Vos faz ir conquistar terras alheias,</l>
          <l>Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,</l>
          <l>Ambos volvem auríferas areias?</l>
          <l>Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;</l>
          <l>África esconde em si luzentes veias;</l>
          <l>Mova-vos já sequer riqueza tanta,</l>
          <l>Pois mover-vos não pode a Casa Santa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="350" edRef="#instituto"/>
          <l>Aquelas invenções feras e novas</l>
          <l>De instrumentos mortais da artilharia,</l>
          <l>Já devem de fazer as duras provas</l>
          <l>Nos muros de Bizâncio e de Turquia.</l>
          <l>Fazei que torne lá às silvestres covas</l>
          <l>Dos Cáspios montes, e da Cítia fria</l>
          <l>A Turca geração, que multiplica</l>
          <l>Na polícia da vossa Europa rica.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,</l>
          <l>Bradando-vos estão que o povo bruto</l>
          <l>Lhe obriga os caros filhos aos profanos</l>
          <l>Preceptos do Alcorão (duro tributo!)</l>
          <l>Em castigar os feitos inumanos</l>
          <l>Vos gloriai de peito forte e astuto,</l>
          <l>E não queirais louvores arrogantes</l>
          <l>De serdes contra os vossos mui possantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas entanto que cegos o sedentos</l>
          <l>Andais de vosso sangue, ó gente insana!</l>
          <l>Não faltarão Cristãos atrevimentos</l>
          <l>Nesta pequena casa Lusitana:</l>
          <l>De África tem marítimos assentos,</l>
          <l>É na Ásia mais que todas soberana,</l>
          <l>Na quarta parte nova os campos ara,</l>
          <l>E se mais mundo houvera, lá chegara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vejamos entanto que acontece</l>
          <l>Aqueles tão famosos navegantes,</l>
          <l>Depois que a branda Vénus enfraquece</l>
          <l>O furor vão dos ventos repugnantes:</l>
          <l>Depois que a larga terra lhe aparece,</l>
          <l>Fim de suas porfias tão constantes,</l>
          <l>Onde vêm semear de Cristo a lei,</l>
          <l>E dar novo costume e novo Rei.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="351" edRef="#instituto"/>
          <l>Tanto que à nova terra se chegaram,</l>
          <l>Leves embarcações de pescadores</l>
          <l>Acharam, que o caminho lhe mostraram</l>
          <l>De Calecu, onde eram moradores.</l>
          <l>Para lá logo as proas se inclinaram,</l>
          <l>Porque esta era a cidade das melhores</l>
          <l>Do Malabar melhor, onde vivia</l>
          <l>O Rei que a terra toda possuía.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Além do Indo jaz, e aquém do Gange,</l>
          <l>Um terreno mui grande e assaz famoso,</l>
          <l>Que pela parte Austral o mar abrange,</l>
          <l>E para o Norte o Emódio cavernoso.</l>
          <l>Jugo de Reis diversos o constrange</l>
          <l>A várias leis: alguns o vicioso</l>
          <l>Mahoma, alguns os ídolos adoram,</l>
          <l>Alguns os animais, que entre eles moram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lá bem no grande monte, que cortando</l>
          <l>Tão larga terra, toda Ásia discorre,</l>
          <l>Que nomes tão diversos vai tomando,</l>
          <l>Segundo as regiões por onde corre,</l>
          <l>As fontes saem, donde vêm manando</l>
          <l>Os rios, cuja grã corrente morre</l>
          <l>No mar Índico, e cercam todo o peso</l>
          <l>Do terreno, fazendo-o Quersoneso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entro um e outro rio, em grande espaço,</l>
          <l>Sai da larga terra uma loira ponta</l>
          <l>Quase piramidal, que no regaço</l>
          <l>Do mar com Ceilão ínsula confronta;</l>
          <l>E junto donde nasce o largo braço</l>
          <l>Gangético, o rumor antigo conta</l>
          <l>Que os vizinhos, da terra moradores,</l>
          <l>Do cheiro se mantêm das finas flores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="352" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas agora de nomes e de usança</l>
          <l>Novos e vários são os habitantes:</l>
          <l>Os Delis, os Patanes, que em possança</l>
          <l>De terra e gente, são mais abundantes;</l>
          <l>Decanis, Oriás, que a esperança</l>
          <l>Têm de sua salvação nas ressonantes</l>
          <l>Águas do Gange, e a terra de Bengala</l>
          <l>Fértil de sorte que outra não lhe iguala.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Reino de Cambaia belicoso</l>
          <l>(Dizem que foi de Poro, Rei potente)</l>
          <l>O Reino de Narsinga, poderoso</l>
          <l>Mais de ouro e pedras que de forte gente.</l>
          <l>Aqui se enxerga lá do mar undoso</l>
          <l>Um monte alto, que corre longamente,</l>
          <l>Servindo ao Malabar de forte muro,</l>
          <l>Com que do Canará vive seguro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da terra os naturais lhe chamam Gate,</l>
          <l>Do pé do qual pequena quantidade</l>
          <l st:symbols="ok">Se estende u’a fralda estreita, que combate</l>
          <l>Do mar a natural ferocidade.</l>
          <l>Aqui de outras cidades, sem debate,</l>
          <l>Calecu tem a ilustre dignidade</l>
          <l>De cabeça de Império rica e bela:</l>
          <l>Samorim se intitula o senhor dela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chegada a frota ao rico senhorio,</l>
          <l>Um Português mandado logo parte</l>
          <l>A fazer sabedor o Rei gentio</l>
          <l>Da vinda sua a tão remota parte.</l>
          <l>Entrando o mensageiro pelo rio,</l>
          <l>Que ali nas ondas entra, a não vista arte,</l>
          <l>A cor, o gesto estranho, o trajo novo</l>
          <l>Fez concorrer a vê-lo todo o povo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="353" edRef="#instituto"/>
          <l>Entre a gente que a vê-lo concorria,</l>
          <l>Se chega um Mahometa, que nascido</l>
          <l>Fora na região da Berberia,</l>
          <l>Lá onde fora Anteu obedecido:</l>
          <l>Ou pela vizinhança já teria</l>
          <l>O Reino Lusitano conhecido,</l>
          <l>Ou foi já assinalado de seu ferro:</l>
          <l>Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em vendo o mensageiro, com jocundo</l>
          <l>Rosto, como quem sabe a língua Hispana,</l>
          <l>Lhe disse: “Quem te trouxe a estoutro mundo,</l>
          <l>Tão longe da tua pátria Lusitana?”</l>
          <l>— “Abrindo, lhe responde, o mar profundo,</l>
          <l>Por onde nunca veio gente humana,</l>
          <l>Vimos buscar do Indo a grão corrente,</l>
          <l>Por onde a Lei divina se acrescente.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Espantado ficou da grã viagem</l>
          <l>O Mouro, que Monçaide se chamava,</l>
          <l>Ouvindo as opressões que na passagem</l>
          <l>Do mar, o Lusitano lhe contava:</l>
          <l>Mas vendo enfim que a força da mensagem</l>
          <l>Só para o Rei da terra relevava,</l>
          <l>Lhe diz que estava fora da cidade,</l>
          <l>Mas de caminho pouca quantidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E que, entanto que a nova lhe chegasse</l>
          <l>De sua estranha vinda, se queria,</l>
          <l>Na sua pobre casa repousasse,</l>
          <l>E do manjar da terra comeria,</l>
          <l>E depois que se um pouco recreasse,</l>
          <l>Com ele para a armada tornaria,</l>
          <l>Que alegria não pode ser tamanha,</l>
          <l>Que achar gente vizinha em terra estranha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="354" edRef="#instituto"/>
          <l>O Português aceita de vontade</l>
          <l>O que o ledo Monçaide lhe oferece;</l>
          <l>Como se longa fora já a amizade,</l>
          <l>Com ele come, e bebe, e lhe obedece.</l>
          <l>Ambos se tornam logo da cidade</l>
          <l>Para a frota, que o Mouro bem conhece;</l>
          <l>Sobem à capitania; e toda a gente</l>
          <l>Monçaide recebeu benignamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Capitão o abraça em cabo ledo,</l>
          <l>Ouvindo clara a língua de Castela;</l>
          <l>Junto de si o assenta, e pronto e quedo,</l>
          <l>Pela terra pergunta, e cousas dela.</l>
          <l>Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,</l>
          <l>Só por ouvir o amante da donzela</l>
          <l>Eurídice, tocando a lira de ouro,</l>
          <l>Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ele começa: “Ó gente, que a natura</l>
          <l>Vizinha fez de meu paterno ninho,</l>
          <l>Que destino tão grande ou que ventura</l>
          <l>Vos trouxe a cometerdes tal caminho?</l>
          <l>Não é sem causa, não, oculta e escura,</l>
          <l>Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,</l>
          <l>Por mares nunca doutro lenho arados,</l>
          <l>A Reinos tão remotos e apartados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Deus por certo vos traz, porque pretende</l>
          <l>Algum serviço seu por vós obrado;</l>
          <l>Por isso só vos guia, e vos defende</l>
          <l>Dos imigos, do mar, do vento irado.</l>
          <l>Sabei que estais na Índia, onde se estende</l>
          <l>Diverso povo, rico e prosperado</l>
          <l>De ouro luzente e fina pedraria,</l>
          <l>Cheiro suave, ardente especiaria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="355" edRef="#instituto"/>
          <l>“Esta província, cujo porto agora</l>
          <l>Tomado tendes, Malabar se chama:</l>
          <l>Do culto antigo os ídolos adora,</l>
          <l>Que cá por estas partes se derrama:</l>
          <l>De diversos Reis é, mas dum só fora</l>
          <l>Noutro tempo, segundo a antiga fama;</l>
          <l>Saramá Perimal foi derradeiro</l>
          <l>Rei, que este Reino teve unido e inteiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porém, como a esta terra então viessem</l>
          <l>De lá do seio Arábico outras gentes,</l>
          <l>Que o culto Mahomético trouxessem,</l>
          <l>No qual me instituíram meus parentes,</l>
          <l>Sucedeu que pregando convertessem</l>
          <l>O Perimal: de sábios e eloquentes,</l>
          <l>Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,</l>
          <l>Que pressupôs de nela morrer santo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Naus arma, e nelas mete curioso</l>
          <l>Mercadoria, que ofereça rica,</l>
          <l>Para ir nelas a ser religioso,</l>
          <l>Onde o profeta jaz, que a Lei publica;</l>
          <l>Antes que parta, o Reino poderoso</l>
          <l>Com os seus reparte, porque não lhe fica</l>
          <l>Herdeiro próprio, faz os mais aceitos</l>
          <l>Ricos de pobres, livres de sujeitos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A um Cochim, e a outro Cananor,</l>
          <l>A qual Chale, a qual a ilha da Pimenta,</l>
          <l>A qual Ceilão, a qual dá Cranganor,</l>
          <l>E os mais, a quem o mais serve e contenta,</l>
          <l>Um só moço, a quem tinha muito amor,</l>
          <l>Depois que tudo deu, se lhe apresenta:</l>
          <l>Para este Calecu somente fica,</l>
          <l>Cidade já por trato nobre e rica.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="356" edRef="#instituto"/>
          <l>“Esta lhe dá com o título excelente</l>
          <l>De Imperador, que sobre os outros mande.</l>
          <l>Isto feito, se parte diligente</l>
          <l>Para onde em santa vida acabe, e ande.</l>
          <l>E daqui fica o nome de potente</l>
          <l>Samori, mais que todos digno e grande,</l>
          <l>Ao moço e descendentes; donde vem</l>
          <l>Este, que agora o Império manda e tem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A Lei da gente toda, rica e pobre,</l>
          <l>De fábulas composta se imagina:</l>
          <l>Andam nus, e somente um pano cobre</l>
          <l>As partes, que a cobrir natura ensina.</l>
          <l>Dois modos há de gente, porque a nobre</l>
          <l>Naires chamados são, e a menos digna</l>
          <l>Poleás tem por nome, a quem obriga</l>
          <l>A Lei não misturar a casta antiga.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,</l>
          <l>De outro não podem receber consorte,</l>
          <l>Nem os filhos terão outro exercício,</l>
          <l>Senão o de seus passados, até morte.</l>
          <l>Para os Naires é certo grande vício</l>
          <l>Destes serem tocados; de tal sorte,</l>
          <l>Que quando algum se toca, por ventura,</l>
          <l>Com cerimónias mil se alimpa e apura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Desta sorte o Judaico povo antigo</l>
          <l>Não tocava na gente de Samária.</l>
          <l>Mais estranhezas ainda das que digo</l>
          <l>Nesta terra vereis de usança vária.</l>
          <l>Os Naires sós são dados ao perigo</l>
          <l>Das armas; sós defendem da contrária</l>
          <l>Banda o seu Rei, trazendo sempre usada</l>
          <l>Na esquerda a adarga e na direita a espada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="357" edRef="#instituto"/>
          <l>“Brâmenes são os seus religiosos,</l>
          <l>Nome antigo e de grande proeminência:</l>
          <l>Observam os preceitos tão famosos</l>
          <l>Dum que primeiro pôs nome à ciência:</l>
          <l>Não matam coisa viva, e, temerosos,</l>
          <l>Das carnes têm grandíssima abstinência;</l>
          <l>Somente no venéreo ajuntamento</l>
          <l>Têm mais licença e menos regimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Gerais são as mulheres, mas somente</l>
          <l>Para os da geração de seus maridos:</l>
          <l>Ditosa condição, ditosa gente,</l>
          <l>Que não são de ciúmes ofendidos!</l>
          <l>Estes e outros costumes variamente</l>
          <l>São pelos Malabares admitidos.</l>
          <l>A terra é grossa em trato, em tudo aquilo</l>
          <l>Que as ondas podem dar da China ao Nilo.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim contava o Mouro; mas vagando</l>
          <l>Andava a fama já pela cidade</l>
          <l>Da vinda desta gente estranha, quando</l>
          <l>O Rei saber mandava da verdade.</l>
          <l>Já vinham pelas ruas caminhando,</l>
          <l>Rodeados de todo sexo e idade,</l>
          <l>Os principais, que o Rei buscar mandara</l>
          <l>O Capitão da armada, que chegara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas ele, que do Rei já tem licença</l>
          <l>Para desembarcar, acompanhado</l>
          <l>Dos nobres Portugueses, sem detença</l>
          <l>Parte, de ricos panos adornado.</l>
          <l>Das cores a formosa diferença</l>
          <l>A vista alegra ao povo alvoroçado.</l>
          <l>O remo compassado fere frio</l>
          <l>Agora o mar, depois o fresco rio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="358" edRef="#instituto"/>
          <l>Na praia um regedor do Reino estava,</l>
          <l>Que na sua língua Catual se chama,</l>
          <l>Rodeado de Naires, que esperava</l>
          <l>Com desusada festa o nobre Gama.</l>
          <l>Já na terra, nos braços o levava,</l>
          <l st:symbols="ok">E num portátil leito u’a rica cama</l>
          <l>Lhe oferece, em que vá, costume usado,</l>
          <l>Que nos ombros dos homens é levado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desta arte o Malabar, destarte o Luso</l>
          <l>Caminham, lá para onde o Rei o espera:</l>
          <l>Os outros Portugueses vão ao uso</l>
          <l>Que infantaria segue, esquadra fera.</l>
          <l>O povo que concorre vai confuso</l>
          <l>De ver a gente estranha, e bem quisera</l>
          <l>Perguntar: mas no tempo já passado</l>
          <l>Na torre de Babel lhe foi vedado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Gama e o Catual iam falando</l>
          <l>Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;</l>
          <l>Monçaide entre eles vai interpretando</l>
          <l>As palavras que de ambos entendia.</l>
          <l>Assim pela cidade caminhando,</l>
          <l>Onde uma rica fábrica se erguia</l>
          <l>De um sumptuoso templo, já chegavam,</l>
          <l>Pelas portas do qual juntos entravam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali estão das deidades as figuras</l>
          <l>Esculpidas em pau e em pedra fria;</l>
          <l>Vários de gestos, vários de pinturas,</l>
          <l>A segundo o Demónio lhe fingia:</l>
          <l>Veem-se as abomináveis esculturas,</l>
          <l>Qual a Quimera em membros se varia:</l>
          <l>Os Cristãos olhos, a ver Deus usados</l>
          <l>Em forma humana, estão maravilhados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="359" edRef="#instituto"/>
          <l>Um na cabeça cornos esculpidos,</l>
          <l>Qual Júpiter Amon em Líbia estava;</l>
          <l>Outro num corpo rostos tinha unidos,</l>
          <l>Bem como o antigo Jano se pintava;</l>
          <l>Outro com muitos braços divididos</l>
          <l>A Briareu parece que imitava;</l>
          <l>Outro fronte canina tem de fora,</l>
          <l>Qual Anúbis Menfítico se adora.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aqui feita do bárbaro gentio</l>
          <l>A supersticiosa adoração,</l>
          <l>Direitos vão, sem outro algum desvio,</l>
          <l>Para onde estava o Rei do povo vão.</l>
          <l>Engrossando-se vai da gente o fio,</l>
          <l>Com os que vêm ver o estranho Capitão;</l>
          <l>Estão pelos telhados e janelas</l>
          <l>Velhos e moços, donas e donzelas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já chegam perto, e não com passos lentos,</l>
          <l>Dos jardins odoríferos formosos,</l>
          <l>Que em si escondem os régios aposentos,</l>
          <l>Altos de torres não, mas sumptuosos.</l>
          <l>Edificam-se os nobres seus assentos</l>
          <l>Por entre os arvoredos deleitosos:</l>
          <l>Assim vivem os Reis daquela gente,</l>
          <l>No campo e na cidade juntamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelos portais da cerca a sutileza</l>
          <l>Se enxerga da Dedálea facultade,</l>
          <l>Em figuras mostrando, por nobreza,</l>
          <l>Da Índia a mais remota antiguidade.</l>
          <l>Afiguradas vão com tal viveza</l>
          <l>As histórias daquela antiga idade,</l>
          <l>Que quem delas tiver notícia inteira,</l>
          <l>Pela sombra conhece a verdadeira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="360" edRef="#instituto"/>
          <l>Estava um grande exército que pisa</l>
          <l>A terra Oriental, que o Idaspe lava;</l>
          <l>Rege-o um capitão de fronte lisa,</l>
          <l>Que com frondentes tirsos pelejava;</l>
          <l>Por ele edificada estiva Nisa</l>
          <l>Nas ribeiras do rio, que manava,</l>
          <l>Tão próprio, que se ali estiver Semele,</l>
          <l>Dirá, por certo, que é seu filho aquele.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mais avante bebendo seca o rio</l>
          <l>Mui grande multidão da Assíria gente,</l>
          <l>Sujeita a feminino senhorio</l>
          <l>De uma tão bela como incontinente.</l>
          <l>Ali tem junto ao lado nunca frio,</l>
          <l>Esculpido o feroz ginete ardente,</l>
          <l>Com quem teria o filho competência:</l>
          <l>Amor nefando, bruta incontinência!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Daqui mais apartadas tremulavam</l>
          <l>As bandeiras de Grécia gloriosas,</l>
          <l>Terceira Monarquia, e sojugavam</l>
          <l>Até as águas Gangéticas undosas.</l>
          <l>Dum capitão mancebo se guiavam,</l>
          <l>De palmas rodeado valerosas,</l>
          <l>Que já, não de Filipo, mas sem falta</l>
          <l>De progénie de Júpiter se exalta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os Portugueses vendo estas memórias,</l>
          <l>Dizia o Catual ao Capitão:</l>
          <l>“Tempo cedo virá que outras vitórias</l>
          <l>Estas, que agora olhais, abaterão;</l>
          <l>Aqui se escreverão novas histórias</l>
          <l>Por gentes estrangeiras que virão;</l>
          <l>Que os nossos sábios magos o alcançaram</l>
          <l>Quando o tempo futuro especularam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="361" edRef="#instituto"/>
          <l>“E diz-lhe mais a mágica ciência</l>
          <l>Que, para se evitar força tamanha,</l>
          <l>Não valerá dos homens resistência,</l>
          <l>Que contra o Céu não val da gente manha;</l>
          <l>Mas também diz que a bélica excelência,</l>
          <l>Nas armas e na paz, da gente estranha</l>
          <l>Será tal, que será no mundo ouvido</l>
          <l>O vencedor, por glória do vencido,”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim falando entravam já na sala,</l>
          <l>Onde aquele potente Imperador</l>
          <l>Numa camilha jaz, que não se iguala</l>
          <l>De outra alguma no preço e no lavor.</l>
          <l>No recostado gesto se assinala</l>
          <l>Um venerando e próspero senhor;</l>
          <l>Um pano de ouro cinge, e na cabeça</l>
          <l>De preciosas gemas se adereça.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Bem junto dele um velho reverente,</l>
          <l>Com os giolhos no chão, de quando em quando</l>
          <l>Lhe dava a verde folha da erva ardente,</l>
          <l>Que a seu costume estava ruminando.</l>
          <l>Um Brâmene, pessoa proeminente,</l>
          <l>Para o Gama vem com passo brando,</l>
          <l>Para que ao grande Príncipe o apresente,</l>
          <l>Que diante lhe acena que se assente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sentado o Gama junto ao rico leito,</l>
          <l>Os seus mais afastados, pronto em vista</l>
          <l>Estava o Samori no trajo e jeito</l>
          <l>Da gente, nunca de antes dele vista.</l>
          <l>Lançando a grave voz do sábio peito,</l>
          <l>Que grande autoridade logo aquista</l>
          <l>Na opinião do Rei e do povo todo,</l>
          <l>O Capitão lhe fala deste modo:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="362" edRef="#instituto"/>
          <l>“Um grande Rei, de lá das partes Onde</l>
          <l>O céu volúvel, com perpétua roda,</l>
          <l>Da terra a luz solar com a terra esconde,</l>
          <l>Tingindo a que deixou de escura noda,</l>
          <l>Ouvindo do rumor que lá responde</l>
          <l>O eco, como em ti da Índia toda</l>
          <l>O principado está, e a majestade,</l>
          <l>Vínculo quer contigo de amizade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E por longos rodeios a ti manda,</l>
          <l>Por te fazer saber que tudo aquilo</l>
          <l>Que sobre o mar, que sobre as terras anda</l>
          <l>De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,</l>
          <l>E desde a fria plaga de Gelanda</l>
          <l>Até bem donde o Sol não muda o estilo</l>
          <l>Nos dias, sobre a gente de Etiópia,</l>
          <l>Tudo tem no seu Reino em grande cópia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se queres com pactos e alianças</l>
          <l>De paz e de amizade sacra e nua</l>
          <l>Comércio consentir das abastanças</l>
          <l>Das fazendas da terra sua e tua,</l>
          <l>Por que cresçam as rendas e abastanças,</l>
          <l>Por quem a gente mais trabalha e sua,</l>
          <l>De vossos Reinos, será certamente</l>
          <l>De ti proveito, o dele glória ingente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E sendo assim, que o nó desta amizade</l>
          <l>Entre vós firmemente permaneça,</l>
          <l>Estará pronto a toda adversidade,</l>
          <l>Que por guerra a teu Reino se ofereça,</l>
          <l>Com gente, armas e naus, de qualidade</l>
          <l>Que por irmão te tenha e te conheça;</l>
          <l>E da vontade em ti sobre isto posta</l>
          <l>Me dês a mim certíssima resposta.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="363" edRef="#instituto"/>
          <l>Tal embaixada dava o Capitão,</l>
          <l>A quem o Rei gentio respondia</l>
          <l>Que, em ver embaixadores de nação</l>
          <l>Tão remota, grã glória recebia;</l>
          <l>Mas neste caso a última tenção</l>
          <l>Com os de seu conselho tomaria,</l>
          <l>Informando-se certo de quem era</l>
          <l>O Rei, e a gente, e terra que dissera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E que entanto podia do trabalho</l>
