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	<teiHeader>
		<fileDesc>
			<titleStmt>
				<title>Poesias</title>
				<author>Olavo Bilac</author>
			</titleStmt>
			<publicationStmt>
				<p>Obra disponível em formato TEI</p>
			</publicationStmt>
			<sourceDesc>
				<bibl>
					<title>Poesias (edição definitiva)</title> de Olavo Bilac.Rio de Janeiro: Garnier, 1902.
				</bibl>
			</sourceDesc>
			<respStmt>
				<resp>Codificado por</resp>
				<name xml:id="AM">Alckmar Luiz dos Santos</name>
			</respStmt>
		</fileDesc>
		<profileDesc>
			<textClass>
				<classCode scheme="">poetry</classCode>
			</textClass>
		</profileDesc>
	</teiHeader>
	<text xml:lang="pt" aoidos:poet="Olavo Bilac">
		<body>
			<div>
				<div type="part">
					<head>Profissão de fé</head>
					<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<lg type="ignore-when-scanning">
										<l n="1">Le poète est ciseleur,</l>
										<l n="2">Le ciseleur est poète.</l>
									</lg>
								</quote>
								<bibl>
									<author>Victor Hugo</author>
								</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
					<div aoidos:unit="y">
						<hi rend="italic">
							<lg>
								<l>Não quero o Zeus Capitolino</l>
								<l rend="indent">Hercúleo e belo,</l>
								<l>Talhar no mármore divino</l>
								<l rend="indent">Com o camartelo.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que outro — não eu! — a pedra corte</l>
								<l rend="indent">Para, brutal,</l>
								<l>Erguer de Atene o altivo porte</l>
								<l rend="indent">Descomunal.
								</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Mais que esse vulto extraordinário,</l>
								<l rend="indent">Que assombra a vista,</l>
								<l>Seduz-me um leve relicário</l>
								<l rend="indent">De fino artista.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Invejo o ourives quando escrevo:</l>
								<l rend="indent">Imito o amor</l>
								<l>Com que ele, em ouro, o alto relevo</l>
								<l rend="indent">Faz de uma flor.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Imito-o. E, pois, nem de Carrara</l>
								<l rend="indent">A pedra firo:</l>
								<l>O alvo cristal, a pedra rara,</l>
								<l rend="indent">O ônix prefiro.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Por isso, corre, por servir-me,</l>
								<l rend="indent">Sobre o papel</l>
								<l>A pena, como em prata firme</l>
								<l rend="indent">Corre o cinzel.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Corre; desenha, enfeita a imagem,</l>
								<l rend="indent">A ideia veste:</l>
								<l>Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem</l>
								<l rend="indent">Azul-celeste.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Torce, aprimora, alteia, lima</l>
								<l rend="indent">A frase; e, enfim,</l>
								<l>No verso de ouro engasta a rima,</l>
								<l rend="indent">Como um rubim.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Quero que a estrofe cristalina,</l>
								<l rend="indent">Dobrada ao jeito</l>
								<l>Do ourives, saia da oficina</l>
								<l rend="indent">Sem um defeito:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E que o lavor do verso, acaso,</l>
								<l rend="indent">Por tão subtil,</l>
								<l>Possa o lavor lembrar de um vaso</l>
								<l rend="indent">De Becerril.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E horas sem conto passo, mudo,</l>
								<l rend="indent">O olhar atento,</l>
								<l>A trabalhar, longe de tudo</l>
								<l rend="indent">O pensamento.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Porque o escrever — tanta perícia,</l>
								<l rend="indent">Tanta requer,</l>
								<l>Que oficio tal... nem há notícia</l>
								<l rend="indent">De outro qualquer.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Assim procedo. Minha pena</l>
								<l rend="indent">Segue esta norma,</l>
								<l>Por te servir, Deusa serena,</l>
								<l rend="indent">Serena Forma!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Deusa! A onda vil, que se avoluma</l>
								<l rend="indent">De um torvo mar,</l>
								<l>Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma</l>
								<l rend="indent">Deixa-a rolar!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Blasfemo, em grita surda e horrendo</l>
								<l rend="indent">Ímpeto, o bando</l>
								<l>Venha dos bárbaros crescendo,</l>
								<l rend="indent">Vociferando...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Deixa-o: que venha e uivando passe</l>
								<l rend="indent">— Bando feroz!</l>
								<l>Não se te mude a cor da face</l>
								<l rend="indent">E o tom da voz!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Olha-os somente, armada e pronta,</l>
								<l rend="indent">Radiante e bela:</l>
								<l>E, ao braço o escudo, a raiva afronta</l>
								<l rend="indent">Dessa procela!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Este que à frente vem, e o todo</l>
								<l rend="indent">Possui minaz</l>
								<l>De um vândalo ou de um visigodo,</l>
								<l rend="indent">Cruel e audaz;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Este, que, de entre os mais, o vulto</l>
								<l rend="indent">Ferrenho alteia,</l>
								<l>E, em jato, expele o amargo insulto</l>
								<l rend="indent">Que te enlameia:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É em vão que as forças cansa, e â luta</l>
								<l rend="indent">Se atira; é em vão</l>
								<l>Que brande no ar a maça bruta</l>
								<l rend="indent">A bruta mão.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Não morrerás, Deusa sublime!</l>
								<l rend="indent">Do trono egrégio</l>
								<l>Assistirás intacta ao crime</l>
								<l rend="indent">Do sacrilégio.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E, se morreres por ventura,</l>
								<l rend="indent">Possa eu morrer</l>
								<l>Contigo, e a mesma noite escura</l>
								<l rend="indent">Nos envolver!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ah! ver por terra, profanada,</l>
								<l rend="indent">A ara partida</l>
								<l>E a Arte imortal aos pés calcada,</l>
								<l rend="indent">Prostituída!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ver derribar do eterno sólio</l>
								<l rend="indent">O Belo, e o som</l>
								<l>Ouvir da queda do Acropólio,</l>
								<l rend="indent">Do Partenon!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Sem sacerdote, a Crença morta</l>
								<l rend="indent">Sentir, e o susto</l>
								<l>Ver, e o extermínio, entrando a porta</l>
								<l rend="indent">Do templo augusto!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ver esta língua, que cultivo,</l>
								<l rend="indent">Sem ouropéis,</l>
								<l>Mirrada ao hálito nocivo</l>
								<l rend="indent">Dos infiéis!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Não! Morra tudo que me é caro,</l>
								<l rend="indent">Fique eu sozinho!</l>
								<l>Que não encontre um só amparo</l>
								<l rend="indent">Em meu caminho!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que a minha dor nem a um amigo</l>
								<l rend="indent">Inspire dó...</l>
								<l>Mas, ah! que eu fique só contigo,</l>
								<l rend="indent">Contigo só!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Vive! que eu viverei servindo</l>
								<l rend="indent">Teu culto, e, obscuro,</l>
								<l>Tuas custódias esculpindo</l>
								<l rend="indent">No ouro mais puro.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Celebrarei o teu ofício</l>
								<l rend="indent">No altar: porém,</l>
								<l>Se inda é pequeno o sacrifício,</l>
								<l rend="indent">Morra eu também!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Caia eu também, sem esperança,</l>
								<l rend="indent">Porém tranquilo,</l>
								<l>Inda, ao cair, vibrando a lança,</l>
								<l rend="indent">Em prol do Estilo!</l>
							</lg>
						</hi>
					</div>
				</div>
				<div type="part">
					<head>PANÓPLIAS</head>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A morte de Tapir</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Uma coluna de ouro e púrpuras ondeantes</l>
								<l>Subia o firmamento. Acesos véus, radiantes</l>
								<l>Rubras nuvens, do sol à viva luz, do poente</l>
								<l>Vinham, soltas, correr o espaço resplendente.</l>
								<l>Foi a essa hora, — às mãos o arco possante, à cinta</l>
								<l>Do leve enduape a tanga em várias cores tinta,</l>
								<l>A aiucara ao pescoço, o canitar à testa, —</l>
								<l>— Que Tapir penetrou o seio da floresta.</l>
								<l>Era de vê-lo assim, com o vulto enorme ao peso</l>
								<l>Dos anos acurvado, o olhar faiscando aceso,</l>
								<l>Firme o passo apesar da extrema idade, e forte.</l>
								<l>Ninguém, como ele, em face, altivo e hercúleo, a morte</l>
								<l>Tantas vezes fitou... Ninguém, como ele, o braço</l>
								<l>Erguendo, a lança aguda atirava no espaço.</l>
								<l>Quanta vez, do uapi ao rouco troar, ligeiro</l>
								<l>Como a corça, ao rugir do estrépito guerreiro</l>
								<l>O tacape brutal rodando no ar, terrível,</l>
								<l>Incólume, vibrando os golpes, — insensível</l>
								<l>Às preces, ao clamor dos gritos, surdo ao pranto</l>
								<l>Das vítimas, — passou, como um tufão, o espanto,</l>
								<l>O extermínio, o terror atrás de si deixando!</l>
								<l>Quanta vez do inimigo o embate rechaçando</l>
								<l>Por si só, foi seu peito uma muralha erguida,</l>
								<l>Em que vinha bater e quebrar-se vencida</l>
								<l>De uma tribo contrária a onda medonha e bruta!</l>
								<l>Onde um pulso que, tal como seu pulso, à luta</l>
								<l>Costumado, um por um, ao chão arremessasse</l>
								<l>Dez combatentes? Onde um arco, que atirasse</l>
								<l>Mais célere, a zunir, a fina flecha ervada?</l>
								<l>Quanta vez, a vagar na floresta cerrada,</l>
								<l>Peito a peito lutou com as fulvas onças bravas,</l>
								<l>E as onças a seus pés tombaram, como escravas,</l>
								<l>Nadando em sangue quente, e, em roda, o eco infinito</l>
								<l>Despertando, ao morrer, com o derradeiro grito!...</l>
								<l part="I">Quanta vez! E hoje velho, hoje abatido!</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l part="F">E o dia</l>
								<l>Entre os sanguíneos tons do ocaso decaía...</l>
								<l>E era tudo em silêncio, adormecido e quedo...</l>
								<l>De súbito um tremor correu todo o arvoredo:</l>
								<l>E o que há pouco era calma, agora é movimento,</l>
								<l>Treme, agita-se, acorda, e se lastima... O vento</l>
								<l>Fala: 'Tapir! Tapir! é finda a tua raça!"</l>
								<l>E em tudo a mesma voz misteriosa passa;</l>
								<l>As árvores e o chão despertam, repetindo:</l>
								<l>'Tapir! Tapir! Tapir! O teu poder é findo!"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E, a essa hora, ao fulgor do derradeiro raio</l>
								<l>Do sol, que o disco de ouro, em lúcido desmaio,</l>
								<l>Quase no extremo céu de todo mergulhava,</l>
								<l>Aquela estranha voz pela floresta ecoava</l>
								<l>Num confuso rumor entrecortado, insano...</l>
								<l>Como que em cada tronco havia um peito humano</l>
								<l>Que se queixava... E o velho, úmido o olhar, seguia.</l>
								<l>E, a cada passo assim dado na mata, via</l>
								<l>Surgir de cada canto uma lembrança... Fora</l>
								<l>Desta imensa ramada à sombra protetora</l>
								<l>Que um dia repousara... Além, a arvore anosa,</l>
								<l>Em cujos galhos, no ar erguidos, a formosa,</l>
								<l>A doce Juraci a rede suspendera,</l>
								<l>— A rede que, com as mãos finíssimas, tecera</l>
								<l>Para ele, seu senhor e seu guerreiro amado!</l>
								<l>Ali... — Contai-o vós, contai-o, embalsamado</l>
								<l>Retiro, ninhos no ar suspensos, aves, flores!...</l>
								<l>Contai-o, o poema ideal dos primeiros amores,</l>
								<l>Os corpos um ao outro estreitamente unidos,</l>
								<l>Os abraços sem conta, os beijos, os gemidos,</l>
								<l>E o rumor do noivado, estremecendo a mata,</l>
								<l>Sob o plácido olhar das estrelas de prata...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Juraci! Juraci! virgem morena e pura!</l>
								<l>Tu também! tu também desceste à sepultura!...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<lg>
								<l>E Tapir caminhava... Ante ele agora um rio</l>
								<l>Corria; e a água também, ao crebro</l>
								<l>Da corrente, a rolar, gemia ansiosa e clara:</l>
								<l>— "Tapir! Tapir! Tapir! Que é da veloz igara,</l>
								<l>Que é dos remos dos teus? Não mais as redes finas</l>
								<l>Vêm na pesca sondar-me as águas cristalinas.</l>
								<l>Ai! não mais beijarei os corpos luxuriantes,</l>
								<l>Os curvos seios nus, as formas palpitantes</l>
								<l>Das morenas gentis de tua tribo extinta!</l>
								<l>Não mais! Depois dos teus de brônzea pele tinta</l>
								<l>Com os sucos do urucu, de pele branca vieram</l>
								<l>Outros, que a ti e aos teus nas selvas sucederam.</l>
								<l>Ai! Tapir! ai! Tapir! A tua raça é morta! -"</l>
								<l>E o índio, trêmulo, ouvindo aquilo tudo, absorta</l>
								<l>A alma em cismas, seguiu curvada a fronte ao peito.</l>
								<l>Agora da floresta o chão não mais direito</l>
								<l>E plano se estendia: era um declive; e quando</l>
								<l>Pelo tortuoso anfracto, a custo, caminhando</l>
								<l>Ao crepúsculo, pôde o velho, passo a passo,</l>
								<l>A montanha alcançar, viu que a noite no espaço</l>
								<l>Vinha a negra legião das sombras espargindo...</l>
								<l>Crescia a treva. A medo, entre as nuvens luzindo,</l>
								<l>No alto, a primeira estrela o cálix de ouro abria...</l>
								<l>Outra após cintilou na esfera imensa e fria...</l>
								<l>Outras vieram... e, em breve, o céu, de lado a lado,</l>
								<l>Foi como um cofre real de pérolas coalhado.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>IV</head>
							<lg>
								<l>Então, Tapir, de pé, no arco apoiado, a fronte</l>
								<l>Ergueu, e o olhar passeou no infinito horizonte:</l>
								<l>Acima o abismo, abaixo o abismo, o abismo adiante.</l>
								<l>E, clara, no negror da noite, viu, distante,</l>
								<l>Alvejando no vale a taba do estrangeiro...</l>
								<l>Tudo extinto!... era ele o último guerreiro!</l>
								<l>E do vale, do céu, do rio, da montanha,</l>
								<l>De tudo que o cercava, ao mesmo tempo, estranha,</l>
								<l part="I">Rouca, extrema, rompeu a mesma voz:</l>
								<l part="F">— "É finda</l>
								<l>Toda a raça dos teus: só tu és vivo ainda!</l>
								<l>Tapir! Tapir! Tapir! morre também com ela!</l>
								<l>Já não fala Tupã no ulular da procela...</l>
								<l>As batalhas de outrora, os arcos e os tacapes,</l>
								<l>As florestas sem fim de flechas e acanguapes,</l>
								<l>Tudo passou! Não mais a fera inúbia à boca</l>
								<l>Dos guerreiros, Tapir, soa medonha e rouca.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É mudo o maracá. A tribo exterminada</l>
								<l>Dorme agora feliz na Montanha Sagrada...</l>
								<l>Nem uma rede o vento entre os galhos agita!</l>
								<l>Não mais o vivo som de alegre dança, e a grita</l>
								<l>Dos pajés, ao luar, por baixo das folhagens,</l>
								<l>Rompe os ares... Não mais! As poracés selvagens,</l>
								<l>As guerras e os festins, tudo passou! É finda</l>
								<l>Toda a raça dos teus... Só tu és vivo ainda! -"</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>V</head>
							<lg>
								<l>E num longo soluço a voz misteriosa</l>
								<l>Expirou... Caminhava a noite silenciosa,</l>
								<l>E era tranquilo o céu; era tranquila em roda,</l>
								<l>Imersa em plúmbeo sono, a natureza toda.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E, no tope do monte, era de ver erguido</l>
								<l>O vulto de Tapir... Inesperado, um ruído</l>
								<l>Seco, surdo soou, e o corpo do guerreiro</l>
								<l>De súbito rolou pelo despenhadeiro...</l>
								<l part="I">E o silêncio outra vez caiu.</l>
								<l part="F">Nesse momento,</l>
								<l>Apontava o luar no curvo firmamento.</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A Gonçalves Dias</head>
						<lg>
							<l>Celebraste o domínio soberano</l>
							<l>Das grandes tribos, o tropel fremente</l>
							<l>Da guerra bruta, o entrechocar insano</l>
							<l>Dos tacapes vibrados rijamente,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O maracá e as flechas, o estridente</l>
							<l>Troar da inúbia, e o canitar indiano...</l>
							<l>E, eternizando o povo americano,</l>
							<l>Vives eterno em teu poema ingente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Estes revoltos, largos rios, estas</l>
							<l>Zonas fecundas, estas seculares</l>
							<l>Verdejantes e amplíssimas florestas</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Guardam teu nome: e a lira que pulsaste</l>
							<l>Inda se escuta, a derramar nos ares</l>
							<l>O estridor das batalhas que contaste.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Guerreira</head>
						<lg>
							<l>É a encarnação do mal. Pulsa-lhe o peito</l>
							<l>Ermo de amor, deserto de piedade...</l>
							<l>Tem o olhar de uma deusa e o altivo aspeito</l>
							<l>Das cruentas guerreiras de outra idade.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O lábio ao ríctus do sarcasmo afeito</l>
							<l>Crispa-se-lhe num riso de maldade,</l>
							<l>Quando, talvez, as pompas, com despeito,</l>
							<l>Recorda da perdida majestade.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E assim, com o seio ansioso, o porte erguido,</l>
							<l>Corada a face, a ruiva cabeleira</l>
							<l>Sobre as amplas espáduas derramada,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Faltam-lhe apenas a sangrenta espada</l>
							<l>Inda rubra da guerra derradeira,</l>
							<l>E o capacete de metal polido...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A um grande homem</head>
						<opener>
							<epigraph>
								<cit>
									<quote>
										<lg type="ignore-when-scanning">
											<l>Heureuse au fond du bois la source pauvre et pure!</l>
										</lg>
									</quote>
									<bibl>
										<author>Lamartine</author>
									</bibl>
								</cit>
							</epigraph>
						</opener>
						<lg>
							<l rend="indent2">Olha: era um tênue fio</l>
							<l>De água escassa. Cresceu Tornou-se em rio</l>
							<l rend="indent2">Depois. Roucas, as vagas</l>
							<l>Engrossa agora, e é túrbido e bravio,</l>
							<l>Roendo penedos, alagando plagas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Humilde arroio brando!...</l>
							<l>Nele, no entanto, as flores, inclinando</l>
							<l rend="indent2">O débil caule, inquietas</l>
							<l>Miravam-se. E, em seu claro espelho, o bando</l>
							<l>Se revia das leves borboletas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tudo, porém: — cheirosas</l>
							<l>Plantas, curvas ramadas rumorosas,</l>
							<l rend="indent2">Úmidas relvas, ninhos</l>
							<l>Suspensos no ar entre jasmins e rosas,</l>
							<l>Tardes cheias da voz dos passarinhos, —</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tudo, tudo perdido</l>
							<l>Atrás deixou. Cresceu. Desenvolvido,</l>
							<l rend="indent2">Foi alargando o seio,</l>
							<l>E do alpestre rochedo, onde nascido</l>
							<l>Tinha, crespo, a rolar, descendo veio...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Cresceu. Atropeladas,</l>
							<l>Soltas, grossas as ondas apressadas</l>
							<l rend="indent2">Estendeu largamente,</l>
							<l>Tropeçando nas pedras espalhadas,</l>
							<l>No galope impetuoso da corrente...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Cresceu. E é poderoso:</l>
							<l>Mas enturba-lhe a face o lodo ascoso...</l>
							<l rend="indent2">É grande, é largo, é forte:</l>
							<l>Mas, de parcéis cortado, caudaloso,</l>
							<l>Leva nas dobras de seu manto a morte.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Implacável, violento,</l>
							<l>Rijo o vergasta o látego do vento.</l>
							<l rend="indent2">Das estrelas, caindo</l>
							<l>Sobre ele em vão do claro firmamento</l>
							<l>Batem os raios límpidos, luzindo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Nada reflete, nada!</l>
							<l>Com o surdo estrondo espanta a ave assustada;</l>
							<l rend="indent2">É turvo, é triste agora.</l>
							<l>Onde a vida de outrora sossegada?</l>
							<l>Onde a humildade e a limpidez de outrora?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Homem que o mundo aclama!</l>
							<l>Semideus poderoso, cuja fama</l>
							<l rend="indent2">O mundo com vaidade</l>
							<l>De eco em eco no século derrama</l>
							<l>Aos quatro ventos da celebridade!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tu, que humilde nasceste,</l>
							<l>Fraco e obscuro mortal, também cresceste</l>
							<l rend="indent2">De vitória em vitória,</l>
							<l>E, hoje, inflado de orgulhos, ascendeste</l>
							<l>Ao sólio excelso do esplendor da glória!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Mas, ah! nesses teus dias</l>
							<l>De fausto, entre essas pompas luzidias,</l>
							<l rend="indent2">— Rio soberbo e nobre!</l>
							<l>Hás de chorar o tempo em que vivias</l>
							<l>Como um arroio sossegado e pobre...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A sesta de Nero</head>
						<lg>
							<l>Fulge de luz banhado, esplêndido e suntuoso,</l>
							<l>O palácio imperial de pórfiro luzente</l>
							<l>E mármor da Lacônia. O teto caprichoso</l>
							<l>Mostra, em prata incrustado, o nácar do Oriente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nero no toro ebúrneo estende-se indolente...</l>
							<l>Gemas em profusão do estrágulo custoso</l>
							<l>De ouro bordado veem-se. O olhar deslumbra, ardente,</l>
							<l>Da púrpura da Trácia o brilho esplendoroso.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Formosa ancila canta. A aurilavrada lira</l>
							<l>Em suas mãos soluça. Os ares perfumando,</l>
							<l>Arde a mirra da Arábia em recendente pira.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Formas quebram, dançando, escravas em coreia.</l>
							<l>E Nero dorme e sonha, a fronte reclinando</l>
							<l>Nos alvos seios nus da lúbrica Popeia.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>O incêndio de Roma</head>
						<lg>
							<l>Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,</l>
							<l>As muralhas de pedra, o espaço adormecido</l>
							<l>De eco em eco acordando ao medonho estampido,</l>
							<l>Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E os templos, os museus, o Capitólio erguido</l>
							<l>Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas</l>
							<l>Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas</l>
							<l>Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Longe, reverberando o clarão purpurino,</l>
							<l>Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte...</l>
							<l>— Impassível, porém, no alto do Palatino,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma</l>
							<l>Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,</l>
							<l>Lira em punho, celebra a destruição de Roma.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>O sonho de Marco Antônio</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Noite. Por todo o largo firmamento</l>
								<l>Abrem-se os olhos de ouro das estrelas...</l>
								<l>Só perturba a mudez do acampamento</l>
								<l>O passo regular das sentinelas.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Brutal, febril, entre canções e brados,</l>
								<l>Entrara pela noite adiante a orgia;</l>
								<l>Em borbotões, dos cântaros lavrados</l>
								<l>Jorrara o vinho. O exército dormia.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Insone, entanto, vela alguém na tenda</l>
								<l>Do general. Esse, entre os mais sozinho,</l>
								<l>Vence a fadiga da batalha horrenda,</l>
								<l>Vence os vapores cálidos do vinho.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Torvo e cerrado o cenho, o largo peito</l>
								<l>Da couraça despido e arfando ansioso,</l>
								<l>Lívida a face, taciturno o aspeito,</l>
								<l>Marco Antônio medita silencioso.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Da lâmpada de prata a luz escassa</l>
								<l>Resvala pelo chão. A quando e quando,</l>
								<l>Treme, enfunada à viração que passa,</l>
								<l>A cortina de púrpura oscilando.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>O general medita. Como, soltas</l>
								<l>Do álveo de um rio transvazado, as águas</l>
								<l>Crescem, cavando o solo, — assim, revoltas,</l>
								<l>Fundas a alma lhe vão sulcando as mágoas.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que vale a Grécia, e a Macedônia, e o enorme</l>
								<l>Território do Oriente, e este infinito</l>
								<l>E invencível exército que dorme?</l>
								<l>Que doces braços que lhe estende o Egito!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que vença Otávio! e seu rancor profundo</l>
								<l>Leve da Hispânia à Síria a morte e a guerra!</l>