          <l>Passado ir repousar, e em tempo breve</l>
          <l>Daria a seu despacho um justo talho,</l>
          <l>Com que a seu Rei resposta alegre leve.</l>
          <l>Já nisto punha a noite o usado atalho</l>
          <l>As humanas canseiras, por que ceve</l>
          <l>De doce sono os membros trabalhados,</l>
          <l>Os olhos ocupando ao ócio dados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Agasalhados foram juntamente</l>
          <l>O Gama e Portugueses no aposento</l>
          <l>Do nobre Regedor da Índica gente,</l>
          <l>Com festas e geral contentamento.</l>
          <l>O Catual, no cargo diligente</l>
          <l>De seu Rei, tinha já por regimento</l>
          <l>Saber da gente estranha donde vinha,</l>
          <l>Que costumes, que lei, que terra tinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tanto que os ígneos carros do formoso</l>
          <l>Mancebo Délio viu, que a luz renova,</l>
          <l>Manda chamar Monçaide, desejoso</l>
          <l>De poder-se informar da gente nova.</l>
          <l>Já lhe pergunta pronto e curioso,</l>
          <l>Se tem notícia inteira e certa prova</l>
          <l>Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha</l>
          <l>Que é gente de sua pátria mui vizinha;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="364" edRef="#instituto"/>
          <l>Que particularmente ali lhe desse</l>
          <l>Informação mui larga, pois faria</l>
          <l>Nisso serviço ao Rei, por que soubesse</l>
          <l>O que neste negócio se faria.</l>
          <l>Monçaide torna: — “Posto que eu quisesse</l>
          <l>Dizer-te disto mais, não saberia;</l>
          <l>Somente sei que é gente lá de Espanha,</l>
          <l>Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Têm a lei dum Profeta, que gerado</l>
          <l>Foi sem fazer na carne detrimento</l>
          <l>Da mãe, tal que por bafo está aprovado</l>
          <l>Do Deus, que tem do mundo o regimento,</l>
          <l>O que entre meus antigos é vulgado</l>
          <l>Deles, é que o valor sanguinolento</l>
          <l>Das armas no seu braço resplandece,</l>
          <l>O que em nossos passados se parece.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque eles, com virtude sobre-humana,</l>
          <l>Os deitaram dos campos abundosos</l>
          <l>Do rico Tejo e fresco Goadiana,</l>
          <l>Com feitos memoráveis e famosos:</l>
          <l>E não contentes ainda, e na Africana</l>
          <l>Parte, cortando os mares procelosos,</l>
          <l>Nos não querem deixar viver seguros,</l>
          <l>Tomando-nos cidades e altos muros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não menos têm mostrado esforço e manha</l>
          <l>Em quaisquer outras guerras que aconteças,</l>
          <l>Ou das gentes belígeras de Espanha,</l>
          <l>Ou lá dalguns que do Pírene desçam.</l>
          <l>Assim que nunca enfim com lança estranha</l>
          <l>Se tem, que por vencidos se conheçam,</l>
          <l>Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,</l>
          <l>Para estes Anibais nenhum Marcelo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="365" edRef="#instituto"/>
          <l>“E se esta informação não for inteira</l>
          <l>Tanto quanto convém, deles pretende</l>
          <l>Informar-te, que é gente verdadeira,</l>
          <l>A quem mais falsidade enoja e ofende:</l>
          <l>Vai ver-lhe a frota, as armas e a maneira</l>
          <l>Do fundido metal, que tudo rende,</l>
          <l>E folgarás de veres a polícia</l>
          <l>Portuguesa na paz e na milícia.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já com desejos o Idolatra ardia</l>
          <l>De ver isto, que o Mouro lhe contava.</l>
          <l>Manda esquipar batéis que ir ver queria</l>
          <l>Os lenhos em que o Gama navegava.</l>
          <l>Ambos partem da praia, a quem seguia</l>
          <l>A Naira geração, que o mar coalhava.</l>
          <l>À capitaina sobem forte e bela,</l>
          <l>Onde Paulo os recebe a bordo dela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Purpúreos são os toldos, e as bandeiras</l>
          <l>Do rico fio são que o bicho gera;</l>
          <l>Nelas estão pintadas as guerreiras</l>
          <l>Obras, que o forte braço já fizera:</l>
          <l>Batalhas tem campais, aventureiras,</l>
          <l>Desafios cruéis, pintura fera,</l>
          <l>Que, tanto que ao Gentio se apresenta,</l>
          <l>A tento nela os olhos apascenta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelo que vê pergunta; mas o Gama</l>
          <l>Lhe pedia primeiro que se assente,</l>
          <l>E que aquele deleite, que tanto ama</l>
          <l>A seita Epicureia, experimente.</l>
          <l>Dos espumantes vasos se derrama</l>
          <l>O licor que Noé mostrara à gente:</l>
          <l>Mas comer o Gentio não pretende,</l>
          <l>Que a seita que seguia lho defende.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="366" edRef="#instituto"/>
          <l>A trombeta que, em paz, no pensamento</l>
          <l>Imagem faz de guerra, rompe os ares;</l>
          <l>Com o fogo o diabólico instrumento</l>
          <l>Se faz ouvir no fundo lá dos mares.</l>
          <l>Tudo o Gentio nota; mas o intento</l>
          <l>Mostrava sempre ter nos singulares</l>
          <l>Feitos dos homens, que em retrato breve</l>
          <l>A muda poesia ali descreve</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Alça-se em pé, com ele o Gama junto,</l>
          <l>Coelho de outra parti, e o Mauritano;</l>
          <l>Os olhos põe no bélico transunto</l>
          <l>De um velho branco, aspecto venerando</l>
          <l>Cujo nome não pode ser defunto</l>
          <l>Enquanto houver no mundo trato humano:</l>
          <l>No trajo a Grega usança está perfeita,</l>
          <l>Um ramo por insígnia na direita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!</l>
          <l>Eu, que cometo insano e temerário,</l>
          <l>Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,</l>
          <l>Por caminho tão árduo, longo e vário!</l>
          <l>Vosso favor invoco, que navego</l>
          <l>Por alto mar, com vento tão contrário,</l>
          <l>Que, se não me ajudais, hei grande medo</l>
          <l>Que o meu fraco batel se alague cedo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Olhai que há tanto tempo que, cantando</l>
          <l>O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,</l>
          <l>A fortuna mo traz peregrinando,</l>
          <l>Novos trabalhos vendo, e novos danos:</l>
          <l>Agora o mar, agora exprimentando</l>
          <l>Os perigos Mavórcios inumanos,</l>
          <l>Qual Canace, que à morte se condena,</l>
          <l>Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="367" edRef="#instituto"/>
          <l>Agora, com pobreza avorrecida,</l>
          <l>Por hospícios alheios degradado;</l>
          <l>Agora, da esperança já adquirida,</l>
          <l>De novo, mais que nunca, derribado;</l>
          <l>Agora às costas escapando a vida,</l>
          <l>Que dum fio pendia tão delgado</l>
          <l>Que não menos milagre foi salvar-se</l>
          <l>Que para o Rei Judaico acrescentar-se.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ainda, Ninfas minhas, não bastava</l>
          <l>Que tamanhas misérias me cercassem,</l>
          <l>Senão que aqueles, que eu cantando andava</l>
          <l>Tal prémio de meus versos me tornassem:</l>
          <l>A troco dos descansos que esperava,</l>
          <l>Das capelas de louro que me honrassem,</l>
          <l>Trabalhos nunca usados me inventaram,</l>
          <l>Com que em tão duro estado me deitaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vede, Ninfas, que engenhos de senhores</l>
          <l>O vosso Tejo cria valorosos,</l>
          <l>Que assim sabem prezar com tais favores</l>
          <l>A quem os faz, cantando, gloriosos!</l>
          <l>Que exemplos a futuros escritores,</l>
          <l>Para espertar engenhos curiosos,</l>
          <l>Para porem as coisas em memória,</l>
          <l>Que merecerem ter eterna glória!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pois logo em tantos males é forçado,</l>
          <l>Que só vosso favor me não faleça,</l>
          <l>Principalmente aqui, que sou chegado</l>
          <l>Onde feitos diversos engrandeça:</l>
          <l>Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado</l>
          <l>Que não o empregue em quem o não mereça,</l>
          <l>Nem por lisonja louve algum subido,</l>
          <l>Sob pena de não ser agradecido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="368" edRef="#instituto"/>
          <l>Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse</l>
          <l>A quem ao bem comum e do seu Rei</l>
          <l>Antepuser seu próprio interesse,</l>
          <l>Imigo da divina e humana Lei.</l>
          <l>Nenhum ambicioso, que quisesse</l>
          <l>Subir a grandes cargos, cantarei,</l>
          <l>Só por poder com torpes exercícios</l>
          <l>Usar mais largamente de seus vícios;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nenhum que use de seu poder bastante,</l>
          <l>Para servir a seu desejo feio,</l>
          <l>E que, por comprazer ao vulgo errante,</l>
          <l>Se muda em mais figuras que Proteio.</l>
          <l>Nem, Camenas, também cuideis que canto</l>
          <l>Quem, com hábito honesto e grave, veio,</l>
          <l>Por contentar ao Rei no ofício novo,</l>
          <l>A despir e roubar o pobre povo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nem quem acha que é justo e que é direito</l>
          <l>Guardar-se a lei do Rei severamente,</l>
          <l>E não acha que é justo e bom respeito,</l>
          <l>Que se pague o suor da servil gente;</l>
          <l>Nem quem sempre, com pouco experto peito,</l>
          <l>Razões aprende, e cuida que é prudente,</l>
          <l>Para taxar, com mão rapace e escassa,</l>
          <l>Os trabalhos alheios, que não passa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aqueles sós direi, que aventuraram</l>
          <l>Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,</l>
          <l>Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,</l>
          <l>Tão bem de suas obras merecida.</l>
          <l>Apolo, e as Musas que me acompanharam,</l>
          <l>Me dobrarão a fúria concedida,</l>
          <l>Enquanto eu tomo alento descansado,</l>
          <l>Por tornar ao trabalho, mais folgado.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Oitavo</head>
        <lg>
          <pb n="388" edRef="#instituto"/>
          <l>Na primeira figura se detinha</l>
          <l>O Catual que vira estar pintada,</l>
          <l>Que por divisa um ramo na mão tinha,</l>
          <l>A barba branca, longa e penteada:</l>
          <l>“Quem era, e por que causa lhe convinha</l>
          <l>A divisa, que tem na mão tomada?”</l>
          <l>Paulo responde, cuja voz discreta</l>
          <l>O Mauritano sábio lhe interpreta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Estas figuras todas que aparecem,</l>
          <l>Bravos em vista e feros nos aspectos,</l>
          <l>Mais bravos e mais feros se conhecem,</l>
          <l>Pela fama, nas obras e nos feitos:</l>
          <l>Antigos são, mas ainda resplandecem</l>
          <l>C’o nome, entre os engenhos mais perfeito</l>
          <l>Este que vês é Luso, donde a fama</l>
          <l>O nosso Reino Lusitânia chama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Foi filho e companheiro do Tebano,</l>
          <l>Que tão diversas partes conquistou;</l>
          <l>Parece vindo ter ao ninho Hispano</l>
          <l>Seguindo as armas, que contino usou;</l>
          <l>Do Douro o Guadiana o campo ufano,</l>
          <l>Já dito Elísio, tanto o contentou,</l>
          <l>Que ali quis dar aos já cansados ossos</l>
          <l>Eterna sepultura, e nome aos nossos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="389" edRef="#instituto"/>
          <l>“O ramo que lhe vês para divisa,</l>
          <l>O verde tirso foi de Baco usado;</l>
          <l>O qual à nossa idade amostra e avisa</l>
          <l>Que foi seu companheiro e filho amido.</l>
          <l>Vês outro, que do Tejo a terra pisa,</l>
          <l>Depois de ter tão longo mar arado,</l>
          <l>Onde muros perpétuos edifica,</l>
          <l>E templo a Palas, que em memória fica?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ulisses é o que faz a santa casa</l>
          <l>A Deusa, que lhe dá língua facunda;</l>
          <l>Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,</l>
          <l>Cá na Europa Lisboa ingente funda.”</l>
          <l>— “Quem será estoutro cá, que o campo arrasa</l>
          <l>De mortos, com presença furibunda?</l>
          <l>Grandes batalhas tem desbaratadas,</l>
          <l>Que as águias nas bandeiras tem pintadas.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim o Gentio diz. Responde o Gama:</l>
          <l>— “Este que vês, pastor já foi de gado;</l>
          <l>Viriato sabemos que se chama,</l>
          <l>Destro na lança mais que no cajado;</l>
          <l>Injuriada tem de Roma a fama,</l>
          <l>Vencedor invencível afamado;</l>
          <l>Não tem com ele, não, nem ter puderam</l>
          <l>O primor que com Pirro já tiveram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com força, não; com manha vergonhosa,</l>
          <l>A vida lhe tiraram que os espanta:</l>
          <l>Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,</l>
          <l>As vezes leis magnânimas quebranta.</l>
          <l>Outro está aqui que, contra a pátria irosa,</l>
          <l>Degradado, conosco se alevanta:</l>
          <l>Escolheu bem com quem se alevantasse,</l>
          <l>Para que eternamente se ilustrasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="390" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vês? conosco também vence as bandeiras</l>
          <l>Dessas aves de Júpiter validas;</l>
          <l>Que já naquele tempo as mais Guerreiras</l>
          <l>Gentes de nós souberam ser vencidas.</l>
          <l>Olha tão subtis artes e maneiras,</l>
          <l>Para adquirir os povos, tão fingidas,</l>
          <l>A fatídica Cerva que o avisa:</l>
          <l>Ele é Sertório, e ela a sua divisa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha estoutra bandeira, e vê pintado</l>
          <l>O grã progenitor dos Reis primeiros.</l>
          <l>Nós Húngaro o fazemos, porém nado</l>
          <l>Creem ser em Lotaríngia os estrangeiros.</l>
          <l>Depois de ter com os Mouros superado,</l>
          <l>Galegos e Leoneses cavaleiros,</l>
          <l>A casa Santa passa o santo Henrique,</l>
          <l>Por que o tronco dos Reis se santifique.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Quem é, me diz, este outro que me espanta,</l>
          <l>(Pergunta o Malabar maravilhado)</l>
          <l>Que tantos esquadrões, que gente tanta,</l>
          <l>Com tão pouca, tem roto e destroçado?</l>
          <l>Tantos muros aspérrimos quebranta,</l>
          <l>Tantas batalhas dá, nunca cansado,</l>
          <l>Tantas coroas tem por tantas partes</l>
          <l>A seus pés derribadas, e estandartes!”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— “Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,</l>
          <l>Que todo Portugal aos Mouros toma;</l>
          <l>Por quem, no Estígio lago, jura a Fama</l>
          <l>De mais não celebrar nenhum de Roma.</l>
          <l>Este é aquele zeloso a quem Deus ama,</l>
          <l>Com cujo braço o Mouro imigo doma,</l>
          <l>Para quem de seu Reino abaixa os muros,</l>
          <l>Nada deixando já para os futuros,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="391" edRef="#instituto"/>
          <l>“Se César, se Alexandre Rei, tiveram</l>
          <l>Tão pequeno poder, tão pouca gente,</l>
          <l>Contra tantos imigos quantos eram</l>
          <l>Os que desbaratava este excelente,</l>
          <l>Não creias que seus nomes se estendera</l>
          <l>Com glórias imortais tão largamente;</l>
          <l>Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,</l>
          <l>Vê que os de seus vassalos são notáveis.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este que vês olhar com gesto irado</l>
          <l>Para o rompido aluno mal sofrido,</l>
          <l>Dizendo-lhe que o exército espalhado</l>
          <l>Recolha, e torne ao campo defendido;</l>
          <l>Torna o moço do velho acompanhado,</l>
          <l>Que vencedor o torna de vencido:</l>
          <l>Egas Moniz se chama o forte velho,</l>
          <l>Para leais vassalos claro espelho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vê-lo cá vai com os filhos a entregar-se,</l>
          <l>A corda ao colo, nu de seda e pano,</l>
          <l>Porque não quis o moço sujeitar-se,</l>
          <l>Como ele prometera, ao Castelhano.</l>
          <l>Fez com siso e promessas levantar-se</l>
          <l>O cerco, que já estava soberano;</l>
          <l>Os filhos e mulher obriga à pena:</l>
          <l>Para que o senhor salve, a si condena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não fez o Cônsul tanto, que cercado</l>
          <l>Foi nas forcas Caudinas, de ignorante,</l>
          <l>Quando a passar por baixo foi forçado</l>
          <l>Do Samnítico jugo triunfante.</l>
          <l>Este, pelo seu povo injuriado,</l>
          <l>A si se entrega só, firme e constante;</l>
          <l>Estoutro a si, e os filhos naturais,</l>
          <l>E a consorte sem culpa, que dói mais.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="392" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vês este que, saindo da cilada,</l>
          <l>Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?</l>
          <l>Já o Rei tem preso e a vila descercada:</l>
          <l>Ilustre feito, digno de Mavorte!</l>
          <l>Vê-lo cá vai pintado nesta armada,</l>
          <l>No mar também aos Mouros dando a morto,</l>
          <l>Tomando-lhe as galés, levando a glória</l>
          <l>Da primeira marítima vitória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“É, Dom Fuas Roupinho, que na terra</l>
          <l>E no mar resplandece juntamente,</l>
          <l>Com o fogo que acendeu junto da serra</l>
          <l>De Abila, nas galés da Maura gente.</l>
          <l>Olha como, em tão justa e santa guerra,</l>
          <l>De acabar pelejando está contente:</l>
          <l>Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,</l>
          <l>Triunfando, nos céus, com justa palma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não vês um ajuntamento, de estrangeiro</l>
          <l>Trajo, sair da grande armada nova,</l>
          <l>Que ajuda a combater o Rei primeiro</l>
          <l>Lisboa, de si dando santa prova?</l>
          <l>Olha Henrique, famoso cavaleiro,</l>
          <l>A palma que lhe nasce junto à cova.</l>
          <l>Por eles mostra Deus milagre visto:</l>
          <l>Germanos são os mártires de Cristo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Um Sacerdote vê brandindo a espada</l>
          <l>Contra Arronches, que toma, por vingança</l>
          <l>De Leiria, que de antes foi tomada</l>
          <l>Por quem por Mafamede enresta a lança:</l>
          <l>É Teotónio, Prior. Mas vê cercada</l>
          <l>Santarém, e verás a segurança</l>
          <l>Da figura nos muros, que primeira</l>
          <l>Subindo, ergueu das Quinas a bandeira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="393" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vê-lo cá, donde Sancho desbarata</l>
          <l>Os Mouros de Vandália em fera guerra;</l>
          <l>Os imigos rompendo, o alferes mata</l>
          <l>E o Hispálico pendão derriba em terra:</l>
          <l>Mem Moniz é, que em si o valor retrata,</l>
          <l>Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,</l>
          <l>Digno destas bandeiras, pois sem falta</l>
          <l>A contrária derriba e a sua exalta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha aquele que desce pela lança?</l>
          <l>Com as duas cabeças dos vigias,</l>
          <l>Onde a cilada esconde, com que alcança</l>
          <l>A cidade por manhas e ousadias.</l>
          <l>Ela por armas toma a semelhança</l>
          <l>Do cavaleiro, que as cabeças frias</l>
          <l>Na mão levava (feito nunca feito!)</l>
          <l>Giraldo Sem-pavor é o forte peito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não vês um Castelhano, que agravado</l>
          <l>De Afonso nono rei, pelo ódio antigo</l>
          <l>Dos de Lara, com os Mouros é deitado,</l>
          <l>De Portugal fazendo-se inimigo?</l>
          <l>Abrantes vila toma, acompanhado</l>
          <l>Dos duros infiéis que traz consigo.</l>
          <l>Mas vê que um Português com pouca gente</l>
          <l>O desbarata e o prende ousadamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Martim Lopes se chama o cavaleiro,</l>
          <l>Que destes levar pode a palma e o louro.</l>
          <l>Mas olha um Eclesiástico guerreiro,</l>
          <l>Que em lança de aço torna o Bago de ouro.</l>
          <l>Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro</l>
          <l>Em não negar batalha ao bravo Mouro;</l>
          <l>Olha o sinal no céu que lhe aparece,</l>
          <l>Com que nos poucos seus o esforço cresce.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="394" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vós? vão os Reis de Córdova e Sevilha</l>
          <l>Rotos, com os outros dois, e não de espaço.</l>
          <l>Rotos? mas antes mortos, maravilha</l>
          <l>Feita de Deus, que não de humano braço.</l>
          <l>Vês? já a vila de Alcáçare se humilha,</l>
          <l>Sem lhe valer defesa, ou muro de aço,</l>
          <l>A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,</l>
          <l>Que a coroa da palma ali coroa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha um Mestre que desce de Castela,</l>
          <l>Português de nação, como conquista</l>
          <l>A terra dos Algarves, e já nela</l>
          <l>Não acha quem por armas lhe resista;</l>
          <l>Com manha, esforço, e com benigna estrela,</l>
          <l>Vilas, castelos toma à escala vista.</l>
          <l>Vês Tavila tomada aos moradores,</l>
          <l>Em vingança dos sete caçadores!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês? com bélica astúcia ao Mouro ganha</l>
          <l>Silves, que ele ganhou com força ingente:</l>
          <l>É Dom Paio Correia, cuja manha</l>
          <l>E grande esforço faz inveja à gente.</l>
          <l>Mas não passes os três que em França e Espanha</l>
          <l>Se fazem conhecer perpetuamente</l>
          <l>Em desafios, justas e torneios,</l>
          <l>Nelas deixando públicos troféus.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vê-los, com o nome vêm de aventureiros</l>
          <l>A Castela, onde o preço sós levaram</l>
          <l>Dos jogos de Belona verdadeiros,</l>
          <l>Que com dano de alguns se exercitaram.</l>
          <l>Vê mortos os soberbos cavaleiros,</l>
          <l>Que o principal dos três desafiaram,</l>
          <l>Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,</l>
          <l>Que pode não temer a lei Leteia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="395" edRef="#instituto"/>
          <l>“Atenta num, que a fama tanto estende,</l>
          <l>Que de nenhum passado se contenta;</l>
          <l>Que a pátria, que de um fraco fio pende,</l>
          <l>Sobre seus duros ombros a sustenta.</l>
          <l>Não no vês tinto de ira, que reprende</l>
          <l>A vil desconfiança inerte e lenta</l>
          <l>Do povo, e faz que tome o doce freio</l>
          <l>De Rei seu natural, e não de alheio?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha: por seu conselho e ousadia</l>
          <l>De Deus guiada só, e de santa estrela,</l>
          <l>Só pode o que impossível parecia:</l>
          <l>Vencer o povo ingente de Castela.</l>
          <l>Vês, por indústria, esforço e valentia,</l>
          <l>Outro estrago e vitória clara e bela,</l>
          <l>Na gente, assim feroz como infinita,</l>
          <l>Que entre o Tarteso e Goadiana habita?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas não vês quase já desbaratado</l>
          <l>O poder Lusitano, pela ausência</l>
          <l>Do Capitão devoto, que, apartado</l>
          <l>Orando invoca a suma e trina Essência?</l>
          <l>Vê-lo com pressa já dos seus achado,</l>