								<l>Ela é o céu... Que valor tem todo o mundo,</l>
								<l>Se os mundos todos seu olhar encerra?!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ele é valente e ela o subjuga e o doma...</l>
								<l>Só Cleópatra é grande, amada e bela!</l>
								<l>Que importa o império e a salvação de Roma?</l>
								<l>Roma não vale um só dos beijos dela!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Assim medita. E alucinado, louco</l>
								<l>De pesar, com a fadiga em vão lutando,</l>
								<l>Marco António adormece a pouco e pouco,</l>
								<l>Nas largas mãos a fronte reclinando.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l>A harpa suspira. O melodioso canto,</l>
								<l>De uma volúpia lânguida e secreta,</l>
								<l>Ora interpreta o dissabor e o pranto,</l>
								<l>Ora as paixões violentas interpreta.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Amplo dossel de seda levantina,</l>
								<l>Por colunas de jaspe sustentado,</l>
								<l>Cobre os cetins e a caxemira fina</l>
								<l>Do régio leito de ébano lavrado.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Move o leque de plumas uma escrava.</l>
								<l>Vela a guarda lá fora. Recolhida,</l>
								<l>Os pétreos olhos uma esfinge crava</l>
								<l>Nas formas da rainha adormecida.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Mas Cleópatra acorda... E tudo, ao vê-la</l>
								<l>Acordar, treme em roda, e pasma, e a admira:</l>
								<l>Desmaia a luz, no céu descora a estrela,</l>
								<l>A própria esfinge move-se e suspira...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Acorda. E o torso arqueando, ostenta o lindo</l>
								<l>Colo opulento e sensual que oscila.</l>
								<l>Murmura um nome e, as pálpebras abrindo,</l>
								<l>Mostra o fulgor radiante da pupila.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<lg>
								<l>Ergue-se Marco Antônio de repente...</l>
								<l>Ouve-se um grito estrídulo, que soa</l>
								<l>O silêncio cortando, e longamente</l>
								<l>Pelo deserto acampamento ecoa.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>O olhar em fogo, os carregados traços</l>
								<l>Do rosto em contração, alto e direito</l>
								<l>O vulto enorme, — no ar levanta os braços,</l>
								<l>E nos braços aperta o próprio peito.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Olha em torno e desvaira. Ergue a cortina,</l>
								<l>A vista alonga pela noite afora.</l>
								<l>Nada vê. Longe, à porta purpurina</l>
								<l>Do Oriente em chamas, vem raiando a aurora.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E a noite foge. Em todo o firmamento</l>
								<l>Vão se fechando os olhos das estrelas:</l>
								<l>Só perturba a mudez do acampamento</l>
								<l>O passo regular das sentinelas.</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Lendo a Ilíada</head>
						<lg>
							<l>Ei-lo, o poema de assombros, céu cortado</l>
							<l>De relâmpagos, onde a alma potente</l>
							<l>De Homero vive, e vive eternizado</l>
							<l>O espantoso poder da argiva gente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Arde Troia... De rastos passa atado</l>
							<l>O herói ao carro do rival, e, ardente,</l>
							<l>Bate o sol sobre um mar ilimitado</l>
							<l>De capacetes e de sangue quente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mais que as armas, porém, mais que a batalha</l>
							<l>Mais que os incêndios, brilha o amor que ateia</l>
							<l>O ódio e entre os povos a discórdia espalha:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Esse amor que ora ativa, ora asserena</l>
							<l>A guerra, e o heroico Páris encadeia</l>
							<l>Aos curvos seios da formosa Helena.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Messalina</head>
						<lg>
							<l>Recordo, ao ver-te, as épocas sombrias</l>
							<l>Do passado. Minh'alma se transporta</l>
							<l>À Roma antiga, e da cidade morta</l>
							<l>Dos Césares reanima as cinzas frias;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Triclínios e vivendas luzidias</l>
							<l>Percorre; para de Suburra à porta,</l>
							<l>E o confuso clamor escuta, absorta,</l>
							<l>Das desvairadas e febris orgias.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Aí, num trono erecto sobre a ruína</l>
							<l>De um povo inteiro, tendo à fronte impura</l>
							<l>O diadema imperial de Messalina,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vejo-te bela, estátua da loucura!</l>
							<l>Erguendo no ar a mão nervosa e fina,</l>
							<l>Tinta de sangue, que um punhal segura.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A ronda noturna</head>
						<lg>
							<l>Noite cerrada, tormentosa, escura,</l>
							<l>Lá fora. Dorme em trevas o convento.</l>
							<l>Queda imoto o arvoredo. Não fulgura</l>
							<l>Uma estrela no torvo firmamento.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,</l>
							<l>De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:</l>
							<l>E há um rasgar de sudários pela altura,</l>
							<l>Passo de espectros pelo pavimento...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas, de súbito, os gonzos das pesadas</l>
							<l>Portas rangem... Ecoa surdamente</l>
							<l>Leve rumor de vozes abafadas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, ao clarão de uma lâmpada tremente,</l>
							<l>Do claustro sob as tácitas arcadas</l>
							<l>Passa a ronda noturna, lentamente...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Delenda Cartago!</hi>
						</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes</l>
								<l>Do céu da África. Ao largo, em plena luz, dos montes</l>
								<l>Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia,</l>
								<l>Vasto oceano de prata, a requeimada areia.</l>
								<l>O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes</l>
								<l>Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes,</l>
								<l>Desfilam as legiões do exército romano</l>
								<l>Diante do general Cipião Emiliano.</l>
								<l>Tal soldado sopesa a dava de madeira;</l>
								<l>Tal, que a custo sofreia a cólera guerreira,</l>
								<l>Maneja a bipenata e rude machadinha.</l>
								<l>Este, à ilharga pendente, a rútila bainha</l>
								<l>Leva do gládio. Aquele a poderosa maça</l>
								<l>Carrega, e às largas mãos a ensaia. A custo passa,</l>
								<l>Curvado sob o peso e de fadiga aflando,</l>
								<l>De guerreiros um grupo, os aríetes levando.</l>
								<l>Brilham em confusão cristados capacetes.</l>
								<l>Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes,</l>
								<l>Solta a clâmide ao ombro, ao braço afivelado</l>
								<l>O côncavo broquel de cobre cinzelado,</l>
								<l>Brandem o pílum no ar. Ressona, a espaços, rouca,</l>
								<l>A bélica bucina. A tuba cava à boca</l>
								<l>Dos eneatores troa. Hordas de sagitários</l>
								<l>Veem-se, de arco e carcás armados. O ouro e os vários</l>
								<l>Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias</l>
								<l>De um correto lavor, nas armas luzidias</l>
								<l>Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila,</l>
								<l>Em torno de Cartago o exército desfila.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Mas, passada a surpresa, às pressas, a cidade</l>
								<l>Aos escravos cedera armas e liberdade,</l>
								<l>E era toda rumor e agitação. Fundindo</l>
								<l>Todo o metal que havia, ou, céleres, brunindo</l>
								<l>Espadas e punhais, capacetes e lanças,</l>
								<l>Viam-se a trabalhar os homens e as crianças.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Heroicas, abafando os soluços e as queixas,</l>
								<l>As mulheres, tecendo os fios das madeixas,</l>
								<l part="I">Cortavam-nas.</l>
								<l part="F">Cobrindo espáduas deslumbrantes,</l>
								<l>Cercando a carnação de seios palpitantes</l>
								<l>Como véus de veludo, e provocando beijos,</l>
								<l>Excitaram paixões e lúbricos desejos</l>
								<l>Essas tranças da cor das noites tormentosas...</l>
								<l>Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas,</l>
								<l>As tocaram outrora entre febris abraços!...</l>
								<l>Tranças que tanta vez — frágeis e doces laços! —</l>
								<l>Foram cadeias de ouro invencíveis, prendendo</l>
								<l>Almas e corações, — agora, distendendo</l>
								<l>Os arcos, despedindo as setas aguçadas,</l>
								<l>Iam levar a morte... — elas, que, perfumadas,</l>
								<l>Outrora tanta vez deram a vida e o alento</l>
								<l part="I">Aos presos corações!...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l part="F">Triste, entretanto, lento,</l>
								<l>Ao pesado labor do dia sucedera</l>
								<l>O silêncio noturno. A treva se estendera:</l>
								<l>Adormecera tudo. E, no outro dia, quando</l>
								<l>Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando,</l>
								<l>Encheu o firmamento e iluminou a terra,</l>
								<l part="I">A luta começou.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l part="F">As máquinas de guerra</l>
								<l>Movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha,</l>
								<l>Racha de lado a lado. Ao clamor da batalha</l>
								<l>Estremece o arredor. Brandindo o pílum, prontas,</l>
								<l>Confundem-se as legiões. Perdido o freio, às tontas,</l>
								<l>Desbocam-se os corcéis. Enrijam-se, esticadas</l>
								<l>Nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas,</l>
								<l>Partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando,</l>
								<l>Cruzam-se. Éneos broquéis amolgam-se, ressoando,</l>
								<l>Aos embates brutais dos piques arrojados.</l>
								<l>Loucos, afuzilando os olhos, os soldados,</l>
								<l>Presa a respiração, torvo e medonho o aspeito,</l>
								<l>Pela férrea squammata abroquelado o peito,</l>
								<l>Se encruam no furor, sacudindo os macetes.</l>
								<l>Não param, entretanto, os golpes dos aríetes,</l>
								<l>Não cansam no trabalho os musculosos braços</l>
								<l>Dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilhaços</l>
								<l>Saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada</l>
								<l>No ar, a máquina bruta... E, súbito, quebrada,</l>
								<l>Entre o insano clamor do exército e o fremente</l>
								<l>Ruído surdo da queda, — estrepitosamente</l>
								<l>Rui, desaba a muralha, e a pétrea mole roda,</l>
								<l>Rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Rugem aclamações. Como em cachões, furioso,</l>
								<l>Parte os diques o mar, roja-se impetuoso,</l>
								<l>As vagas encrespando acapeladas, brutas,</l>
								<l>E inunda povoações, enche vales e grutas,</l>
								<l>E vai semeando o horror e propagando o estrago,</l>
								<l>Tal o exército entrou as portas de Cartago...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>O ar os gritos de dor e susto, espaço a espaço,</l>
								<l>Cortavam. E, a bramir, atropelado, um passo</l>
								<l>O invasor turbilhão não deu vitorioso,</l>
								<l>Sem que deixasse atrás um rastro pavoroso</l>
								<l>De feridos. No ocaso, o sol morria exangue:</l>
								<l>Como que refletia o firmamento o sangue</l>
								<l>Que tingia de rubro a lâmina brilhante</l>
								<l>Das espadas. Então, houve um supremo instante,</l>
								<l>Em que, cravando o olhar no intrépido africano</l>
								<l>Asdrúbal, ordenou Cipião Emiliano:</l>
								<l>"— Deixa-me executar as ordens do Senado!</l>
								<l>Cartago morrerá: perturba o ilimitado</l>
								<l part="I">Poder da invicta Roma... Entrega-te! —"</l>
								<l part="F">Orgulhoso,</l>
								<l>A fronte levantando, ousado e rancoroso,</l>
								<l part="I">Disse o cartaginês:</l>
								<l part="F">"— Enquanto eu tiver vida,</l>
								<l>Juro que não será Cartago demolida!</l>
								<l>Quando o incêndio a envolver, o sangue deste povo</l>
								<l part="I">Há de apagá-lo. Não! Retira-te! —"</l>
								<l part="F">De novo</l>
								<l part="I">Falou Cipião:</l>
								<l part="F">Atende, Asdrúbal! Por mais forte</l>
								<l>Que seja o teu poder, há de prostrá-lo a morte!</l>
								<l>Olha! A postos, sem conta, as legiões de Roma,</l>
								<l>Que Júpiter protege e que o pavor não doma,</l>
								<l>Vão começar em breve a mortandade infrene!</l>
								<l part="I">Entrega-te! —"</l>
								<l part="F">"— Romano, escuta-me! (solene,</l>
								<l>O outro volveu, e a raiva em sua voz rugia)</l>
								<l>Asdrúbal é o irmão de Aníbal... Houve um dia</l>
								<l>Em que, ante Aníbal, Roma estremeceu vencida</l>
								<l>E tonta recuou de súbito ferida.</l>
								<l>Ficaram no lugar da pugna, ensanguentados,</l>
								<l>Mais de setenta mil romanos, trucidados</l>
								<l>Pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros;</l>
								<l>Seis alqueires de anéis dos mortos cavaleiros</l>
								<l>Cartago arrecadou... Verás que, como outrora,</l>
								<l>Do eterno Baal-Moloch a proteção agora</l>
								<l>Teremos. A vitória há de ser nossa... Escuta:</l>
								<l>Manda que recomece a carniceira luta! —"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E horrível, e feroz, durante a noite e o dia,</l>
								<l>Recomeçou a luta. Em cada casa havia</l>
								<l>Um punhado de heróis. Seis vezes, pela face</l>
								<l>Do céu, seguiu seu curso o sol, sem que parasse</l>
								<l>O medonho estridor da sanha da batalha...</l>
								<l>Quando a noite descia, a treva era a mortalha</l>
								<l>Que envolvia, piedosa, os corpos dos feridos.</l>
								<l>Rolos de sangue e pó, blasfêmias e gemidos,</l>
								<l>Preces e imprecações... As próprias mães, entanto,</l>
								<l>Heroicas na aflição, enxuto o olhar de pranto,</l>
								<l>Viam cair sem vida os filhos. Combatentes</l>
								<l>Houve, que, não querendo aos golpes inclementes</l>
								<l>Do inimigo entregar os corpos das crianças,</l>
								<l>Matavam-nas, erguendo as suas próprias lanças...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Por fim, quando de todo a vida desertando</l>
								<l>Foi a extinta cidade, e, lúgubre, espalmando</l>
								<l>As asas negras no ar, pairou sinistra e horrenda</l>
								<l>A morte, teve um fim a peleja tremenda,</l>
								<l part="I">E o incêndio começou.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<lg>
								<l part="F">Fraco e medroso, o fogo</l>
								<l>À branda viração tremeu um pouco, e logo,</l>
								<l>Inda pálida e tênue, ergueu-se. Mais violento,</l>
								<l>Mais rápido soprou por sobre a chama o vento:</l>
								<l>E o que era labareda, agora ígnea serpente</l>
								<l>Gigantesca, estirando o corpo, de repente</l>
								<l>Desenrosca os anéis flamívomos, abraça</l>
								<l>Toda a cidade, estala as pedras, cresce, passa,</l>
								<l>Rói os muros, estronda, e, solapando o solo,</l>
								<l>Os alicerces broca, e estringe tudo. Um rolo</l>
								<l>De plúmbeo e denso fumo enegrecido em torno</l>
								<l>Se estende, como um véu, do comburente forno.</l>
								<l>Na horrorosa eversão, dos templos arrancado,</l>
								<l>Vibra o mármore, salta; abre-se, estilhaçado,</l>
								<l>Tudo o que o incêndio aperta... E a fumarada cresce</l>
								<l>Sobe vertiginosa, espalha-se, escurece</l>
								<l>O firmamento... E, sobre os restos da batalha,</l>
								<l>Arde, voraz e rubra, a colossal fornalha.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Mudo e triste Cipião, longe dos mais, no entanto,</l>
								<l>Deixa livre correr pelas faces o pranto...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É que, — vendo rolar, num rápido momento</l>
								<l>Para o abismo do olvido e do aniquilamento</l>
								<l>Homens e tradições, reveses e vitórias,</l>
								<l>Batalhas e troféus, seis séculos de glórias</l>
								<l>Num punhado de cinza —, o general previa</l>
								<l>Que Roma, a invicta, a forte, a armipotente, havia</l>
								<l>De ter o mesmo fim da orgulhosa Cartago.</l>
								<l>E, perto, o precipitar estrepitoso e vago</l>
								<l>D0 incêndio, que lavrava e inda rugia ativo,</l>
								<l>Era como o rumor de um pranto convulsivo...</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
				</div>
				<div type="part">
					<head>VIA-LÁCTEA</head>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>I</head>
						<lg>
							<l>Talvez sonhasse, quando a vi.  Mas via</l>
							<l>Que, aos raios do luar iluminada,</l>
							<l>Entre as estrelas trêmulas subia</l>
							<l>Uma infinita e cintilante escada.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada</l>
							<l>Degrau, que o ouro mais límpido vestia,</l>
							<l>Mudo e sereno, um anjo a harpa dourada,</l>
							<l>Ressoante de súplicas, feria...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tu, mãe sagrada! Vós também, formosas</l>
							<l>Ilusões! sonhos meus! íeis por ela</l>
							<l>Como um bando de sombras vaporosas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, ó meu amor! eu te buscava, quando</l>
							<l>Vi que no alto surgias, calma e bela,</l>
							<l>O olhar celeste para o meu baixando...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>II</head>
						<lg>
							<l>Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura</l>
							<l>Me ouves agora com o melhor ouvido:</l>
							<l>Toda a ansiedade, todo o mal sofrido</l>
							<l>Em silêncio, na antiga desventura</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hoje, quero, em teus braços acolhido,</l>
							<l>Rever a estrada pavorosa e escura</l>
							<l>Onde, ladeando o abismo da loucura,</l>
							<l>Andei de pesadelos perseguido.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olha-a: torce-se toda na infinita</l>
							<l>Volta dos sete círculos do inferno...</l>
							<l>E nota aquele vulto: as mãos eleva,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tropeça, cai, soluça, arqueja, grita,</l>
							<l>Buscando um coração que foge, e eterno</l>
							<l>Ouvindo-o perto palpitar na treva.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>III</head>
						<lg>
							<l>Tantos esparsos vi profusamente</l>
							<l>Pelo caminho que, a chorar, trilhava!</l>
							<l>Tantos havia, tantos! E eu passava</l>
							<l>Por todos eles frio e indiferente...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Enfim! enfim! pude com a mão tremente</l>
							<l>Achar na treva aquele que buscava...</l>
							<l>Por que fugias, quando eu te chamava,</l>
							<l>Cego e triste, tateando, ansiosamente?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vim de longe, seguindo de erro em erro,</l>
							<l>Teu fugitivo coração buscando</l>
							<l>E vendo apenas corações de ferro.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pude, porém, toca-lo soluçando...</l>
							<l>E hoje, feliz, dentro do meu o encerro,</l>
							<l>E ouço-o, feliz, dentro do meu pulsando.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>IV</head>
						<lg>
							<l>Como a floresta secular, sombria</l>
							<l>Virgem do passo humano e do machado,</l>
							<l>Onde apenas, horrendo, ecoa o brado</l>
							<l>Do tigre, e cuja agreste ramaria</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não atravessa nunca a luz do dia,</l>
							<l>Assim também, da luz do amor privado,</l>
							<l>Tinhas o coração ermo o fechado,</l>
							<l>Como a floresta secular, sombria...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hoje, entre os ramos, a canção sonora</l>
							<l>Soltam festivamente os passarinhos.</l>
							<l>Tinge o cimo das árvores a aurora...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Palpitam flores, estremecem ninhos...</l>
							<l>E o sol do amor, que não entrava outrora,</l>
							<l>Entra dourando a areia dos caminhos.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>V</head>
						<lg>
							<l>Dizem todos: “Outrora como as aves</l>
							<l>Inquieta, como as aves tagarela,</l>
							<l>E hoje... que tens? Que sisudez revela</l>
							<l>Teu ar! que ideias e que modos graves!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que tens, para que em pranto os olhos laves?</l>
							<l>Sê mais risonha, que serás mais bela!”</l>
							<l>Dizem. Mas no silêncio e na cautela</l>
							<l>Ficas firme e trancada a sete chaves...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E um diz: “Tolices, nada mais!” Murmura</l>
							<l>Outro: “Caprichos de mulher faceira!”</l>
							<l>E todos eles afinal: “Loucura!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cegos que vos cansais a interrogá-la!</l>
							<l>Vê-la bastava; que a paixão primeira</l>
							<l>Não pela voz, mas pelos olhos fala.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VI</head>
						<lg>
							<l>Em mim também, que descuidado vistes,</l>
							<l>Encantado e aumentando o próprio encanto,</l>
							<l>Tereis notado que outras cousas canto</l>
							<l>Muito diversas das que outrora ouvistes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas amastes, sem dúvida... Portanto,</l>
							<l>Meditais nas tristezas que sentistes:</l>
							<l>Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,</l>
							<l>Que mais aflijam, que torturem tanto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quem ama inventa as penas em que vive:</l>
							<l>E, em lugar de acalmar as penas, antes</l>
							<l>Busca novo pesar com que as avive.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pois sabei que é por isso que assim ando:</l>
							<l>Que é dos loucos somente e dos amantes</l>
							<l>Na maior alegria andar chorando.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VII</head>
						<lg>
							<l>Não têm faltado bocas de serpentes,</l>
							<l>(Dessas que amam falar de todo o mundo,</l>
							<l>E a todo o mundo ferem, maldizentes)</l>
							<l>Que digam: “Mata o teu amor profundo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Abafa-o, que teus passos imprudentes</l>
							<l>Te vão levando a um pélago sem fundo...</l>
							<l>Vais te perder!” E, arreganhando os dentes,</l>
							<l>Movem para o teu lado o olhar imundo:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>“Se ela é tão pobre, se não tem beleza,</l>
							<l>Irás deixar a glória desprezada</l>
							<l>E os prazeres perdidos por tão pouco?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pensa mais no futuro e na riqueza!”</l>
							<l>E eu penso que afinal... Não penso nada:</l>
							<l>Penso apenas que te amo como um louco!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VIII</head>
						<lg>
							<l>Em que céus mais azuis, mais puros ares,</l>
							<l>Voa pomba mais pura? Em que sombria</l>
							<l>Moita mais nívea flor acaricia,</l>
							<l>À noite, a luz dos límpidos luares?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vives assim, como a corrente fria,</l>
							<l>Que, intemerata, aos trêmulos olhares</l>
							<l>Das estrelas e à sombra dos palmares,</l>
							<l>Corta o seio das matas, erradia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E envolvida de tua virgindade,</l>
							<l>De teu pudor na cândida armadura,</l>
							<l>Foges o amor, guardando a castidade,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Como as montanhas, nos espaços francos</l>
							<l>Erguendo os altos píncaros, a alvura</l>
							<l>Guardam da neve que lhes cobre os flancos.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>IX</head>
						<lg>
							<l>De outras sei que se mostram menos frias,</l>
							<l>Amando menos do que amar pareces.</l>
							<l>Usam todas de lágrimas e preces:</l>
							<l>Tu de acerbas risadas e ironias.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>De modo tal minha atenção desvias,</l>
							<l>Com tal perícia meu engano teces,</l>
							<l>Que, se gelado o coração tivesses,</l>
							<l>Certo, querida, mais ardor terias.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olho-te: cega ao meu olhar te fazes...</l>
							<l>Falo-te – e com que fogo a voz levanto! –</l>
							<l>Em vão... Finges-te surda às minhas frases...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Surda: e nem ouves meu amargo pranto!</l>
							<l>Cega: e nem vês a nova dor que trazes</l>
							<l>À dor antiga que doía tanto!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>X</head>
						<lg>
							<l>Deixa que o olhar do mundo enfim devasse</l>
							<l>Teu grande amor que é teu maior segredo!</l>
							<l>Que terias perdido, se, mais cedo,</l>
							<l>Todo o afeto que sentes se mostrasse?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Basta de enganos! Mostra-me sem medo</l>
							<l>Aos homens, afrontando-os face a face:</l>
							<l>Quero que os homens todos, quando eu passe,</l>
							<l>Invejosos, apontem-me com o dedo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olha: não posso mais! Ando tão cheio</l>
							<l>Deste amor, que minh’alma se consome</l>
							<l>De te exaltar aos olhos do universo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:</l>
							<l>E, fatigado de calar teu nome,</l>
							<l>Quase o revelo no final de um verso.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XI</head>
						<lg>
							<l>Todos esses louvores, bem o viste,</l>
							<l>Não conseguiram demudar-me o aspecto:</l>
							<l>Só me turbou esse louvor discreto</l>
							<l>Que no volver dos olhos traduziste...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Inda bem que entendeste o meu afeto</l>
							<l>E, através destas rimas, pressentiste</l>
							<l>Meu coração que palpitava, triste,</l>
							<l>E o mal que havia dentro em mim secreto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ai de mim, se de lágrimas inúteis</l>
							<l>Estes versos banhasse, ambicionando</l>
							<l>Das néscias turbas os aplausos fúteis!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dou-me por pago, se um olhar lhes deres:</l>
							<l>Fi-los pensando em ti, fi-los pensando</l>
							<l>Na mais pura de todas as mulheres.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XII</head>
						<lg>
							<l>Sonhei que me esperavas. E, sonhando,</l>
							<l>Saí ansioso por te ver: corria...</l>
							<l>E tudo, ao ver-me tão depressa andando,</l>
							<l>Soube logo o lugar para onde eu ia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E tudo me falou, tudo! Escutando</l>
							<l>Meus passos, através da ramaria,</l>
							<l>Dos despertados pássaros o bando:</l>
							<l>“Vai mais depressa! Parabéns!” dizia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Disse o luar: “Espera! Que eu te sigo:</l>
							<l>Quero também beijar as faces dela!”</l>
							<l>E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:</l>
							<l>“Como és feliz! como és feliz, amigo,</l>
							<l>Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!”</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XIII</head>
						<lg>
							<l>“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo</l>
							<l>Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,</l>
							<l>Que, para ouvi-las, muita vez desperto</l>
							<l>E abro as janelas, pálido de espanto...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E conversamos toda a noite, enquanto</l>
							<l>A Via-Láctea, como um pálio aberto,</l>
							<l>Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,</l>
							<l>Inda as procuro pelo céu deserto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Direis agora: “Tresloucado amigo!</l>
							<l>Que conversas com elas? Que sentido</l>
							<l>Tem o que dizem, quando estão contigo?”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eu vos direi: ”Amai para entendê-las!</l>
							<l>Pois só quem ama pode ter ouvido</l>
							<l>Capaz de ouvir e de entender estrelas”.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XIV</head>
						<lg>
							<l>Viver não pude sem que o fel provasse</l>
							<l>Desse outro amor que nos perverte e engana:</l>
							<l>Porque homem sou, e homem não há que passe</l>
							<l>Virgem de todo pela vida humana.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que tanta serpente atra e profana</l>
							<l>Dentro d’alma deixei que se aninhasse?</l>
							<l>Por que, abrasado de uma sede insana,</l>
							<l>A impuros lábios entreguei a face?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Depois dos lábios sôfregos e ardentes,</l>
							<l>Senti – duro castigo aos meus desejos –</l>
							<l>O gume fino de perversos dentes...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E não posso das faces poluídas</l>
							<l>Apagar os vestígios desses beijos</l>
							<l>E os sangrentos sinais dessas feridas!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XV</head>
						<lg>
							<l>Inda hoje, o livro do passado abrindo,</l>
							<l>Lembro-as e punge-me a lembrança delas;</l>
							<l>Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo,</l>
							<l>Estas cantando, soluçando aquelas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,</l>
							<l>Sob as rosas de neve das capelas;</l>
							<l>Outras, de lábios de coral, sorrindo,</l>
							<l>Desnudo o seio, lúbricas e belas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Todas, formosas como tu, chegaram,</l>
							<l>Partiram... e, ao partir, dentro em meu seio</l>
							<l>Todo o veneno da paixão deixaram.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas, ah! Nenhuma teve o teu encanto,</l>
							<l>Nem teve olhar como esse olhar, tão cheio</l>
							<l>De luz tão viva, que abrasasse tanto!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XVI</head>
						<lg>
							<l>Lá fora, a voz do vento ulule rouca!</l>
							<l>Tu, a cabeça no meu ombro inclina,</l>
							<l>E essa boca vermelha e pequenina</l>
							<l>Aproxima, a sorrir, de minha boca!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que eu a fronte repouse ansiosa e louca</l>
							<l>Em teu seio, mais alvo que a neblina</l>
							<l>Que, nas manhãs hiemais, úmida e fina,</l>
							<l>Da serra as grimpas verdejantes touca!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Solta as tranças agora, como um manto!</l>
							<l>Canta! Embala-me o sono com teu canto!</l>
							<l>E eu, aos raios tranquilos desse olhar,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Possa dormir sereno, como o rio</l>
							<l>Que, em noites calmas, sossegado e frio,</l>
							<l>Dorme aos raios de prata do luar!...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XVII</head>
						<lg>
							<l>Por estas noites frias e brumosas</l>
							<l>É que melhor se pode amar, querida!</l>
							<l>Nem uma estrela pálida, perdida</l>
							<l>Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas um perfume cálido de rosas</l>
							<l>Corre a face da terra adormecida...</l>
							<l>E a névoa cresce, e, em grupos repartida,</l>
							<l>Enche os ares de sombras vaporosas:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sombras errantes, corpos nus, ardentes</l>
							<l>Carnes lascivas... um rumor vibrante</l>
							<l>De atritos longos e de beijos quentes...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E os céus se estendem, palpitando, cheios</l>
							<l>Da tépida brancura fulgurante</l>
							<l>De um turbilhão de braços e de seios.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XVIII</head>
						<lg>
							<l>Dormes... Mas que sussurro a umedecida</l>
							<l>Terra desperta? Que rumor enleva</l>
							<l>As estrelas, que no alto a Noite leva</l>
							<l>Presas, luzindo, à túnica estendida?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>São meus versos! Palpita a minha vida</l>
							<l>Neles, falenas que a saudade eleva</l>
							<l>De meu seio, e que vão, rompendo a treva,</l>
							<l>Encher teus sonhos, pomba adormecida!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dorme, com os seios nus, no travesseiro</l>
							<l>Solto o cabelo negro ... e ei-los correndo,</l>
							<l>Doudejantes, subtis, teu corpo inteiro...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beijam-te a boca tépida e macia,</l>
							<l>Sobem, descem, teu hálito sorvendo...</l>
							<l>Por que surge tão cedo a luz do dia?!...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XIX</head>
						<lg>
							<l>Sai a passeio, mal o dia nasce,</l>
							<l>Bela, nas simples roupas vaporosas;</l>
							<l>E mostra às rosas do jardim as rosas</l>
							<l>Frescas e puras que possui na face.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Passa. E todo o jardim, por que ela passe,</l>
							<l>Atavia-se. Há falas misteriosas</l>
							<l>Pelas moitas, saudando-a respeitosas...</l>
							<l>É como se uma sílfide passasse!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a luz cerca-a, beijando-a. O vento é um choro...</l>
							<l>Curvam-se as flores trêmulas... O bando</l>
							<l>Das aves todas vem saúda-la em coro...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E ela vai, dando ao sol o rosto brando,</l>
							<l>Às aves dando o olhar, ao vento o louro</l>
							<l>Cabelo, e às flores os sorrisos dando...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XX</head>
						<lg>
							<l>Olha-me! O teu olhar sereno e brando</l>
							<l>Entra-me o peito, como um largo rio</l>
							<l>De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando</l>
							<l>O ermo de um bosque tenebroso e frio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fala-me! Em grupos doudejantes, quando</l>
							<l>Falas, por noites cálidas de estio,</l>
							<l>As estrelas acendem-se, radiando,</l>
							<l>Altas, semeadas pelo céu sombrio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto</l>
							<l>Agora, agora de ternura cheia,</l>
							<l>Abre em chispas de fogo essa pupila...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto</l>
							<l>Em seu fulgor me abraso, uma sereia</l>
							<l>Soluce e cante nessa voz tranquila!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXI</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A minha mãe</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Sei que um dia não há (e isso é bastante</l>
							<l>A esta saudade, mãe!) em que a teu lado</l>
							<l>Sentir não julgues minha sombra errante,</l>
							<l>Passo a passo a seguir teu vulto amado.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Minha mãe! minha mãe! – a cada instante</l>
							<l>Ouves. Volves, em lágrimas banhado,</l>
							<l>O rosto, conhecendo soluçante</l>
							<l>Minha voz e meu passo costumado.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sentes alta noite no teu leito</l>
							<l>Minh’alma na tua alma repousando,</l>
							<l>Repousando meu peito no teu peito...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E encho os teus sonhos, em teus sonhos brilho,</l>
							<l>E abres os braços trêmulos, chorando,</l>
							<l>Para nos braços apertar teu filho!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXII</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A Goethe</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Quando te leio, as cenas animadas</l>
							<l>Por teu gênio, as paisagens que imaginas</l>
							<l>Cheias de vida, avultam repentinas,</l>
							<l>Claramente aos meus olhos desdobradas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vejo o céu, vejo as serras coroadas</l>
							<l>De gelo, e o sol, que o manto das neblinas</l>
							<l>Rompe, aquecendo as frígidas Campinas</l>
							<l>E iluminando os vales e as estradas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ouço o rumor soturno da charrua,</l>
							<l>E os rouxinóis que, no carvalho erguido,</l>
							<l>A voz modulam de ternuras cheia:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E vejo, à luz tristíssima da lua,</l>
							<l>Hermann, que cisma, pálido, embebido</l>
							<l>No meigo olhar da loura Dorotéia.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXIII</head>
						<opener>
							<argument type="inspiração">
								<p>
									<hi rend="italic">De Calderón.</hi>
								</p>
							</argument>
						</opener>
						<lg>
							<l>Laura! dizes que Fábio anda ofendido</l>
							<l>E, apesar de ofendido, namorado,</l>
							<l>Buscando a extinta chama do passado</l>
							<l>Nas cinzas frias avivar do olvido.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vá que o faça, e que o faça por perdido</l>
							<l>De amor ... Creio que o faz por despeitado:</l>
							<l>Porque o amor, uma vez abandonado,</l>
							<l>Não torna a ser o que já tinha sido.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não lhe creias no olhos nem na boca,</l>
							<l>Inda mesmo que os vejas, como pensas,</l>
							<l>Mentir carícias, desmentir tristezas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Porque finezas sobre arrufos, louca,</l>
							<l>Finezas podem ser; mas, sobre ofensas,</l>
							<l>Mais parecem vinganças que finezas.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXIV</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A Luiz Guimarães.</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Vejo-a, contemplo-a comovido... Aquela</l>
							<l>Que amaste, e, de teus braços arrancada,</l>
							<l>Desceu da morte a tenebrosa escada,</l>
							<l>Calma e pura aos meus olhos se revela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vejo-lhe o riso plácido, a singela</l>
							<l>Feição, aquela graça delicada,</l>
							<l>Que uma divina mão deixou vazada</l>
							<l>No eterno bronze, eternamente bela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Só lhe não vejo o olhar sereno e triste:</l>
							<l>— Céu, poeta, onde as asas, suspirando,</l>
							<l>Das liras de ouro as gemedouras cordas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Céu povoado de estrelas, onde as hordas</l>
							<l>Dos arcanjos cruzavam-se, pulsando</l>
							<l>Das liras de ouro as gemedoras cordas.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXV</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A Bocage.</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Tu, que no pego impuro das orgias</l>
							<l>Mergulhavas ansioso e descontente,</l>
							<l>E, quando à tona vinhas de repente,</l>
							<l>Cheias as mãos de pérolas trazias;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tu, que do amor e pelo amor vivias,</l>
							<l>E que, como de límpida nascente,</l>
							<l>Dos lábios e dos olhos a torrente</l>
							<l>Dos versos e das lágrimas vertias;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mestre querido! viverás, enquanto</l>
							<l>Houver quem pulse o mágico instrumento,</l>
							<l>E preze a língua que prezavas tanto:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E enquanto houver num canto do universo</l>
							<l>Quem ame e sofra, e amor e sofrimento</l>
							<l>Saiba, chorando, traduzir no verso.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXVI</head>
						<lg>
							<l>Quando cantas, minh’alma desprezando</l>
							<l>O invólucro do corpo, ascende às belas</l>
							<l>Altar esferas de ouro, e, acima delas,</l>
							<l>Ouve arcanjos as cítaras pulsando.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Corre os países longes, que revelas</l>
							<l>Ao som divino do teu canto: e, quando</l>
							<l>Baixas a voz, ela também, chorando,</l>
							<l>Desce, entre os claros grupo das estrelas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E expira a tua voz. Do paraíso,</l>
							<l>A que subira ouvindo-te, caído,</l>
							<l>Fico a fitar-te pálido, indeciso...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E enquanto cismas, sorridente e casta,</l>
							<l>A teus pés, como um pássaro ferido,</l>
							<l>Toda a minh’alma trêmula se arrasta...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXVII</head>
						<lg>
							<l>Ontem – néscio que fui! — maliciosa</l>
							<l>Disse uma estrela, a rir, na imensa altura:</l>
							<l>“Amigo! uma de nós, a mais formosa</l>
							<l>De todas nós, a mais formosa e pura,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Faz anos amanhã... Vamos! procura</l>
							<l>A rima de ouro mais brilhante, a rosa</l>
							<l>De cor mais viva e de maior frescura!”</l>
							<l>E eu murmurei comigo: “Mentirosa!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E segui. Pois tão cego fui por elas,</l>
							<l>Que, enfim, curado pelos seus enganos,</l>
							<l>Já não creio em nenhuma das estrelas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E – mal de mim! – eis-me, a teus pés, em pranto...</l>
							<l>Olha: se nada fiz para os teus anos,</l>
							<l>Culpa as tuas irmãs que enganam tanto!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXVIII</head>
						<lg>
							<l>Pinta-me a curva destes céus... Agora,</l>
							<l>Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:</l>
							<l>Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,</l>
							<l>E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,</l>
							<l>E o vale pinta, e, pelo vale em fora,</l>
							<l>A correnteza túrbida e sonora</l>
							<l>Do Paraíba, em torvelins de espuma.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pinta; mas vê de que maneira pintas...</l>
							<l>Antes busques as cores da tristeza,</l>
							<l>Poupando o escrínio das alegres tintas:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Tristeza singular, estranha mágoa</l>
							<l>De que vejo coberta a natureza,</l>
							<l>Porque a vejo com os olhos rasos d’água.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXIX</head>
						<lg>
							<l>Por tanto tempo, desvairado e aflito,</l>
							<l>Fitei naquela noite o firmamento,</l>
							<l>Que ainda hoje mesmo, quando acaso o fito,</l>
							<l>Tudo aquilo me vem ao pensamento.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Saí, no peito o derradeiro grito</l>
							<l>Calcando a custo, sem chorar, violento...</l>
							<l>E o céu fulgia plácido e infinito,</l>
							<l>E havia um choro no rumor do vento...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Piedoso céu, que a minha dor sentiste!</l>
							<l>A áurea esfera da lua o ocaso entrava,</l>
							<l>Rompendo as leves nuvens transparentes;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sobre mim, silenciosa e triste,</l>
							<l>A Via-Láctea se desenrolava</l>
							<l>Como um jorro de lágrimas ardentes.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXX</head>
						<lg>
							<l>Ao coração que sofre, separado</l>
							<l>Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,</l>
							<l>Não basta o afeto simples e sagrado</l>
							<l>Com que das desventuras me protejo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não me basta saber que sou amado,</l>
							<l>Nem só desejo o teu amor: desejo</l>
							<l>Ter nos braços teu corpo delicado,</l>
							<l>Ter na boca a doçura de teu beijo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E as justas ambições que me consomem</l>
							<l>Não me envergonham: pois maior baixeza</l>
							<l>Não há que a terra pelo céu trocar;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E mais eleva o coração de um homem</l>
							<l>Ser de homem sempre e, na maior pureza,</l>
							<l>Ficar na terra e humanamente amar.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXXI</head>
						<lg>
							<l>Longe de ti, se escuto, porventura,</l>
							<l>Teu nome, que uma boca indiferente</l>
							<l>Entre outros nomes de mulher murmura,</l>
							<l>Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tal aquele, que, mísero, a tortura</l>
							<l>Sofre de amargo exílio, e tristemente</l>
							<l>A linguagem natal, maviosa e pura,</l>
							<l>Ouve falada por estranha gente...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Porque teu nome é para mim o nome</l>
							<l>De uma pátria distante e idolatrada,</l>
							<l>Cuja saudade ardente me consome:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E ouvi-lo é ver a eterna primavera</l>
							<l>E a eterna luz da terra abençoada,</l>
							<l>Onde, entre flores, teu amor me espera.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXXII</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A um poeta.</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola:</l>
							<l>— Do seu cabelo o delicado cheiro,</l>
							<l>Da sua voz o timbre prazenteiro,</l>
							<l>Tudo do livro sinto que se evola...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Todo o nosso romance: — a doce esmola</l>
							<l>Do seu primeiro olhas, o seu primeiro</l>
							<l>Sorriso, — neste poema verdadeiro,</l>
							<l>Tudo ao meu triste olhar se desenrola.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sinto animar-se todo o meu passado:</l>
							<l>E quanto mais as páginas folheio,</l>
							<l>Mais vejo em tudo aquele vulto amado.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ouço junto de mim bater-lhe o seio,</l>
							<l>E cuido vê-la, plácida, a meu lado,</l>
							<l>Lendo comigo a página que leio.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXXIII</head>
						<lg>
							<l>Como quisesse livre ser, deixando</l>
							<l>As paragens natais, espaço em fora,</l>
							<l>A ave, ao bafejo tépido da aurora,</l>
							<l>Abriu as asas e partiu cantando.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Estranhos climas, longes céus, cortando</l>
							<l>Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora</l>
							<l>Que morre o sol, suspende o voo, e chora,</l>
							<l>E chora, a vida antiga recordando...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E logo, o olhar tornando compungido</l>
							<l>Atrás, volta saudosa do carinho,</l>
							<l>Do calor da primeira habitação...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Assim por largo tempo andei perdido:</l>
							<l>— Ah! que alegria ver de novo o ninho,</l>
							<l>Ver-te, e beijar-te a pequenina mão!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXXIV</head>
						<lg>
							<l>Quando adivinha que vou vê-la, e à escada</l>
							<l>Ouve-me a voz e o meu andar conhece,</l>
							<l>Fica pálida, assusta-se, estremece,</l>
							<l>E não sei por que foge envergonhada.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Volta depois. À porta, alvoroçada,</l>
							<l>Sorrindo, em fogo as faces, aparece:</l>
							<l>E talvez entendendo a muda prece</l>
							<l>De meus olhos, adianta-se apressada.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Corre, delira, multiplica os passos;</l>
							<l>E o chão, sob os seus passos murmurando,</l>
							<l>Segue-a de um hino, de rumor de festa...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E ah! que desejo de a tomar nos braços,</l>
							<l>O movimento rápido sustando</l>
							<l>Das duas asas que a paixão lhe empresta</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XXXV</head>
						<lg>
							<l>Pouco me pesa que mofeis sorrindo</l>
							<l>Destes versos puríssimos e santos:</l>
							<l>Porque, nisto de amor e íntimos prantos,</l>
							<l>Dos louvores do público prescindo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Homens de bronze! um haverá, de tantos,</l>
							<l>(Talvez um só) que, esta paixão sentindo,</l>
							<l>Aqui demore o olhar, vendo e medindo</l>
							<l>O alcance e o sentimento destes cantos.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Será esse o meu público. E, decerto,</l>
							<l>Esse dirá: “Pode viver tranquilo</l>
							<l>Quem assim ama, sendo assim amado!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, trêmulo, de lágrimas coberto,</l>
							<l>Há de estimar quem lhe contou aquilo</l>
							<l>Que nunca ouviu com tanto ardor contado.</l>
						</lg>
					</div>
				</div>
				<div type="part">
					<head>SARÇAS DE FOGO</head>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>O julgamento de Frineia</head>
						<lg>
							<l>Mnezarete, a divina, a pálida Frineia,</l>
							<l>Comparece ante a austera e rígida assembleia</l>
							<l>Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira</l>
							<l>Aquela formosura original, que inspira</l>
							<l>E dá vida ao genial cinzel de Praxíteles,</l>
							<l>De Hipérides à voz e à palheta de Apeles.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quando os vinhos, na orgia, os convivas exaltam</l>
							<l>E das roupas, enfim, livres os corpos saltam,</l>
							<l>Nenhuma hetera sabe a primorosa taça,</l>
							<l>Transbordante de Cós, erguer com maior graça,</l>
							<l>Nem mostrar, a sorrir, com mais gentil meneio,</l>
							<l>Mais formoso quadril, nem mais nevado seio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Estremecem no altar, ao contemplá-la, os deuses,</l>
							<l>Nua, entre aclamações, nos festivais de Elêusis...</l>
							<l>Basta um rápido olhar provocante e lascivo:</l>
							<l>Quem na fronte o sentiu curva a fronte, cativo...</l>
							<l>Nada iguala o poder de suas mãos pequenas:</l>
							<l>Basta um gesto, — e a seus pés roja-se humilde Atenas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vai ser julgada. Um véu, tornando inda mais bela</l>
							<l>Sua oculta nudez, mal os encantos vela,</l>
							<l>Mal a nudez oculta e sensual disfarça.</l>
							<l>Cai-lhe, espáduas abaixo, a cabeleira esparsa...</l>
							<l>Queda-se a multidão. Ergue-se Eutias. Fala,</l>
							<l>E incita o tribunal severo a condená-la:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>“Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,</l>
							<l>Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!</l>
							<l>Dos deuses zomba! É ímpia! é má!” (E o pranto ardente</l>
							<l>Corre nas faces dela, em fios, lentamente...)</l>
							<l>“Por onde os passos move a corrupção se espraia,</l>
							<l>E estende-se a discórdia! Heliostes! condenai-a!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma...</l>
							<l>Mas, de pronto, entre a turba Hipérides assoma,</l>
							<l>Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,</l>
							<l>Suplica, ordena, exige... O Areópago não cede.</l>
							<l>“Pois condenai-a agora!” E à ré, que treme, a branca</l>
							<l>Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,</l>
							<l>— Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:</l>
							<l>Nua e branca, de pé, patente à luz do dia</l>
							<l>Todo o corpo ideal, Frineia aparecia</l>