          <l>Que lhe dizem que falta resistência</l>
          <l>Contra poder tamanho, e que viesse,</l>
          <l>Por que consigo esforço aos fracos desse?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas olha com que santa confiança,</l>
          <l>— Que inda não era tempo, — respondia,</l>
          <l>Como quem tinha em Deus a segurança</l>
          <l>Da vitória que logo lhe daria.</l>
          <l>Assim Pompílio, ouvindo que a possança</l>
          <l>Dos imigos a terra lhe corria,</l>
          <l>A quem lhe a dura nova estava dando,</l>
          <l>— “Pois eu, responde, estou sacrificando.” —</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="396" edRef="#instituto"/>
          <l>“Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,</l>
          <l>Ouvir quiseres como se nomeia,</l>
          <l>Português Cipião chamar-se deve;</l>
          <l>Mas mais de Dom Nuno Álvares se arreia:</l>
          <l>Ditosa pátria que tal filho teve!</l>
          <l>Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia</l>
          <l>Este globo de Ceres e Netuno,</l>
          <l>Sempre suspirará por tal aluno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Na mesma guerra vê que presas ganha</l>
          <l>Estoutro Capitão de pouca gente;</l>
          <l>Comendadores vence e o gado apanha,</l>
          <l>Que levavam roubado ousadamente.</l>
          <l>Outra vez vê que a lança em sangue banha</l>
          <l>Destes, só por livrar com o amor ardente</l>
          <l>O preso amigo, preso por leal:</l>
          <l>Pêro Rodrigues é do Landroal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha este desleal o como paga</l>
          <l>O perjúrio que fez e vil engano:</l>
          <l>Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga,</l>
          <l>E faz vir a passar o último dano:</l>
          <l>De Xerez rouba o campo, e quase alaga</l>
          <l>Com o sangue de seus donos Castelhano.</l>
          <l>Mas olha Rui Pereira, que com o rosto</l>
          <l>Faz escudo às galés, diante posto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha que dezessete Lusitanos,</l>
          <l>Neste outeiro subidos se defendem,</l>
          <l>Fortes, de quatrocentos Castelhanos,</l>
          <l>Que em derredor, pelos tomar, se estendem;</l>
          <l>Porém logo sentiram, com seus danos,</l>
          <l>Que não só se defendem, mas ofendem:</l>
          <l>Digno feito de ser no mundo eterno,</l>
          <l>Grande no tempo antigo e no moderno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="397" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sabe-se antigamente que trezentos</l>
          <l>Já contra mil Romanos pelejaram,</l>
          <l>No tempo que os viris atrevimentos</l>
          <l>De Viriato tanto se ilustraram,</l>
          <l>E deles alcançando vencimentos</l>
          <l>Memoráveis, de herança nos deixaram</l>
          <l>Que os muitos, por ser poucos, não temamos:</l>
          <l>O que depois mil vezes amostramos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha cá dois infantes, Pedro e Henrique,</l>
          <l>Progénie generosa de Joane:</l>
          <l>Aquele faz que fama ilustre fique</l>
          <l>Dele em Germânia, com que a morte engane;</l>
          <l>Este, que ela nos mares o publique</l>
          <l>Por seu descobridor, e desengane</l>
          <l>De Ceita a Maura túmida vaidade,</l>
          <l>Primeiro entrando as portas da cidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês o conde Dom Pedro, que sustenta</l>
          <l>Dois cercos contra toda a Barbaria?</l>
          <l>Vês, outro Conde está, que representa</l>
          <l>Em terra Marte, em forças e ousadia;</l>
          <l>De poder defender se não contenta</l>
          <l>Alcácere da ingente companhia;</l>
          <l>Mas do seu Rei defende a cara vida,</l>
          <l>Pondo por muro a sua, ali perdida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Outros muitos verias, que os pintores</l>
          <l>Aqui também por certo pintariam;</l>
          <l>Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,</l>
          <l>Honra, prémio, favor, que as artes criam:</l>
          <l>Culpa dos viciosos sucessores,</l>
          <l>Que degeneram, certo, e se desviam</l>
          <l>Do lustre e do valor dos seus passados,</l>
          <l>Em gostos e vaidades atolados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="398" edRef="#instituto"/>
          <l>“Aqueles pais ilustres que já deram</l>
          <l>Princípio à geração que deles pende,</l>
          <l>Pela virtude muito então fizeram,</l>
          <l>E por deixar a casa, que descende.</l>
          <l>Cegos, que dos trabalhos que tiveram,</l>
          <l>Se alta fama e rumor deles se estende,</l>
          <l>Escuros deixam sempre seus menores,</l>
          <l>Com lhe deixar descansos corruptores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Outros também há grandes e abastados,</l>
          <l>Sem nenhum tronco ilustre donde venham;</l>
          <l>Culpa de Reis, que às vezes a privados</l>
          <l>Dão mais que a mil, que esforço e saber tenham.</l>
          <l>Estes os seus não querem ver pintados,</l>
          <l>Crendo que cores vãs lhe não convenham,</l>
          <l>E, como a seu contrairo natural,</l>
          <l>A pintura, que fala, querem mal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não nego que há contudo descendentes</l>
          <l>Do generoso tronco, e casa rica,</l>
          <l>Que com costumes altos e excelentes,</l>
          <l>Sustentam a nobreza que lhe fica;</l>
          <l>E se a luz dos antigos seus parentes</l>
          <l>Neles mais o valor não clarifica,</l>
          <l>Não falta ao menos, nem se faz escura.</l>
          <l>Mas destes acha poucos a pintura.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim está declarando os grandes feitos</l>
          <l>O Gama, que ali mostra a vária tinta,</l>
          <l>Que a douta mão tão claros, tão perfeitos,</l>
          <l>Do singular artífice ali pinta.</l>
          <l>Os olhos tinha prontos e direitos</l>
          <l>O Catual na história bem distinta;</l>
          <l>Mil vezes perguntava e mil ouvia</l>
          <l>As gostosas batalhas que ali via.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="399" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas já a luz se mostrava duvidosa,</l>
          <l>Porque a lâmpada grande se escondia</l>
          <l>Debaixo do Horizonte e luminosa</l>
          <l>Levava aos Antípodas o dia,</l>
          <l>Quando o Gentio e a gente generosa</l>
          <l>Dos Naires da nau forte se partia</l>
          <l>A buscar o repouso que descansa</l>
          <l>Os lassos animais, na noite mansa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entretanto os Arúspices famosos</l>
          <l>Na falsa opinião, que em sacrifícios</l>
          <l>Anteveem sempre os casos duvidosos,</l>
          <l>Por sinais diabólicos e indícios,</l>
          <l>Mandados do Rei próprio, estudiosos</l>
          <l>Exercitavam a arte e seus ofícios</l>
          <l>Sobre esta vinda desta gente estranha,</l>
          <l>Que às suas terras vem da ignota Espanha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,</l>
          <l>De como a nova gente lhe seria</l>
          <l>Jugo perpétuo, eterno cativeiro,</l>
          <l>Destruição de gente, e de valia.</l>
          <l>Vai-se espantado o atónito agoureiro</l>
          <l>Dizer ao Rei (segundo o que entendia)</l>
          <l>Os sinais temerosos que alcançara</l>
          <l>Nas entranhas das vítimas que olhara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A isto mais se ajunta que um devoto</l>
          <l>Sacerdote da lei de Mafamede,</l>
          <l>Dos ódios concebidos não remoto</l>
          <l>Contra a divina Fé, que tudo excede,</l>
          <l>Em forma do Profeta falso e noto,</l>
          <l>Que do filho da escrava Agar procede,</l>
          <l>Baco odioso em sonhos lhe aparece,</l>
          <l>Que de seus ódios ainda se não desse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="400" edRef="#instituto"/>
          <l>E diz-lhe assim: “Guardai-vos, gente minha,</l>
          <l>Do mal que se aparelha pelo imigo</l>
          <l>Que pelas águas úmidas caminha,</l>
          <l>Antes que esteis mais perto do perigo.”</l>
          <l>Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,</l>
          <l>Espantado do sonho; mas consigo</l>
          <l>Cuida que não é mais que sonho usado:</l>
          <l>Torna a dormir quieto e sossegado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Torna Baco, dizendo: “Não conheces</l>
          <l>O grã legislador que a teus passados</l>
          <l>Tem mostrado o preceito a que obedeces,</l>
          <l>Sem o qual fôreis muitos batizados?</l>
          <l>Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!</l>
          <l>Pois saberás que aqueles, que chegados</l>
          <l>De novo são, serão mui grande dano</l>
          <l>Da lei que eu dei ao néscio povo humano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Enquanto é fraca a força desta gente,</l>
          <l>Ordena como em tudo se resista,</l>
          <l>Porque, quando o Sol sai, facilmente</l>
          <l>Se pode nele pôr a aguda vista;</l>
          <l>Porém, depois que sobe claro e ardente,</l>
          <l>Se agudeza dos olhos o conquista,</l>
          <l>Tão cega fica, quanto ficareis,</l>
          <l>Se raízes criar lhe não tolheis.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto dito, ele e o sono se despede.</l>
          <l>Tremendo fica o atónito Agareno:</l>
          <l>Salta da cama, lume ao servos pede,</l>
          <l>Lavrando nele o férvido veneno.</l>
          <l>Tanto que a nova luz que ao Sol precede</l>
          <l>Mostrara rosto angélico e sereno,</l>
          <l>Convoca os principais da torpe seita,</l>
          <l>Aos quais do que sonhou dá conta estreita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="401" edRef="#instituto"/>
          <l>Diversos pareceres e contrários</l>
          <l>Ali se dão, segundo o que entendiam;</l>
          <l>Astutas traições, enganos vários,</l>
          <l>Perfídias inventavam e teciam.</l>
          <l>Mas, deixando conselhos temerários,</l>
          <l>Destruição da gente pretendiam,</l>
          <l>Por manhas mais subtis e ardis melhores,</l>
          <l>Com peitas adquirindo os regedores;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com peitas, ouro, e dádivas secretas</l>
          <l>Conciliam da terra os principais,</l>
          <l>E com razões notáveis e discretas</l>
          <l>Mostram ser perdição dos naturais,</l>
          <l>Dizendo que são gentes inquietas,</l>
          <l>Que, os mares discorrendo ocidentais,</l>
          <l>Vivem só de piráticas rapinas,</l>
          <l>Sem Rei, sem leis humanas ou divinas</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó quanto deve o Rei que bem governa,</l>
          <l>De olhar que os conselheiros, ou privados,</l>
          <l>De consciência e de virtude interna</l>
          <l>E de sincero amor sejam dotados!</l>
          <l>Porque, como este posto na suprema</l>
          <l>Cadeira, pode mal dos apartados</l>
          <l>Negócios ter notícia mais inteira,</l>
          <l>Do que lhe der a língua conselheira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nem tão pouco direi que tome tanto</l>
          <l>Em grosso a consciência limpa e certa,</l>
          <l>Que se enleve num pobre e humilde manto,</l>
          <l>Onde ambição acaso ande encoberta.</l>
          <l>E quando um bom em tudo é justo e santo,</l>
          <l>Em negócios do mundo pouco acerta,</l>
          <l>Que mal com eles poderá ter conta</l>
          <l>A quieta inocência, em só Deus pronta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="402" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas aqueles avaros Catuais,</l>
          <l>Que o Gentílico povo governavam,</l>
          <l>Induzidos das gentes infernais,</l>
          <l>O Português despacho dilatavam.</l>
          <l>Mas o Gama, que não pretende mais,</l>
          <l>De tudo quanto os Mouros ordenavam,</l>
          <l>Que levar a seu Rei um sinal certo</l>
          <l>Do mundo, que deixava descoberto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nisto trabalha só; que bem sabia</l>
          <l>Que depois que levasse esta certeza,</l>
          <l>Armas, o naus, e gente mandaria</l>
          <l>Manuel, que exercita a suma alteza,</l>
          <l>Com que a seu jugo e lei someteria</l>
          <l>Das terras e do mar a redondeza;</l>
          <l>Que ele não era mais que um diligente</l>
          <l>Descobridor das terras do Oriente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Falar ao Rei gentio determina,</l>
          <l>Por que com seu despacho se tornasse,</l>
          <l>Que já sentia em tudo da malina</l>
          <l>Gente impedir-se quanto desejasse.</l>
          <l>O Rei, que da notícia falsa e indina</l>
          <l>Não era de espantar se se espantasse,</l>
          <l>Que tão crédulo era em seus agouros,</l>
          <l>E mais sendo afirmados pelos Mouros,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Este temor lhe esfria o baixo peito.</l>
          <l>Por outra parte a força da cobiça,</l>
          <l>A quem por natureza está sujeito,</l>
          <l>Um desejo imortal lhe acende e atiça:</l>
          <l>Que bem vê que grandíssimo proveito</l>
          <l>Fará, se com verdade e com justiça</l>
          <l>O contrato fizer por longos anos,</l>
          <l>Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="403" edRef="#instituto"/>
          <l>Sobre isto, nos conselhos que tomava,</l>
          <l>Achava mui contrários pareceres;</l>
          <l>Que naqueles com quem se aconselhava</l>
          <l>Executa o dinheiro seus poderes.</l>
          <l>O grande Capitão chamar mandava,</l>
          <l>A quem chegado disse: — “Se quiseres</l>
          <l>Confessar-me a verdade limpa e nua,</l>
          <l>Perdão alcançarás da culpa tua.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eu sou bem informado que a embaixada</l>
          <l>Que de teu Rei me deste, que é fingida;</l>
          <l>Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,</l>
          <l>Mas vagabundo vás passando a vida;</l>
          <l>Que quem da Hespéria última alongada,</l>
          <l>Rei ou senhor de insânia desmedida,</l>
          <l>Há de vir cometer com naus e frotas</l>
          <l>Tão incertas viagens e remotas?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E se de grandes Reinos poderosos</l>
          <l>O teu Rei tem a régia majestade,</l>
          <l>Que presentes me trazes valerosos,</l>
          <l>Sinais de tua incógnita verdade?</l>
          <l>Com peças e dons altos, sumptuosos,</l>
          <l>Se lia dos Reis altos a amizade;</l>
          <l>Que sinal nem penhor não é bastante</l>
          <l>As palavras dum vago navegante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Se porventura vindes desterrados,</l>
          <l>Como já foram homens de alta sorte,</l>
          <l>Em meu Reino sereis agasalhados,</l>
          <l>Que toda a terra é pátria para o forte,;</l>
          <l>Ou se piratas sois ao mar usados,</l>
          <l>Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,</l>
          <l>Que por se sustentar em toda idade,</l>
          <l>Tudo faz a vital necessidade.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="404" edRef="#instituto"/>
          <l>Isto assim dito, o Gama, que já tinha</l>
          <l>Suspeitas das insídias que ordenava</l>
          <l>O Mahomético ódio, donde vinha</l>
          <l>Aquilo que tão mal o Rei cuidava,</l>
          <l>Com uma alta confiança, que convinha,</l>
          <l>Com que seguro crédito alcançava,</l>
          <l>Que Vénus Acidália lhe influía,</l>
          <l>Tais palavras do sábio peito abria:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Se os antigos delitos, que a malícia</l>
          <l>Humana cometeu na prisca idade,</l>
          <l>Não causaram que o vaso da niquícia,</l>
          <l>Açoute tão cruel da Cristandade,</l>
          <l>Viera pôr perpétua inimicícia</l>
          <l>Na geração de Adão, co’a falsidade,</l>
          <l>Ó poderoso Rei da torpe seita,</l>
          <l>Não conceberas tu tão má suspeita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas porque nenhum grande bem se alcança</l>
          <l>Sem grandes opressões, e em todo o feito</l>
          <l>Segue o temor os passos da esperança,</l>
          <l>Que em suor vive sempre de seu peito,</l>
          <l>Me mostras tu tão pouca confiança</l>
          <l>Desta minha verdade, sem respeito</l>
          <l>Das razões em contrário que acharias</l>
          <l>Se não cresses a quem não crer devias.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Porque, se eu de rapinas só vivesse,</l>
          <l>Undívago, ou da pátria desterrado,</l>
          <l>Como crês que tão longe me viesse</l>
          <l>Buscar assento incógnito e apartado?</l>
          <l>Por que esperanças, ou por que interesse</l>
          <l>Viria exprimentando o mar irado,</l>
          <l>Os Antárcticos frios, e os ardores</l>
          <l>Que sofrem do Carneiro os moradores?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="405" edRef="#instituto"/>
          <l>“Se com grandes presentes de alta estima</l>
          <l>O crédito me pedes do que digo,</l>
          <l>Eu não vim mais que a achar o estranho clima</l>
          <l>Onde a natura pôs teu Reino antigo.</l>
          <l>Mas, se a Fortuna tanto me sublima</l>
          <l>Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,</l>
          <l>Então verás o dom soberbo e rico,</l>
          <l>Com que minha tornada certifico.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Se te parece inopinado feito,</l>
          <l>Que Rei da última Hespéria a ti me mande,</l>
          <l>O coração sublime, o régio peito,</l>
          <l>Nenhum caso possível tem por grande.</l>
          <l>Bem parece que o nobre e grã conceito</l>
          <l>Do Lusitano espírito demande</l>
          <l>Maior crédito, e fé de mais alteza,</l>
          <l>Que creia dele tanta fortaleza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Sabe que há muitos anos que os antigos</l>
          <l>Reis nossos firmemente propuseram</l>
          <l>De vencer os trabalhos e perigos,</l>
          <l>Que sempre às grandes coisas se opuseram;</l>
          <l>E, descobrindo os mares inimigos</l>
          <l>Do quieto descanso, pretenderam</l>
          <l>De saber que fim tinham, e onde estavam</l>
          <l>As derradeiras praias que lavavam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Conceito digno foi do ramo claro</l>
          <l>Do venturoso Rei, que arou primeiro</l>
          <l>O mar, por ir deitar do ninho caro</l>
          <l>O morador de Abila derradeiro.</l>
          <l>Este, por sua indústria e engenho raro,</l>
          <l>Num madeiro ajuntando outro madeiro,</l>
          <l>Descobrir pôde a parte, que faz clara</l>
          <l>De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="406" edRef="#instituto"/>
          <l>“Crescendo com os sucessos bons primeiros</l>
          <l>No peito as ousadias, descobriram</l>
          <l>Pouco e pouco caminhos estrangeiros,</l>
          <l>Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.</l>
          <l>De África os moradores derradeiros</l>
          <l>Austrais, que nunca as sete flamas viram,</l>
          <l>Foram vistos de nós, atrás deixando</l>
          <l>Quantos estão os Trópicos queimando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Assim com firme peito, e com tamanho</l>
          <l>Propósito, vencemos a Fortuna,</l>
          <l>Até que nós no teu terreno estranho</l>
          <l>Viemos pôr a última coluna.</l>
          <l>Rompendo a força do líquido estanho,</l>
          <l>Da tempestade horrífica e importuna,</l>
          <l>A ti chegamos, de quem só queremos</l>
          <l>Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Esta é a verdade, Rei; que não faria</l>
          <l>Por tão incerto bem, tão fraco prémio,</l>
          <l>Qual, não sendo isto assim, esperar podia,</l>
          <l>Tão longo, tão fingido e vão proêmio;</l>
          <l>Mas antes descansar me deixaria</l>
          <l>No nunca descansado e fero grêmio</l>
          <l>Da madre Tétis, qual pirata inico,</l>
          <l>Dos trabalhos alheios feito rico.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Assim que, ó Rei, se minha grã verdade</l>
          <l>Tens por qual é, sincera e não dobrada,</l>
          <l>Ajunta-me ao despacho brevidade,</l>
          <l>Não me impeças o gosto da tornada.</l>
          <l>E, se ainda te parece falsidade,</l>
          <l>Cuida bem na razão que está provada,</l>
          <l>Que com claro juízo pode ver-se,</l>
          <l>Que fácil é a verdade de entender-se.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="407" edRef="#instituto"/>
          <l>A tento estava o Rei na segurança</l>
          <l>Com que provava o Gama o que dizia;</l>
          <l>Concebe dele certa confiança,</l>
          <l>Crédito firme em quanto proferia.</l>
          <l>Pondera das palavras a abastança,</l>
          <l>Julga na autoridade grão valia,</l>
          <l>Começa de julgar por enganados</l>
          <l>Os Catuais corruptos, mal julgados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Juntamente a cobiça do proveito,</l>
          <l>Que espera do contrato Lusitano,</l>
          <l>O faz obedecer e ter respeito</l>
          <l>Com o Capitão, e não com o Mauro engano.</l>
          <l>Enfim ao Gama manda que direito</l>
          <l>As naus se vá, e, seguro de algum dano,</l>
          <l>Possa a terra mandar qualquer fazenda,</l>
          <l>Que pela especiaria troque e venda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,</l>
          <l>Que nos Reinos Gangéticos faleça;</l>
          <l>Se alguma traz idónea lá da banda</l>
          <l>Donde a terra se acaba e o mar começa.</l>
          <l>Já da real presença veneranda</l>
          <l>Se parte o Capitão, para onde peça</l>
          <l>Ao Catual, que dele tinha cargo,</l>
          <l>Embarcação, que a sua está de largo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Embarcação que o leve às naus lhe pede;</l>
          <l>Mas o mau Regedor, que novos laços</l>
          <l>Lhe maquinava, nada lhe concede,</l>
          <l>Interpondo tardanças e embaraços.</l>
          <l>Com ele parte ao cais, por que o arrede</l>
          <l>Longe quanto puder dos régios paços,</l>
          <l>Onde, sem que seu Rei tenha notícia,</l>
          <l>Faça o que lhe ensinar sua malícia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="408" edRef="#instituto"/>
          <l>Lá bem longe lhe diz que lhe daria</l>
          <l>Embarcação bastante em que partisse,</l>
          <l>Ou que para a luz crástina do dia</l>
          <l>Futuro sua partida diferisse.</l>
          <l>Já com tantas tardanças entendia</l>
          <l>O Gama, que o Gentio consentisse</l>
          <l>Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,</l>
          <l>O que dele atéli não entendera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Era este Catual um dos que estavam</l>
          <l>Corruptos pela Maometana gente,</l>
          <l>O principal por quem se governavam</l>
          <l>As cidades do Samorim potente.</l>
          <l>Dele somente os Mouros esperavam</l>
          <l>Efeito a seus enganos torpemente.</l>
          <l>Ele, que no conceito vil conspira,</l>
          <l>De suas esperanças não delira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Gama com instância lhe requere</l>
          <l>Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai;</l>
          <l>E que assim lhe mandara, lhe refere,</l>
          <l>O nobre sucessor de Perimal.</l>
          <l>Por que razão lhe impede e lhe difere</l>
          <l>A fazenda trazer de Portugal?</l>
          <l>Pois aquilo que os Reis já têm mandado</l>
          <l>Não pode ser por outrem derrogado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pouco obedece o Catual corrupto</l>
          <l>A tais palavras; antes revolvendo</l>
          <l>Na fantasia algum subtil e astuto</l>
          <l>Engano diabólico e estupendo,</l>
          <l>Ou como banhar possa o ferro bruto</l>
          <l>No sangue avorrecido, estava vendo;</l>
          <l>Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,</l>
          <l>Por que nenhuma à pátria mais tornasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="409" edRef="#instituto"/>