							<l>Diante da multidão atônita e surpresa,</l>
							<l>No triunfo imortal da Carne e da Beleza.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Marinha</head>
						<lg>
							<l>Sobre as ondas oscila o batel docemente...</l>
							<l>Sopra o vento a gemer. Treme enfunada a vela.</l>
							<l>Na água mansa do mar passam tremulamente</l>
							<l>Áureos traços de luz, brilhando esparsos nela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Lá desponta o luar. Tu, palpitante e bela,</l>
							<l>Canta! Chega-te a mim! Dá-me essa boca ardente!</l>
							<l>Sobre as ondas oscila o batel docemente...</l>
							<l>Sopra o vento a gemer. Treme enfunada a vela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vagas azuis, parai! Curvo céu transparente,</l>
							<l>Nuvens de prata, ouvi! — Ouça na altura a estrela,</l>
							<l>Ouça de baixo o oceano, ouça o luar albente:</l>
							<l>Ela canta! — e, embalado ao som do canto dela,</l>
							<l>Sobre as ondas oscila o batel docemente.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Sobra as bodas de um sexagenário</head>
						<lg>
							<l>Amar. Um novo sol apontou no horizonte,</l>
							<l>E ofuscou-te a pupila e iluminou-te a fronte...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Lívido, o olhar sem luz, roto o manto, caída</l>
							<l>Sobre o peito, a tremer, a barba encanecida,</l>
							<l>Descias, cambaleando, a encosta pedregosa</l>
							<l>Da velhice. Que mão te ofereceu, piedosa,</l>
							<l>Um piedoso bordão para amparar teus passos?</l>
							<l>Que te estendeu a vida, estendendo-te os braços?</l>
							<l>Ias desamparado, em sangue os pés, sozinho...</l>
							<l>E era horrendo o arredor, torvo o espaço, o caminho</l>
							<l>Sinistro, acidentado... Uivava perto o vento</l>
							<l>E rodavam bulcões no torvo firmamento.</l>
							<l>Entrado de terror, a cada passo o rosto</l>
							<l>Voltavas, perscrutando o caminho transposto,</l>
							<l>E volvias o olhar: e o olhar alucinado</l>
							<l>Via de um lado a treva, a treva de outro lado,</l>
							<l>E assombrosas visões, vultos extraordinários,</l>
							<l>Desdobrando a correr os trêmulos sudários.</l>
							<l>E ouvias o rumor de uma enxada, cavando</l>
							<l part="I">Longe a terra... E paraste exânime.</l>
							<l part="F">Foi quando</l>
							<l>Te pareceu ouvir, pelo caminho escuro,</l>
							<l>Soar de instante a instante um passo mal seguro</l>
							<l>Como o teu. E atentando, entre alegria e espanto,</l>
							<l>Viste que vinha alguém compartindo o teu pranto,</l>
							<l>Trilhando a mesma estrada horrível que trilhavas,</l>
							<l>E ensanguentando os pés onde os ensanguentavas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sorriste. No céu fulgurava uma estrela...</l>
							<l>E sentiste falar subitamente, ao vê-la,</l>
							<l>Teu velho coração dentro do peito, como</l>
							<l>Desperto muita vez, no derradeiro assomo</l>
							<l>Da bravura, — sem voz, decrépito, impotente,</l>
							<l>Trôpego, sem vigor, sem vista, — de repente</l>
							<l>Rica a juba, e, abalando a solidão noturna,</l>
							<l>Urra um velho leão numa apartada furna.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Abyssus</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Bela e traidora! Beijas e assassinas...</l>
							<l>Quem te vê não tem forças que te oponha:</l>
							<l>Ama-te, e dorme no teu seio, e sonha,</l>
							<l>E, quando acorda, acorda feito em ruínas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Seduzes, e convidas, e fascinas,</l>
							<l>Como o abismo que, pérfido, a medonha</l>
							<l>Fauce apresenta Flórida e risonha,</l>
							<l>Tapetada de rosas e boninas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O viajor, vendo as flores, fatigado</l>
							<l>Foge o sol, e, deixando a estrada poenta,</l>
							<l>Avança incauto... Súbito, esbroado,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Falta-lhe o solo aos pés: recua e corre,</l>
							<l>Vacila e grita, luta e se ensanguenta,</l>
							<l>E rola, e tomba, e se espedaça, e morre...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Pantum</head>
						<lg>
							<l>Quando passaste, ao declinar do dia,</l>
							<l>Soava na altura indefinido arpejo:</l>
							<l>Pálido, o sol do céu se despedia,</l>
							<l>Enviando à terra o derradeiro beijo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Soava na altura indefinido arpejo...</l>
							<l>Cantava perto um pássaro, em segredo;</l>
							<l>E, enviando à terra o derradeiro beijo,</l>
							<l>Esbatia-se a luz pelo arvoredo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cantava perto um pássaro em segredo;</l>
							<l>Cortavam fitas de ouro o firmamento...</l>
							<l>Esbatia-se a luz pelo arvoredo:</l>
							<l>Caíra a tarde; sossegara o vento.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cortavam fitas de ouro o firmamento...</l>
							<l>Quedava imoto o coqueiral tranquilo...</l>
							<l>Caíra a tarde. Sossegara o vento.</l>
							<l>Que mágoa derramada em tudo aquilo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quedava imoto o coqueiral tranquilo...</l>
							<l>Pisando a areia, que a teus pés falava,</l>
							<l>(Que mágoa derramada em tudo aquilo!)</l>
							<l>Vi lá embaixo o teu vulto que passava.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pisando a areia, que a teus pés falava,</l>
							<l>Entre as ramadas floridas seguiste.</l>
							<l>Vi lá embaixo o teu vulto que passava...</l>
							<l>Tão distraída! — nem sequer me viste!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Entre as ramadas floridas seguiste,</l>
							<l>E eu tinha a vista de teu vulto cheia.</l>
							<l>Tão distraída! – nem sequer me viste!</l>
							<l>E eu contava os teus passos sobre a areia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Eu tinha a vista de teu vulto cheia.</l>
							<l>E, quando te sumiste ao fim da estrada,</l>
							<l>Eu contava os teus passos sobre a areia:</l>
							<l>Vinha a noite a descer, muda e pausada...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, quando te sumiste ao fim da estrada,</l>
							<l>Olhou-me do alto uma pequena estrela.</l>
							<l>Vinha a noite, a descer, muda e pausada,</l>
							<l>E outras estrelas se acendiam nela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olhou-me do alto uma pequena estrela,</l>
							<l>Abrindo as áureas pálpebras luzentes:</l>
							<l>E outras estrelas se acendiam nela,</l>
							<l>Como pequenas lâmpadas trementes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Abrindo as áureas pálpebras luzentes,</l>
							<l>Clarearam a extensão dos largos campos;</l>
							<l>Como pequenas lâmpadas trementes</l>
							<l>Fosforeavam na relva os pirilampos.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Clarearam a extensão dos largos campos...</l>
							<l>Vinha, entre nuvens, o luar nascendo...</l>
							<l>Fosforeavam na relva os pirilampos...</l>
							<l>E eu inda estava a tua imagem vendo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vinha, entre nuvens, o luar nascendo:</l>
							<l>A terra toda em derredor dormia...</l>
							<l>E eu inda estava a tua imagem vendo,</l>
							<l>Quando passaste ao declinar do dia!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Na Tebaida</head>
						<lg>
							<l>Chegar, com os olhos úmidos, tremente</l>
							<l>A voz, os seios nus, — como a rainha</l>
							<l>Que ao ermo frio da Tebaida vinha</l>
							<l>Trazer a tentação do amor ardente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Luto: porém teu corpo se avizinha</l>
							<l>Do meu, e o enlaça como uma serpente...</l>
							<l>Fujo: porém a boca prendes, quente,</l>
							<l>Cheia de beijos, palpitante, à minha...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beija mais, que o teu beijo me incendeia!</l>
							<l>Aperta os braços mais! que eu tenha a morte,</l>
							<l>Preso nos laços de prisão tão doce!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Aperta os braços mais, — frágil cadeia</l>
							<l>Que tanta força tem não sendo forte,</l>
							<l>E prende mais que se de ferro fosse!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Numa concha</head>
						<lg>
							<l>Pudesse eu ser a concha nacarada,</l>
							<l>Que, entre os corais e as algas, a infinita</l>
							<l rend="indent">Mansão do oceano habita,</l>
							<l rend="indent">E dorme reclinada</l>
							<l>No fofo leito das areias de ouro...</l>
							<l>Fosse eu a concha e, ó pérola marinha!</l>
							<l>Tu fosses o meu único tesouro,</l>
							<l rend="indent">Minha, somente minha!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent">Ah! com que amor, no ondeante</l>
							<l>Regaço de água transparente e clara,</l>
							<l>Com que volúpia, filha, com que anseio</l>
							<l>Eu as valvas de nácar apertara,</l>
							<l>Para guardar-te toda palpitante</l>
							<l rend="indent">No fundo de meu seio!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Súplica</head>
						<lg>
							<l rend="indent2">Falava o sol. Dizia:</l>
							<l rend="indent2">“Acorda! Que alegria</l>
							<l>Pelos ridentes céus se espalha agora!</l>
							<l rend="indent2">Foge a neblina fria...</l>
							<l rend="indent2">Pede-te a luz do dia,</l>
							<l>Pedem-te as chamas e o sorrir da aurora!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Dizia o rio, cheio</l>
							<l rend="indent2">De amor, abrindo o seio:</l>
							<l>“Quero abraçar-te as formas primorosas!</l>
							<l rend="indent2">Vem tu, que embalde veio</l>
							<l rend="indent2">O sol: somente anseio</l>
							<l>Por teu corpo, formosa entre as formosas!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Quero-te inteiramente</l>
							<l rend="indent2">Nua! quero, tremente,</l>
							<l>Cingir de beijos tuas róseas pomas,</l>
							<l rend="indent2">Cobrir teu corpo ardente,</l>
							<l rend="indent2">E na água transparente</l>
							<l>Guardar teus vivos, sensuais aromas!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">E prosseguia o vento:</l>
							<l rend="indent2">“Escuta o meu lamento!</l>
							<l>Vem! não quero a folhagem perfumada;</l>
							<l rend="indent2">Com a flor não me contento!</l>
							<l rend="indent2">Mais alto é o meu intento:</l>
							<l>Quero embalar-te a coma desnastrada!”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tudo a exigia... Entanto,</l>
							<l rend="indent2">Alguém, oculto a um canto</l>
							<l>Do jardim, a chorar, dizia: “Ó bela!</l>
							<l rend="indent2">Já te não peço tanto:</l>
							<l rend="indent2">Secara-se o meu pranto</l>
							<l>Se visse a tua sombra na janela!”</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Canção</head>
						<lg>
							<l>Dá-me as pétalas de rosa</l>
							<l>Dessa boca pequenina:</l>
							<l>Vem com teu riso, formosa!</l>
							<l>Vem com teu beijo, divina!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Transforma num paraíso</l>
							<l>O inferno do meu desejo...</l>
							<l>Formosa, vem com teu riso!</l>
							<l>Divina, vem com teu beijo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Oh! tu, que tornas radiosa</l>
							<l>Minh’alma, que a dor domina,</l>
							<l>Só com teu riso, formosa,</l>
							<l>Só com teu beijo, divina!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tenho frio, e não diviso</l>
							<l>Luz na treva em que me vejo:</l>
							<l>Dá-me o clarão do teu riso!</l>
							<l>Dá-me fogo do teu beijo!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Satânia</head>
						<lg>
							<l>Nua, de pé, solto o cabelo às costas,</l>
							<l>Sorri. Na alcova perfumada e quente,</l>
							<l>Pela janela, como um rio enorme</l>
							<l>De áureas ondas tranquilas e impalpáveis,</l>
							<l>Profusamente a luz do meio-dia</l>
							<l>Entra e se espalha palpitante e viva.</l>
							<l>Entra, parte-se em feixes rutilantes,</l>
							<l>Aviva as cores das tapeçarias,</l>
							<l>Doura os espelhos e os cristais inflama.</l>
							<l>Depois, tremendo, como a arfar, desliza</l>
							<l>Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,</l>
							<l>Como uma vaga preguiçosa e lenta,</l>
							<l>Vem lhe beijar a pequenina ponta</l>
							<l>Do pequenino pé macio e branco.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sobe ... cinge-lhe a perna longamente;</l>
							<l>Sobe ... – e que volta sensual descreve</l>
							<l>Para abranger todo o quadril! – prossegue.</l>
							<l>Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,</l>
							<l>Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,</l>
							<l>Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo</l>
							<l>Da axila, acende-lhe o coral da boca,</l>
							<l>E antes de se ir perder na escura noite,</l>
							<l>Na densa noite dos cabelos negros,</l>
							<l>Para confusa, a palpitar, diante</l>
							<l>Da luz mais bela dos seus grandes olhos.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E aos mornos beijos, às carícias ternas</l>
							<l>Da luz, cerrando levemente os cílios,</l>
							<l>Satânia os lábios úmidos encurva,</l>
							<l>E da boca na púrpura sangrenta</l>
							<l>Abre um curto sorriso de volúpia...</l>
							<l>Corre-lhe à flor da pele um calafrio;</l>
							<l>Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso</l>
							<l>Apressa; e os olhos, pela fenda estreita</l>
							<l>Das abaixadas pálpebras radiando,</l>
							<l>Turvos, que brados, lânguidos, contemplam,</l>
							<l>Fitos no vácuo, uma visão querida...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Talvez ante eles, cintilando ao vivo</l>
							<l>Fogo do ocaso, o mar se desenrole:</l>
							<l>Tingem-se as águas de um rubor de sangue,</l>
							<l>Uma canoa passa... Ao largo oscilam</l>
							<l>Mastros enormes, sacudindo as flâmulas...</l>
							<l>E, alva e sonora, a murmurar, a espuma</l>
							<l>Pelas areias se insinua, o limo</l>
							<l>Dos grosseiros cascalhos prateando...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Talvez ante eles, rígidas e imóveis,</l>
							<l>Vicem, abrindo os leques, as palmeiras:</l>
							<l>Calma em tudo. Nem serpe sorrateira</l>
							<l>Silva, nem ave inquieta agita as asas.</l>
							<l>E a terra dorme num torpor, debaixo</l>
							<l>De um céu de bronze que a comprime e estreita...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Talvez as noites tropicais se estendam</l>
							<l>Ante eles: infinito firmamento,</l>
							<l>Milhões de estrelas sobre as crespas águas</l>
							<l>De torrentes caudais, que, esbravejando,</l>
							<l>Entre altas serras surdamente rolam...</l>
							<l>Ou talvez, em países apartados,</l>
							<l>Fitem seus olhos uma cena antiga:</l>
							<l>Tarde de outono. Uma tristeza imensa</l>
							<l>Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa</l>
							<l>Das tamareiras, meio adormecido,</l>
							<l>Fuma um árabe. A fonte rumoreja</l>
							<l>Perto. À cabeça o cântaro repleto,</l>
							<l>Com as mãos morenas suspendendo a saia,</l>
							<l>Uma mulher afasta-se, cantando...</l>
							<l>E o árabe dorme numa densa nuvem</l>
							<l>De fumo... E o canto perde-se à distância...</l>
							<l>E a noite chega, tépida e estrelada...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Certo, bem doce deve ser a cena</l>
							<l>Que os seus olhos estáticos ao longe,</l>
							<l>Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam.</l>
							<l>Há pela alcova, entanto, um murmúrio</l>
							<l>De vozes. A princípio é um sopro escasso,</l>
							<l>Um sussurrar baixinho... Aumenta logo:</l>
							<l>É uma prece, um clamor, um coro imenso</l>
							<l>De ardentes vozes, de convulsos gritos.</l>
							<l>É a voz da Carne, é a voz da Mocidade,</l>
							<l>— Canto vivo de força e de beleza,</l>
							<l>Que sobe desse corpo iluminado...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dizem os braços: “-Quando o instante doce</l>
							<l>Há de chegar, em que, à pressão ansiosa</l>
							<l>Destes laços de músculos sadios,</l>
							<l>Um corpo amado vibrará de gozo? —“</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E os seios dizem: “— Que sedentos lábios,</l>
							<l>Que ávidos lábios sorverão o vinho</l>
							<l>Rubro, que temos nestas cheias taças?</l>
							<l>Para essa boca que esperamos, pulsa</l>
							<l>Nestas carnes o sangue, enche estas veias,</l>
							<l>E entesa e apruma estes rosados bicos...—”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a boca: “— Eu tenho nesta fina concha</l>
							<l>Pérolas níveas do mais alto preço,</l>
							<l>E corais mais brilhantes e mais puros</l>
							<l>Que a rubra selva que de um tírio manto</l>
							<l>Cobre o fundo dos mares da Abissínia...</l>
							<l>Ardo e suspiro! Como o dia tarda</l>
							<l>Em que meus lábios possam ser beijados,</l>
							<l>Mais que beijados: possam ser mordidos—”</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas, quando, enfim, das regiões descendo</l>
							<l>Que, errante, em sonhos percorreu, Satânia</l>
							<l>Olha-se, e vê-se nua, e, estremecendo,</l>
							<l>Veste-se, e aos olhos ávidos do dia</l>
							<l>Vela os encantos, — essa voz declina</l>
							<l part="I">Lenta, abafada, trêmula...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l part="F">Um barulho</l>
							<l>De linhos frescos, de brilhantes sedas</l>
							<l>Amarrotadas pelas mãos nervosas,</l>
							<l>Enche a alcova, derrama-se nos ares...</l>
							<l>E, sob as roupas que a sufocam, inda</l>
							<l>Por largo tempo, a soluçar, se escuta</l>
							<l>Num longo choro a entrecortada queixa</l>
							<l>Das deslumbrantes carnes escondidas...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Quarenta anos</head>
						<lg>
							<l>Sim! Como um dia de verão, de acesa</l>
							<l>Luz, de acesos e cálidos fulgores,</l>
							<l>Como os sorrisos da estação das flores,</l>
							<l>Foi passando também tua beleza.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hoje, das garras da descrença presa,</l>
							<l>Perdes as ilusões. Vão-se-te as cores</l>
							<l>Da face. E entram-te n’alma os dissabores,</l>
							<l>Nublam-te o olhar as sombras da tristeza.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Expira a primavera. O sol fulgura</l>
							<l>Com o brilho extremo... E aí vêm as noites frias,</l>
							<l>Aí vem o inverno da velhice escura...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! Pudesse eu fazer, novo Ezequias,</l>
							<l>Que o sol poente dessa formosura</l>
							<l>Volvesse à aurora dos primeiros dias!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Vestígios</head>
						<lg>
							<l>Foram-te os anos consumindo aquela</l>
							<l>Beleza outrora viva e hoje perdida...</l>
							<l>Porém teu rosto da passada vida</l>
							<l>Inda uns vestígios trêmulos revela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Assim, dos rudes furacões batida,</l>
							<l>Velha, exposta aos furores da procela,</l>
							<l>Uma árvore de pé, serena e bela,</l>
							<l>Inda se ostenta, na floresta erguida.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Raivoso o raio a lasca, e a estala, e a fende...</l>
							<l>Racha-lhe o tronco anoso... Mas, em cima,</l>
							<l>Verde folhagem triunfal se estende.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mal segura no chão, vacila... Embora!</l>
							<l>Inda os ninhos conserva, e se reanima</l>
							<l>Ao chilrear dos pássaros de outrora...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Um trecho de Th. Gautier</head>
						<opener>
							<argument type="inspiração">
								<p>
									<hi rend="italic">(Mlle. De Maupin)</hi>
								</p>
							</argument>
						</opener>
						<lg>
							<l>É porque eu sou assim que o mundo me repele,</l>
							<l>E é por isso também que eu nada quero dele:</l>
							<l>Minh’alma é uma região ridente e esplendorosa,</l>
							<l>Na aparência: porém pútrida e pantanosa,</l>
							<l>Cheia de emanações mefíticas, repleta</l>
							<l>De imundos vibriões, como a região infecta</l>
							<l>Da Batávia, de um ar pestífero e nocivo.</l>
							<l>Olha a vegetação: tulipas de ouro vivo,</l>
							<l>Fulvos nagassaris de ampla coroa, flores</l>
							<l>De angsoka, pompeando a opulência das cores,</l>
							<l>Viçam; viçam rosais de púrpura, sorrindo</l>
							<l>Sob o límpido azul de um céu sereno e infindo...</l>
							<l>Mas a flórea cortina entreabre, e vê: — no fundo,</l>
							<l>Sobre os trôpegos pés movendo o corpo imundo,</l>
							<l>Vai de rastos um sapo hidrópico e nojento...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Olha esta fonte agora: o claro firmamento</l>
							<l>Traz no puro cristal, puro como um diamante.</l>
							<l>Viajor! De longe vens, ardendo em sede? Adiante!</l>
							<l>Segue! Fora melhor, ao cabo da jornada,</l>
							<l>De um pântano beber a água que, estagnada</l>
							<l>Entre os podres juncais, em meio da floresta</l>
							<l>Dorme... Fora melhor beber dessa água! Nesta</l>
							<l>Se acaso a incauta mão mergulha um dia a gente,</l>
							<l>Ao sentir-lhe a frescura ao mesmo tempo sente</l>
							<l>As picadas mortais das peçonhentas cobra,</l>
							<l>Que coleiam, torcendo e destorcendo as dobras</l>
							<l>Da escama, e da atra boca expelindo o veneno...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Segue! Porque é maldito e ingrato este terreno:</l>
							<l>Quando, cheio de fé na colheita futura,</l>
							<l>Antegozando o bem da próxima fartura,</l>
							<l>Na terra, que fecunda e boa te parece,</l>
							<l>Semeares trigo, — em vez da ambicionada messe,</l>
							<l>Em vez da espiga de ouro a cintilar, — apenas</l>
							<l>Colherás o meimendro, e as cabeludas penas</l>
							<l>Que, como serpes, brande a mandrágora bruta,</l>
							<l>Entre vegetações de asfódelo e cicuta...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ninguém logrou jamais atravessar em vida</l>
							<l>A floresta sem fim, negra e desconhecida,</l>
							<l>Que eu tenho dentro d’alma. É uma floresta enorme,</l>
							<l>Onde, virgem intacta, a natureza dorme,</l>
							<l>Como nos matagais da América e de Java:</l>
							<l>Cresce, crespa e cerrada, a laçaria brava</l>
							<l>Dos flexiles cipós, curvos e resistentes,</l>
							<l>As árvores atendo em voltas de serpentes;</l>
							<l>Lá dentro, na espessura, entre o esplendor selvagem</l>
							<l>Da flora tropical, nos arcos de folhagem</l>
							<l>Balançam-se animais fantásticos, suspensos:</l>
							<l>Morcegos de uma forma extraordinária, e imensos</l>
							<l>Escaravelhos que o ar pesado e morno agitam.</l>
							<l>Monstros de horrendo aspecto estas furnas habitam:</l>
							<l>— Elefantes brutais, brutais rinocerontes,</l>
							<l>Esfregando ao passar contra os rugosos montes</l>
							<l>A rugosa couraça, e espedaçando os troncos</l>
							<l>Das árvores, lá vão; e hipopótamos broncos</l>
							<l>De túmido focinho e orelhas eriçadas,</l>
							<l>Batem pausadamente as patas compassadas.</l>
							<l>Na clareira, onde o sol penetra ao meio-dia</l>
							<l>O auriverde dossel das ramagens, e enfia</l>
							<l>Como uma cunha de outro um raio luminoso,</l>
							<l>E onde um calmo retiro achar contaste ansioso,</l>
							<l>— Transido de pavor encontrarás, piscando</l>
							<l>Os olhos verdes, e o ar, sôfrego, respirando,</l>
							<l>Um tigre a dormitar, com a língua rubra o pelo</l>
							<l>De veludo lustrando, ou, em calma, um novelo</l>
							<l>De boas, digerindo o touro devorado...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tem receio de tudo! O céu puro e azulado,</l>
							<l>A erva, o fruto maduro, o sol, o ambiente mudo,</l>
							<l>Tudo aquilo é mortal... Tem receio de tudo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E é porque eu sou assim que o mundo me repele,</l>
							<l>E é por isso também que eu nada quero dele!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>No limiar da morte</head>
						<opener>
							<epigraph>
								<cit>
									<quote>
										<lg type="ignore-when-scanning">
											<p>“Grande lascivo! Espera-te a voluptuosidade do nada.</p>
											<p>(<hi rend="italic">Machado de Assis</hi>, Brás Cubas)</p>
										</lg>
									</quote>
									<bibl>
										<author>Machado de Assis</author>
									</bibl>
								</cit>
							</epigraph>
						</opener>
						<lg>
							<l>Engelhadas as faces, os cabelos</l>
							<l>Brancos, ferido, chegas da jornada;</l>
							<l>Revês da infância os dias; e, ao revê-los,</l>
							<l>Que fundas mágoas na alma lacerada!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Paras. Palpas a treva em torno. Os gelos</l>
							<l>Da velhice te cercam. Vês a estrada</l>
							<l>Negra, cheia de sombras, povoada</l>
							<l>De atros espectros e de pesadelos...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tu, que amaste e sofreste, agora os passos</l>
							<l>Para meu lado moves. Alma em prantos,</l>
							<l>Deixa os ódios do muçulmano inferno...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vem! Que enfim gozarás entre meus braços</l>
							<l>Toda a volúpia, todos os encantos,</l>
							<l>Toda a delícia do repouso eterno!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Paráfrase de Baudelaire</head>
						<lg>
							<l>Assim! Quero sentir sobre a minha cabeça</l>
							<l>O peso dessa noite embalsamada e espessa...</l>
							<l>Que suave calor, que volúpia divina</l>
							<l>As carnes me penetra e os nervos me domina!</l>
							<l>Ah! Deixa-me aspirar indefinidamente</l>
							<l>Este aroma subtil, este perfume ardente!</l>
							<l>Deixa-me adormecer envolto em teus cabelos!...</l>
							<l>Quero senti-los, quero aspira-los, sorve-los,</l>
							<l>E neles mergulhar loucamente o meu rosto,</l>
							<l>Como quem vem de longe, e, às horas do sol posto,</l>
							<l>Acha a um canto da estrada uma nascente pura,</l>
							<l>Onde mitiga ansioso a sede que o tortura...</l>
							<l>Quero tê-los nas mãos, e agitá-los, cantando,</l>
							<l>Como a um lenço, pelo ar saudades espalhando.</l>
							<l>Ah! Se pudesses ver tudo o que neles vejo!</l>
							<l>— Meu desvairado amor! meu insano desejo!...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Teus cabelos contêm uma visão completa:</l>
							<l>— Largas águas, movendo a superfície inquieta,</l>
							<l>Cheia de um turbilhão de velas e de mastros,</l>
							<l>Sob o claro dossel palpitante dos astros;</l>
							<l>Cava-se o mar, rugindo, ao peso dos navios</l>
							<l>De todas as nações e todos os feitios,</l>
							<l>Desenrolando no alto as flâmulas ao vento,</l>
							<l>E recortando o azul do limpo firmamento,</l>
							<l>Sob o qual há uma eterna, uma infinita calma.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E prevê meu olhar e pressente minh’alma</l>
							<l>Longe, — onde, mais profundo e mais azul, se arqueia</l>
							<l>O céu, onde há mais luz, e onde a atmosfera, cheia</l>
							<l>De aromas, ao repouso e ao divagar convida, —</l>
							<l>Um país encantado, uma região, uma região querida,</l>
							<l>Fresca, sorrindo ao sol, entre frutos e flores:</l>
							<l>— Terra santa da luz, do sonho e dos amores...</l>
							<l>Terra que nunca vi, terra que não existe,</l>
							<l>Mas da qual, entretanto, eu, desterrado e triste,</l>
							<l>Sinto no coração, ralado de ansiedade,</l>
							<l>Uma saudade eterna, uma fatal saudade!</l>
							<l>Minha pátria ideal! Em vão estendo os braços</l>
							<l>Para teu lado! Em vão para teu lado os passos</l>
							<l>Movo! Em vão! Nunca mais em teu seio adorado</l>
							<l>Poderei repousar meu corpo fatigado...</l>
							<l part="I">Nunca mais! nunca mais!</l>
							<l part="F">Sobre a minha cabeça,</l>
							<l>Querida! abre essa noite embalsamada e espessa!</l>
							<l>Desdobra sobre mim os teus negros cabelos!</l>
							<l>Quero, sôfrego e louco, aspira-los, morde-los,</l>
							<l>E, bêbado de amor, o seu peso sentindo,</l>
							<l>Neles dormir envolto e ser feliz dormindo...</l>
							<l>Ah! Se pudesses ver tudo o que neles vejo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Meu desvairado amor! Meu insano desejo!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Rios e pântanos</head>
						<lg>
							<l>Muita vez houve céu dentro de um peito!</l>
							<l>Céu coberto de estrelas resplendentes,</l>
							<l>Sobre rios alvíssimos, de leito</l>
							<l>De fina prata e margens florescentes...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Um dia veio, em que a descrença o aspeito</l>
							<l>Mudou de tudo: em túrbidas enchentes,</l>
							<l>A água um manto de lodo e trevas feito</l>
							<l>Estendeu pelas veigas recendentes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a alma que os anjos de asa solta, os sonhos</l>
							<l>E as ilusões cruzaram revoando,</l>
							<l>— Depois, na superfície horrenda e fria,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Só apresenta pântanos medonhos,</l>
							<l>Onde, os longos sudários arrastando,</l>
							<l>Passa da peste a legião sombria...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>De volta do baile</head>
						<lg>
							<l>Chega do baile. Descansa.</l>
							<l>Move a ebúrnea ventarola.</l>
							<l>Que aroma de sua trança</l>
							<l>Voluptuoso se evola!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ao vê-la, a alcova deserta</l>
							<l>E muda até então, em roda</l>
							<l>Sentindo-a, treme, desperta,</l>
							<l>E é festa e delírio toda.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Despe-se. O manto primeiro</l>
							<l>Retira, as luvas agora,</l>
							<l>Agora as joias, chuveiro</l>
							<l>De pedras da cor da aurora.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E pelas pérolas, pelos</l>
							<l>Rubins de fogo e diamantes,</l>
							<l>Faiscando nos seus cabelos</l>
							<l>Como estrelas coruscantes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pelos colares em dobras</l>
							<l>Enrolados, pelos finos</l>
							<l>Braceletes, como cobras</l>
							<l>Mordendo os braços divinos,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pela grinalda de flores,</l>
							<l>Pelas sedas que se agitam</l>
							<l>Murmurando e as várias cores</l>
							<l>Vivas do arco-íris imitam,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Por tudo, as mãos inquietas</l>
							<l>Se movem rapidamente,</l>
							<l>Como um par de borboletas</l>
							<l>Sobre um jardim florescente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Voando em torno, infinitas,</l>
							<l>Precipitadas, vão, soltas,</l>
							<l>Revoltas nuvens de fitas,</l>
							<l>Nuvens de rendas revoltas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, de entre as rendas e o arminho,</l>
							<l>Saltam seus seios rosados,</l>
							<l>Como de dentro de um ninho</l>
							<l>Dois pássaros assustados.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E da lâmpada suspensa</l>
							<l>Treme o clarão; e há por tudo</l>
							<l>Uma agitação imensa,</l>
							<l>Um êxtase imenso e mudo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, como que por encanto,</l>
							<l>Num longo rumor de beijos,</l>
							<l>Há vozes em cada canto</l>
							<l>E em cada canto desejos...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mais um gesto... E, vagarosa,</l>
							<l>Dos ombros solta, a camisa</l>
							<l>Pelo seu corpo, amorosa</l>
							<l>E sensualmente, desliza.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o tronco altivo e direito,</l>
							<l>O braço, a curva macia</l>
							<l>Da espádua, o talhe do peito</l>
							<l>Que de tão branco irradia;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O ventre que, como a neve,</l>
							<l>Firme e alvíssimo se arqueia</l>
							<l>E apenas embaixo um leve</l>
							<l>Buço dourado sombreia;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A coxa firme, que desce</l>
							<l>Curvamente, a perna, o artelho;</l>
							<l>Todo o seu corpo aparece</l>
							<l>Subitamente no espelho...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas logo um deslumbramento</l>
							<l>Se espalha na alcova inteira:</l>
							<l>Com um rápido movimento</l>
							<l>Destouca-se a cabeleira.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que riquíssimo tesouro</l>
							<l>Naqueles fios dardeja!</l>
							<l>É como uma nuvem de ouro</l>
							<l>Que a envolve, e, em zelos, a beija.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Toda, contorno a contorno,</l>
							<l>Da fronte aos pés, cerca-a; e em ondas</l>
							<l>Fulvas derrama-se em torno</l>
							<l>De suas formas redondas:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, depois de apaixonada</l>
							<l>Beijá-la linha por linha,</l>
							<l>Cai-lhe às costas, desdobrada</l>
							<l>Como um manto de rainha...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Sahara vitae</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Lá vão eles, lá vão! O céu se arqueia</l>
							<l>Como um teto de bronze infindo e quente,</l>
							<l>E o sol fuzila e, fuzilando, ardente</l>
							<l>Criva de flechas de aço o mar de areia...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Lá vão, com os olhos onde a sede ateia</l>
							<l>Um fogo estranho, procurando em frente</l>
							<l>Esse oásis do amor que, claramente,</l>
							<l>Além, belo e falaz, se delineia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas o simum da morte sopra: a tromba</l>
							<l>Convulsa envolve-os, prostra-os; e aplacada</l>
							<l>Sobre si mesma roda e exausta tomba...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o sol de novo no ígneo céu fuzila...</l>
							<l>E sobre a geração exterminada</l>
							<l>A areia dorme plácida e tranquila.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Beijo eterno</head>
						<lg>
							<l rend="indent4">Quero um beijo sem fim,</l>
							<l>Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!</l>
							<l rend="indent">Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,</l>
							<l rend="indent5">Beija-me assim!</l>
							<l rend="indent3">O ouvido fecha ao rumor</l>
							<l rend="indent2">Do mundo, e beija-me, querida!</l>
							<l>Vive só para mim, só para a minha vida,</l>
							<l rend="indent4">Só para o meu amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Fora, repouse em paz</l>
							<l>Dormida em calmo sono a calma natureza,</l>
							<l rend="indent">Ou se debata, das tormentas presa, —</l>
							<l rend="indent5">Beija inda mais!</l>
							<l rend="indent3">E, enquanto o brando calor</l>
							<l rend="indent2">Sinto em meu peito de teu seio,</l>
							<l>Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,</l>
							<l rend="indent4">Com o mesmo ardente amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">De arrebol a arrebol,</l>
							<l>Vão-se os dias sem conto! E as noites, como os dias,</l>
							<l rend="indent">Sem conto vão-se, cálidas ou frias!</l>
							<l rend="indent5">Rutile o sol</l>
							<l rend="indent3">Esplêndido e abrasador!</l>
							<l rend="indent2">No alto as estrelas coruscantes,</l>
							<l>Tauxiando os largos céus, brilhem como diamantes!</l>
							<l rend="indent4">Brilhe aqui dentro o amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Suceda a treva à luz!</l>
							<l>Vele a noite de crepe a curva do horizonte;</l>
							<l rend="indent">Em véus de opala a madrugada aponte</l>
							<l rend="indent5">Nos céus azuis,</l>
							<l rend="indent3">E Vênus, como uma flor,</l>
							<l rend="indent2">Brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,</l>
							<l>Brilhe à porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?</l>
							<l rend="indent4">Só nos importa o amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Raive o sol no Verão!</l>
							<l>Venha o Outono! do Inverno os frígidos vapores</l>
							<l rend="indent">Toldem o céu! das aves e das flores</l>
							<l rend="indent5">Venha a estação!</l>
							<l rend="indent3">Que nos importa o esplendor</l>
							<l rend="indent2">Da primavera, e o firmamento</l>
							<l>Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?</l>
							<l rend="indent4">Beijemo-nos, amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Beijemo-nos! que o mar</l>
							<l>Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!</l>
							<l rend="indent">E cante o sol! a ave desperte e cante!</l>
							<l rend="indent5">Cante o luar,</l>
							<l rend="indent3">Cheio de um novo fulgor!</l>
							<l rend="indent2">Cante a amplidão! cante a floresta!</l>
							<l>E a natureza toda, em delirante festa,</l>
							<l rend="indent4">Cante, cante este amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Rasgue-se, à noite, o véu</l>
							<l>Das neblinas, e o vento inquira o monte e o vale:</l>
							<l rend="indent">“Quem canta assim?” E uma áurea estrela fale</l>
							<l rend="indent5">Do alto do céu</l>
							<l rend="indent3">Ao mar, presa de pavor:</l>
							<l rend="indent2">“Que agitação estranha é aquela?”</l>
							<l>E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela</l>
							<l rend="indent4">Responda que é o amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">E a ave, ao sol da manhã,</l>
							<l>Também, a asa vibrando, à estrela que palpita</l>
							<l rend="indent">Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:</l>
							<l rend="indent5">“Que beijo, irmã!</l>
							<l rend="indent3">Pudesses ver com que ardor</l>
							<l rend="indent2">Eles se beijam loucamente!”</l>
							<l>E inveje-nos a estrela... e apague o olhar dormente,</l>
							<l rend="indent4">Morta, morta de amor!...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Diz tua boca: “Vem!”</l>
							<l>“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar... Exclama</l>
							<l rend="indent">Todo o meu corpo que o teu corpo chama:</l>
							<l rend="indent5">“Morde também!”</l>
							<l rend="indent3">Ai! morde! que doce é a dor</l>
							<l rend="indent2">Que me entra as carnes, e as tortura!</l>
							<l>Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,</l>
							<l rend="indent4">Morto por teu amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent4">Quero um beijo sem fim,</l>
							<l>Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!</l>
							<l rend="indent">Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!</l>
							<l rend="indent5">Beija-me assim!</l>
							<l rend="indent3">O ouvido fecha ao rumor</l>
							<l rend="indent2">Do mundo, e beija-me, querida!</l>
							<l>Vive só para mim, só para minha vida,</l>
							<l rend="indent4">Só para o meu amor!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Pomba e chacal</head>
						<lg>
							<l>Ó Natureza! Ó mãe piedosa e pura!</l>
							<l>Ó cruel, implacável assassina!</l>
							<l>— Mão, que o veneno e o bálsamo propina</l>
							<l>E aos sorrisos as lágrimas mistura!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pois o berço, onde a boca pequenina</l>
							<l>Abre o infante a sorrir, é a miniatura</l>
							<l>A vaga imagem de uma sepultura,</l>
							<l>O gérmen vivo de uma atroz ruína?!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sempre o contraste! Pássaros cantando</l>
							<l>Sobre túmulos... flores sobre a face</l>
							<l>De ascosas águas pútridas boiando...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Anda a tristeza ao lado da alegria...</l>
							<l>E esse teu seio, de onde a noite nasce,</l>
							<l>É o mesmo seio de onde nasce o dia...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Medalha antiga</head>
						<opener>
							<argument type="tradução">
								<p>
									<hi rend="italic">(de Lisle).</hi>
								</p>
							</argument>
						</opener>
						<p/>
						<lg>
							<l>Este, sim! viverá por séculos e séculos,</l>
							<l>Vencendo o olvido. Soube a sua mão deixar,</l>
							<l>Ondeando no negror do ônix polido e rútilo,</l>
							<l rend="indent3">A alva espuma do mar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ao sol, bela e radiosa, o olhar surpreso e estático,</l>
							<l>Vê-se Kypre, à feição de uma jovem princesa,</l>
							<l>Molemente emergir à flor da face trêmula</l>
							<l rend="indent3">Da líquida turquesa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nua a deusa, nadando, a onda dos seios túmidos</l>
							<l>Leva diante de si, amorosa e sensual:</l>
							<l>E a onda mansa do mar borda de argênteos flóculos</l>
							<l rend="indent3">Seu pescoço imortal.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Livre das fitas, solto em quedas de ouro, espalha-se</l>
							<l>Gotejante o cabelo: e o seu corpo encantado</l>
							<l>Brilha nas águas, como, entre violetas unidas,</l>
							<l rend="indent3">Um lírio imaculado.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E nada, e folga, enquanto as barbatanas ásperas</l>
							<l>E as fulvas caudas no ar batendo, e em derredor</l>
							<l>Turvando o Oceano, em grupo os delfins atropelam-se,</l>
							<l rend="indent3">Para a fitar melhor.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>No cárcere</head>
						<lg>
							<l>Por que hei de, em tudo quanto vejo, vê-la?</l>
							<l>Por que hei de eterna assim reproduzida</l>
							<l>Vê-la na água do mar, na luz da estrela,</l>
							<l>Na nuvem de ouro e na palmeira erguida?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fosse possível ser a imagem dela</l>
							<l>Depois de tantas mágoas esquecida!...</l>
							<l>Pois acaso será, para esquece-la,</l>
							<l>Mister e força que me deixe a vida?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Negra lembrança do passado! Lento</l>
							<l>Martírio, lento e atroz! Por que não há de</l>
							<l>Ser dado a toda a mágoa o esquecimento?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por quê? Quem me encadeia sem piedade</l>
							<l>No cárcere sem luz deste tormento,</l>
							<l>Com os pesados grilhões desta saudade?</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Olhando a corrente</head>
						<lg>
							<l>Põe-te à margem! Contempla-a, lentamente,</l>
							<l>Crespa, turva, a rolar. Em vão indagas</l>
							<l>A que paragens, a que longes plagas</l>
							<l>Desce, ululando, a lúgubre torrente...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vem de longe, de longe... Ouve-lhe as pragas!</l>
							<l>Que infrene grita, que bramir frequente,</l>
							<l>Que coro de blasfêmias surdamente</l>
							<l>Rolam na queda dessas negras vagas!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Choras? Tremes? É tarde... Esses violentos</l>
							<l>Gritos escuta! Em lágrimas, tristonhos,</l>
							<l>Fechas os olhos?... Olha ainda o horror</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Daquelas águas! Vê! Teus juramentos</l>
							<l>Lá vão! lá vão levados os meus sonhos,</l>
							<l>Lá vai levado todo o nosso amor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tenho frio e ardo em febre!</l>
							<l>O amor me acalma e endouda! o amor me eleva e abate!</l>
							<l rend="indent">Quem há que os laços, que me prendem, quebre?</l>
							<l rend="indent">Que singular, que desigual combate!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Não sei que ervada flecha</l>
							<l>Mão certeira e falaz me cravou com tal jeito,</l>
							<l rend="indent">Que, sem que eu a sentisse, a estreita brecha</l>
							<l rend="indent">Abriu, por onde o amor entrou em meu peito.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">O amor me entrou tão cauto</l>
							<l>O incauto coração, que eu nem cuidei que estava,</l>
							<l rend="indent">Ao recebe-lo, recebendo o arauto</l>
							<l rend="indent">Desta loucura desvairada e brava.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Entrou. E, apenas dentro,</l>
							<l>Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno...</l>
							<l rend="indent">E hoje... ai! de mim, que dentro em mim concentro</l>
							<l rend="indent">Dores e gostos num lutar eterno!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">O amor, Senhora, vede:</l>
							<l>Prendeu-me. Em vão me esforço, e me debato, e grito;</l>
							<l rend="indent">Em vão me agito na apertada rede...</l>
							<l rend="indent">Mais me embaraço quanto mais me agito!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Falta-me o senso: a esmo,</l>
							<l>Como um cego, a tatear, busco nem sei que porto:</l>
							<l rend="indent">E ando tão diferente de mim mesmo,</l>
							<l rend="indent">Que nem sei se estou vivo ou se estou morto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Sei que entre as nuvens paira</l>
							<l>Minha fronte, e meus pés andam pisando a terra;</l>
							<l rend="indent">Sei que tudo me alegra e me desvaira,</l>
							<l rend="indent">E a paz desfruto, suportando a guerra.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">E assim peno e assim vivo:</l>
							<l>Que diverso querer! que diversa vontade!</l>
							<l rend="indent">Se estou livre, desejo estar cativo;</l>
							<l rend="indent">Se cativo, desejo a liberdade!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">E assim vivo, e assim peno;</l>
							<l>Tenho a boca a sorrir e os olhos cheios de água:</l>
							<l rend="indent">E acho o néctar num cálix de veneno,</l>
							<l rend="indent">A chorar de prazer e a rir de mágoa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Infinda mágoa! infindo</l>
							<l>Prazer! pranto gostoso e sorrisos convulsos!</l>
							<l rend="indent">Ah! Como dó assim viver, sentindo</l>
							<l rend="indent">Asas nos ombros e grilhões nos pulsos!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Nel mezzo del camin...</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada</l>
							<l>E triste, e triste e fatigado eu vinha,</l>
							<l>Tinhas a alma de sonhos povoada,</l>
							<l>E a alma de sonhos povoada eu tinha...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E paramos de súbito na estrada</l>
							<l>Da vida: longos anos, presa à minha</l>
							<l>A tua mão, a vista deslumbrada</l>
							<l>Tive da luz que teu olhar continha.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hoje, segues de novo... Na partida</l>
							<l>Nem o pranto os teus olhos umedece,</l>
							<l>Nem te comove a dor da despedida.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eu, solitário, volto a face, e tremo,</l>
							<l>Vendo o teu vulto que desaparece</l>
							<l>Na extrema curva do cominho extremo.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Solitudo</head>
						<lg>
							<l>Já que te é grato o sofrimento alheio,</l>
							<l>Vai! Não fique em minh’alma nem um traço,</l>
							<l>Nem um vestígio teu! Por todo o espaço</l>
							<l>Se estende o luto carregado e feio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Turvem-se os largos céus... No leito escasso</l>
							<l>Dos rios a água seque... E eu tenha o seio</l>
							<l>Como um deserto pavoroso, cheio</l>
							<l>De horrores, sem sinal de humano passo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vão-se as aves e as flores juntamente</l>
							<l>Contigo... Torre o sol a verde alfombra,</l>
							<l>A areia envolva solidão inteira...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E só fique em meu peito o Saara ardente</l>
							<l>Sem um oásis, sem a esquiva sombra</l>
							<l>De uma isolada e trêmula palmeira!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A canção de Romeu</head>
						<lg>
							<l rend="indent2">Abre a janela... acorda!</l>
							<l rend="indent2">Que eu, só por te acordar,</l>
							<l>Vou pulsando a guitarra, corda a corda,</l>
							<l rend="indent3">Ao luar!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">As estrelas surgiram</l>
							<l rend="indent2">Todas: e o limpo véu,</l>
							<l>Como lírios alvíssimos, cobriram</l>
							<l rend="indent3">Do céu.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">De todas a mais bela</l>
							<l rend="indent2">Não veio inda, porém:</l>
							<l>Falta uma estrela... És tu! Abre a janela,</l>
							<l rend="indent3">E vem!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">A alva cortina ansiosa</l>
							<l rend="indent2">Do leito entreabre; e, ao chão</l>
							<l>Saltando, o ouvido presta à harmoniosa</l>
							<l rend="indent3">Canção.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Solta os cabelos cheios</l>
							<l rend="indent2">De aroma: e seminus,</l>
							<l>Surjam formosos, trêmulos, teus seios</l>
							<l rend="indent3">À luz.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Repousa o espaço mudo;</l>
							<l rend="indent2">Nem uma aragem, vês?</l>
							<l>Tudo é silêncio, tudo calma, tudo</l>
							<l rend="indent3">Mudez.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Abre a janela, acorda!</l>
							<l rend="indent2">Que eu, só por te acordar,</l>
							<l>Vou pulsando a guitarra corda a corda,</l>
							<l rend="indent3">Ao luar!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Que puro céu! que pura</l>
							<l rend="indent2">Noite! nem um rumor...</l>
							<l>Só a guitarra em minhas mãos murmura:</l>
							<l rend="indent3">Amor!...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Não foi o vento brando</l>
							<l rend="indent2">Que ouviste soar aqui:</l>
							<l>É o choro da guitarra, perguntando</l>
							<l rend="indent3">Por ti.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Não foi a ave que ouviste</l>
							<l rend="indent2">Chilrando no jardim:</l>
							<l>É a guitarra que geme e trila triste</l>
							<l rend="indent3">Assim.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Vens, que esta voz secreta</l>
							<l rend="indent2">É o canto de Romeu!</l>
							<l>Acorda! quem te chama, Julieta,</l>
							<l rend="indent3">Sou eu!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Porém... Ó cotovia,</l>
							<l rend="indent2">Silêncio! a aurora, em véus</l>
							<l>De névoa e rosas, não descobre o dia</l>
							<l rend="indent3">Nos céus...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Silêncio! que ela acorda...</l>
							<l rend="indent2">Já fulge o seu olhar...</l>
							<l>Adormeça a guitarra, corda a corda,</l>