          <l>Que nenhum torne à pátria só pretende</l>
          <l>O conselho infernal dos Maometanos,</l>
          <l>Por que não saiba nunca onde se estende</l>
          <l>A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.</l>
          <l>Não parte o Gama enfim, que lho defende</l>
          <l>O Regedor dos bárbaros profanos;</l>
          <l>Nem sem licença sua ir-se podia,</l>
          <l>Que as almadias todas lhe tolhia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aos brados o razões do Capitão</l>
          <l>Responde o Idolatra que mandasse —</l>
          <l>Chegar à terra as naus, que longo estão,</l>
          <l>Por que melhor dali fosse e tornasse.</l>
          <l>“Sinal é de inimigo e de ladrão,</l>
          <l>Que lá tão longe a frota se alargasse,</l>
          <l>Lhe diz, porque do certo e fido amigo</l>
          <l>É não temer do seu nenhum perigo.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nestas palavras o discreto Gama</l>
          <l>Enxerga bem que as naus deseja perto</l>
          <l>O Catual, por que com ferro e flama,</l>
          <l>Lhas assalte, por ódio descoberto.</l>
          <l>Em vários pensamentos se derrama;</l>
          <l>Fantasiando está remédio certo,</l>
          <l>Que desse a quanto mal se lhe ordenava;</l>
          <l>Tudo temia, tudo enfim cuidava.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Qual o reflexo lume do polido</l>
          <l>Espelho de aço, ou de cristal formoso,</l>
          <l>Que, do raio solar sendo ferido,</l>
          <l>Vai ferir noutra parte luminoso,</l>
          <l>E, sendo da ociosa mão movido</l>
          <l>Pela casa do moço curioso,</l>
          <l>Anda pelas paredes é telhado</l>
          <l>Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="410" edRef="#instituto"/>
          <l>Tal o vago juízo flutuava</l>
          <l>Do Gama preso, quando lhe lembrara</l>
          <l>Coelho, se por caso o esperava</l>
          <l>Na praia com os batéis, como ordenara.</l>
          <l>Logo secretamente lhe mandava,</l>
          <l>“Que se tornasse à frota, que deixara;</l>
          <l>Não fosse salteado dos enganos,</l>
          <l>Que esperava dos feros Maometanos.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte,</l>
          <l>Imitar os ilustres e igualá-los:</l>
          <l>Voar com o pensamento a toda parte,</l>
          <l>Adivinhar perigos, e evitá-los:</l>
          <l>Com militar engenho e subtil arte</l>
          <l>Entender os imigos, e enganá-los;</l>
          <l>Crer tudo, enfim, que nunca louvarei</l>
          <l>O Capitão que diga: “Não cuidei”.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Insiste o Malabar em tê-lo preso,</l>
          <l>Se não manda chegar a terra a armada;</l>
          <l>Ele constante, e de ira nobre aceso,</l>
          <l>Os ameaços seus não teme nada;</l>
          <l>Que antes quer sobre si tomar o peso</l>
          <l>De quanto mal a vil malícia ousada</l>
          <l>Lhe andar armando, que pôr em ventura</l>
          <l>A frota de seu Rei, que tem segura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Aquela noite esteve ali detido,</l>
          <l>E parte do outro dia, quando ordena</l>
          <l>De se tornar ao Rei; mas impedido</l>
          <l>Foi da guarda que tinha, não pequena.</l>
          <l>Comete-lhe o Gentio outro partido,</l>
          <l>Temendo de seu Rei castigo ou pena,</l>
          <l>Se sabe esta malícia, a qual asinha</l>
          <l>Saberá, se mais tempo ali o detinha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="411" edRef="#instituto"/>
          <l>Diz-lhe “que mande vir toda a fazenda</l>
          <l>Vendível, que trazia, para a terra,</l>
          <l>Para que de vagar se troque e venda:</l>
          <l>Que quem não quer comércio, busca guerra.</l>
          <l>Posto que os maus propósitos entenda</l>
          <l>O Gama, que o danado peito encerra,</l>
          <l>Consente, porque sabe por verdade,</l>
          <l>Que compra com a fazenda a liberdade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Concertam-se que o negro mande dar</l>
          <l>Embarcações idóneas com que venha;</l>
          <l>Que os seus batéis não quer aventurar</l>
          <l>Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.</l>
          <l>Partem as almadias a buscar</l>
          <l>Mercadoria Hispana, que convenha.</l>
          <l>Escreve a seu irmão que lhe mandasse</l>
          <l>A fazenda com que se resgatasse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vem a fazenda a terra, aonde logo</l>
          <l>A agasalhou o infame Catual;</l>
          <l>Com ela ficam Álvaro e Diogo,</l>
          <l>Que a pudessem vender pelo que val.</l>
          <l>Se mais que obrigação, que mando e rogo</l>
          <l>No peito vil o prémio pode e val,</l>
          <l>Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,</l>
          <l>Pois o Gama soltou pela fazenda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por ela o solta, crendo que ali tinha</l>
          <l>Penhor bastante, donde recebesse</l>
          <l>Interesse maior do que lhe vinha,</l>
          <l>Se o Capitão mais tempo detivesse.</l>
          <l>Ele, vendo que já lhe não convinha</l>
          <l>Tornar a terra, por que não pudesse</l>
          <l>Ser mais retido, sendo às naus chegado</l>
          <l>Nelas estar se deixa descansado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas naus estar se deixa vagaroso,</l>
          <pb n="412" edRef="#instituto"/>
          <l>Até ver o que o tempo lhe descobre:</l>
          <l>Que não se fia já do cobiçoso</l>
          <l>Regedor corrompido e pouco nobre.</l>
          <l>Veja agora o juízo curioso</l>
          <l>Quanto no rico, assim como no pobre,</l>
          <l>Pode o vil interesse e sede imiga</l>
          <l>Do dinheiro, que a tudo nos obriga.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A Polidoro mata o Rei Treício,</l>
          <l>Só por ficar senhor do grão tesouro;</l>
          <l>Entra, pelo fortíssimo edifício,</l>
          <l>Com a filha de Acriso a chuva d’ouro;</l>
          <l>Pode tanto em Tarpeia avaro vício,</l>
          <l>Que, a troco do metal luzente e louro,</l>
          <l>Entrega aos inimigos a alta torre,</l>
          <l>Do qual quase afogada em pago morre.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Este rende munidas fortalezas,</l>
          <l>Faz tredores e falsos os amigos:</l>
          <l>Este a mais nobres faz fazer vilezas,</l>
          <l>E entrega Capitães aos inimigos;</l>
          <l>Este corrompe virginais purezas,</l>
          <l>Sem temer de honra ou fama alguns perigos:</l>
          <l>Este deprava às vezes as ciências,</l>
          <l>Os juízos cegando e as consciências;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Este interpreta mais que sutilmente.</l>
          <l>Os textos; este faz e desfaz leis;</l>
          <l>Este causa os perjúrios entre a gente,</l>
          <l>E mil vezes tiranos torna os Reis.</l>
          <l>Até os que só a Deus Onipotente</l>
          <l>Se dedicam, mil vezes ouvireis</l>
          <l>Que corrompe este encantador, e ilude;</l>
          <l>Mas não sem cor, contudo, de virtude.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Nono</head>
        <lg>
          <pb n="434" edRef="#instituto"/>
          <l>Tiveram longamente na cidade,</l>
          <l>Sem vender-se, a fazenda os dois feitores</l>
          <l>Que os infiéis, por manha e falsidade,</l>
          <l>Fazem que não lha comprem mercadores;</l>
          <l>Que todo seu propósito e vontade</l>
          <l>Era deter ali os descobridores</l>
          <l>Da Índia tanto tempo, que viessem</l>
          <l>De Meca as naus, que as suas desfizessem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lá no seio Eritreu, onde fundada</l>
          <l>Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,</l>
          <l>Do nome da irmã sua assim chamada,</l>
          <l>Que depois em Suez se converteu,</l>
          <l>Não longe o porto jaz da nomeada</l>
          <l>Cidade Meca, que se engrandeceu</l>
          <l>Com a superstição falsa e profana</l>
          <l>Da religiosa água Maometana.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Gidá se chama o porto, aonde o trato</l>
          <l>De todo o Roxo mar mais florescia,</l>
          <l>De que tinha proveito grande e grato</l>
          <l>O Soldão que esse Reino possuía.</l>
          <l>Daqui aos Malabares, por contrato</l>
          <l>Dos infiéis, formosa companhia</l>
          <l>De grandes naus, pelo Índico Oceano,</l>
          <l>Especiaria vem buscar cada ano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="435" edRef="#instituto"/>
          <l>Por estas naus os Mouros esperavam,</l>
          <l>Que, como fossem grandes e possantes,</l>
          <l>Aquelas, que o comércio lhe tomavam,</l>
          <l>Com flamas abrasassem crepitantes.</l>
          <l>Neste socorro tanto confiavam,</l>
          <l>Que já não querem mais dos navegantes,</l>
          <l>Senão que tanto tempo ali tardassem,</l>
          <l>Que da famosa Meca as naus chegassem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas o Governador dos céus e gentes,</l>
          <l>Que, para quanto tem determinado,</l>
          <l>De longe os meios dá convenientes,</l>
          <l>Por onde vem a efeito o fim fadado,</l>
          <l>Influiu piedosos acidentes</l>
          <l>De afeição em Monçaide, que guardado</l>
          <l>Estava para dar ao Gama aviso,</l>
          <l>E merecer por isso o Paraíso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Este, de quem se os Mouros não guardavam,</l>
          <l>Por ser Mouro como eles, antes era</l>
          <l>Participante em quanto maquinavam,</l>
          <l>A tenção lhe descobre torpe e fera.</l>
          <l>Muitas vezes as naus que longe estavam</l>
          <l>Visita, o com piedade considera</l>
          <l>O dano, sem razão, que se lhe ordena</l>
          <l>Pela maligna gente Sarracena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Informa o cauto Gama das armadas</l>
          <l>Que de Arábica Meca vêm cada ano,</l>
          <l>Que agora são dos seus tão desejadas,</l>
          <l>Para ser instrumento deste dano.</l>
          <l>Diz-lhe que vêm de gente carregadas,</l>
          <l>E dos trovões horrendos de Vulcano,</l>
          <l>E que pode ser delas oprimido,</l>
          <l>Segundo estava mal apercebido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="436" edRef="#instituto"/>
          <l>O Gama, que também considerava</l>
          <l>O tempo, que para a partida o chama,</l>
          <l>E que despacho já não esperava</l>
          <l>Melhor do Rei, que os Maometanos ama,</l>
          <l>Aos feitores, que em terra estão, mandava</l>
          <l>Que se tornem às naus; e por que a fama</l>
          <l>Desta súbita vinda os não impeça,</l>
          <l>Lhe manda que a fizessem escondida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porém não tardou muito que, voando,</l>
          <l>Um rumor não soasse com verdade:</l>
          <l>Que foram presos os feitores, quando</l>
          <l>Foram sentidos vir-se da cidade.</l>
          <l>Esta fama as orelhas penetrando</l>
          <l>Do sábio Capitão, com brevidade</l>
          <l>Faz represária nuns, que às naus vieram</l>
          <l>A vender pedraria que trouxeram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eram estes antigos mercadores</l>
          <l>Ricos em Calecu, e conhecidos;</l>
          <l>Da falta deles, logo entre os melhores</l>
          <l>Sentido foi que estão no mar retidos.</l>
          <l>Mas já nas naus os bons trabalhadores</l>
          <l>Volvem o cabrestante, e repartidos</l>
          <l>Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,</l>
          <l>Outros quebram com o peito duro a barra;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Outros pendem da verga, e já desatam</l>
          <l>A vela, que com grita se soltava,</l>
          <l>Quando com maior grita ao Rei relatam</l>
          <l>A pressa com que a armada se levava.</l>
          <l>As mulheres e filhos que se matam</l>
          <l>Daqueles que vão presos, onde estava</l>
          <l>O Samorim, se queixam que perdidos</l>
          <l>Uns têm os pais, as outras os maridos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="437" edRef="#instituto"/>
          <l>Manda logo os feitores Lusitanos</l>
          <l>Com toda sua fazenda livremente</l>
          <l>Apesar dos imigos Maometanos,</l>
          <l>Por que lhe torne a sua presa gente.</l>
          <l>Desculpas manda o Rei de seus enganos;</l>
          <l>Recebe o Capitão de melhor mente</l>
          <l>Os presos que as desculpas, e tornando</l>
          <l>Alguns negros, se parte as velas dando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Parte-se costa abaixo, porque entende</l>
          <l>Que em vão com o Rei gentio trabalhava</l>
          <l>Em querer dele paz, a qual pretende</l>
          <l>Por firmar o comércio que tratava.</l>
          <l>Mas como aquela terra, que se estende</l>
          <l>Pela Aurora, sabida já deixava,</l>
          <l>Com estas novas torna à pátria cara,</l>
          <l>Certos sinais levando do que achara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Leva alguns Malabares, que tomou</l>
          <l>Por força, dos que o Samorim mandara</l>
          <l>Quando os presos feitores lhe tornou;</l>
          <l>Leva pimenta ardente, que comprara;</l>
          <l>A seca flor de Banda não ficou,</l>
          <l>A noz, e o negro cravo, que faz clara</l>
          <l>A nova ilha Maluco, com a canela,</l>
          <l>Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto tudo lhe houvera a diligência</l>
          <l>De Monçaide fiel, que também leva,</l>
          <l>Que, inspirado de angélica influência,</l>
          <l>Quer no livro de Cristo que se escreva.</l>
          <l>Ó ditoso Africano, que a clemência</l>
          <l>Divina assim tirou de escura treva,</l>
          <l>E tão longe da pátria achou maneira</l>
          <l>Para subir à pátria verdadeira!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="438" edRef="#instituto"/>
          <l>Apartadas assim da ardente costa</l>
          <l>As venturosas naus, levando a proa</l>
          <l>Para onde a Natureza tinha posta</l>
          <l>A meta Austrina da esperança boa,</l>
          <l>Levando alegres novas e resposta</l>
          <l>Da parte Oriental para Lisboa,</l>
          <l>Outra vez cometendo os duros medos</l>
          <l>Do mar incerto, tímidos e ledos;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O prazer de chegar à pátria cara,</l>
          <l>A seus penates caros e parentes,</l>
          <l>Para contar a peregrina e rara</l>
          <l>Navegação, os vários céus e gentes;</l>
          <l>Vir a lograr o prémio, que ganhara</l>
          <l>Por tão longos trabalhos e acidentes,</l>
          <l>Cada um tem por gosto tão perfeito,</l>
          <l>Que o coração para ele é vaso estreito.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porém a deusa Cípria, que ordenada</l>
          <l>Era para favor dos Lusitanos</l>
          <l>Do Padre eterno, e por bom génio dada,</l>
          <l>Que sempre os guia já de longos anos;</l>
          <l>A glória por trabalhos alcançada,</l>
          <l>Satisfação de bem sofridos danos,</l>
          <l>Lhe andava já ordenando, e pretendia</l>
          <l>Dar-lhe nos mares tristes alegria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Depois de ter um pouco revolvido</l>
          <l>Na mente o largo mar que navegaram,</l>
          <l>Os trabalhos, que pelo Deus nascido</l>
          <l>Nas Anfióneas Tebas se causaram;</l>
          <l>Já trazia de longe no sentido,</l>
          <l>Para prémio de quanto mal passaram,</l>
          <l>Buscar-lhe algum deleite, algum descanso</l>
          <l>No Reino de cristal líquido e manso;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="439" edRef="#instituto"/>
          <l>Algum repouso, enfim, com que pudesse</l>
          <l>Refocilar a lassa humanidade</l>
          <l>Dos navegantes seus, como interesse</l>
          <l>Do trabalho que encurta a breve idade.</l>
          <l>Parece-lhe razão que conta desse</l>
          <l>A seu filho, por cuja potestade</l>
          <l>Os Deuses faz descer ao vil terreno</l>
          <l>E os humanos subir ao céu sereno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Isto bem revolvido, determina</l>
          <l>De ter-lhe aparelhada, lá no meio</l>
          <l>Das águas, alguma ínsula divina,</l>
          <l>Ornada de esmaltado e verde arreio;</l>
          <l>Que muitas tem no reino, que confina</l>
          <l>Da mãe primeira com o terreno seio,</l>
          <l>Afora as que possui soberanas</l>
          <l>Para dentro das portas Herculanas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali quer que as aquáticas donzelas</l>
          <l>Esperem os fortíssimos barões,</l>
          <l>Todas as que têm título de belas,</l>
          <l>Glória dos olhos, dor dos corações,</l>
          <l>Com danças e coreias, porque nelas</l>
          <l>Influirá secretas afeições,</l>
          <l>Para com mais vontade trabalharem</l>
          <l>De contentar, a quem se afeiçoaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tal manha buscou já, para que aquele</l>
          <l>Que de Anquises pariu, bem recebido</l>
          <l>Fosse no campo que a bovina pele</l>
          <l>Tomou de espaço, por subtil partido.</l>
          <l>Seu filho vai buscar, porque só nele</l>
          <l>Tem todo seu poder, fero Cupido,</l>
          <l>Que assim como naquela empresa antiga</l>
          <l>Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="440" edRef="#instituto"/>
          <l>No carro ajunta as aves que na vida</l>
          <l>Vão da morte as exéquias celebrando,</l>
          <l>E aquelas em que já foi convertida</l>
          <l>Perístera, as boninas apanhando.</l>
          <l>Em derredor da Deusa já partida,</l>
          <l>No ar lascivos beijos se vão dando.</l>
          <l>Ela, por onde passa, o ar e o vento</l>
          <l>Sereno faz, com brando movimento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já sobre os Idálios montes pende,</l>
          <l>Onde o filho frecheiro estava então</l>
          <l>Ajuntando outros muitos, que pretende</l>
          <l>Fazer uma famosa expedição</l>
          <l>Contra o mundo rebelde, por que emende</l>
          <l>Erros grandes, que há dias nele estão,</l>
          <l>Amando coisas que nos foram dadas,</l>
          <l>Não para ser amadas, mas usadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Via Acteon na caça tão austero,</l>
          <l>De cego na alegria bruta, insana,</l>
          <l>Que por seguir um feio animal fero,</l>
          <l>Foge da gente e bela forma humana;</l>
          <l>E por castigo quer, doce e severo,</l>
          <l>Mostrar-lhe a formosura de Diana;</l>
          <l>E guarde-se não seja ainda comido</l>
          <l>Desses cães que agora ama, e consumido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vê do mundo todo os principais,</l>
          <l>Que nenhum no bem público imagina;</l>
          <l>Vê neles que não têm amor a mais</l>
          <l>Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.</l>
          <l>Vê que esses que frequentam os reais</l>
          <l>Paços, por verdadeira e sã doutrina</l>
          <l>Vendem adulação, que mal consente</l>
          <l>Mondar-se o novo trigo florescente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="441" edRef="#instituto"/>
          <l>Vê que aqueles que devem à pobreza</l>
          <l>Amor divino e ao povo caridade,</l>
          <l>Amam somente mandos e riqueza,</l>
          <l>Simulando justiça e integridade.</l>
          <l>Da feia tirania e de aspereza</l>
          <l>Fazem direito e vã severidade:</l>
          <l>Leis em favor do Rei se estabelecem,</l>
          <l>As em favor do povo só perecem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,</l>
          <l>Senão o que somente mal deseja;</l>
          <l>Não quer que tanto tempo se releve</l>
          <l>O castigo, que duro e justo seja.</l>
          <l>Seus ministros ajunta, por que leve</l>
          <l>Exércitos conformes à peleja,</l>
          <l>Que espera ter com a mal regida gente,</l>
          <l>Que lhe não for agora obediente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Muitos destes meninos voadores</l>
          <l>Estão em várias obras trabalhando:</l>
          <l>Uns amolando ferros passadores,</l>
          <l>Outros ásteas de setas delgaçando;</l>
          <l>Trabalhando, cantando estão de amores,</l>
          <l>Vários casos em verso modulando,</l>
          <l>Melodia sonora e concertada,</l>
          <l>Suave a letra, angélica a soada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas frágoas imortais, onde forjavam</l>
          <l>Para as setas as pontas penetrantes,</l>
          <l>Por lenha corações ardendo estavam,</l>
          <l>Vivas entranhas ainda palpitantes.</l>
          <l>As águas onde os ferros temperavam,</l>
          <l>Lágrimas são de míseros amantes;</l>
          <l>A viva flama, o nunca morto lume,</l>
          <l>Desejo é só que queima, e não consume.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="442" edRef="#instituto"/>
          <l>Alguns exercitando a mão andavam</l>
          <l>Nos duros corações da plebe rude;</l>
          <l>Crebros suspiros pelo ir soavam</l>
          <l>Dos que feridos vão da seta aguda.</l>
          <l>Formosas Ninfas são as que curavam</l>
          <l>As chagas recebidas cuja ajuda</l>
          <l>Não somente dá vida aos mal feridos,</l>
          <l>Mas põe em vida os ainda não nascidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Formosas são algumas e outras feias,</l>
          <l>Segundo a qualidade for das chagas;</l>
          <l>Que o veneno espalhado pelas veias</l>
          <l>Curam-no às vezes ásperas triagas.</l>
          <l>Alguns ficam ligados em cadeias,</l>
          <l>Por palavras subtis de sábias magas:</l>
          <l>Isto acontece às vezes, quando as setas</l>
          <l>Acertam de levar ervas secretas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Destes tiros assim desordenados,</l>
          <l>Que estes moços mal destros vão tirando,</l>
          <l>Nascem amores mil desconcertados</l>
          <l>Entre o povo ferido miserando;</l>
          <l>E também nos heróis de altos estados</l>
          <l>Exemplos mil se veem de amor nefando,</l>
          <l>Qual o das moças Bíbli e Cinireia,</l>
          <l>Um mancebo de Assíria, um de Judeia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vós, ó poderosos, por pastoras</l>
          <l>Muitas vezes ferido o peito vedes;</l>
          <l>E por baixos e rudos, vós, senhoras,</l>
          <l>Também vos tomam nas Vulcâneas redes.</l>
          <l>Uns esperando andais noturnas horas,</l>
          <l>Outros subis telhados e paredes:</l>
          <l>Mas eu creio que deste amor indino</l>
          <l>É mais culpa a da mãe que a do menino.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="443" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas já no verde prado o carro leve</l>
          <l>Punham os brancos cisnes mansamente,</l>
          <l>E Dione, que as rosas entro a neve</l>
          <l>No rosto traz, descia diligente.</l>
          <l>O frecheiro, que contra o céu se atreve,</l>
          <l>A recebê-la vem, ledo e contente;</l>
          <l>Vêm todos os Cupidos servidores</l>
          <l>Beijar a mão à Deusa dos amores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ela, por que não gaste o tempo em vão,</l>
          <l>Nos braços tendo o filho, confiada</l>
          <l>Lhe diz: “Amado filho, em cuja mão</l>
          <l>Toda minha potência está fundada;</l>
          <l>Filho, em quem minhas forças sempre estão;</l>
          <l>Tu, que as armas Tifeias tens em nada,</l>
          <l>A socorrer-me a tua potestade</l>
          <l>Me triz especial necessidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Bem vês as Lusitânicas fadigas,</l>
          <l>Que eu já de muito longe favoreço,</l>
          <l>Porque das Parcas sei, minhas amigas,</l>
          <l>Que me hão de venerar e ter em preço.</l>
          <l>E, porque tanto imitam as antigas</l>
          <l>Obras de meus Romanos, me ofereço</l>
          <l>A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,</l>
          <l>A quanto se estender o poder nosso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E porque das insídias do odioso</l>
          <l>Baco foram na Índia molestados,</l>
          <l>E das injúrias sós do mar undoso</l>
          <l>Puderam mais ser mortos que cansados,</l>
          <l>No mesmo mar, que sempre temeroso</l>
          <l>Lhe foi, quero que sejam repousados,</l>
          <l>Tomando aquele prémio e doce glória</l>
          <l>Do trabalho, que faz clara a memória.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="444" edRef="#instituto"/>
          <l>“E para isso queria que, feridas</l>
          <l>As filhas de Nereu, no ponto fundo,</l>
          <l>De amor dos Lusitanos incendidas,</l>
          <l>Que vêm de descobrir o novo mundo,</l>
          <l>Todas numa ilha juntas e subidas,</l>
          <l>Ilha, que nas entranhas do profundo</l>
          <l>Oceano terei aparelhada,</l>
          <l>De dons de Flora e Zéfiro adornada;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali, com mil refrescos e manjares,</l>
          <l>Com vinhos odoríferos e rosas,</l>
          <l>Em cristalinos paços singulares</l>
          <l>Formosos leitos, e elas mais formosas;</l>
          <l>Enfim, com mil deleites não vulgares,</l>
          <l>Os esperem as Ninfas amorosas,</l>
          <l>De amor feridas, para lhe entregarem</l>
          <l>Quanto delas os olhos cobiçarem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Quero que haja no reino Netunino,</l>
          <l>Onde eu nasci, progénie forte e bela,</l>
          <l>E tome exemplo o mundo vil, malino,</l>
          <l>Que contra tua potência se rebela,</l>
          <l>Por que entendam que muro adamantino,</l>
          <l>Nem triste hipocrisia val contra ela:</l>
          <l>Mal haverá na terra quem se guarde,</l>
          <l>Se teu fogo imortal nas águas arde.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim Vénus propôs, e o filho inico,</l>
          <l>Para lhe obedecer, já se apercebe:</l>
          <l>Manda trazer o arco ebúrneo rico,</l>
          <l>Onde as setas de ponta de ouro embebe.</l>
          <l>Com gesto ledo a Cípria, e impudico,</l>
          <l>Dentro no carro o filho seu recebe;</l>
          <l>A rédea larga às aves, cujo canto</l>
          <l>A Faetonteia morte chorou tanto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="445" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas diz Cupido, que era necessária</l>
          <l>Uma famosa e célebre terceira,</l>
          <l>Que, posto que mil vezes lhe é contrária,</l>
          <l>Outras muitas a tem por companheira:</l>
          <l>A Deusa Giganteia, temerária,</l>
          <l>Jactante, mentirosa, e verdadeira,</l>
          <l>Que com cem olhos vê, e por onde voa,</l>
          <l>O que vê, com mil bocas apregoa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vão-na buscar, e mandam adiante,</l>
          <l>Que celebrando vá com tuba clara</l>
          <l>Os louvores da gente navegante,</l>
          <l>Mais do que nunca os d’outrem celebrara.</l>
          <l>Já murmurando a Fama penetrante</l>
          <l>Pelas fundas cavernas se espalhara:</l>
          <l>Fala verdade, havida por verdade,</l>
          <l>Que junto a Deusa traz Credulidade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O louvor grande, o rumor excelente</l>
          <l>No coração dos Deuses, que indignados</l>
          <l>Foram por Baco contra a ilustre gente,</l>
          <l>Mudando, os fez um pouco afeiçoados.</l>
          <l>O peito feminil, que levemente</l>
          <l>Muda quaisquer propósitos tomados,</l>
          <l>Já julga por mau zelo e por crueza</l>
          <l>Desejar mal a tanta fortaleza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Despede nisto o fero moço as setas</l>
          <l>Uma após outra: geme o mar com os tiros;</l>
          <l>Direitas pelas ondas inquietas</l>
          <l>Algumas vão, e algumas fazem giros;</l>
          <l>Caem as Ninfas, lançam das secretas</l>
          <l>Entranhas ardentíssimos suspiros;</l>
          <l>Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:</l>
          <l>Que tanto, como a vista, pode a fama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="446" edRef="#instituto"/>
          <l>Os cornos ajuntou da ebúrnea lua</l>
          <l>Com força o moço indómito excessiva,</l>
          <l>Que Tétis quer ferir mais que nenhuma,</l>
          <l>Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.</l>
          <l>Já não fica na aljava seta alguma,</l>
          <l>Nem nos equóreos campos Ninfa viva;</l>
          <l>E se feridas ainda estão vivendo,</l>
          <l>Será para sentir que vão morrendo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dai lugar, altas e cerúleas ondas,</l>
          <l>Que, vedes, Vénus traz a medicina,</l>
          <l>Mostrando as brancas velas e redondas,</l>
          <l>Que vêm por cima da água Netunina.</l>
          <l>Para que tu recíproco respondas,</l>
          <l>Ardente Amor, à flama feminina,</l>
          <l>É, forçado que a pudicícia honesta</l>
          <l>Faça quanto lhe Vénus amoesta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já todo o belo coro se aparelha</l>
          <l>Das Nereidas, e junto caminhava</l>
          <l>Em coreias gentis, usança velha,</l>
          <l>Para a ilha, a que Vénus as guiava.</l>
          <l>Ali a formosa Deusa lhe aconselha</l>
          <l>O que ela fez mil vezes, quando amava.</l>
          <l>Elas, que vão do doce amor vencidas,</l>
          <l>Estão a seu conselho oferecidas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cortando vão as naus a larga via</l>
          <l>Do mar ingente para a pátria amada,</l>
          <l>Desejando prover-se de água fria,</l>
          <l>Para a grande viagem prolongada,</l>
          <l>Quando juntas, com súbita alegria,</l>
          <l>Houveram vista da ilha namorada,</l>
          <l>Rompendo pelo céu a mãe formosa</l>
          <l>De Menónio, suave e deleitosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="447" edRef="#instituto"/>
          <l>De longe a Ilha viram fresca e bela,</l>
          <l>Que Vénus pelas ondas lha levava</l>
          <l>(Bem como o vento leva branca vela)</l>
          <l>Para onde a forte armada se enxergava;</l>
          <l>Que, por que não passassem, sem que nela</l>
          <l>Tomassem porto, como desejava,</l>
          <l>Para onde as naus navegam a movia</l>
          <l>A Acidália, que tudo enfim podia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas firme a fez e imóvel, como viu</l>
          <l>Que era dos Nautas vista e demandada;</l>
          <l>Qual ficou Delos, tanto que pariu</l>
          <l>Latona Febo e a Deusa à caça usada.</l>
          <l>Para lá logo a proa o mar abriu,</l>
          <l>Onde a costa fazia uma enseada</l>
          <l>Curva e quieta, cuja branca areia,</l>
          <l>Pintou de ruivas conchas Citereia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Três formosos outeiros se mostravam</l>
          <l>Erguidos com soberba graciosa,</l>
          <l>Que de gramíneo esmalte se adornavam.</l>
          <l>Na formosa ilha alegre e deleitosa;</l>
          <l>Claras fontes o límpidas manavam</l>
          <l>Do cume, que a verdura tem viçosa;</l>
          <l>Por entre pedras alvas se deriva</l>
          <l>A sonorosa Ninfa fugitiva.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Num vale ameno, que os outeiros fende,</l>
          <l>Vinham as claras águas ajuntar-se,</l>
          <l>Onde uma mesa fazem, que se estende</l>
          <l>Tão bela quanto pode imaginar-se;</l>
          <l>Arvoredo gentil sobre ela pende,</l>
          <l>Como que pronto está para afeitar-se,</l>
          <l>Vendo-se no cristal resplandecente,</l>
          <l>Que em si o está pintando propriamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="448" edRef="#instituto"/>
          <l>Mil árvores estão ao céu subindo,</l>
          <l>Com pomos odoríferos e belos:</l>
          <l>A laranjeira tem no fruto lindo</l>
          <l>A cor que tinha Dafne nos cabelos;</l>
          <l>Encosta-se no chão, que está caindo,</l>
          <l>A cidreira com os pesos amarelos;</l>
          <l>Os formosos limões ali, cheirando,</l>
          <l>Estão virgíneas tetas imitando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As árvores agrestes que os outeiros</l>
          <l>Têm com frondente coma enobrecidos,</l>
          <l>Alemos são de Alcides, e os loureiros</l>
          <l>Do louro Deus amados e queridos;</l>
          <l>Mirtos de Citereia, com os pinheiros</l>
          <l>De Cibele, por outro amor vencidos;</l>
          <l>Está apontando o agudo cipariso</l>
          <l>Para onde é posto o etéreo paraíso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os dons que dá Pomona, ali Natura</l>
          <l>Produze diferentes nos sabores,</l>
          <l>Sem ter necessidade de cultura,</l>
          <l>Que sem ela se dão muito melhores:</l>
          <l>As cerejas purpúreas na pintura,</l>
          <l>As amoras, que o nome têm de amores,</l>
          <l>O pomo que da pátria Pérsia veio,</l>
          <l>Melhor tornado no terreno alheio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Abre a romã, mostrando a rubicunda</l>
          <l>Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;</l>
          <l>Entre os braços do ulmeiro está a jocunda</l>
          <l>Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;</l>
          <l>E vós, se na vossa árvore fecunda,</l>
          <l>Peras piramidais, viver quiserdes,</l>
          <l>Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,</l>
          <l>Em vós fazem os pássaros inicos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="449" edRef="#instituto"/>
          <l>Pois a tapeçaria bela e fina,</l>
          <l>Com que se cobre o rústico terreno,</l>
          <l>Faz ser a de Aqueménia menos digna,</l>
          <l>Mas o sombrio vale mais ameno.</l>
          <l>Ali a cabeça a flor Cifísia inclina</l>
          <l>Sôbolo tanque lúcido e sereno;</l>
          <l>Floresce o filho e neto de Ciniras,</l>
          <l>Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Para julgar, difícil coisa fora,</l>
          <l>No céu vendo e na terra as mesmas cores,</l>
          <l>Se dava às flores cor a bela Aurora,</l>
          <l>Ou se lha dão a ela as belas flores.</l>
          <l>Pintando estava ali Zéfiro e Flora</l>
          <l>As violas da cor dos amadores;</l>
          <l>O lírio roxo, a fresca rosa bela,</l>
          <l>Qual reluze nas faces da donzela;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A cândida cecém, das matutinas</l>
          <l>Lágrimas rociada, e a manjarona.</l>
          <l>Veem-se as letras nas flores Hiacintinas,</l>
          <l>Tão queridas do filho de Latona.</l>
          <l>Bem se enxerga nos pomos e boninas</l>
          <l>Que competia Clóris com Pomona.</l>
          <l>Pois se as aves no ar cantando voam,</l>
          <l>Alegres animais o chão povoam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ao longo da água o níveo cisne canta,</l>
          <l>Responde-lhe do ramo filomela;</l>
          <l>Da sombra de seus cornos não se espanta</l>
          <l>Acteon, n’água cristalina e bela;</l>
          <l>Aqui a fugace lebre se levanta</l>
          <l>Da espessa mata, ou tímida gazela;</l>
          <l>Ali no bico traz ao caro ninho</l>
          <l>O mantimento o leve passarinho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="450" edRef="#instituto"/>
          <l>Nesta frescura tal desembarcavam</l>
          <l>Já das naus os segundos Argonautas,</l>
          <l>Onde pela floresta se deixavam</l>
          <l>Andar as belas Deusas, como incautas.</l>
          <l>Algumas doces cítaras tocavam,</l>
          <l>Algumas harpas e sonoras flautas,</l>
          <l>Outras com os arcos de ouro se fingiam</l>
          <l>Seguir os animais, que não seguiam.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim lhe aconselhara a mestra experta;</l>
          <l>Que andassem pelos campos espalhadas;</l>
          <l>Que, vista dos barões a presa incerta,</l>
          <l>Se fizessem primeiro desejadas.</l>
          <l>Algumas, que na forma descoberta</l>
          <l>Do belo corpo estavam confiadas,</l>
          <l>Posta a artificiosa formosura,</l>
          <l>Nuas lavar-se deixam na água pura,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas os fortes mancebos, que na praia</l>
          <l>Punham os pés, de terra cobiçosos,</l>
          <l>Que não há nenhum deles que não saia</l>
          <l>De acharem caça agreste desejosos,</l>
          <l>Não cuidam que, sem laço ou redes, caia</l>
          <l>Caça naqueles montes deleitosos,</l>
          <l>Tão suave, doméstica e benigna,</l>
          <l>Qual ferida lha tinha já Ericina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Alguns, que em espingardas e nas bestas,</l>
          <l>Para ferir os cervos se fiavam,</l>
          <l>Pelos sombrios matos e florestas</l>
          <l>Determinadamente se lançavam:</l>
          <l>Outros, nas sombras, que de as altas sestas</l>
          <l>Defendem a verdura, passeavam</l>
          <l>Ao longo da água que, suave e queda,</l>
          <l>Por alvas pedras corre à praia leda.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="451" edRef="#instituto"/>
          <l>Começam de enxergar subitamente</l>
          <l>Por entre verdes ramos várias cores,</l>
          <l>Cores de quem a vista julga e sente</l>
          <l>Que não eram das rosas ou das flores,</l>
          <l>Mas da lã fina e seda diferente,</l>
          <l>Que mais incita a força dos amores,</l>
          <l>De que se vestem as humanas rosas,</l>
          <l>Fazendo-se por arte mais formosas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dá Veloso espantado um grande grito:</l>
          <l>“Senhores, caça estranha, disse, é esta!</l>
          <l>Se ainda dura o Gentio antigo rito,</l>
          <l>A Deusas é sagrada esta floresta.</l>
          <l>Mais descobrimos do que humano esprito</l>
          <l>Desejou nunca; e bem se manifesta</l>
          <l>Que são grandes as coisas e excelentes,</l>
          <l>Que o mundo encobre aos homens imprudentes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Sigamos estas Deusas, e vejamos</l>
          <l>Se fantásticas são, se verdadeiras.”</l>
          <l>Isto dito, velozes mais que gamos,</l>
          <l>Se lançam a correr pelas ribeiras.</l>
          <l>Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,</l>
          <l>Mas, mais industriosas que ligeiras,</l>
          <l>Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,</l>
          <l>Se deixam ir dos galgos alcançando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De uma os cabelos de ouro o vento leva</l>
          <l>Correndo, e de outra as fraldas delicadas;</l>
          <l>Acende-se o desejo, que se ceva</l>
          <l>Nas alvas carnes súbito mostradas;</l>
          <l>Uma de indústria cai, e já releva,</l>
          <l>Com mostras mais macias que indignadas,</l>
          <l>Que sobre ela, empecendo, também caia</l>
          <l>Quem a seguiu pela arenosa praia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="452" edRef="#instituto"/>
          <l>Outros, por outra parte, vão topar</l>
          <l>Com as Deusas despidas, que se lavam:</l>
          <l>Elas começam súbito a gritar,</l>
          <l>Como que assalto tal não esperavam.</l>
          <l>Umas, fingindo menos estimar</l>
          <l>A vergonha que a força, se lançavam</l>
          <l>Nuas por entre o mato, aos olhos dando</l>
          <l>O que às mãos cobiçosas vão negando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Outra, como acudindo mais depressa</l>
          <l>A vergonha da Deusa caçadora,</l>
          <l>Esconde o corpo n’água; outra se apressa</l>
          <l>Por tomar os vestidos, que tem fora.</l>
          <l>Tal dos mancebos há, que se arremessa,</l>
          <l>Vestido assi e calçado (que, co’a mora</l>
          <l>De se despir, há medo que ainda tarde)</l>
          <l>A matar na água o fogo que nele arde.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Qual cão de caçador, sagaz e ardido,</l>
          <l>Usado a tomar na água a ave ferida,</l>
          <l>Vendo no rosto o férreo cano erguido</l>
          <l>Para a garcenha ou pata conhecida,</l>
          <l>Antes que soe o estouro, mal sofrido</l>
          <l>Salta n’água, e da presa não duvida,</l>
          <l>Nadando vai e latindo: assi o mancebo</l>
          <l>Remete à que não era irmã de Febo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Leonardo, soldado bem disposto,</l>
          <l>Manhoso, cavaleiro e namorado,</l>
          <l>A quem amor não dera um só desgosto,</l>
          <l>Mas sempre fora dele maltratado,</l>
          <l>E tinha já por firme pressuposto</l>
          <l>Ser com amores mal afortunado,</l>
          <l>Porém não que perdesse a esperança</l>
          <l>De ainda poder seu fado ter mudança,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="453" edRef="#instituto"/>
          <l>Quis aqui sua ventura, que corria</l>
          <l>Após Efire, exemplo de beleza,</l>
          <l>Que mais caro que as outras dar queria</l>
          <l>O que deu para dar-se a natureza.</l>
          <l>Já cansado correndo lhe dizia:</l>
          <l>“Ó formosura indigna de aspereza,</l>
          <l>Pois desta vida te concedo a palma,</l>
          <l>Espera um corpo de quem levas a alma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Todas de correr cansam, Ninfa pura,</l>
          <l>Rendendo-se à vontade do inimigo,</l>
          <l>Tu só de mi só foges na espessura?</l>
          <l>Quem te disse que eu era o que te sigo?</l>
          <l>Se to tem dito já aquela ventura,</l>
          <l>Que em toda a parte sempre anda comigo,</l>
          <l>Ó não na creias, porque eu, quando a cria,</l>
          <l>Mil vezes cada hora me mentia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não canses, que me cansas: e se queres</l>
          <l>Fugir-me, por que não possa tocar-te,</l>
          <l>Minha ventura é tal que, ainda que esperes,</l>
          <l>Ela fará que não possa alcançar-te.</l>
          <l>Espora; quero ver, se tu quiseres,</l>
          <l>Que subtil modo busca de escapar-te,</l>
          <l>E notarás, no fim deste sucesso,</l>
          <l st:symbols="ok"><choice><orig>Tra la spica e la man, qual muro è messo.</orig><seg>Trá la spíca e la mã, qual muro é mésso.</seg></choice></l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ó não me fujas! Assim nunca o breve</l>
          <l>Tempo fuja de tua formosura!</l>
          <l>Que, só com refrear o passo leve,</l>
          <l>Vencerás da fortuna a força dura.</l>
          <l>Que Imperador, que exército se atreve</l>
          <l>A quebrantar a fúria da ventura,</l>
          <l>Que, em quanto desejei, me vai seguindo,</l>
          <l>O que tu só farás não me fugindo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="454" edRef="#instituto"/>
          <l>“Pões-te da parte da desdita minha?</l>
          <l>Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.</l>
          <l>Levas-me um coração, que livre tinha?</l>
          <l>Solta-me, e correrás mais levemente.</l>
          <l>Não te carrega essa alma tão mesquinha,</l>
          <l>Que nesses fios de ouro reluzente</l>
          <l>Atada levas? Ou, depois de presa,</l>
          <l>Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Nesta esperança só te vou seguindo:</l>
          <l>Que, ou tu não sofrerás o peso dela,</l>
          <l>Ou na virtude de teu gesto lindo</l>
          <l>Lhe mudarás a triste e dura estrela:</l>
          <l>E se se lhe mudar, não vás fugindo,</l>
          <l>Que Amor te ferirá, gentil donzela,</l>
          <l>E tu me esperarás, se Amor te fere:</l>
          <l>E se me esperas, não há mais que espere.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já não fugia a bela Ninfa, tanto</l>
          <l>Por se dar cara ao triste que a seguia,</l>
          <l>Como por ir ouvindo o doce canto,</l>
          <l>As namoradas mágoas que dizia.</l>
          <l>Volvendo o rosto já sereno e santo,</l>
          <l>Toda banhada em riso e alegria,</l>
          <l>Cair se deixa aos pés do vencedor,</l>
          <l>Que todo se desfaz em puro amor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó que famintos beijos na floresta,</l>
          <l>E que mimoso choro que soava!</l>
          <l>Que afagos tão suaves, que ira honesta,</l>
          <l>Que em risinhos alegres se tornava!</l>
          <l>O que mais passam na manhã, e na sesta,</l>
          <l>Que Vénus com prazeres inflamava,</l>
          <l>Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo,</l>
          <l>Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="455" edRef="#instituto"/>
          <l>Desta arte enfim conformes já as formosas</l>
          <l>Ninfas com os seus amados navegantes,</l>
          <l>Os ornam de capelas deleitosas</l>
          <l>De louro, e de ouro, e flores abundantes.</l>
          <l>As mãos alvas lhes davam como esposas;</l>
          <l>Com palavras formais e estipulantes</l>
          <l>Se prometem eterna companhia</l>
          <l>Em vida e morte, de honra e alegria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uma delas maior, a quem se humilha</l>
          <l>Todo o coro das Ninfas, e obedece,</l>
          <l>Que dizem ser de Celo e Vesta filha,</l>
          <l>O que no gesto belo se parece,</l>
          <l>Enchendo a terra e o mar de maravilha,</l>
          <l>O Capitão ilustre, que o merece,</l>
          <l>Recebe ali com pompa honesta e régia,</l>
          <l>Mostrando-se senhora grande e egrégia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que, depois de lhe ter dito quem era,</l>
          <l>Com um alto exórdio, de alta graça ornado,</l>
          <l>Dando-lhe a entender que ali viera</l>
          <l>Por alta influição do imóvel fado,</l>
          <l>Para lhe descobrir da unida esfera</l>
          <l>Da terra imensa, e mar não navegado,</l>
          <l>Os segredos, por alta profecia,</l>
          <l>O que esta sua nação só merecia,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tomando-o pela mão, o leva e guia</l>
          <l>Para o cume dum monte alto e divino,</l>
          <l>No qual uma rica fábrica se erguia</l>
          <l>De cristal toda, e de ouro puro e fino.</l>
          <l>A maior parte aqui passam do dia</l>
          <l>Em doces jogos e em prazer contino:</l>
          <l>Ela nos paços logra seus amores,</l>
          <l>As outras pelas sombras entre as flores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="456" edRef="#instituto"/>
          <l>Assi a formosa e a forte companhia</l>
          <l>O dia quase todo estão passando,</l>
          <l>Numa alma, doce, incógnita alegria,</l>
          <l>Os trabalhos tão longos compensando.</l>
          <l>Porque dos feitos grandes, da ousadia</l>
          <l>Forte e famosa, o mundo está guardando</l>
          <l>O prémio lá no fim, bem merecido,</l>
          <l>Com fama grande e nome alto e subido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que as Ninfas do Oceano tão formosas,</l>
          <l>Tétis, e a ilha angélica pintada,</l>
          <l>Outra coisa não é que as deleitosas</l>
          <l>Honras que a vida fazem sublimada.</l>
          <l>Aquelas proeminências gloriosas,</l>
          <l>Os triunfos, a fronte coroada</l>
          <l>De palma e louro, a glória e maravilha:</l>
          <l>Estes são os deleites desta ilha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que as imortalidades que fingia</l>
          <l>A antiguidade, que os ilustres ama,</l>
          <l>Lá no estelante Olimpo, a quem subia</l>
          <l>Sobre as asas ínclitas da Fama,</l>
          <l>Por obras valorosas que fazia,</l>
          <l>Pelo trabalho imenso que se chama</l>
          <l>Caminho da virtude alto e fragoso,</l>
          <l>Mas no fim doce, alegre e deleitoso:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não eram senão prémios que reparte</l>
          <l>Por feitos imortais e soberanos</l>
          <l>O mundo com os varões, que esforço e arte</l>
          <l>Divinos os fizeram, sendo humanos.</l>
          <l>Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,</l>
          <l>Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,</l>
          <l>Ceres, Palas e Juno, com Diana,</l>
          <l>Todos foram de fraca carne humana.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="457" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas a Fama, trombeta de obras tais,</l>
          <l>Lhe deu no mundo nomes tão estranhos</l>
          <l>De Deuses, Semideuses imortais,</l>
          <l>Indígetes, Heróicos e de Magnos.</l>
          <l>Por isso, ó vós que as famas estimais,</l>