							<l rend="indent3">Ao luar!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A tentação de Xenócrates</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Nada turbava aquela vida austera:</l>
								<l>Calmo, traçada a túnica severa,</l>
								<l>Impassível, cruzando a passos lentos</l>
								<l>As aleias de plátanos, — dizia</l>
								<l>Das faculdades de alma e da teoria</l>
								<l>De Platão aos discípulos atentos.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ora o viram perder-se, concentrado,</l>
								<l>No labirinto escuso de intricado,</l>
								<l>Controverso e sofístico problema,</l>
								<l>Ora os pontos obscuros explicando</l>
								<l>Do Timeu, e seguro manejando</l>
								<l>A lâmina bigúmea do dilema.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Muitas vezes, nas mãos pousando a fronte,</l>
								<l>Com o vago olhar perdido no horizonte,</l>
								<l>Em pertinaz meditação ficava...</l>
								<l>Assim, junto às sagradas oliveiras,</l>
								<l>Era imoto seu corpo horas inteiras,</l>
								<l>Mas longe dele o espírito pairava.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Longe, acima do humano fervedouro,</l>
								<l rend="indent2">Sobre as nuvens radiantes,</l>
								<l>Sobre a planície das estrelas de ouro;</l>
								<l>Na alta esfera, no páramo profundo</l>
								<l rend="indent2">Onde não vão, errantes,</l>
								<l>Bramir as vozes das paixões do mundo:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">Aí, na eterna calma,</l>
								<l>Na eterna luz dos céus silenciosos,</l>
								<l rend="indent2">Voa, abrindo, sua alma</l>
								<l rend="indent2">As asas invisíveis,</l>
								<l>E interrogando os vultos majestosos</l>
								<l rend="indent2">Dos deuses impassíveis...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E a noite desce, afuma o firmamento...</l>
								<l rend="indent2">Soa somente, a espaços,</l>
								<l>O prolongado sussurrar do vento...</l>
								<l>O expira, às luzes últimas do dia,</l>
								<l rend="indent2">Todo o rumor dos passos</l>
								<l>Pelos ermos jardins da Academia.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">E, longe, luz mais pura</l>
								<l>Que a extinta luz daquele dia morto</l>
								<l rend="indent2">Xenócrates procura:</l>
								<l rend="indent2">— Imortal claridade,</l>
								<l>Que é proteção e amor, vida e conforto,</l>
								<l rend="indent2">Porque é a luz da verdade.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l>Ora Laís, a siciliana escrava</l>
								<l>Que Apeles seduzira, amada e bela</l>
								<l>Por esse tempo Atenas dominava...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Nem o frio Demóstenes altivo</l>
								<l>Lhe foge o império: dos encantos dela</l>
								<l>Curva-se o próprio Diógenes cativo.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Não é maior que a sua a encantadora</l>
								<l>Graça das formas nítidas e puras</l>
								<l>Da irresistível Diana caçadora;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Há nos seus olhos um poder divino;</l>
								<l>Há venenos e pérfidas doçuras</l>
								<l>Na fita de seu lábio purpurino;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Tem nos seios – dois pássaros que pulam</l>
								<l>Ao contacto de um beijo, — nos pequenos</l>
								<l>Pés, que as sandálias sôfregas osculam.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Na coxa, no quadril, no torno airoso,</l>
								<l>Todo o primor da calipígia Vênus</l>
								<l>— Estátua viva e esplêndida do Gozo.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Caem-lhe aos pés as pérolas e as flores,</l>
								<l>As dracmas de ouro, as almas e os presentes,</l>
								<l>Por uma noite de febris ardores.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Heliastes e Eupátridas sagrados,</l>
								<l>Artistas e Oradores eloquentes</l>
								<l>Leva ao carro de glória acorrentados...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E os generais indômitos, vencidos,</l>
								<l>Vendo-a, sentem por baixo das couraças</l>
								<l>Os corações de súbito feridos.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<lg>
								<l>Certa noite, ao clamor da festa, em gala,</l>
								<l>Ao som contínuo das lavradas taças</l>
								<l>Tinindo cheias na espaçosa sala,</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Vozeava o Cerâmico, repleto</l>
								<l>De cortesãs e flores. As mais belas</l>
								<l>Das heteras de Samos e Mileto</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Eram todas na orgia. Estas bebiam,</l>
								<l>Nuas, à deusa Ceres. Longe, aquelas</l>
								<l>Em animados grupos discutiam.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Pendentes no ar, em nuvens densas, vários</l>
								<l>Quentes incensos índicos queimando,</l>
								<l>Oscilavam de leve os incensários.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Tíbios flautins finíssimos gritavam;</l>
								<l>E, as curvas harpas de ouro acompanhando,</l>
								<l>Crótalos claros de metal cantavam...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>O espúmeo Chipre as faces dos convivas</l>
								<l>Acendia. Soavam desvairados</l>
								<l>Febris acentos de canções lascivas.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Via-se a um lado a pálida Frineia,</l>
								<l>Provocando os olhares deslumbrados</l>
								<l>E os sensuais desejos da assembleia.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Laís além falava: e, de seus lábios</l>
								<l>Suspensos, a beber-lhe a voz maviosa,</l>
								<l>Cercavam-na Filósofos e Sábios.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Nisto, entre a turba, ouviu-se a zombeteira</l>
								<l>Voz de Aristipo: “És bela e poderosa,</l>
								<l>Laís! mas, por que sejas a primeira,</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>A mais irresistível das mulheres,</l>
								<l>Cumpre domar Xenócrates! És bela...</l>
								<l>Poderás fasciná-lo se o quiseres!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Doma-o, e serás rainha! "Ela sorria...</l>
								<l>E apostou que, submisso e vil, naquela</l>
								<l>Mesma noite a seus pés o prostraria.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Apostou e partiu...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>IV</head>
							<lg>
								<l rend="indent3">Na alcova muda e quieta,</l>
								<l rend="indent2">Apenas se escutava</l>
								<l>Leve, a areia, a cair no vidro da ampulheta...</l>
								<l rend="indent2">Xenócrates velava.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">Mas que harmonia estranha,</l>
								<l>Que sussurro lá fora! Agita-se o arvoredo</l>
								<l>Que o límpido luar serenamente banha:</l>
								<l rend="indent2">Treme, fala em segredo...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>As estrelas, que o céu cobrem de lado a lado,</l>
								<l rend="indent2">A água ondeante dos lagos</l>
								<l>Fitam, nela espalhando o seu clarão dourado,</l>
								<l rend="indent2">Em tímidos afagos.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">Solta um pássaro o canto.</l>
								<l>Há um cheiro de carne à beira dos caminhos...</l>
								<l>E acordam ao luar, como que por encanto,</l>
								<l rend="indent2">Estremecendo, os ninhos...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que indistinto rumor! Vibram na voz do vento</l>
								<l rend="indent2">Crebos, vivos arpejos.</l>
								<l>E vai da terra e vem do curvo firmamento</l>
								<l rend="indent2">Como um clamor de beijos.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">Com as asas de ouro, em roda</l>
								<l>Do céu, naquela noite úmida e clara, voa</l>
								<l>Alguém que a tudo acorda e a natureza toda</l>
								<l rend="indent2">De desejos povoa:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É a Volúpia que passa e no ar desliza; passa,</l>
								<l rend="indent2">E os corações inflama...</l>
								<l>Lá vai! E, sobre a terra, o amor, da curva taça</l>
								<l rend="indent2">Que traz às mãos, derrama.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">E entretanto, deixando</l>
								<l>A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,</l>
								<l>Xenócrates medita, as magras mãos cruzando</l>
								<l rend="indent2">Sobre o escarnado peito.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Cisma. E tão aturada é a cisma em que flutua</l>
								<l>Sua alma, e que as regiões ignotas o transporta,</l>
								<l>— Que não sente Laís, que surge seminua</l>
								<l rend="indent2">Da muda alcova à porta.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>V</head>
							<lg>
								<l>É bela assim! Desprende a clâmide! Revolta,</l>
								<l>Ondeante, a cabeleira, aos níveos ombros solta,</l>
								<l>Cobre-lhe os seios nus e a curva dos quadris,</l>
								<l>Num louco turbilhão de áureos fios subtis.</l>
								<l>Que fogo em seu olhar! Vê-lo é a seus pés prostrada</l>
								<l>A alma ter suplicante, em lágrimas banhada,</l>
								<l>Em desejos acesa! Olhar divino! Olhar</l>
								<l>Que encadeia, e domina, e arrasta ao seu altar</l>
								<l>Os que morrem por ela, e ao céu pedem mais vida,</l>
								<l>Para tê-la por ela inda uma vez perdida!</l>
								<l part="I">Mas Xenócrates cisma...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l part="F">É em vão que, a prumo, o sol</l>
								<l>Desse olhar abre a luz num radiante arrebol...</l>
								<l>Em vão! Vem tarde o sol! Jaz extinta a cratera,</l>
								<l>Não há vida, nem ar, nem luz, nem primavera:</l>
								<l>Gelo apenas! E, em gelo envolto, ergue o vulcão</l>
								<l>Os flancos, entre a névoa e a opaca cerração...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Cisma o sábio. Que importa aquele corpo ardente</l>
								<l>Que o envolve, e enlaça, e prende, e aperta loucamente?</l>
								<l>Fosse cadáver frio o mundo ancião! talvez</l>
								<l>Mais sentisse o calor daquela ebúrnea tez!...</l>
								<l>Em vão Laís o braça, e o nacarado lábio</l>
								<l>Chega-lhe ao lábio frio... Em vão! Medita o sábio,</l>
								<l>E nem sente o calor desse corpo que o atrai,</l>
								<l>Nem o aroma febril que dessa boca sai.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E ela: “Vivo não és! Jurei domar um homem,</l>
								<l>Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!”</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Xenócrates, então, do leito levantou</l>
								<l>O corpo, e o olhar no olhar da cortesã cravou:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>“Pode rugir a carne... Embora! Dela acima</l>
								<l>Paira os espírito ideal que a purifica e anima:</l>
								<l>Cobrem nuvens o espaço, e, acima do atro véu</l>
								<l>Das nuvens, brilha a estrela iluminando o céu!”</l>
							</lg>
							<lg>
								<l rend="indent2">Disse.  E outra vez, deixando</l>
								<l>A alva barba espalhar-se em rolos sobre o leito,</l>
								<l>Quedou-se a meditar, as magras mãos cruzando</l>
								<l rend="indent2">Sobre o escarnado peito.</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
				</div>
				<div type="part">
					<head>ALMA INQUIETA</head>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A avenida das lágrimas</head>
						<div type="dedication">
							<salute>
								<p>
									<hi rend="italic">A um Poeta morto.</hi>
								</p>
							</salute>
						</div>
						<lg>
							<l>Quando a primeira vez a harmonia secreta</l>
							<l>De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,</l>
							<l>— Dentro do coração do primeiro poeta</l>
							<l>Desabrochou a flor da lágrima primeira.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o poeta sentiu os olhos rasos de água;</l>
							<l>Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:</l>
							<l>Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,</l>
							<l>Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E na terra, por onde o sonhador passava,</l>
							<l>Ia a roxa corola espalhando as sementes:</l>
							<l>De modo que, a brilhar, pelo solo ficava</l>
							<l>Uma vegetação de lágrimas ardentes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Foi assim que se fez a Via Dolorosa,</l>
							<l>A avenida ensombrada e triste da Saudade,</l>
							<l>Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa</l>
							<l>Dos órgãos do carinho e da felicidade.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Recalcando no peito os gritos e os soluços,</l>
							<l>Tu conheceste bem essa longa avenida,</l>
							<l>— Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,</l>
							<l>Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Teu pé também deixou um sinal neste solo;</l>
							<l>Também por este solo arrastaste o teu manto...</l>
							<l>E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,</l>
							<l>Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas tua alma ficou, livre da desventura,</l>
							<l>Docemente sonhando, às delícias da lua:</l>
							<l>Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,</l>
							<l>Guardando na corola uma lembrança tua...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,</l>
							<l>Se imortalizará, pelas almas disperso:</l>
							<l>— Porque purificou a torpeza da terra</l>
							<l>Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Inania verba</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,</l>
							<l>O que a boca não diz, o que a mão não escreve?</l>
							<l>— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,</l>
							<l>Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:</l>
							<l>A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...</l>
							<l>E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,</l>
							<l>Que, perfume e clarão, refulgia e voava.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quem o molde achará para a expressão de tudo?</l>
							<l>Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas</l>
							<l>Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?</l>
							<l>E as palavras de fé que nunca foram ditas?</l>
							<l>E as confissões de amor que morrem na garganta?!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Midsummer’s night’s dream</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Quem o encanto dirá destas noites de estio?</l>
							<l>Corre de estrela a estrela um leve calefrio,</l>
							<l>Há queixas doces no ar... Eu, recolhido e só,</l>
							<l>Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,</l>
							<l>Para purificar o coração manchado,</l>
							<l>Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que esquisita saudade! — Uma lembrança estranha</l>
							<l>De ter vivido já no alto de uma montanha,</l>
							<l>Tão alta, que tocava o céu... Belo país,</l>
							<l>Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,</l>
							<l>Livre da ingratidão, livre da indiferença,</l>
							<l>No seio maternal da Ilusão e da Crença!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que inexorável mão, sem piedade, cativo,</l>
							<l>Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?</l>
							<l>Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,</l>
							<l>Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!</l>
							<l>Por que, para uma ignota e longínqua paragem,</l>
							<l>Astros, não me levais nessa eterna viagem?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! quem pode saber de que outras vida veio?...</l>
							<l>Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio</l>
							<l>Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!</l>
							<l>Tremo... e cuido sentir dentro de mim pesar</l>
							<l>Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,</l>
							<l>— O cadáver de alguém de quem carrego a vida...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Mater</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Tu, grande Mãe!... do amor de teus filhos escrava,</l>
							<l>Para teus filhos és, no caminho da vida,</l>
							<l>Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava</l>
							<l rend="indent2">À longe Terra Prometida.</l>
						</lg>
						<lg>>
							<l>Jorra de teu olhar um rio luminoso.</l>
							<l>Pois, para batizar essas almas em flor,</l>
							<l>Deixas cascatear desse olhar carinhoso</l>
							<l rend="indent2">Todo o Jordão do teu amor.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E espalham tanto brilho as asas infinitas</l>
							<l>Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,</l>
							<l>Que o seu grande clarão sobe, quando as agitas,</l>
							<l rend="indent2">E vai perder-se entre as estrelas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,</l>
							<l>Fogem da humana dor, fogem do humano pó,</l>
							<l>E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,</l>
							<l rend="indent2">Que é como a escada de Jacó.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Incontentado</head>
						<lg>
							<l>Paixão sem grita, amor sem agonia,</l>
							<l>Que não oprime nem magoa o peito,</l>
							<l>Que nada mais do que possui queria,</l>
							<l>E com tão pouco vive satisfeito...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Amor, que os exageros repudia,</l>
							<l>Misturado de estima e de respeito,</l>
							<l>E, tirando das mágoas alegria,</l>
							<l>Fica farto, ficando sem proveito...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Viva sempre a paixão que me consome,</l>
							<l>Sem uma queixa, sem um só lamento!</l>
							<l>Arda sempre este amor que desanimas!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Eu, eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,</l>
							<l>O coração, malgrado o sofrimento,</l>
							<l>Como um rosal desabrochado em rimas.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Sonho</head>
						<lg>
							<l>Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade</l>
							<l>Solto para onde estás, e fico de ti perto!</l>
							<l>Como, depois do sonho, é triste a realidade!</l>
							<l>Como tudo, sem ti, fica depois deserto!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.</l>
							<l>Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:</l>
							<l>De cada estrela de ouro um anjo se debruça,</l>
							<l>E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.</l>
							<l>Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.</l>
							<l>E, como sobre um leito um alvo cortinado,</l>
							<l>Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Porém, subitamente, um relâmpago corta</l>
							<l>Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta</l>
							<l>E, sorrindo, serena, aparecer à porta,</l>
							<l>Como numa moldura a imagem de uma Santa...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Primavera</head>
						<lg>
							<l>Ah! quem nos dera que isto, como outrora,</l>
							<l>Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera</l>
							<l>Que inda juntos pudéssemos agora</l>
							<l>Ver o desabrochar da primavera!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Saíamos com os pássaros e a aurora.</l>
							<l>E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,</l>
							<l>Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:</l>
							<l>"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E esse corpo de rosa recendia,</l>
							<l>E aos meus beijos de fogo palpitava,</l>
							<l>Alquebrado de amor e de cansaço...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A alma da terra gorjeava e ria...</l>
							<l>Nascia a primavera... E eu te levava,</l>
							<l>Primavera de carne, pelo braço!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Dormindo</head>
						<lg>
							<l>De qual de vós desceu para o exílio do mundo</l>
							<l>A alma desta mulher, astros do céu profundo?</l>
							<l>Dorme talvez agora... Alvíssimas, serenas,</l>
							<l>Cruzam-se numa prece as suas mão pequenas.</l>
							<l>Para a respiração suavíssima lhe ouvir,</l>
							<l>A noite se debruça... E, a oscilar e a fulgir,</l>
							<l>Brande o gládio de luz, que a escuridão recorta,</l>
							<l>Um arcanjo, de pé, guardando a sua porta.</l>
							<l>Versos! podeis voar em torno desse leito,</l>
							<l>E pairar sobre o alvor virginal de seu peito,</l>
							<l>Aves, tontas de luz, sobre um fresco pomar...</l>
							<l>Dorme... Rimas febris, podeis febris voar...</l>
							<l>Como ela, num livor de névoas misteriosas,</l>
							<l>Dorme o céu, campo azul semeado de rosas;</l>
							<l>E dois anjos do céu, alvos e pequeninos,</l>
							<l>Vêm dormir nos dois céus dos seus olhos divinos...</l>
							<l>Caravana, que Deus pelo espaço conduz!</l>
							<l>Todo o vosso clarão nesta pequena alcova</l>
							<l>Sobre ela, como um nimbo esplêndido, se mova:</l>
							<l>E, a sorrir e a sonhar, sua livre cabeça</l>
							<l>Como a da Virgem Mãe repouse e resplandeça!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Noturno</head>
						<lg>
							<l>Já toda a terra adormece.</l>
							<l>Sai um soluço da flor.</l>
							<l>Rompe de tudo um rumor,</l>
							<l>Leve como o de uma prece.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A tarde cai. Misterioso,</l>
							<l>Geme entre os ramos o vento.</l>
							<l>E há por todo o firmamento</l>
							<l>Um anseio doloroso.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Áureo turíbulo imenso,</l>
							<l>O ocaso em púrpuras arde,</l>
							<l>E para a oração da tarde</l>
							<l>Desfaz-se em rolos de incenso.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Moribundos e suaves,</l>
							<l>O vento na asa conduz</l>
							<l>O último raio da luz</l>
							<l>E o último canto das aves.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E Deus, na altura infinita,</l>
							<l>Abre a mão profunda e calma,</l>
							<l>Em cuja profunda palma</l>
							<l>Todo o Universo palpita.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas um barulho se eleva...</l>
							<l>E, no páramo celeste,</l>
							<l>A horda dos astros investe</l>
							<l>Contra a muralha da treva.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>As estrelas, salmodiando</l>
							<l>O Peã sacro, a voar,</l>
							<l>Enchem de cânticos o ar...</l>
							<l>E vão passando... passando...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Agora, maior tristeza,</l>
							<l>Silêncio agora mais fundo;</l>
							<l>Dorme, num sono profundo,</l>
							<l>Sem sonhos, a natureza.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A flor-da-noite abre o cálix...</l>
							<l>E, soltos, os pirilampos</l>
							<l>Cobrem a face dos campos,</l>
							<l>Enchem o seio dos vales:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Trêfegos e alvoroçados,</l>
							<l>Saltam, fantásticos Djins,</l>
							<l>De entre as moitas de jasmins,</l>
							<l>De entre os rosais perfumados.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Um deles pela janela</l>
							<l>Entra do teu aposento,</l>
							<l>E para, plácido e atento,</l>
							<l>Vendo-te, pálida e bela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Chega ao teu cabelo fino,</l>
							<l>Mete-se nele: e fulgura,</l>
							<l>E arde nessa noite escura,</l>
							<l>Como um astro pequenino.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E fica. Os outros lá fora</l>
							<l>Deliram. Dormes... Feliz,</l>
							<l>Não ouves o que ele diz,</l>
							<l>Não ouves como ele chora...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Diz ele: "O poeta encerra</l>
							<l>Uma noite, em si, mais triste</l>
							<l>Que essa que, quando dormiste,</l>
							<l>Velava a face da terra...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Os outros saem do meio</l>
							<l>Das moitas cheias de flores:</l>
							<l>Mas eu saí de entre as dores</l>
							<l>Que ele tem dentro do seio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Os outros a toda parte</l>
							<l>Levam o vivo clarão,</l>
							<l>E eu vim do seu coração</l>
							<l>Só para ver-te e beijar-te.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mandou-me sua alma louca,</l>
							<l>Que a dor da ausência consome,</l>
							<l>Saber se em sonho o seu nome</l>
							<l>Brilha agora em tua boca!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mandou-me ficar suspenso</l>
							<l>Sobre o teu peito deserto,</l>
							<l>Por contemplar de mais perto</l>
							<l>Todo esse deserto imenso!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Isso diz o pirilampo...</l>
							<l>Anda lá fora um rumor</l>
							<l>De asas rufladas... A flor</l>
							<l>Desperta, desperta o campo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Todos os outros, prevendo</l>
							<l>Que vinha o dia, partiram,</l>
							<l>Todos os outros fugiram...</l>
							<l>Só ele fica gemendo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fica, ansioso e sozinho,</l>
							<l>Sobre o teu sono pairando...</l>
							<l>E apenas, a luz fechando,</l>
							<l>Volve de novo ao seu ninho,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quando vê, inda não farto</l>
							<l>De te ver e de te amar,</l>
							<l>Que o sol descerras do olhar,</l>