          <l>Se quiserdes no mundo ser tamanhos,</l>
          <l>Despertai já do sono do ócio ignavo,</l>
          <l>Que o ânimo de livre faz escravo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ponde na cobiça um freio duro,</l>
          <l>E na ambição também, que indignamente</l>
          <l>Tomais mil vezes, e no torpe e escuro</l>
          <l>Vício da tirania infame e urgente;</l>
          <l>Porque essas honras vãs, esse ouro puro</l>
          <l>Verdadeiro valor não dão à gente:</l>
          <l>Melhor é, merecê-los sem os ter,</l>
          <l>Que possuí-los sem os merecer.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ou dai na paz as leis iguais, constantes,</l>
          <l>Que aos grandes não deem o dos pequenos;</l>
          <l>Ou vos vesti nas armas rutilantes,</l>
          <l>Contra a lei dos imigos Sarracenos:</l>
          <l>Fareis os Reinos grandes e possantes,</l>
          <l>E todos tereis mais, o nenhum menos;</l>
          <l>Possuireis riquezas merecidas,</l>
          <l>Com as honras, que ilustram tanto as vidas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E fareis claro o Rei, que tanto amais,</l>
          <l>Agora com os conselhos bem cuidados,</l>
          <l>Agora com as espadas, que imortais</l>
          <l>Vos farão, como os vossos já passados;</l>
          <l>Impossibilidades não façais,</l>
          <l>Que quem quis sempre pôde; e numerados</l>
          <l>Sereis entre os Heróis esclarecidos,</l>
          <l>E nesta Ilha de Vénus recebidos.</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="canto">
        <head>Canto Décimo</head>
        <lg>
          <pb n="487" edRef="#instituto"/>
          <l>Mas já o claro amador da Larisséia</l>
          <l>Adúltera inclinava os animais</l>
          <l>Lá pera o grande lago que rodeia</l>
          <l>Temistitão, nos fins Ocidentais;</l>
          <l>O grande ardor do Sol Favónio enfreia</l>
          <l>C’o sopro que nos tanques naturais</l>
          <l>Encrespa a água serena e despertava</l>
          <l>Os lírios e jasmins, que a calma agrava,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando as fermosas Ninfas, c’os amantes</l>
          <l>Pela mão, já conformes e contentes,</l>
          <l>Subiam pera os paços radiantes</l>
          <l>E de metais ornados reluzentes,</l>
          <l>Mandados da Rainha, que abundantes</l>
          <l>Mesas d’altos manjares excelentes</l>
          <l>Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza</l>
          <l>Restaurem da cansada natureza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,</l>
          <l>Se assentam dous e dous, amante e dama;</l>
          <l>Noutras, à cabeceira, d’ouro finas,</l>
          <l>Está c’o a bela Deusa o claro Gama.</l>
          <l>De iguarias suaves e divinas,</l>
          <l>A quem não chega a Egípcia antiga fama,</l>
          <l>Se acumulam os pratos de fulvo ouro,</l>
          <l>Trazidos lá do Atlântico tesouro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="488" edRef="#instituto"/>
          <l>Os vinhos odoríferos, que acima</l>
          <l>Estão não só do Itálico Falerno</l>
          <l>Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima</l>
          <l>Com todo o ajuntamento sempiterno,</l>
          <l>Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,</l>
          <l>Crespas escumas erguem, que no interno</l>
          <l>Coração movem súbita alegria,</l>
          <l>Saltando c’o a mistura d’água fria.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mil práticas alegres se tocavam;</l>
          <l>Risos doces, sutis e argutos ditos,</l>
          <l>Que entre um e outro manjar se ale vantavam,</l>
          <l>Despertando os alegres apetitos;</l>
          <l>Músicos instrumentos não faltavam</l>
          <l>(Quais, no profundo Reino, os nus espritos</l>
          <l>Fizeram descansar da eterna pena)</l>
          <l>C’uma voz d’uma angélica Sirena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cantava a bela Ninfa, e c’os acentos,</l>
          <l>Que pelos altos paços vão soando,</l>
          <l>Em consonância igual, os instrumentos</l>
          <l>Suaves vêm a um tempo conformando.</l>
          <l>Um súbito silêncio enfreia os ventos</l>
          <l>E faz ir docemente murmurando</l>
          <l>As águas, e nas casas naturais</l>
          <l>Adormecer os brutos animais.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Com doce voz está subindo ao Céu</l>
          <l>Altos varões que estão por vir ao mundo,</l>
          <l>Cujas claras Ideias viu Proteu</l>
          <l>Num globo vão, diáfano, rotundo,</l>
          <l>Que Júpiter em dom lho concedeu</l>
          <l>Em sonhos, e despois no Reino fundo,</l>
          <l>Vaticinando, o disse, e na memória</l>
          <l>Recolheu logo a Ninfa a clara história.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="489" edRef="#instituto"/>
          <l>Matéria é de coturno, e não de soco,</l>
          <l>A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;</l>
          <l>Qual Iopas não soube, ou Demodoco,</l>
          <l>Entre os Feaces um, outro em Cartago.</l>
          <l>Aqui, minha Calíope, te invoco</l>
          <l>Neste trabalho extremo, por que em pago</l>
          <l>Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,</l>
          <l>O gosto de escrever, que vou perdendo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vão os anos descendo, e já do Estio</l>
          <l>Há pouco que passar até o Outono;</l>
          <l>A Fortuna me faz o engenho frio,</l>
          <l>Do qual já não me jacto nem me abono;</l>
          <l>Os desgostos me vão levando ao rio</l>
          <l>Do negro esquecimento e eterno sono.</l>
          <l>Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha</l>
          <l>Das Musas, c’o que quero à nação minha!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cantava a bela Deusa que viriam</l>
          <l>Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,</l>
          <l>Armadas que as ribeiras venceriam</l>
          <l>Por onde o Oceano Índico suspira;</l>
          <l>E que os Gentios Reis que não dariam</l>
          <l>A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira</l>
          <l>Provariam do braço duro e forte,</l>
          <l>Até render-se a ele ou logo à morte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cantava dum que tem nos Malabares</l>
          <l>Do sumo sacerdócio a dignidade,</l>
          <l>Que, só por não quebrar c’os singulares</l>
          <l>Barões os nós que dera d’amizade,</l>
          <l>Sofrerá suas cidades e lugares,</l>
          <l>Com ferro, incêndios, ira e crueldade,</l>
          <l>Ver destruir do Samorim potente,</l>
          <l>Que tais ódios terá c’o a nova gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="490" edRef="#instituto"/>
          <l>E canta como lá se embarcaria</l>
          <l>Em Belém o remédio deste dano,</l>
          <l>Sem saber o que em si ao mar traria,</l>
          <l>O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.</l>
          <l>O peso sentirão, quando entraria,</l>
          <l>O curvo lenho e o férvido Oceano,</l>
          <l>Quando mais n’água os troncos que gemerem</l>
          <l>Contra sua natureza se meterem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, já chegado aos fins Orientais</l>
          <l>E deixado em ajuda do gentio</l>
          <l>Rei de Cochim, com poucos naturais,</l>
          <l>Nos braços do salgado e curvo rio</l>
          <l>Desbaratará os Naires infernais</l>
          <l>No passo Cambalão, tornando frio</l>
          <l>D’espanto o ardor imenso do Oriente,</l>
          <l>Que verá tanto obrar tão pouca gente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Chamará o Samorim mais gente nova;</l>
          <l st:symbols="ok">Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,</l>
          <l>Das serras de Narsinga, que alta prova</l>
          <l>Estarão prometendo a seu senhor;</l>
          <l>Fará que todo o Naire, enfim, se mova</l>
          <l>Que entre Calecu jaz e Cananor,</l>
          <l>D’ambas as Leis imigas pera a guerra:</l>
          <l>Mouros por mar, Gentios pola terra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E todos outra vez desbaratando,</l>
          <l>Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,</l>
          <l>A grande multidão que irá matando</l>
          <l>A todo o Malabar terá admirado.</l>
          <l>Cometerá outra vez, não dilatando,</l>
          <l>O Gentio os combates, apressado,</l>
          <l>Injuriando os seus, fazendo votos</l>
          <l>Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="491" edRef="#instituto"/>
          <l>Já não defenderá somente os passos,</l>
          <l>Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;</l>
          <l>Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos</l>
          <l>Aqueles que as cidades fazem rasas,</l>
          <l>Fará que os seus, de vida pouco escassos,</l>
          <l>Cometam o Pacheco, que tem asas,</l>
          <l>Por dous passos num tempo; mas voando</l>
          <l>Dum noutro, tudo irá desbaratando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Virá ali o Samorim, por que em pessoa</l>
          <l>Veja a batalha e os seus esforce e anime;</l>
          <l>Mas um tiro, que com zunido voa,</l>
          <l>De sangue o tingirá no andor sublime.</l>
          <l>Já não verá remédio ou manha boa</l>
          <l>Nem força que o Pacheco muito estime;</l>
          <l>Inventará traições e vãos venenos,</l>
          <l>Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que tornará a vez sétima (cantava)</l>
          <l>Pelejar c’o invicto e forte Luso,</l>
          <l>A quem nenhum trabalho pesa e agrava;</l>
          <l>Mas, contudo, este só o fará confuso.</l>
          <l>Trará pera a batalha, horrenda e brava,</l>
          <l>Máquinas de madeiros fora de uso,</l>
          <l>Pera lhe abalroar as caravelas,</l>
          <l>Que até ’li vão lhe fora cometê-las.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pela água levará serras de fogo</l>
          <l>Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;</l>
          <l>Mas a militar arte e engenho logo</l>
          <l>Fará ser vã a braveza com que venha.</l>
          <l>— “Nenhum claro barão no Márcio jogo,</l>
          <l>Que nas asas da Fama se sustenha,</l>
          <l>Chega a este, que a palma a todos toma.</l>
          <l>E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="492" edRef="#instituto"/>
          <l>“Porque tantas batalhas, sustentadas</l>
          <l>Com muito pouco mais de cem soldados,</l>
          <l>Com tantas manhas e artes inventadas,</l>
          <l>Tantos Cães não imbeles profligados,</l>
          <l>Ou parecerão fábulas sonhadas,</l>
          <l>Ou que os celestes Coros, invocados,</l>
          <l>Descerão a ajudá-lo e lhe darão</l>
          <l>Esforço, força, ardil e coração.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aquele que nos campos Maratónios</l>
          <l>O grão poder de Dário estrui e rende,</l>
          <l>Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,</l>
          <l>O passo de Termópilas defende,</l>
          <l>Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,</l>
          <l>Que com todo o poder Tusco contende</l>
          <l>Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,</l>
          <l>Foi como este na guerra forte e sábio.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas neste passo a Ninfa, o som canoro</l>
          <l>Abaxando, fez ronco e entristecido,</l>
          <l>Cantando em baxa voz, envolta em choro,</l>
          <l>O grande esforço mal agardecido.</l>
          <l>— “Ó Belisário (disse) que no coro</l>
          <l>Das Musas serás sempre engrandecido,</l>
          <l>Se em ti viste abatido o bravo Marte,</l>
          <l>Aqui tens com quem podes consolar-te!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui tens companheiro, assi nos feitos</l>
          <l>Como no galardão injusto e duro;</l>
          <l>Em ti e nele veremos altos peitos</l>
          <l>A baxo estado vir, humilde e escuro.</l>
          <l>Morrer nos hospitais, em pobres leitos,</l>
          <l>Os que ao Rei e à Lei servem de muro!</l>
          <l>Isto fazem os Reis cuja vontade</l>
          <l>Manda mais que a justiça e que a verdade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Isto fazem os Reis quando embebidos</l>
          <pb n="493" edRef="#instituto"/>
          <l>N’uma aparência branda que os contenta</l>
          <l>Dão os prémios, de Aiace merecidos,</l>
          <l>À língua vã de Ulisses, fraudulenta.</l>
          <l>Mas vingo-me: que os bens mal repartidos</l>
          <l>Por quem só doces sombras apresenta,</l>
          <l>Se não os dão a sábios cavaleiros,</l>
          <l>Dão-nos logo a avarentos lisonjeiros.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas tu, de quem ficou tão mal pagado</l>
          <l>Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,</l>
          <l>Se não és pera dar-lhe honroso estado,</l>
          <l>É ele pera dar-te um Reino rico.</l>
          <l>Enquanto for o mundo rodeado</l>
          <l>Dos Apolíneos raios, eu te fico</l>
          <l>Que ele seja entre a gente ilustre e claro,</l>
          <l>E tu nisto culpado por avaro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas eis outro (cantava) intitulado</l>
          <l>Vem com nome real e traz consigo</l>
          <l>O filho, que no mar será ilustrado,</l>
          <l>Tanto como qualquer Romano antigo.</l>
          <l>Ambos darão com braço forte, armado,</l>
          <l>A Quíloa fértil, áspero castigo,</l>
          <l>Fazendo nela Rei leal e humano,</l>
          <l>Deitado fora o pérfido tirano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Também farão Mombaça, que se arreia</l>
          <l>De casas sumptuosas e edifícios,</l>
          <l>C’o ferro e fogo seu queimada e feia,</l>
          <l>Em pago dos passados malefícios.</l>
          <l>Despois, na costa da Índia, andando cheia</l>
          <l>De lenhos inimigos e artifícios</l>
          <l>Contra os Lusos, com velas e com remos</l>
          <l>O mancebo Lourenço fará extremos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="494" edRef="#instituto"/>
          <l>“Das grandes naus do Samorim potente,</l>
          <l>Que encherão todo o mar, c’o a férrea pela,</l>
          <l>Que sai com trovão do cobre ardente,</l>
          <l>Fará pedaços leme, masto, vela.</l>
          <l>Despois, lançando arpéus ousadamente</l>
          <l>Na capitaina imiga, dentro nela</l>
          <l>Saltando o fará só com lança e espada</l>
          <l>De quatrocentos Mouros despejada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas de Deus a escondida providência</l>
          <l>(Que ela só sabe o bem de que se serve)</l>
          <l>O porá onde esforço nem prudência</l>
          <l>Poderá haver que a vida lhe reserve.</l>
          <l>Em Chaul, onde em sangue e resistência</l>
          <l>O mar todo com fogo e ferro ferve,</l>
          <l>Lhe farão que com vida se não saia</l>
          <l>As armadas de Egipto e de Cambaia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali o poder de muitos inimigos</l>
          <l>(Que o grande esforço só com força rende),</l>
          <l>Os ventos que faltaram, e os perigos</l>
          <l>Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.</l>
          <l>Aqui ressurjam todos os Antigos,</l>
          <l>A ver o nobre ardor que aqui se aprende:</l>
          <l>Outro Ceva verão, que, espedaçado,</l>
          <l>Não sabe ser rendido nem domado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l st:symbols="ok">“Com toda u’a coxa fora, que em pedaços</l>
          <l>Lhe leva um cego tiro que passara,</l>
          <l>Se serve inda dos animosos braços</l>
          <l>E do grão coração que lhe ficara.</l>
          <l>Até que outro pelouro quebra os laços</l>
          <l>Com que co’a alma o corpo se liara:</l>
          <l>Ela, solta, voou da prisão fora</l>
          <l>Onde súbito se acha vencedora.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="495" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,</l>
          <l>Na qual tu mereceste paz serena!</l>
          <l>Que o corpo, que em pedaços se apresenta,</l>
          <l>Quem o gerou, vingança já lhe ordena:</l>
          <l>Que eu ouço retumbar a grão tormenta,</l>
          <l>Que vem já dar a dura e eterna pena,</l>
          <l>De esperas, basiliscos e trabucos,</l>
          <l>A Cambaicos cruéis e Mamelucos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis vem o pai, com ânimo estupendo,</l>
          <l>Trazendo fúria e mágoa por antolhos,</l>
          <l>Com que o paterno amor lhe está movendo</l>
          <l>Fogo no coração, água nos olhos.</l>
          <l>A nobre ira lhe vinha prometendo</l>
          <l>Que o sangue fará dar pelos giolhos</l>
          <l>Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,</l>
          <l>Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Qual o touro cioso, que se ensaia</l>
          <l>Pera a crua peleja, os cornos tenta</l>
          <l>No tronco dum carvalho ou alta faia</l>
          <l>E, o ar ferindo, as forças experimenta:</l>
          <l>Tal, antes que no seio de Cambaia</l>
          <l>Entre Francisco irado, na opulenta</l>
          <l>Cidade de Dabul a espada afia,</l>
          <l>Abaxando-lhe a túmida ousadia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E logo, entrando fero na enseada</l>
          <l>De Dio, ilustre em cercos e batalhas,</l>
          <l>Fará espalhar a fraca e grande armada</l>
          <l>De Calecu, que remos tem por malhas.</l>
          <l>A de Melique jaz, acautelada,</l>
          <l>C’os pelouros que tu, Vulcano, espalhas,</l>
          <l>Fará ir ver o frio e fundo assento,</l>
          <l>Secreto leito do húmido elemento.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="496" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,</l>
          <l>A fúria esperará dos vingadores,</l>
          <l>Verá braços e pernas ir nadando</l>
          <l>Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.</l>
          <l>Raios de fogo irão representando,</l>
          <l>No cego ardor, os bravos domadores.</l>
          <l>Quanto ali sentirão olhos e ouvidos</l>
          <l>É fumo, ferro, flamas e alaridos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas ah, que desta próspera vitória,</l>
          <l>Com que despois virá ao pátrio Tejo,</l>
          <l>Quase lhe roubará a famosa glória</l>
          <l>Um sucesso, que triste e negro vejo!</l>
          <l>O Cabo Tormentório, que a memória</l>
          <l>C’os ossos guardará, não terá pejo</l>
          <l>De tirar deste mundo aquele esprito,</l>
          <l>Que não tiraram toda a Índia e Egipto.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali, Cafres selvagens poderão</l>
          <l>O que destros imigos não puderam;</l>
          <l>E rudos paus tostados sós farão</l>
          <l>O que arcos e pelouros não fizeram.</l>
          <l>Ocultos os juízos de Deus são;</l>
          <l>As gentes vãs, que não nos entenderam,</l>
          <l>Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,</l>
          <l>Sendo só providência de Deus pura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto</l>
          <l>(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)</l>
          <l>Lá no mar de Melinde, em sangue tinto</l>
          <l>Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,</l>
          <l>Pelo Cunha também, que nunca extinto</l>
          <l>Será seu nome em todo o mar que lava</l>
          <l>As ilhas do Austro, e praias que se chamam</l>
          <l>De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="497" edRef="#instituto"/>
          <l>“Esta luz é do fogo e das luzentes</l>
          <l>Armas com que Albuquerque irá amansando</l>
          <l>De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,</l>
          <l>Que refusam o jugo honroso e brando.</l>
          <l>Ali verão as setas estridentes</l>
          <l>Reciprocar-se, a ponta no ar virando</l>
          <l>Contra quem as tirou; que Deus peleja</l>
          <l>Por quem estende a fé da Madre Igreja.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali do sal os montes não defendem</l>
          <l>De corrupção os corpos no combate,</l>
          <l>Que mortos pela praia e mar se estendem</l>
          <l>De Gerum, de Mazcate e Calaiate;</l>
          <l>Até que à força só de braço aprendem</l>
          <l>A abaxar a cerviz, onde se lhe ate</l>
          <l>Obrigação de dar o reino inico</l>
          <l>Das perlas de Barém tributo rico.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Que gloriosas palmas tecer vejo</l>
          <l>Com que Vitória a fronte lhe coroa,</l>
          <l>Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,</l>
          <l>Toma a ilha ilustríssima de Goa!</l>
          <l>Despois, obedecendo ao duro ensejo,</l>
          <l>A deixa, e ocasião espera boa</l>
          <l>Com que a torne a tomar, que esforço e arte</l>
          <l>Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis já sobr’ela torna e vai rompendo</l>
          <l>Por muros, fogo, lanças e pelouros,</l>
          <l>Abrindo com a espada o espesso e horrendo</l>
          <l>Esquadrão de Gentios e de Mouros.</l>
          <l>Irão soldados ínclitos fazendo</l>
          <l>Mais que liões famélicos e touros,</l>
          <l>Na luz que sempre celebrada e dina</l>
          <l>Será da Egípcia Santa Caterina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="498" edRef="#instituto"/>
          <l>“Nem tu menos fugir poderás deste,</l>
          <l>Posto que rica e posto que assentada</l>
          <l>Lá no grémio da Aurora, onde nasceste,</l>
          <l>Opulenta Malaca nomeada.</l>
          <l>As setas venenosas que fizeste,</l>
          <l>Os crises com que já te vejo armada,</l>
          <l>Malaios namorados, Jaus valentes,</l>
          <l>Todos farás ao Luso obedientes.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mais estanças cantara esta Sirena</l>
          <l>Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,</l>
          <l st:symbols="ok">Mas alembrou-lhe u’a ira que o condena,</l>
          <l>Posto que a fama sua o mundo cerque.</l>
          <l>O grande Capitão, que o fado ordena</l>
          <l>Que com trabalhos glória eterna merque,</l>
          <l>Mais há-de ser um brando companheiro</l>
          <l>Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas em tempo que fomes e asperezas,</l>
          <l>Doenças, frechas e trovões ardentes,</l>
          <l>A sazão e o lugar, fazem cruezas</l>
          <l>Nos soldados a tudo obedientes,</l>
          <l>Parece de selváticas brutezas,</l>
          <l>De peitos inumanos e insolentes,</l>
          <l>Dar extremo suplício pela culpa</l>
          <l>Que a fraca humanidade e Amor desculpa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não será a culpa abominoso incesto</l>
          <l>Nem violento estupro em virgem pura,</l>
          <l>Nem menos adultério desonesto,</l>
          <l>Mas c’uma escrava vil, lasciva e escura.</l>
          <l>Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,</l>
          <l>Ou de usado a crueza fera e dura,</l>
          <l st:symbols="ok">C’os seus u’a ira insana não refreia,</l>
          <l>Põe na fama alva noda negra e feia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="499" edRef="#instituto"/>
          <l>Viu Alexandre Apeles namorado</l>
          <l>Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,</l>
          <l>Não sendo seu soldado exprimentado,</l>
          <l>Nem vendo-se num cerco duro e urgente.</l>
          <l>Sentiu Ciro que andava já abrasado</l>
          <l>Araspas, de Panteia, em fogo ardente,</l>
          <l>Que ele tomara em guarda, e prometia</l>
          <l>Que nenhum mau desejo o venceria;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, vendo o ilustre Persa que vencido</l>
          <l>Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,</l>
          <l>Levemente o perdoa, e foi servido</l>
          <l>Dele num caso grande, em recompensa.</l>
          <l>Per força, de Judita foi marido</l>
          <l>O férreo Balduíno; mas dispensa</l>
          <l>Carlos, pai dela, posto em causas grandes,</l>
          <l>Que viva e povoador seja de Frandes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,</l>
          <l>De Soares cantava, que as bandeiras</l>
          <l>Faria tremular e pôr espanto</l>
          <l>Pelas roxas Arábicas ribeiras:</l>
          <l>— “Medina abominábil teme tanto,</l>