							<l>E o dia nasce em teu quarto...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Virgens mortas</head>
						<lg>
							<l>Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,</l>
							<l>Nova, no velo engaste azul do firmamento:</l>
							<l>E a alma da que morreu, de momento em momento,</l>
							<l>Na luz da que nasceu palpita e resplandece.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ó vós, que, no silêncio e no recolhimento</l>
							<l>Do campo, conversais a sós, quando anoitece,</l>
							<l>Cuidado! – o que dizeis, como um rumor de prece,</l>
							<l>Vai sussurrar no céu, levado pelo vento...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Namorados, que andais, com a boca transbordando</l>
							<l>De beijos, perturbando o campo sossegado</l>
							<l>E o casto coração das flores inflamando,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Piedade! elas veem tudo entre as moitas escuras...</l>
							<l>Piedade! esse impudor ofende o olhar gelado</l>
							<l>Das que viveram sós, das que morreram puras!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>O cavaleiro pobre</head>
						<opener>
							<argument type="inspiração">
								<p>
									<hi rend="italic">(Pouchkine).</hi>
								</p>
							</argument>
						</opener>
						<lg>
							<l>Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,</l>
							<l>Que viveu solitário, e morreu sem falar:</l>
							<l>Era simples e sóbrio, era valente e nobre,</l>
							<l rend="indent2">E pálido como o luar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Antes de se entregar às fadigas da guerra,</l>
							<l>Dizem que um dia viu qualquer cousa do céu:</l>
							<l>E achou tudo vazio... e pareceu-lhe a terra</l>
							<l rend="indent2">Um vasto e inútil mausoléu.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Desde então, uma atroz devoradora chama</l>
							<l>Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.</l>
							<l>E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,</l>
							<l rend="indent2">— Nem uma só! nem uma só!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Conservou, desde então, a viseira abaixada:</l>
							<l>E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,</l>
							<l>Trazia uma inscrição de três letras, gravada</l>
							<l rend="indent2">A fogo e sangue no broquel.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,</l>
							<l>No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,</l>
							<l>Cada filho da Cruz se batia, invocando</l>
							<l rend="indent2">Um nome caro de mulher,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ela rouco, brandindo o pique no ar, clamava:</l>
							<l>
								<hi rend="italic">Lumen coeli Regina!</hi> e, ao clamor dessa voz,</l>
							<l>Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,</l>
							<l rend="indent2">Irresistível e feroz.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,</l>
							<l>E negou-lhe o destino outra vida melhor:</l>
							<l>Foi viver no deserto... E era imenso o deserto!</l>
							<l rend="indent2">Mas o seu Sonho era maior!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,</l>
							<l>Louco, velho, feroz, — naquela solidão</l>
							<l>Morreu: — mudo, rilhando os dentes, devorado</l>
							<l rend="indent2">Pelo seu próprio coração.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Ida</head>
						<lg>
							<l>Para a porta do céu, pálida e bela,</l>
							<l>Ida as asas levanta e as nuvens corta.</l>
							<l>Correm os anjos: e a criança morta</l>
							<l>Foge dos anjos namorados dela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Longe do amor materno o céu que importa?</l>
							<l>O pranto os olhos límpidos lhe estrela...</l>
							<l>Sob as rosas de neve da capela,</l>
							<l>Ida soluça, vendo abrir-se a porta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quem lhe dera outra vez o escuro canto</l>
							<l>Da escura terra, onde, a sangrar, sozinho,</l>
							<l>Um coração de mão desfaz-se em pranto!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cerra-se a porta: os anjos todos voam...</l>
							<l>Como fica distante aquele ninho,</l>
							<l>Que as mães adoram... mas amaldiçoam!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Noite de inverno</head>
						<lg>
							<l rend="indent2">Sonho que estás à porta...</l>
							<l>Estás – abro-te os braços! – quase morta,</l>
							<l>Quase morta de amor e de ansiedade...</l>
							<l>De onde ouviste o meu grito, que voava,</l>
							<l>E sobre as asas trêmulas levava</l>
							<l rend="indent2">As preces da saudade?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Corro à porta... ninguém! Silêncio e treva.</l>
							<l>Hirta, na sombra, a Solidão eleva</l>
							<l>Os longos braços rígidos, de gelo...</l>
							<l>E há pelo corredor ermo e comprido</l>
							<l>O suave rumor de teu vestido,</l>
							<l>E o perfume subtil de teu cabelo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Ah! se agora chegasses!</l>
							<l>Se eu sentisse bater em minhas faces</l>
							<l>A luz celeste que teus olhos banha;</l>
							<l>Se este quarto se enchesse de repente</l>
							<l>Da melodia, e do clarão ardente</l>
							<l rend="indent2">Que os passos te acompanha:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beijos, presos no cárcere da boca,</l>
							<l>Sofreando a custo toda a sede louca,</l>
							<l>Toda a sede infinita que os devora,</l>
							<l>— Beijos de fogo, palpitando, cheios</l>
							<l>De gritos, de gemidos e de anseios,</l>
							<l>Transbordariam por teu corpo afora!...</l>
						</lg>
						<lg> rend="indent2"
							<l>Rio aceso, banhando</l>
							<l>Teu corpo, cada beijo, rutilando,</l>
							<l>Se apressaria, acachoado e grosso:</l>
							<l>E, cascateando, em pérolas desfeito,</l>
							<l>Subiria a colina de teu peito,</l>
							<l rend="indent2">Lambendo-te o pescoço...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Estrela humana que do céu desceste!</l>
							<l>Desterrada do céu, a luz perdeste</l>
							<l>Dos fulvos raios, amplos e serenos;</l>
							<l>E na pele morena e perfumada</l>
							<l>Guardaste apenas essa cor dourada</l>
							<l>Que é a mesma cor de Sírius e de Vênus.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Sob a chuva de fogo</l>
							<l>De meus beijos, amor! terias logo</l>
							<l>Todo o esplendor do brilho primitivo;</l>
							<l>E, eternamente presa entre meus braços,</l>
							<l>Bela, protegerias os meus passos,</l>
							<l rend="indent2">— Astro formoso e vivo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas... talvez te ofendesse o meu desejo...</l>
							<l>E, ao teu contacto gélido, meu beijo</l>
							<l>Fosse cair por terra, desprezado...</l>
							<l>Embora! que eu ao menos te olharia,</l>
							<l>E, presa do respeito, ficaria</l>
							<l>Silencioso e imóvel a teu lado.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Fitando o olhar ansioso</l>
							<l>No teu, lendo esse livro misterioso,</l>
							<l>Eu descortinaria a minha sorte...</l>
							<l>Até que ouvisse, desse olhar ao fundo,</l>
							<l>Soar, num dobre lúgubre e profundo,</l>
							<l rend="indent2">A hora da minha morte!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Longe embora de mim teu pensamento,</l>
							<l>Ouvirias aqui, louco e violento,</l>
							<l>Bater meu coração em cada canto;</l>
							<l>E ouvirias, como uma melopeia,</l>
							<l>Longe embora de mim a tua ideia,</l>
							<l>A música abafada de meu pranto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Dormirias, querida...</l>
							<l>E eu, guardando-te, bela e adormecida,</l>
							<l>Orgulhoso e feliz com o meu tesouro,</l>
							<l>Tiraria os meus versos do abandono,</l>
							<l>E eles embalariam o teu sono,</l>
							<l rend="indent2">Como uma rede de ouro.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas não bens! não virás! Silêncio e treva...</l>
							<l>Hirta, na sombra, a Solidão eleva</l>
							<l>Os longos braços rígidos de gelo;</l>
							<l>E há, pelo corredor ermo e comprido,</l>
							<l>O suave rumor de teu vestido</l>
							<l>E o perfume subtil de teu cabelo...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Vanitas</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,</l>
							<l>Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,</l>
							<l>E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada</l>
							<l>De gritos de triunfo e gritos de agonia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Prende a ideia fugaz; doma a rima bravia,</l>
							<l>Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada:</l>
							<l>"Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!</l>
							<l>Filha do meu trabalho! ergue-te à luz do dia!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cheia da minha febre e da minha alma cheia,</l>
							<l>Arranquei-te da vida ao ádito profundo,</l>
							<l>Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Posso agora morrer, porque vives!" E o Poeta</l>
							<l>Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,</l>
							<l>E cai – vaidade humana! – ao pé de um grão de areia...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Tercetos</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Noite ainda, quando ela me pedia</l>
								<l>Entre dois beijos que me fosse embora,</l>
								<l>Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>"Espera ao menos que desponte a aurora!</l>
								<l>Tua alcova é cheirosa como um ninho...</l>
								<l>E olha que escuridão há lá por fora!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Como queres que eu vá, triste e sozinho,</l>
								<l>Casando a treva e o frio de meu peito</l>
								<l>Ao frio e à treva que há pelo caminho?!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!</l>
								<l>Não arrojes à chuva e à tempestade!</l>
								<l>Não me exiles do vale do teu leito!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Morrerei de aflição e de saudade...</l>
								<l>Espera! até que o dia resplandeça,</l>
								<l>Aquece-me com a tua mocidade!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Sobre o teu colo deixa-me a cabeça</l>
								<l>Repousar, como há pouco repousava...</l>
								<l>Espera um pouco! deixa que amanheça!"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>— E ela abria-me os braços. E eu ficava.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l>E, já manhã, quando ela me pedia</l>
								<l>Que de seu claro corpo me afastasse,</l>
								<l>Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>"Não pode ser! não vês que o dia nasce?</l>
								<l>A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...</l>
								<l>Que diria de ti quem me encontrasse?</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ah! nem me digas que isso pouco importa!...</l>
								<l>Que pensariam, vendo-me, apressado,</l>
								<l>Tão cedo assim, saindo a tua porta,</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Vendo-me exausto, pálido, cansado,</l>
								<l>E todo pelo aroma de teu beijo</l>
								<l>Escandalosamente perfumado?</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>O amor, querida, não exclui o pejo...</l>
								<l>Espera! até que o sol desapareça,</l>
								<l>Beija-me a boca! mata-me o desejo!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Sobre o teu colo deixa-me a cabeça</l>
								<l>Repousar, como há pouco repousava!</l>
								<l>Espera um pouco! deixa que anoiteça!"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>— E ela abria-me os braços. E eu ficava.</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">In extremis</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia</l>
							<l part="I">Assim! de um sol assim!</l>
							<l part="F">Tu, desgrenhada e fria,</l>
							<l>Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,</l>
							<l>E apertando nos teus os meus dedos gelados...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera</l>
							<l>Toda azul, no esplendor do fim da primavera!</l>
							<l>Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!</l>
							<l>Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento</l>
							<l>Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!</l>
							<l>Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,</l>
							<l>A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Eu, com o frio a crescer no coração, — tão cheio</l>
							<l>De ti, até no horror do derradeiro anseio!</l>
							<l>Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,</l>
							<l>A boca que beijava a tua boca ardente,</l>
							<l part="I">A boca que foi tua!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l part="F">E eu morrendo! e eu morrendo</l>
							<l>Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo</l>
							<l>Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,</l>
							<l>A delícia da vida! a delícia da vida!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A alvorada do amor</head>
						<lg>
							<l>Um horror grande e mudo, um silêncio profundo</l>
							<l>No dia do Pecado amortalhava o mundo.</l>
							<l>E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo</l>
							<l>Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,</l>
							<l part="I">Disse:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l part="F">Chega-te a mim! entre no meu amor,</l>
							<l>E à minha carne entrega a tua carne em flor!</l>
							<l>Preme contra o meu peito o teu seio agitado,</l>
							<l>E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!</l>
							<l>Abençoo o teu crime, acolho o teu desgosto,</l>
							<l>Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vê! tudo nos repele! a toda a criação</l>
							<l>Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...</l>
							<l>A cólera de Deus torce as árvores, cresta</l>
							<l>Como um tufão de fogo o seio da floresta,</l>
							<l>Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;</l>
							<l>As estrelas estão cheias de calefrios;</l>
							<l>Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,</l>
							<l>Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!</l>
							<l>Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;</l>
							<l>Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;</l>
							<l>Surjam feras a uivar de todos os caminhos;</l>
							<l>E, vendo-te a sangrar das urzes através,</l>
							<l>Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés...</l>
							<l>Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,</l>
							<l>Ilumina o degredo e perfuma o deserto!</l>
							<l>Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,</l>
							<l>Levo tudo, levando o teu corpo querido!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:</l>
							<l>— Tudo renascerá cantando ao teu olhar,</l>
							<l>Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,</l>
							<l>Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!</l>
							<l>Rosas te brotarão da boca, se cantares!</l>
							<l>Rios te correrão dos olhos, se chorares!</l>
							<l>E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,</l>
							<l>Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,</l>
							<l>Agora que és mulher, agora que pecaste!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! bendito o momento em que me revelaste</l>
							<l>O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!</l>
							<l>Porque, livre de Deus, redimido e sublime,</l>
							<l>Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,</l>
							<l>— Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Vita nuova</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Se ao mesmo gozo antigo me convidas,</l>
							<l>Com esses mesmos olhos abrasados,</l>
							<l>Mata a recordação das horas idas,</l>
							<l>Das horas que vivemos apartados!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não me fales das lágrimas perdidas,</l>
							<l>Não me fales dos beijos dissipados!</l>
							<l>Há numa vida humana cem mil vidas,</l>
							<l>Cabem num coração cem mil pecados!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Amo-te! A febre, que supunhas morta,</l>
							<l>Revive. Esquece o meu passado, louca!</l>
							<l>Que importa a vida que passou? Que importa,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Se ainda te amo, depois de amores tantos,</l>
							<l>E inda tenho, nos olhos e na boca,</l>
							<l>Novas fontes de beijos e de prantos?!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Manhã de verão</head>
						<lg>
							<l>As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,</l>
							<l>Já, com o vir de manhã, do rio se levantam.</l>
							<l>Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!</l>
							<l>E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A estrela, que ficou por último velando,</l>
							<l>Noive que espera o noivo e suspira em segredo,</l>
							<l>— Desmaia de pudor, apaga, palpitando,</l>
							<l>A pupila amorosa, e estremece de medo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Há pelo Paraíba um sussurro de vozes,</l>
							<l>Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo...</l>
							<l>E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,</l>
							<l>Passam, como num sonho, as náiades fugindo.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,</l>
							<l>Diz-me: "Acorda com um beijo as outras flores quietas!</l>
							<l>Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas</l>
							<l>Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a ave diz: "Sabes tu? Conheço-a bem... Parece</l>
							<l>Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,</l>
							<l>E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,</l>
							<l>— Quando ela principia a recitar teus versos!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E diz a luz: "Conheço a cor daquela boca!</l>
							<l>Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!</l>
							<l>Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,</l>
							<l>O rubor da papoula e o alvor das açucenas!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Diz a palmeira: "Invejo-a! ao vir a luz radiante,</l>
							<l>Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:</l>
							<l>E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante</l>
							<l>Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa</l>
							<l>De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,</l>
							<l>E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,</l>
							<l>E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tudo, — a cor, o clarão, o perfume e o gorjeio,</l>
							<l>Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,</l>
							<l>Diz: "Pudesses dormir, poeta! No seu seio,</l>
							<l>Curvo como este céu, manso como este rio!"</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Dentro da noite</head>
						<lg>
							<l>Ficas a um canto da sala,</l>
							<l>Olhas-me e finges que lês...</l>
							<l>Ainda uma vez te ouço a fala,</l>
							<l>Olho-te ainda uma vez;</l>
							<l>Saio... Silêncio por tudo:</l>
							<l>Nem uma folha se agita;</l>
							<l>E o firmamento, amplo e mudo,</l>
							<l>Cheio de estrelas palpita.</l>
							<l>E eu vou sozinho, pensando</l>
							<l>Em teu amor, a sonhar,</l>
							<l>No ouvido e no olhar levando</l>
							<l>Tua voz e teu olhar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas não sei que luz me banha</l>
							<l>Todo de um vivo clarão;</l>
							<l>Não sei que música estranha</l>
							<l>Me sobe do coração.</l>
							<l>Como que, em cantos suaves,</l>
							<l>Pelo caminho que sigo,</l>
							<l>Eu levo todas as aves,</l>
							<l>Todos os astros comigo.</l>
							<l>E é tanta essa luz, é tanta</l>
							<l>Essa música sem par,</l>
							<l>Que nem sei se é a luz que canta,</l>
							<l>Se é o som que vejo brilhar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Caminho em êxtase, cheio</l>
							<l>Da luz de todos os sóis,</l>
							<l>Levando dentro do seio</l>
							<l>Um ninho de rouxinóis.</l>
							<l>E tanto brilho derramo,</l>
							<l>E tanta música espalho,</l>
							<l>Que acordo os ninhos e inflamo</l>
							<l>As gotas frias do orvalho.</l>
							<l>E vou sozinho, pensando</l>
							<l>Em teu amor, a sonhar,</l>
							<l>No ouvido e no olhar levando</l>
							<l>Tua voz e teu olhar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Caminho. A terra deserta</l>
							<l>Anima-se. Aqui e ali,</l>
							<l>Por toda parte desperta</l>
							<l>Um coração que sorri.</l>
							<l>Em tudo palpita um beijo,</l>
							<l>Longo, ansioso, apaixonado,</l>
							<l>E um delirante desejo</l>
							<l>De amar e de ser amado.</l>
							<l>E tudo, — o céu que se arqueia</l>
							<l>Cheio de estrelas, o mar,</l>
							<l>Os troncos negros, a areia,</l>
							<l>— Pergunta, ao ver-me passar:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"O Amor, que a teu lado levas,</l>
							<l>A que lugar te conduz,</l>
							<l>Que entras coberto de trevas,</l>
							<l>E sais coberto de luz?</l>
							<l>De onde vens? Que firmamento</l>
							<l>Correste durante o dia,</l>
							<l>Que voltas lançando ao vento</l>
							<l>Esta inaudita harmonia?</l>
							<l>Que país de maravilhas,</l>
							<l>Que Eldorado singular</l>
							<l>Tu visitaste, que brilhas</l>
							<l>Mais do que a estrela polar?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eu continuo a viagem,</l>
							<l>Fantasma deslumbrador,</l>
							<l>Seguido por tua imagem,</l>
							<l>Seguido por teu amor.</l>
							<l>Sigo... Dissipo a tristeza</l>
							<l>De tudo, por todo o espaço,</l>
							<l>E ardo, e canto, e a Natureza</l>
							<l>Arde e canta, quando eu passo,</l>
							<l>— Só porque passo pensando</l>
							<l>Em teu amor, a sonhar,</l>
							<l>No ouvido e no olhar levando</l>
							<l>Tua voz e teu olhar...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Campo santo</head>
						<lg>
							<l rend="indent">Os anos matam e dizimam tanto</l>
							<l rend="indent">Como as inundações e como as pestes...</l>
							<l rend="indent">A alma de cada velho é um Campo Santo</l>
							<l>Que a velhice cobriu de cruzes e ciprestes</l>
							<l rend="indent2">Orvalhados de pranto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent">Mas as almas não morrem como as flores,</l>
							<l rend="indent">Como os homens, os pássaros e as feras:</l>
							<l rend="indent">Rotas, despedaçadas pelas dores,</l>
							<l>Renascem para o sol de novas primaveras</l>
							<l rend="indent2">E de novos amores.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent">Assim, às vezes, na amplidão silente,</l>
							<l rend="indent">No sono fundo, na terrível calma</l>
							<l rend="indent">Do Campo-Santo, ouve-se um grito ardente:</l>
							<l>É a Saudade! é a Saudade!... E o cemitério da alma</l>
							<l rend="indent2">Acorda de repente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent">Uivam os ventos funerais medonhos...</l>
							<l rend="indent">Brilha o luar... As lápides se agitam...</l>
							<l rend="indent">E, sob a rama dos chorões tristonhos,</l>
							<l>Sonhos mortos de amor despertam e palpitam,</l>
							<l rend="indent2">Cadáveres de sonhos...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Desterro</head>
						<lg>
							<l>Já me não amas? Basta! Irei, triste, e exilado</l>
							<l>Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho...</l>
							<l>Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho</l>
							<l>Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em ti, como num vale, adormeci deitado,</l>
							<l>No meu sonho de amor, em meio do caminho...</l>
							<l>Beijo-te inda uma vez, num último carinho,</l>
							<l>Como quem vai sair da pátria desterrado...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Adeus, corpo gentil, pátria do meu desejo!</l>
							<l>Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,</l>
							<l>Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Adeus! Esse outro amor há de amargar-me tanto</l>
							<l>Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,</l>
							<l>Amassado com fel e embebido de pranto...</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<lg>
							<milestone unit="speaker" n="SÍLVIA"/>
							<stage>(abrindo a janela.)</stage>
							<l>Da noite o frio vento te regela</l>
							<l part="I" aoidos:link="y">O mórbido suor...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Romeu e Julieta</head>
						<stage>(Ato III, cena V.)</stage>
						<sp>
							<speaker>JULIETA:</speaker>
							<lg>
								<l>Por que partir tão cedo? inda vem longe o dia...</l>
								<l>Ouves? é o rouxinol. Não é da cotovia</l>
								<l>Esta encantada voz. Repara, meu amor:</l>
								<l>Quem canta é o rouxinol na romãzeira em flor.</l>
								<l>Toda a noite essa voz, que te feriu o ouvido,</l>
								<l>Povoa a solidão como um longo gemido.</l>
								<l>Abracemo-nos! fica! Inda vem longe o sol!</l>
								<l>Não canta a cotovia: é a voz do rouxinol!</l>
							</lg>
						</sp>
						<sp>