          <l>Quanto Meca e Gidá, c’o as derradeiras</l>
          <l>Praias de Abássia; Barborá se teme</l>
          <l>Do mal de que o empório Zeila geme.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A nobre ilha também de Taprobana,</l>
          <l>Já pelo nome antigo tão famosa</l>
          <l>Quanto agora soberba e soberana</l>
          <l>Pela cortiça cálida, cheirosa,</l>
          <l>Dela dará tributo à Lusitana</l>
          <l>Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,</l>
          <l>Vencendo se erguerá na torre erguida,</l>
          <l>Em Columbo, dos próprios tão temida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="500" edRef="#instituto"/>
          <l>“Também Sequeira, as ondas Eritreias</l>
          <l>Dividindo, abrirá novo caminho</l>
          <l>Pera ti, grande Império, que te arreias</l>
          <l>De seres de Candace e Sabá ninho.</l>
          <l>Maçuá, com cisternas de água cheias</l>
          <l>Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;</l>
          <l>E fará descobrir remotas Ilhas,</l>
          <l>Que dão ao mundo novas maravilhas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Virá despois Meneses, cujo ferro</l>
          <l>Mais na África, que cá, terá provado;</l>
          <l>Castigará de Ormuz soberba o erro,</l>
          <l>Com lhe fazer tributo dar dobrado.</l>
          <l>Também tu, Gama, em pago do desterro</l>
          <l>Em que estás e serás inda tornado,</l>
          <l>C’os títulos de Conde e d’honras nobres</l>
          <l>Virás mandar a terra que descobres.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas aquela fatal necessidade</l>
          <l>De quem ninguém se exime dos humanos,</l>
          <l>Ilustrado c’o a Régia dignidade,</l>
          <l>Te tirará do mundo e seus enganos.</l>
          <l>Outro Meneses logo, cuja idade</l>
          <l>É maior na prudência que nos anos,</l>
          <l>Governará; e fará o ditoso Henrique</l>
          <l>Que perpétua memória dele fique.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Não vencerá somente os Malabares,</l>
          <l>Destruindo Panane com Coulete,</l>
          <l>Cometendo as bombardas, que, nos ares,</l>
          <l>Se vingam só do peito que as comete;</l>
          <l>Mas com virtudes, certo, singulares,</l>
          <l>Vence os imigos d’alma todos sete;</l>
          <l>De cobiça triunfa e incontinência,</l>
          <l>Que em tal idade é suma de excelência.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="501" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas, despois que as Estrelas o chamarem,</l>
          <l>Sucederás, ó forte Mascarenhas;</l>
          <l>E, se injustos o mando te tomarem,</l>
          <l>Prometo-te que fama eterna tenhas.</l>
          <l>Pera teus inimigos confessarem</l>
          <l>Teu valor alto, o fado quer que venhas</l>
          <l>A mandar, mais de palmas coroado,</l>
          <l>Que de fortuna justa acompanhado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“No reino de Bintão, que tantos danos</l>
          <l>Terá a Malaca muito tempo feitos,</l>
          <l>Num só dia as injúrias de mil anos</l>
          <l>Vingarás, c’o valor de ilustres peitos.</l>
          <l>Trabalhos e perigos inumanos,</l>
          <l>Abrolhos férreos mil, passos estreitos,</l>
          <l>Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:</l>
          <l>Tudo fico que rompas e sometas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas na Índia, cobiça e ambição,</l>
          <l>Que claramente põem aberto o rosto</l>
          <l>Contra Deus e Justiça, te farão</l>
          <l>Vitupério nenhum, mas só desgosto.</l>
          <l>Quem faz injúria vil e sem razão,</l>
          <l>Com forças e poder em que está posto,</l>
          <l>Não vence; que a vitória verdadeira</l>
          <l>É saber ter justiça nua e inteira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas, contudo, não nego que Sampaio</l>
          <l>Será, no esforço, ilustre e assinalado,</l>
          <l>Mostrando-se no mar um fero raio,</l>
          <l>Que de inimigos mil verá coalhado.</l>
          <l>Em Bacanor fará cruel ensaio</l>
          <l>No Malabar, pera que, amedrontado,</l>
          <l>Despois a ser vencido dele venha</l>
          <l>Cutiale, com quanta armada tenha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="502" edRef="#instituto"/>
          <l>“E não menos de Dio a fera frota,</l>
          <l>Que Chaul temerá, de grande e ousada,</l>
          <l>Fará, c’o a vista só, perdida e rota,</l>
          <l>Por Heitor da Silveira e destroçada;</l>
          <l>Por Heitor Português, de quem se nota</l>
          <l>Que na costa Cambaica, sempre armada,</l>
          <l>Será aos Guzarates tanto dano,</l>
          <l>Quanto já foi aos Gregos o Troiano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“A Sampaio feroz sucederá</l>
          <l>Cunha, que longo tempo tem o leme:</l>
          <l>De Chale as torres altas erguerá,</l>
          <l>Enquanto Dio ilustre dele treme;</l>
          <l>O forte Baçaim se lhe dará,</l>
          <l>Não sem sangue, porém, que nele geme</l>
          <l>Melique, porque à força só de espada</l>
          <l>A tranqueira soberba vê tomada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Trás este vem Noronha, cujo auspício</l>
          <l>De Dio os Rumes feros afugenta;</l>
          <l>Dio, que o peito e bélico exercício</l>
          <l>De António da Silveira bem sustenta.</l>
          <l>Fará em Noronha a morte o usado ofício,</l>
          <l>Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta</l>
          <l>No governo do Império, cujo zelo</l>
          <l>Com medo o Roxo Mar fará amarelo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Das mãos do teu Estêvão vem tomar</l>
          <l>As rédeas um, que já será ilustrado</l>
          <l>No Brasil, com vencer e castigar</l>
          <l>O pirata Francês, ao mar usado.</l>
          <l>Despois, Capitão-mor do Índico mar,</l>
          <l>O muro de Damão, soberbo e armado,</l>
          <l>Escala e primeiro entra a porta aberta,</l>
          <l>Que fogo e frechas mil terão coberta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="503" edRef="#instituto"/>
          <l>“A este o Rei Cambaico soberbíssimo</l>
          <l>Fortaleza dará na rica Dio,</l>
          <l>Por que contra o Mogor poderosíssimo</l>
          <l>Lhe ajude a defender o senhorio.</l>
          <l>Despois irá com peito esforçadíssimo</l>
          <l>A tolher que não passe o Rei gentio</l>
          <l>De Calecu, que assi com quantos veio</l>
          <l>O fará retirar, de sangue cheio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Destruirá a cidade Repelim,</l>
          <l>Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;</l>
          <l>E despois, junto ao Cabo Comorim,</l>
          <l>Uma façanha faz esclarecida:</l>
          <l>A frota principal do Samorim,</l>
          <l>Que destruir o mundo não duvida,</l>
          <l>Vencerá c’o furor do ferro e fogo;</l>
          <l>Em si verá Beadala o Márcio jogo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Tendo assi limpa a Índia dos imigos,</l>
          <l>Virá despois com ceptro a governá-la</l>
          <l>Sem que ache resistência nem perigos,</l>
          <l>Que todos tremem dele e nenhum fala.</l>
          <l>Só quis provar os ásperos castigos</l>
          <l>Baticalá, que vira já Beadala.</l>
          <l>De sangue e corpos mortos ficou cheia</l>
          <l>E de fogo e trovões desfeita e feia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este será Martinho, que de Marte</l>
          <l>O nome tem c’o as obras derivado;</l>
          <l>Tanto em armas ilustre em toda parte,</l>
          <l>Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.</l>
          <l>Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte</l>
          <l>Português terá sempre levantado,</l>
          <l>Conforme sucessor ao sucedido,</l>
          <l>Que um ergue Dio, outro o defende erguido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="504" edRef="#instituto"/>
          <l>“Persas feroces, Abassis e Rumes,</l>
          <l>Que trazido de Roma o nome têm,</l>
          <l>Vários de gestos, vários de costumes</l>
          <l>(Que mil nações ao cerco feras vêm),</l>
          <l>Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes</l>
          <l>Porque uns poucos a terra lhe detêm.</l>
          <l>Em sangue Português, juram, descridos,</l>
          <l>De banhar os bigodes retorcidos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Basiliscos medonhos e liões,</l>
          <l>Trabucos feros, minas encobertas,</l>
          <l>Sustenta Mascarenhas c’os barões</l>
          <l>Que tão ledos as mortes têm por certas;</l>
          <l>Até que, nas maiores opressões,</l>
          <l>Castro libertador, fazendo ofertas</l>
          <l>Das vidas de seus filhos, quer que fiquem</l>
          <l>Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Fernando, um deles, ramo da alta pranta,</l>
          <l>Onde o violento fogo, com ruído,</l>
          <l>Em pedaços os muros no ar levanta,</l>
          <l>Será ali arrebatado e ao Céu subido.</l>
          <l>Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta</l>
          <l>E tem o caminho húmido impedido,</l>
          <l>Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,</l>
          <l>Os ventos e despois os inimigos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis vem despois o pai, que as ondas corta</l>
          <l>C’o restante da gente Lusitana,</l>
          <l>E com força e saber, que mais importa,</l>
          <l>Batalha dá felice e soberana.</l>
          <l>Uns, paredes subindo, escusam porta;</l>
          <l>Outros a abrem na fera esquadra insana.</l>
          <l>Feitos farão tão dinos de memória</l>
          <l>Que não caibam em verso ou larga história.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="505" edRef="#instituto"/>
          <l>“Este, despois, em campo se apresenta,</l>
          <l>Vencedor forte e intrépido, ao possante</l>
          <l>Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta</l>
          <l>Da fera multidão quadrupedante.</l>
          <l>Não menos suas terras mal sustenta</l>
          <l>O Hidalcão, do braço triunfante</l>
          <l>Que castigando vai Dabul na costa;</l>
          <l>Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Estes e outros Barões, por várias partes,</l>
          <l>Dinos todos de fama e maravilha,</l>
          <l>Fazendo-se na terra bravos Martes,</l>
          <l>Virão lograr os gostos desta Ilha,</l>
          <l>Varrendo triunfantes estandartes</l>
          <l>Pelas ondas que corta a aguda quilha;</l>
          <l>E acharão estas Ninfas e estas mesas,</l>
          <l>Que glórias e honras são de árduas empresas.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,</l>
          <l>Com sonoroso aplauso, vozes davam,</l>
          <l>Com que festejam as alegres vodas</l>
          <l>Que com tanto prazer se celebravam.</l>
          <l>— “Por mais que da Fortuna andem as rodas</l>
          <l>(Numa cônsona voz todas soavam),</l>
          <l>Não vos hão-de faltar, gente famosa,</l>
          <l>Honra, valor e fama gloriosa.”</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Despois que a corporal necessidade</l>
          <l>Se satisfez do mantimento nobre,</l>
          <l>E na harmonia e doce suavidade</l>
          <l>Viram os altos feitos que descobre,</l>
          <l>Tétis, de graça ornada e gravidade,</l>
          <l>Pera que com mais alta glória dobre</l>
          <l>As festas deste alegre e claro dia,</l>
          <l>Pera o felice Gama assi dizia:</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="506" edRef="#instituto"/>
          <l>— “Faz-te mercê, barão, a Sapiência</l>
          <l>Suprema de, c’os olhos corporais,</l>
          <l>Veres o que não pode a vã ciência</l>
          <l>Dos errados e míseros mortais.</l>
          <l>Segue-me firme e forte, com prudência,</l>
          <l>Por este monte espesso, tu c’os mais.”</l>
          <l>Assi lhe diz e o guia por um mato</l>
          <l>Árduo, difícil, duro a humano trato.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não andam muito que no erguido cume</l>
          <l>Se acharam, onde um campo se esmaltava</l>
          <l>De esmeraldas, rubis, tais que presume</l>
          <l>A vista que divino chão pisava.</l>
          <l>Aqui um globo vêm no ar, que o lume</l>
          <l>Claríssimo por ele penetrava,</l>
          <l>De modo que o seu centro está evidente,</l>
          <l>Como a sua superfícia, claramente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Qual a matéria seja não se enxerga,</l>
          <l>Mas enxerga-se bem que está composto</l>
          <l>De vários orbes, que a Divina verga</l>
          <l>Compôs, e um centro a todos só tem posto.</l>
          <l>Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,</l>
          <l st:symbols="ok">Nunca s’ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto</l>
          <l>Por toda a parte tem; e em toda a parte</l>
          <l>Começa e acaba, enfim, por divina arte,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uniforme, perfeito, em si sustido,</l>
          <l>Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.</l>
          <l>Vendo o Gama este globo, comovido</l>
          <l>De espanto e de desejo ali ficou.</l>
          <l>Diz-lhe a Deusa: — “O transunto, reduzido</l>
          <l>Em pequeno volume, aqui te dou</l>
          <l>Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas</l>
          <l>Por onde vás e irás e o que desejas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="507" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vês aqui a grande máquina do Mundo,</l>
          <l>Etérea e elemental, que fabricada</l>
          <l>Assi foi do Saber, alto e profundo,</l>
          <l>Que é sem princípio e meta limitada.</l>
          <l>Quem cerca em derredor este rotundo</l>
          <l>Globo e sua superfícia tão limada,</l>
          <l>É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,</l>
          <l>Que a tanto o engenho humano não se estende.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Este orbe que, primeiro, vai cercando</l>
          <l>Os outros mais pequenos que em si tem,</l>
          <l>Que está com luz tão clara radiando</l>
          <l>Que a vista cega e a mente vil também,</l>
          <l>Empíreo se nomeia, onde logrando</l>
          <l>Puras almas estão daquele Bem</l>
          <l>Tamanho, que ele só se entende e alcança,</l>
          <l>De quem não há no mundo semelhança.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui, só verdadeiros, gloriosos</l>
          <l>Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,</l>
          <l>Júpiter, Juno, fomos fabulosos,</l>
          <l>Fingidos de mortal e cego engano.</l>
          <l>Só pera fazer versos deleitosos</l>
          <l>Servimos; e, se mais o trato humano</l>
          <l>Nos pode dar, é só que o nome nosso</l>
          <l>Nestas estrelas pôs o engenho vosso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E também, porque a santa Providência,</l>
          <l>Que em Júpiter aqui se representa,</l>
          <l>Por espíritos mil que têm prudência</l>
          <l>Governa o Mundo todo que sustenta</l>
          <l>(Ensina-lo a profética ciência,</l>
          <l>Em muitos dos exemplos que apresenta);</l>
          <l>Os que são bons, guiando, favorecem,</l>
          <l>Os maus, em quanto podem, nos empecem;</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="508" edRef="#instituto"/>
          <l>“Quer logo aqui a pintura que varia</l>
          <l>Agora deleitando, ora ensinando,</l>
          <l>Dar-lhe nomes que a antiga Poesia</l>
          <l>A seus Deuses já dera, fabulando;</l>
          <l>Que os Anjos de celeste companhia</l>
          <l>Deuses o sacro verso está chamando,</l>
          <l>Nem nega que esse nome preminente</l>
          <l>Também aos maus se dá, mas falsamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Enfim que o Sumo Deus, que por segundas</l>
          <l>Causas obra no Mundo, tudo manda.</l>
          <l>E tornando a contar-te das profundas</l>
          <l>Obras da Mão Divina veneranda,</l>
          <l>Debaxo deste círculo onde as mundas</l>
          <l>Almas divinas gozam, que não anda,</l>
          <l>Outro corre, tão leve e tão ligeiro</l>
          <l>Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Com este rapto e grande movimento</l>
          <l>Vão todos os que dentro tem no seio;</l>
          <l>Por obra deste, o Sol, andando a tento,</l>
          <l>O dia e noite faz, com curso alheio.</l>
          <l>Debaxo deste leve, anda outro lento,</l>
          <l>Tão lento e sojugado a duro freio,</l>
          <l>Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,</l>
          <l>Duzentos cursos faz, dá ele um passo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha estoutro debaxo, que esmaltado</l>
          <l>De corpos lisos anda e radiantes,</l>
          <l>Que também nele tem curso ordenado</l>
          <l>E nos seus axes correm cintilantes.</l>
          <l>Bem vês como se veste e faz ornado</l>
          <l>Co largo Cinto d’ouro, que estelantes</l>
          <l>Animais doze traz afigurados,</l>
          <l>Apousentos de Febo limitados.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="509" edRef="#instituto"/>
          <l>“Olha por outras partes a pintura</l>
          <l>Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:</l>
          <l>Olha a Carreta, atenta a Cinosura,</l>
          <l>Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;</l>
          <l>Vê de Cassiopeia a fermosura</l>
          <l>E do Orionte o gesto turbulento;</l>
          <l>Olha o Cisne morrendo que suspira,</l>
          <l>A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Debaxo deste grande Firmamento,</l>
          <l>Vês o céu de Saturno, Deus antigo;</l>
          <l>Júpiter logo faz o movimento,</l>
          <l>E Marte abaxo, bélico inimigo;</l>
          <l>O claro Olho do céu, no quarto assento,</l>
          <l>E Vénus, que os amores traz consigo;</l>
          <l>Mercúrio, de eloquência soberana;</l>
          <l>Com três rostos, debaxo vai Diana.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Em todos estes orbes, diferente</l>
          <l>Curso verás, nuns grave e noutros leve;</l>
          <l>Ora fogem do Centro longamente,</l>
          <l>Ora da Terra estão caminho breve,</l>
          <l>Bem como quis o Padre omnipotente,</l>
          <l>Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,</l>
          <l>Os quais verás que jazem mais a dentro</l>
          <l>E tem c’o Mar a Terra por seu centro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Neste centro, pousada dos humanos,</l>
          <l>Que não somente, ousados, se contentam</l>
          <l>De sofrerem da terra firme os danos,</l>
          <l>Mas inda o mar instábil exprimentam,</l>
          <l>Verás as várias partes, que os insanos</l>
          <l>Mares dividem, onde se apousentam</l>
          <l>Várias nações que mandam vários Reis,</l>
          <l>Vários costumes seus e várias leis.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="510" edRef="#instituto"/>
          <l>“Vês Europa Cristã, mais alta e clara</l>
          <l>Que as outras em polícia e fortaleza.</l>
          <l>Vês África, dos bens do mundo avara,</l>
          <l>Inculta e toda cheia de bruteza;</l>
          <l>C’o Cabo que até ’qui se vos negara,</l>
          <l>Que assentou pera o Austro a Natureza.</l>
          <l>Olha essa terra toda, que se habita</l>
          <l>Dessa gente sem Lei, quase infinita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vê do Benomotapa o grande império,</l>
          <l>De selvática gente, negra e nua,</l>
          <l>Onde Gonçalo morte e vitupério</l>
          <l>Padecerá, pola Fé santa sua.</l>
          <l>Nasce por este incógnito Hemispério</l>
          <l>O metal por que mais a gente sua.</l>
          <l>Vê que do lago donde se derrama</l>
          <l>O Nilo, também vindo está Cuama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha as casas dos negros, como estão</l>
          <l>Sem portas, confiados, em seus ninhos,</l>
          <l>Na justiça real e defensão</l>
          <l>E na fidelidade dos vizinhos;</l>
          <l>Olha deles a bruta multidão,</l>
          <l>Qual bando espesso e negro de estorninhos,</l>
          <l>Combaterá em Sofala a fortaleza,</l>
          <l>Que defenderá Nhaia com destreza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha lá as alagoas donde o Nilo</l>
          <l>Nasce, que não souberam os antigos;</l>
          <l>Vê-lo rega, gerando o crocodilo,</l>
          <l>Os povos Abassis, de Crista amigos;</l>
          <l>Olha como sem muros (novo estilo)</l>
          <l>Se defendem milhor dos inimigos;</l>
          <l>Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,</l>
          <l>Que ora dos naturais Nobá se chama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="511" edRef="#instituto"/>
          <l>“Nesta remota terra um filho teu</l>
          <l>Nas armas contra os Turcos será claro;</l>
          <l>Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;</l>
          <l>Mas contra o fim fatal não há reparo.</l>
          <l>Vê cá a costa do mar, onde te deu</l>
          <l>Melinde hospício gasalhoso e caro;</l>
          <l>O Rapto rio nota, que o romance</l>
          <l>Da terra chama Obi; entra em Quilmance.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O Cabo vê já Arómata chamado,</l>
          <l>E agora Guardafu, dos moradores,</l>
          <l>Onde começa a boca do afamado</l>
          <l>Mar Roxo, que do fundo toma as cores;</l>
          <l>Este como limite está lançado</l>
          <l>Que divide Ásia de África; e as milhores</l>
          <l>Povoações que a parte África tem</l>
          <l>Maçuá são, Arquico e Suaquém.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês o extremo Suez, que antigamente</l>
          <l>Dizem que foi dos Héroas a cidade</l>
          <l>(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente</l>
          <l>Tem das frotas do Egipto a potestade.</l>
          <l>Olha as águas nas quais abriu patente</l>
          <l>Estrada o grão Mousés na antiga idade.</l>
          <l>Ásia começa aqui, que se apresenta</l>
          <l>Em terras grande, em reinos opulenta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha o monte Sinai, que se enobrece</l>
          <l>Co sepulcro de Santa Caterina;</l>
          <l>Olha Toro e Gidá, que lhe falece</l>
          <l>Água das fontes, doce e cristalina;</l>
          <l>Olha as portas do Estreito, que fenece</l>
          <l>No reino da seca Ádem, que confina</l>
          <l>Com a serra d’Arzira, pedra viva,</l>
          <l>Onde chuva dos céus se não deriva.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="512" edRef="#instituto"/>
          <l>“Olha as Arábias três, que tanta terra</l>
          <l>Tomam, todas da gente vaga e baça,</l>
          <l>Donde vêm os cavalos pera a guerra,</l>
          <l>Ligeiros e feroces, de alta raça;</l>
          <l>Olha a costa que corre, até que cera</l>
          <l>Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça</l>
          <l>O Cabo que c’o nome se apelida</l>
          <l>Da cidade Fartaque, ali sabida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha Dófar, insigne porque manda</l>
          <l>O mais cheiroso incenso pera as aras;</l>
          <l>Mas atenta: já cá destoutra banda</l>
          <l>De Roçalgate, e praias sempre avaras,</l>
          <l>Começa o reino Ormuz, que todo se anda</l>
          <l>Pelas ribeiras que inda serão claras</l>
          <l>Quando as galés do Turco e fera armada</l>
          <l>Virem de Castelbranco nua a espada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha o Cabo Asaboro, que chamado</l>
          <l>Agora é Moçandão, dos navegantes;</l>
          <l>Por aqui entra o lago que é fechado</l>
          <l>De Arábia e Pérsias terras abundantes.</l>
          <l>Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado</l>
          <l>Tem das suas perlas ricas, e imitantes</l>
          <l>A cor da Aurora; e vê na água salgada</l>
          <l>Ter o Tígris e Eufrates uma entrada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha da grande Pérsia o império nobre,</l>
          <l>Sempre posto no campo e nos cavalos,</l>
          <l>Que se injuria de usar fundido cobre</l><!-- Aqui há sístole: "injúria". -->
          <l>E de não ter das armas sempre os calos.</l>
          <l>Mas vê a ilha Gerum, como descobre</l>
          <l>O que fazem do tempo os intervalos,</l>
          <l>Que da cidade Armuza, que ali esteve,</l>
          <l>Ela o nome despois e a glória teve.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="513" edRef="#instituto"/>
          <l>“Aqui de Dom Filipe de Meneses</l>
          <l>Se mostrará a virtude, em armas clara,</l>
          <l>Quando, com muito poucos Portugueses,</l>
          <l>Os muitos Párseos vencerá de Lara.</l>
          <l>Virão provar os golpes e reveses</l>
          <l>De Dom Pedro de Sousa, que provara</l>
          <l>Já seu braço em Ampaza, que deixada</l>
          <l>Terá por terra, à força só de espada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas deixemos o Estreito e o conhecido</l>
          <l>Cabo de Jasque, dito já Carpela,</l>
          <l>Com todo o seu terreno mal querido</l>
          <l>Da Natura e dos dons usados dela;</l>
          <l>Carmânia teve já por apelido.</l>
          <l>Mas vês o fermoso Indo, que daquela</l>
          <l>Altura nasce, junto à qual, também</l>
          <l>Doutra altura correndo o Gange vem?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,</l>
          <l>E de Jáquete a íntima enseada;</l>
          <l>Do mar a enchente súbita, grandíssima,</l>
          <l>E a vazante, que foge apressurada.</l>
          <l>A terra de Cambaia vê, riquíssima,</l>
          <l>Onde do mar o seio faz entrada;</l>
          <l>Cidades outras mil, que vou passando,</l>
          <l>A vós outros aqui se estão guardando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês corre a costa célebre Indiana</l>
          <l>Pera o Sul, até o Cabo Comori,</l>
          <l>Já chamado Cori, que Taprobana</l>
          <l>(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.</l>
          <l>Por este mar a gente Lusitana,</l>
          <l>Que com armas virá despois de ti,</l>
          <l>Terá vitórias, terras e cidades,</l>
          <l>Nas quais hão-de viver muitas idades.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="514" edRef="#instituto"/>
          <l>“As províncias que entre um e o outro rio</l>
          <l>Vês, com várias nações, são infinitas:</l>
          <l>Um reino Mahometa, outro Gentio,</l>
          <l>A quem tem o Demónio leis escritas.</l>
          <l>Olha que de Narsinga o senhorio</l>
          <l>Tem as relíquias santas e benditas</l>
          <l>Do corpo de Tomé, barão sagrado,</l>
          <l>Que a Jesus Cristo teve a mão no lado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Aqui a cidade foi que se chamava</l>
          <l>Meliapor, fermosa, grande e rica;</l>
          <l>Os Ídolos antigos adorava</l>
          <l>Como inda agora faz a gente inica.</l>
          <l>Longe do mar naquele tempo estava,</l>
          <l>Quando a Fé, que no mundo se pubrica,</l>
          <l>Tomé vinha pregando, e já passara</l>
          <l>Províncias mil do mundo, que ensinara.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Chegado aqui, pregando e junto dando</l>
          <l>A doentes saúde, a mortos vida,</l>
          <l>Acaso traz um dia o mar, vagando,</l>
          <l>Um lenho de grandeza desmedida.</l>
          <l>Deseja o Rei, que andava edificando,</l>
          <l>Fazer dele madeira; e não duvida</l>
          <l>Poder tirá-lo a terra, com possantes</l>
          <l>Forças d’homens, de engenhos, de alifantes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Era tão grande o peso do madeiro</l>
          <l>Que, só pera abalar-se, nada abasta;</l>
          <l>Mas o núncio de Cristo verdadeiro</l>
          <l>Menos trabalho em tal negócio gasta:</l>
          <l>Ata o cordão que traz, por derradeiro,</l>
          <l>No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta</l>
          <l>Pera onde faça um sumptuoso templo</l>
          <l>Que ficasse aos futuros por exemplo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="515" edRef="#instituto"/>
          <l>“Sabia bem que se com fé formada</l>
          <l>Mandar a um monte surdo que se mova,</l>
          <l>Que obedecerá logo à voz sagrada,</l>
          <l>Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.</l>
          <l>A gente ficou disto alvoraçada;</l>
          <l>Os Brâmenes o têm por cousa nova;</l>
          <l>Vendo os milagres, vendo a santidade,</l>
          <l>Hão medo de perder autoridade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“São estes sacerdotes dos Gentios</l>
          <l>Em quem mais penetrado tinha enveja;</l>
          <l>Buscam maneiras mil, buscam desvios,</l>
          <l>Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.</l>
          <l>O principal, que ao peito traz os fios,</l>
          <l>Um caso horrendo faz, que o mundo veja</l>
          <l>Que inimiga não há, tão dura e fera,</l>
          <l>Como a virtude falsa, da sincera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Um filho próprio mata, e logo acusa</l>
          <l>De homicídio Tomé, que era inocente;</l>
          <l>Dá falsas testemunhas, como se usa;</l>
          <l>Condenaram-no a morte brevemente.</l>
          <l>O Santo, que não vê milhor escusa</l>
          <l>Que apelar pera o Padre omnipotente,</l>
          <l>Quer, diante do Rei e dos senhores,</l>
          <l>Que se faça um milagre dos maiores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“O corpo morto manda ser trazido,</l>
          <l>Que ressucite e seja perguntado</l>
          <l>Quem foi seu matador, e será crido</l>
          <l>Por testemunho, o seu, mais aprovado.</l>
          <l>Viram todos o moço vivo, erguido,</l>
          <l>Em nome de Jesu crucificado:</l>
          <l>Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,</l>
          <l>E descobre seu pai ser homicida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="516" edRef="#instituto"/>
          <l>“Este milagre fez tamanho espanto</l>
          <l>Que o Rei se banha logo na água santa,</l>
          <l>E muitos após ele; um beija o manto,</l>
          <l>Outro louvor do Deus de Tomé canta.</l>
          <l>Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,</l>
          <l>Com seu veneno os morde enveja tanta,</l>
          <l>Que, persuadindo a isso o povo rudo,</l>
          <l>Determinam matá-lo, em fim de tudo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Um dia que pregando ao povo estava,</l>
          <l>Fingiram entre a gente um arruído.</l>
          <l>(Já Cristo neste tempo lhe ordenava</l>
          <l>Que, padecendo, fosse ao Céu subido);</l>
          <l>A multidão das pedras que voava</l>
          <l>No Santo dá, já a tudo oferecido;</l>
          <l>Um dos maus, por fartar-se mais depressa,</l>
          <l>Com crua lança o peito lhe atravessa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;</l>
          <l>Chorou-te toda a terra que pisaste;</l>
          <l>Mais te choram as almas que vestindo</l>
          <l>Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.</l>
          <l>Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,</l>
          <l>Te recebem na glória que ganhaste.</l>
          <l>Pedimos-te que a Deus ajuda peças</l>
          <l>Com que os teus Lusitanos favoreças.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“E vós outros que os nomes usurpais</l>
          <l>De mandados de Deus, como Tomé,</l>
          <l>Dizei: se sois mandados, como estais</l>
          <l>Sem irdes a pregar a santa Fé?</l>
          <l>Olhai que, se sois Sal e vos danais</l>
          <l>Na pátria, onde profeta ninguém é,</l>
          <l>Com que se salgarão em nossos dias</l>
          <l>(Infiéis deixo) tantas heresias?</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="517" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas passo esta matéria perigosa</l>
          <l>E tornemos à costa debuxada.</l>
          <l>Já com esta cidade tão famosa</l>
          <l>Se faz curva a Gangética enseada;</l>
          <l>Corre Narsinga, rica e poderosa;</l>
          <l>Corre Orixa, de roupas abastada;</l>
          <l>No fundo da enseada, o ilustre rio</l>
          <l>Ganges vem ao salgado senhorio;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ganges, no qual os seus habitadores</l>
          <l>Morrem banhados, tendo por certeza</l>
          <l>Que, inda que sejam grandes pecadores,</l>
          <l>Esta água santa os lava e dá pureza.</l>
          <l>Vê Catigão, cidade das milhores</l>
          <l>De Bengala província, que se preza</l>
          <l>De abundante. Mas olha que está posta</l>
          <l>Pera o Austro, daqui virada, a costa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha o reino Arracão; olha o assento</l>
          <l>De Pegu, que já monstros povoaram,</l>
          <l>Monstros filhos do feio ajuntamento</l>
          <l>D’uma mulher e um cão, que sós se acharam.</l>
          <l>Aqui soante arame no instrumento</l>
          <l>Da geração costumam, o que usaram</l>
          <l>Por manha da Rainha que, inventando</l>
          <l>Tal uso, deitou fora o error nefando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha Tavai cidade, onde começa</l>
          <l>De Sião largo o império tão comprido;</l>
          <l>Tenassari, Quedá, que é só cabeça</l>
          <l>Das que pimenta ali têm produzido.</l>
          <l>Mais avante fareis que se conheça</l>
          <l>Malaca por empório enobrecido,</l>
          <l>Onde toda a província do mar grande</l>
          <l>Suas mercadorias ricas mande.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="518" edRef="#instituto"/>
          <l>“Dizem que desta terra c’o as possantes</l>
          <l>Ondas o mar, entrando, dividiu</l>
          <l>A nobre ilha Samatra, que já d’antes</l>
          <l>Juntas ambas a gente antiga viu.</l>
          <l>Quersoneso foi dita; e das prestantes</l>
          <l>Veias d’ouro que a terra produziu,</l>
          <l>’Áurea’, por epiteto lhe ajuntaram;</l>
          <l>Alguns que fosse Ofir imaginaram.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Mas, na ponta da terra, Cingapura</l>
          <l>Verás, onde o caminho às naus se estreita;</l>
          <l>Daqui tornando a costa à Cinosura,</l>
          <l>Se encurva e pera a Aurora se endireita.</l>
          <l>Vês Pam, Patane, reinos, e a longura</l>
          <l>De Sião, que estes e outros mais sujeita;</l>
          <l>Olha o rio Menão, que se derrama</l>
          <l>Do grande lago que Chiamai se chama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vês neste grão terreno os diferentes</l>
          <l>Nomes de mil nações, nunca sabidas:</l>
          <l>Os Laos, em terra e número potentes;</l>
          <l>Avás, Bramás, por serras tão compridas;</l>
          <l>Vê nos remotos montes outras gentes,</l>
          <l>Que Gueos se chamam, de selvages vidas;</l>
          <l>Humana carne comem, mas a sua</l>
          <l>Pintam com ferro ardente, usança crua.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês, passa por Camboja Mecom rio,</l>
          <l>Que capitão das águas se interpreta;</l>
          <l>Tantas recebe d’outro só no Estio,</l>
          <l>Que alaga os campos largos e inquieta;</l>
          <l>Tem as enchentes quais o Nilo frio;</l>
          <l>A gente dele crê, como indiscreta,</l>
          <l>Que pena e glória têm, despois de morte,</l>
          <l>Os brutos animais de toda sorte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="519" edRef="#instituto"/>
          <l>“Este receberá, plácido e brando,</l>
          <l>No seu regaço os Cantos que molhados</l>
          <l>Vêm do naufrágio triste e miserando,</l>
          <l>Dos procelosos baxos escapados,</l>
          <l>Das fomes, dos perigos grandes, quando</l>
          <l>Será o injusto mando executado</l>
          <l>Naquele cuja Lira sonorosa</l>
          <l>Será mais afamada que ditosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vês, corre a costa que Champá se chama,</l>
          <l>Cuja mata é do pau cheiroso ornada;</l>
          <l>Vês Cauchichina está, de escura fama,</l>
          <l>E de Ainão vê a incógnita enseada;</l>
          <l>Aqui o soberbo Império, que se afama</l>
          <l>Com terras e riqueza não cuidada,</l>
          <l>Da China corre, e ocupa o senhorio</l>
          <l>Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha o muro e edifício nunca crido,</l>
          <l>Que entre um império e o outro se edifica,</l>
          <l>Certíssimo sinal, e conhecido,</l>
          <l>Da potência real, soberba e rica.</l>
          <l>Estes, o Rei que têm, não foi nascido</l>
          <l>Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,</l>
          <l>Mas elegem aquele que é famoso</l>
          <l>Por cavaleiro, sábio e virtuoso.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Inda outra muita terra se te esconde</l>
          <l>Até que venha o tempo de mostrar-se;</l>
          <l>Mas não deixes no mar as Ilhas onde</l>
          <l>A Natureza quis mais afamar-se:</l>
          <l>Esta, meia escondida, que responde</l>
          <l>De longe à China, donde vem buscar-se,</l>
          <l>É Japão, onde nasce a prata fina,</l>
          <l>Que ilustrada será c’o a Lei divina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="520" edRef="#instituto"/>
          <l>“Olha cá pelos mares do Oriente</l>
          <l>Ás infinitas Ilhas espalhadas:</l>
          <l>Vê Tidore e Ternate, c’o fervente</l>
          <l>Cume, que lança as flamas ondeadas.</l>
          <l>As árvores verás do cravo ardente,</l>
          <l>C’o sangue Português inda compradas.</l>
          <l>Aqui há as áureas aves, que não descem</l>
          <l>Nunca à terra e só mortas aparecem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam</l>
          <l>Da vária cor que pinta o roxo fruto;</l>
          <l>Às aves variadas, que ali saltam,</l>
          <l>Da verde noz tomando seu tributo.</l>
          <l>Olha também Bornéu, onde não faltam</l>
          <l>Lágrimas no licor coalhado e enxuto</l>
          <l>Das árvores, que cânfora é chamado,</l>
          <l>Com que da Ilha o nome é celebrado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Ali também Timor, que o lenho manda</l>
          <l>Sândalo, salutífero e cheiroso;</l>
          <l>Olha a Sunda, tão larga que uma banda</l>
          <l>Esconde pera o Sul dificultoso;</l>
          <l>A gente do Sertão, que as terras anda,</l>
          <l>Um rio diz que tem miraculoso,</l>
          <l>Que, por onde ele só, sem outro, vai,</l>
          <l>Converte em pedra o pau que nele cai.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vê naquela que o tempo tornou Ilha,</l>
          <l>Que também flamas trémulas vapora,</l>
          <l>A fonte que óleo mana, e a maravilha</l>
          <l>Do cheiroso licor que o tronco chora,</l>
          <l>— Cheiroso, mais que quanto estila a filha</l>
          <l>De Ciniras na Arábia, onde ela mora;</l>
          <l>E vê que, tendo quanto as outras têm,</l>
          <l>Branda seda e fino ouro dá também.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="521" edRef="#instituto"/>
          <l>“Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta</l>
          <l>Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;</l>
          <l>Os naturais o têm por cousa santa,</l>
          <l>Pola pedra onde está a pegada humana.</l>
          <l>Nas ilhas de Maldiva nasce a pranta</l>
          <l>No profundo das águas, soberana,</l>
          <l>Cujo pomo contra o veneno urgente</l>
          <l>É tido por antídoto excelente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Verás defronte estar do Roxo Estreito</l>
          <l>Socotorá, c’o amaro aloé famosa;</l>
          <l>Outras ilhas, no mar também sujeito</l>
          <l>A vós, na costa de África arenosa,</l>
          <l>Onde sai do cheiro mais perfeito</l>
          <l>A massa, ao mundo oculta e preciosa.</l>
          <l>De São Lourenço vê a Ilha afamada,</l>
          <l>Que Madagáscar é dalguns chamada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Eis aqui as novas partes do Oriente</l>
          <l>Que vós outros agora ao mundo dais,</l>
          <l>Abrindo a porta ao vasto mar patente,</l>
          <l>Que com tão forte peito navegais.</l>
          <l>Mas é também razão que, no Ponente,</l>
          <l>Dum Lusitano um feito inda vejais,</l>
          <l>Que, de seu Rei mostrando-se agravado,</l>
          <l>Caminho há-de fazer nunca cuidado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Vedes a grande terra que contina</l>
          <l>Vai de Calisto ao seu contrário Polo,</l>
          <l>Que soberba a fará a luzente mina</l>
          <l>Do metal que a cor tem do louro Apolo.</l>
          <l>Castela, vossa amiga, será dina</l>
          <l>De lançar-lhe o colar ao rudo colo.</l>
          <l>Várias províncias tem de várias gentes,</l>
          <l>Em ritos e costumes, diferentes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="522" edRef="#instituto"/>
          <l>“Mas cá onde mais se alarga, ali tereis</l>
          <l>Parte também, c’o pau vermelho nota;</l>
          <l>De Santa Cruz o nome lhe poreis;</l>
          <l>Descobri-la-á a primeira vossa frota.</l>
          <l>Ao longo desta costa, que tereis,</l>
          <l>Irá buscando a parte mais remota</l>
          <l>O Magalhães, no feito, com verdade,</l>
          <l>Português, porém não na lealdade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Dês que passar a via mais que meia</l>
          <l>Que ao Antártico Polo vai da Linha,</l>
          <l>D’uma estatura quase giganteia</l>
          <l>Homens verá, da terra ali vizinha;</l>
          <l>E mais avante o Estreito que se arreia</l>
          <l>C’o nome dele agora, o qual caminha</l>
          <l>Pera outro mar e terra que fica onde</l>
          <l>Com suas frias asas o Austro a esconde.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Até ’qui Portugueses concedido</l>
          <l>Vos é saberdes os futuros feitos</l>
          <l>Que, pelo mar que já deixais sabido,</l>
          <l>Virão fazer barões de fortes peitos.</l>
          <l>Agora, pois que tendes aprendido</l>
          <l>Trabalhos que vos façam ser aceitos</l>
          <l>As eternas esposas e fermosas,</l>
          <l>Que coroas vos tecem gloriosas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>“Podeis-vos embarcar, que tendes vento</l>
          <l>E mar tranquilo, pera a pátria amada.”</l>
          <l>Assi lhe disse; e logo movimento</l>
          <l>Fazem da Ilha alegre e namorada.</l>
          <l>Levam refresco e nobre mantimento;</l>
          <l>Levam a companhia desejada</l>
          <l>Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,</l>
          <l>Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="523" edRef="#instituto"/>
          <l>Assi foram cortando o mar sereno,</l>
          <l>Com vento sempre manso e nunca irado,</l>
          <l>Até que houveram vista do terreno</l>
          <l>Em que nasceram, sempre desejado.</l>
          <l>Entraram pela foz do Tejo ameno,</l>
          <l>E à sua pátria e Rei temido e amado</l>
          <l>O prémio e glória dão por que mandou,</l>
          <l>E com títulos novos se ilustrou.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho</l>
          <l>Destemperada e a voz enrouquecida,</l>
          <l>E não do canto, mas de ver que venho</l>
          <l>Cantar a gente surda e endurecida.</l>
          <l>O favor com que mais se acende o engenho</l>
          <l>Não no dá a pátria, não, que está metida</l>
          <l>No gosto da cobiça e na rudeza</l>
          <l>D’uma austera, apagada e vil tristeza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E não sei por que influxo de Destino</l>
          <l>Não tem um ledo orgulho e geral gosto,</l>
          <l>Que os ânimos levanta de contino</l>
          <l>A ter pera trabalhos ledo o rosto.</l>
          <l>Por isso vós, ó Rei, que por divino</l>
          <l>Conselho estais no régio sólio posto,</l>
          <l>Olhai que sois (e vede as outras gentes)</l>
          <l>Senhor só de vassalos excelentes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Olhai que ledos vão, por várias vias,</l>
          <l>Quais rompentes liões e bravos touros,</l>
          <l>Dando os corpos a fomes e vigias,</l>
          <l>A ferro, a fogo, a setas e pelouros,</l>
          <l>A quentes regiões, a plagas frias,</l>
          <l>A golpes de Idolatras e de Mouros,</l>
          <l>A perigos incógnitos do mundo,</l>
          <l>A naufrágios, a peixes, ao profundo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="524" edRef="#instituto"/>
          <l>Por vos servir, a tudo aparelhados;</l>
          <l>De vós tão longe, sempre obedientes;</l>
          <l>A quaisquer vossos ásperos mandados,</l>
          <l>Sem dar reposta, prontos e contentes.</l>
          <l>Só com saber que são de vós olhados,</l>
          <l>Demónios infernais, negros e ardentes,</l>
          <l>Cometerão convosco, e não duvido</l>
          <l>Que vencedor vos façam, não vencido.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Favorecei-os logo, e alegrai-os</l>
          <l>Com a presença e leda humanidade;</l>
          <l>De rigorosas leis desaliviai-os,</l>
          <l>Que assi se abre o caminho à santidade.</l>
          <l>Os mais exprimentados levantai-os,</l>
          <l>Se, com a experiência, têm bondade</l>
          <l>Pera vosso conselho, pois que sabem</l>
          <l>O como, o quando, e onde as cousas cabem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Todos favorecei em seus ofícios,</l>
          <l>Segundo têm das vidas o talento;</l>
          <l>Tenham Religiosos exercícios</l>
          <l>De rogarem, por vosso regimento,</l>
          <l>Com jejuns, disciplina, pelos vícios</l>
          <l>Comuns; toda ambição terão por vento,</l>
          <l>Que o bom Religioso verdadeiro</l>
          <l>Glória vã não pretende nem dinheiro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os Cavaleiros tende em muita estima,</l>
          <l>Pois com seu sangue intrépido e fervente</l>
          <l>Estendem não somente a Lei de cima,</l>
          <l>Mas inda vosso Império preminente.</l>
          <l>Pois aqueles que a tão remoto clima</l>
          <l>Vos vão servir, com passo diligente,</l>
          <l>Dous inimigos vencem: uns, os vivos,</l>
          <l>E (o que é mais) os trabalhos excessivos.</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="525" edRef="#instituto"/>
          <l>Fazei, Senhor, que nunca os admirados</l>
          <l>Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,</l>
          <l>Possam dizer que são pera mandados,</l>
          <l>Mais que pera mandar, os Portugueses.</l>
          <l>Tomai conselho só d’exprimentados</l>
          <l>Que viram largos anos, largos meses,</l>
          <l>Que, posto que em cientes muito cabe.</l>
          <l>Mais em particular o experto sabe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De Formião, filósofo elegante,</l>
          <l>Vereis como Anibal escarnecia,</l>
          <l>Quando das artes bélicas, diante</l>
          <l>Dele, com larga voz tratava e lia.</l>
          <l>A disciplina militar prestante</l>
          <l>Não se aprende, Senhor, na fantasia,</l>
          <l>Sonhando, imaginando ou estudando,</l>
          <l>Senão vendo, tratando e pelejando.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,</l>
          <l>De vós não conhecido nem sonhado?</l>
          <l>Da boca dos pequenos sei, contudo,</l>
          <l>Que o louvor sai às vezes acabado.</l>
          <l>Tem me falta na vida honesto estudo,</l>
          <l>Com longa experiência misturado,</l>
          <l>Nem engenho, que aqui vereis presente,</l>
          <l>Cousas que juntas se acham raramente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pera servir-vos, braço às armas feito,</l>
          <l>Pera cantar-vos, mente às Musas dada;</l>
          <l>Só me falece ser a vós aceito,</l>
          <l>De quem virtude deve ser prezada.</l>
          <l>Se me isto o Céu concede, e o vosso peito</l>
          <l>Dina empresa tomar de ser cantada,</l>
          <l>Como a pressaga mente vaticina</l>
          <l>Olhando a vossa inclinação divina,</l>
        </lg>
        <lg>
          <pb n="526" edRef="#instituto"/>
          <l>Ou fazendo que, mais que a de Medusa,</l>
          <l>A vista vossa tema o monte Atlante,</l>
          <l>Ou rompendo nos campos de Ampelusa</l>
          <l>Os muros de Marrocos e Trudante,</l>
          <l>A minha já estimada e leda Musa</l>
          <l>Fico que em todo o mundo de vós cante,</l>
          <l>De sorte que Alexandro em vós se veja,</l>
          <l>Sem à dita de Aquiles ter enveja.</l>
        </lg>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>