							<speaker>ROMEU:</speaker>
							<lg>
								<l>É a voz da cotovia anunciando a aurora!</l>
								<l>Vês? há um leve tremor pelo horizonte afora...</l>
								<l>Das nuvens do levante abre-se o argênteo véu,</l>
								<l>E apagam-se de todo as lâmpadas do céu.</l>
								<l>Já sobre o cimo azul das serras nebulosas,</l>
								<l>Hesitante, a manhã coroada de rosas</l>
								<l>Agita os leves pés, e fica a palpitar</l>
								<l>Sobre as asas de luz, como quem quer voar.</l>
								<l>Olha! mais um momento, um rápido momento,</l>
								<l>E o dia sorrirá por todo o firmamento!</l>
								<l>Adeus! devo partir! partir para viver...</l>
								<l>Ou ficar a teus pés para a teus pés morrer!</l>
							</lg>
						</sp>
						<sp>
							<speaker>JULIETA:</speaker>
							<lg>
								<l>Não é o dia! O espaço inda se estende, cheio</l>
								<l>Da noite caridosa. Exala do ígneo seio</l>
								<l>O sol, piedoso e bom, este vivo clarão</l>
								<l>Só para te guiar por entre a cerração...</l>
								<l>Fica um minuto mais! por que partir tão cedo?</l>
							</lg>
						</sp>
						<sp>
							<speaker>ROMEU:</speaker>
							<lg>
								<l>Mandas? não partirei! esperarei sem medo</l>
								<l>Que a morte, com a manhã, venha encontrar-me aqui!</l>
								<l>Sucumbirei feliz, sucumbindo por ti!</l>
								<l>Mandas? não partirei! queres? direi contigo</l>
								<l>Que é mentira o que vejo e mentira o que digo!</l>
								<l>Sim! tens razão! não é da cotovia a voz</l>
								<l>Este encantado som que erra em torno de nós!</l>
								<l>É um reflexo da luz a claridade estranha</l>
								<l>Que aponta no horizonte acima da montanha!</l>
								<l>Fico para te ver, fico para te ouvir,</l>
								<l>Fico para te amar, morro por não partir!</l>
								<l>Mandas? não partirei! cumpra-se a minha sorte!</l>
								<l>Julieta assim o quis: bem-vinda seja a morte!</l>
								<l>Meu amor, meu amor! olha-me assim! assim!</l>
							</lg>
						</sp>
						<sp>
							<speaker>JULIETA:</speaker>
							<lg>
								<l>Não! é o dia! é a manhã! Parte! foge de mim!</l>
								<l>Parte! apressa-te! foge! A cotovia canta</l>
								<l>E do nascente em fogo o dia se levanta...</l>
								<l>Ah! reconheço enfim estas notas fatais!</l>
								<l>O dia!... a luz do sol cresce de mais em mais</l>
								<l>Sobre a noite nupcial do amor e da loucura!</l>
							</lg>
						</sp>
						<sp>
							<speaker>ROMEU:</speaker>
							<lg>
								<l>Cresce ... E cresce com ela a nossa desventura!</l>
							</lg>
						</sp>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Vinha de Nabot</head>
						<lg>
							<l>Maldito aquele dia, em que abriste em meu seio,</l>
							<l>Cruel, esta paixão, como, ampla e iluminada,</l>
							<l>Uma clareira verde, aberta ao sol, no meio</l>
							<l>Da espessa escuridão de uma selva cerrada!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! três vezes maldito o amor que me avassala,</l>
							<l>E me obriga a viver dentro de um pesadelo,</l>
							<l>Louco! por toda a parte ouvindo a tua fala,</l>
							<l>Vendo por toda a parte a cor do teu cabelo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>De teu colo no vale embalsamado e puro</l>
							<l>Nunca descansarei, como num paraíso,</l>
							<l>Sob a tenda aromal desse cabelo escuro,</l>
							<l>Olhando o teu olhar, sorrindo ao teu sorriso.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Desvairas-me a razão, tiras-me a calma e o sono!</l>
							<l>Nunca te possuirei, bela e invejada vinha,</l>
							<l>Ó vinha de Nabot que tanto ambiciono!</l>
							<l>Ó alma que procuro e nunca serás minha!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Sacrilégio</head>
						<lg>
							<l>Como a alma pura, que teu corpo encerra,</l>
							<l>Podes, tão bela e sensual, conter?</l>
							<l>Pura demais para viver na terra,</l>
							<l>Bela demais para no céu viver...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Amo-te assim! – exulta, meu desejo!</l>
							<l>É teu grande ideal que te aparece,</l>
							<l>Oferecendo loucamente o beijo,</l>
							<l>E castamente murmurando a prece!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Amo-te assim, à fronte conservando</l>
							<l>A parra e o acanto, sob o alvor do véu,</l>
							<l>E para a terra os olhos abaixando,</l>
							<l>E levantando os braços para o céu.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ainda quando, abraçados, nos enleva</l>
							<l>O amor em que abraso e em que te abrasas,</l>
							<l>Vejo o teu resplandor arder na treva</l>
							<l>E ouço a palpitação das tuas asas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,</l>
							<l>Os céus se estendem pelo teu olhar,</l>
							<l>E, dentro dele, os serafins errantes</l>
							<l>Passam nos raios claros do luar:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em vão! – descerrar úmidos, e cheios</l>
							<l>De promessas, os lábios sensuais,</l>
							<l>E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,</l>
							<l>Ameaçadores como dois punhais.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Como é cheirosa a tua carne ardente!</l>
							<l>Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca...</l>
							<l>Beijo-a, aspiro-a... Mas sinto, de repente,</l>
							<l>As mãos geladas e gelada a boca:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Parece que uma santa imaculada</l>
							<l>Desce do altar pela primeira vez,</l>
							<l>E pela vez primeira profanada</l>
							<l>Tem por olhos humanos a nudez...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Embora! hei de adorar-te nesta vida,</l>
							<l>Já que, fraco demais para perdê-la,</l>
							<l>Não posso um dia, deusa foragida,</l>
							<l>Ir amar-te no seio de uma estrela.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beija-me! Ficarei purificado</l>
							<l>Com o que de puro no teu beijo houver;</l>
							<l>Ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:</l>
							<l>Tu, ao meu lado, ficarás mulher.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que me fulmine o horror desta impiedade!</l>
							<l>Serás minha! Sacrílego e profano,</l>
							<l>Hei de manchar a tua castidade</l>
							<l>E dar-te aos lábios um gemido humano!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E à sombria mudez do santuário</l>
							<l>Preferirás o cálido fulgor</l>
							<l>De um cantinho da terra, solitário,</l>
							<l>Iluminado pelo meu amor...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Estâncias</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Ah! finda o inverno! adeus, noites, breve esquecidas,</l>
								<l>Junto ao fogo, com as mãos estreitamente unidas!</l>
								<l>Abracemo-nos muito! adeus! um beijo ainda!</l>
								<l>Prediz-me o coração que é o nosso amor que finda,</l>
								<l>Há de em breve sorrir a primavera. Em breve,</l>
								<l>Branca, aos beijos do sol, há de fundir-se a neve.</l>
								<l>E, na festa nupcial das almas e das flores</l>
								<l>Quando tudo acordar para os novos amores,</l>
								<l>Meu amor! haverá dois lugares vazios...</l>
								<l>Tu tão longe de mim! e ambos, mudos e frios,</l>
								<l>Procurando esquecer os beijos que trocamos,</l>
								<l>E maldizendo o tempo em que nos adoramos...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l>Mas, às vezes, sozinha, hás de tremer, o vulto</l>
								<l>De um fantasma entrevendo, em tua alcova oculto.</l>
								<l>E pelo corpo todo, a ofegar de desejo,</l>
								<l>Pálida, sentirás a carícia de um beijo.</l>
								<l>Sentirás o calor da minha boca ansiosa,</l>
								<l>Na água que te banhar a carne cor-de-rosa,</l>
								<l>No linho do lençol que te roçar o peito.</l>
								<l>E hás de crer que sou eu que procuro o teu leito,</l>
								<l>E hás de crer que sou eu que procuro a tua alma!</l>
								<l>E abrirás a janela... E, pela noite calma,</l>
								<l>Ouvirás minha voz no barulho dos ramos,</l>
								<l>E bendirás o tempo em que nos adoramos...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<lg>
								<l>E eu, errante, através das paixões, hei de, um dia,</l>
								<l>Volver o olhar atrás, para a estrada sombria.</l>
								<l>Talvez uma saudade, um dia, inesperada,</l>
								<l>Me punja o coração, como uma punhalada.</l>
								<l>E agitarei no vácuo as mãos, e um beijo ardente</l>
								<l>Há de subir-me à boca: e o beijo e as mãos somente</l>
								<l>Hão de o vácuo encontrar, sem te encontrar, querida!</l>
								<l>E, como tu, também me acharei só na vida,</l>
								<l>Só! sem o teu amor e a tua formosura:</l>
								<l>E chorarei então a minha desventura,</l>
								<l>Ouvindo a tua voz no barulho dos ramos,</l>
								<l>E bendizendo o tempo em que nos adoramos...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>IV</head>
							<lg>
								<l>Renascei, revivei, árvores sussurrantes!</l>
								<l>Todas as asas vão partir, loucas e errantes,</l>
								<l>A ruflar, a ruflar... O amor é um passarinho:</l>
								<l>Deixemo-lo partir: — desertemos o ninho...</l>
								<l>A primavera vem. Vai-se o inverno. Que importa</l>
								<l>Que a primavera encontre esta ventura morta?</l>
								<l>Que importa que o esplendor do universal noivado</l>
								<l>Venha este noivo achar da noiva separado?</l>
								<l>Esqueçamos o amor que julgamos eterno...</l>
								<l>— Dia que iluminaste os meus dias de inverno!</l>
								<l>Esqueçamos o ardor dos beijos que trocamos,</l>
								<l>Maldigamos o tempo em que nos adoramos...</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Pecador</head>
						<lg>
							<l>Este é o altivo pecador sereno,</l>
							<l>Que os soluços afoga na garganta,</l>
							<l>E, calmamente, o copo de veneno</l>
							<l>Aos lábios frios sem tremer levanta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tonto, no escuro pantanal terreno</l>
							<l>Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,</l>
							<l>Nem assim, miserável e pequeno,</l>
							<l>Com tão grandes remorsos se quebranta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fecha a vergonha e as lágrimas consigo...</l>
							<l>E, o coração mordendo impenitente,</l>
							<l>E, o coração rasgando castigado,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Aceita a enormidade do castigo,</l>
							<l>Com a mesma face com que antigamente</l>
							<l>Aceitava a delícia do pecado.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Rei destronado</head>
						<lg>
							<l>O teu lugar vazio!... E esteve cheio,</l>
							<l>Cheio de mocidade e de ternura!</l>
							<l>Como brilhava a tua formosura!</l>
							<l>Que luz divina te dourava o seio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quando a camisa tépida despias,</l>
							<l>— Sob o reflexo do cabelo louro,</l>
							<l>De pé, na alcova, ardias e fulgias</l>
							<l rend="indent2">Como um ídolo de ouro.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que fundo o fogo do primeiro beijo,</l>
							<l>Que eu te arrancava ao lábio recendente!</l>
							<l>Morria o meu desejo... outro desejo</l>
							<l rend="indent2">Nascia mais ardente.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Domada a febre, lânguida, em meus braços</l>
							<l>Dormias, sobre os linhos revolvidos,</l>
							<l>Inda cheios dos últimos gemidos,</l>
							<l>Inda quentes dos últimos abraços...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tudo quanto eu pedira e ambicionara,</l>
							<l>Tudo meus dedos e meus olhos calmos</l>
							<l>Gozavam satisfeitos nos seis palmos</l>
							<l>De tua carne saborosa e clara:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Reino perdido! glória dissipada</l>
							<l>Tão loucamente! A alcova está deserta,</l>
							<l>Mas inda com o teu cheiro perfumada,</l>
							<l rend="indent2">Do teu fulgor coberta...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Só</head>
						<lg>
							<l>Este, que um deus cruel arremessou à vida,</l>
							<l>Marcando-o com o sinal da sua maldição,</l>
							<l>— Este desabrochou como a erva má, nascida</l>
							<l>Apenas para aos pés ser calcada no chão.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>De motejo em motejo arrasta a alma ferida...</l>
							<l>Sem constância no amor, dentro do coração</l>
							<l>Sente, crespa, crescer a selva retorcida</l>
							<l>Dos pensamentos maus, filhos da solidão.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Longos dias sem sol! noites de eterno luto!</l>
							<l>Alma cega, perdida à toa no caminho!</l>
							<l>Roto casco de nau, desprezado no mar!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, árvore, acabará sem nunca dar um fruto;</l>
							<l>E, homem, há de morrer como viveu: sozinho!</l>
							<l>Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>A um violinista</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<lg>
								<l>Quando do teu violino, as asas entreabrindo</l>
								<l>Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,</l>
								<l>Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo</l>
								<l rend="indent2">Os seus cofres de pérolas,</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>— Minhas crenças de amor, esquecidas em calma</l>
								<l>No fundo da memória, ouvindo-as recebiam</l>
								<l>Novo alento, e outra vez do oceano de minh’alma,</l>
								<l>Arquipélago verde, à tona apareciam.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E eu via rutilar o meu amor perdido,</l>
								<l>Belo, de nova luz e novo encanto cheio,</l>
								<l>E um corpo, que supunha há muito consumido,</l>
								<l>Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!</l>
								<l>E minh’alma revia, alucinada e louca,</l>
								<l>Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,</l>
								<l>Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,</l>
								<l>Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas</l>
								<l>De um cemitério, vai achar vivas a um canto</l>
								<l>As suas ilusões que acreditava mortas,</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E ficava a pensar... como se não partir</l>
								<l>Essa fraca madeira ao teu toque violento,</l>
								<l>Quando com tanta febre a paixão se estorcia</l>
								<l>Dentro do pequenino e frágil instrumento!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,</l>
								<l>Todos os corações da terra palpitavam;</l>
								<l>E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,</l>
								<l>O amor universal de todos os que amavam.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Rio largo de sons, tapetado de flores,</l>
								<l>A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;</l>
								<l>E, boiando e cantando, alegrias e dores</l>
								<l rend="indent2">Iam corrente em fora...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>A Primavera rindo esfolhava as capelas,</l>
								<l>E entornava no chão as ânforas cheirosas:</l>
								<l>E a canção acordava as rosas e as estrelas,</l>
								<l>E enchia de desejo as estrelas e as rosas.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,</l>
								<l>E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,</l>
								<l>E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,</l>
								<l>Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>— Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!</l>
								<l>O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,</l>
								<l>Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,</l>
								<l>E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,</l>
								<l>O teu pobre violino, o teu amor primeiro:</l>
								<l>E inda nas cordas há, como um leve arrepio,</l>
								<l>A última vibração do arpejo derradeiro...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,</l>
								<l>Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,</l>
								<l>Pairam constelações virgens do olhar humano,</l>
								<l>Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>— Assim no teu violino, artista! adormecido</l>
								<l>À espera do teu arco, em grupos vaporosos,</l>
								<l>Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,</l>
								<l>Um mundo interior de sons misteriosos...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!</l>
								<l>Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!</l>
								<l>E ele se embeberá dos perfumes que o vento</l>
								<l>Traz dos frescos desvãos do vale e da floresta.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!</l>
								<l>As rosas se abrirão em suas cordas rotas!</l>
								<l>E ele derramará sobre os verdes caminhos</l>
								<l>Da antiga melodia as esquecidas notas!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...</l>
								<l>Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...</l>
								<l>E a terra acordará para os novos amores</l>
								<l rend="indent2">De nova primavera!</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<lg>
								<l>Porque, como Terpandro acrescentou à lira,</l>
								<l>Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,</l>
								<l>Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,</l>
								<l>E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Também desse instrumento às quatro cordas de ouro</l>
								<l>O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,</l>
								<l>— Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro</l>
								<l>Eterno e a eterna dor da corda da Saudade.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,</l>
								<l>E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,</l>
								<l>Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca</l>
								<l>Do primitivo amor e da beleza antiga...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,</l>
								<l>Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:</l>
								<l>E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo</l>
								<l>Quase morta de dor, Madalena aparece...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Ao luar de Verona, a amorosa cabeça</l>
								<l>De Julieta desmaia entre os braços do amante:</l>
								<l>Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,</l>
								<l>E na devesa em flor a cotovia cante...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Viúva triste, que à paz do claustro pede alívio,</l>
								<l>Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,</l>
								<l>Branca, sob o livor do escapulário níveo,</l>
								<l>Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E na suave espiral das melodias puras,</l>
								<l>Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,</l>
								<l>Mostrando ao meu amor as suas amarguras,</l>
								<l>Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Canta! o rio de sons que do seio de brota</l>
								<l>E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,</l>
								<l>E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,</l>
								<l>Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,</l>
								<l>Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,</l>
								<l>Um gracejo segreda a cada borboleta,</l>
								<l>E segreda um queixume a cada passarinho;</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento</l>
								<l>Abre maternalmente o regaço das águas,</l>
								<l>— É o rio perfumado e azul do Esquecimento,</l>
								<l>Onde se vão banhar todas as minhas mágoas...</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Em uma tarde de outono</head>
						<lg>
							<l>Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas</l>
							<l>Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.</l>
							<l>Outono... Rodopiando, as folhas amarelas</l>
							<l>Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,</l>
							<l>Visitaste este mar inabitado e morto,</l>
							<l>Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,</l>
							<l>Se logo, ao ir da luz, abandonaste o porto?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos</l>
							<l>A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...</l>
							<l>— Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,</l>
							<l>E contemplo o lugar por onde te sumiste,</l>
							<l>Banhado no clarão nascente do arrebol...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Baladas românticas</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">Branca...</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Vi-te pequena: ias rezando</l>
								<l>Para a primeira comunhão:</l>
								<l>Toda de branco, murmurando,</l>
								<l>Na fronte o véu, rosas na mão.</l>
								<l>Não ias só: grande era o bando...</l>
								<l>Mas entre todas te escolhi:</l>
								<l>Minh’alma foi te acompanhando,</l>
								<l>A vez primeira em que te vi.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Tão branca e moça! o olhar tão brando!</l>
								<l>Tão inocente o coração!</l>
								<l>Toda de branco, fulgurando,</l>
								<l>Mulher em flor! flor em botão!</l>
								<l>Inda, ao lembrá-lo, a mágoa abrando,</l>
								<l>Esqueço o mal que vem de ti,</l>
								<l>E, o meu ranços estrangulando,</l>
								<l>Bendigo o dia em que te vi!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Rosas na mão, brancas... E, quando</l>
								<l>Te vi passar, branca visão,</l>
								<l>Vi, com espanto, palpitando</l>
								<l>Dentro de mim, esta paixão...</l>
								<l>O coração pus ao teu mando...</l>
								<l>E, porque escrevo me rendi,</l>
								<l>Ando gemendo, aos gritos ando,</l>
								<l>— Porque te amei! porque te vi!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Depois fugiste... E, inda te amando,</l>
								<l>Nem te odiei, nem te esqueci:</l>
								<l>— Toda de branco... Ias rezando...</l>
								<l>Maldito o dia em que te vi!</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">Azul...</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Lembra-te bem! Azul-celeste</l>
								<l>Era essa alcova em que amei.</l>
								<l>O último beijo que me deste</l>
								<l>Foi nessa alcova que o tomei!</l>
								<l>É o firmamento que a reveste</l>
								<l>Toda de um cálido fulgor:</l>
								<l>— Um firmamento, em que puseste</l>
								<l>Como uma estrela, o teu amor.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Lembras-te? Um dia me disseste:</l>
								<l>"Tudo acabou!" E eu exclamei:</l>
								<l>"Se vais partir, por que vieste?"</l>
								<l>E às tuas plantas me arrastei...</l>
								<l>Beijei a fímbria à tua veste,</l>
								<l>Gritei de espanto, uivei de dor:</l>
								<l>"Quem há que te ame e te requeste</l>
								<l>Com febre igual ao meu amor?"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Por todo o mal que me fizeste,</l>
								<l>Por todo o pranto que chorei,</l>
								<l>— Como uma casa em que entra a peste,</l>
								<l>Fecha essa casa em que fui rei!</l>
								<l>Que nada mais perdure e reste</l>
								<l>Desse passado embriagador:</l>
								<l>E cubra a sombra de um cipreste</l>
								<l>A sepultura deste amor!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Desbote-a o inverno! o estio a creste!</l>
								<l>Abale-a o vento com fragor!</l>
								<l>— Desabe a igreja azul-celeste</l>
								<l>Em que oficiava o meu amor!</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">Verde...</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Como era verde este caminho!</l>
								<l>Que calmo o céu! que verde o mar!</l>
								<l>E, entre festões, de ninho em ninho,</l>
								<l>A Primavera a gorjear!...</l>
								<l>Inda me exalta, como um vinho,</l>
								<l>Esta fatal recordação!</l>
								<l>Secou a flor, ficou o espinho...</l>
								<l>Como me pesa a solidão!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Órfão de amor e de carinho,</l>
								<l>Órfão da luz do teu olhar,</l>
								<l>— Verde também, verde-marinho,</l>
								<l>Que eu nunca mais hei de olvidar!</l>
								<l>Sob a camisa, alva de linho,</l>
								<l>Ta palpitava o coração...</l>
								<l>Ai! coração! peno e definho,</l>
								<l>Longe de ti, na solidão!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Oh! tu, mais branca do que o arminho,</l>
								<l>Mais pálida do que o luar!</l>
								<l>— Da sepultura me avizinho,</l>
								<l>Sempre que volto a este lugar...</l>
								<l>E digo a cada passarinho:</l>
								<l>"Não cantes mais! que essa canção</l>
								<l>Vem me lembrar que estou sozinho,</l>
								<l>No exílio desta solidão!"</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>No teu jardim, que desalinho!</l>
								<l>Que falta faz a tua mão!</l>
								<l>Como inda é verde este caminho...</l>
								<l>Mas como o afeia a solidão!</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>IV</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">Negra...</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Possas chorar, arrependida,</l>
								<l>Vendo a saudade que aqui vai!</l>
								<l>Vê que linda, negro, da ferida</l>
								<l>Aos borbotões o sangue cai...</l>
								<l>Que a nossa história, assim relida,</l>
								<l>O nosso amor, lembrado assim,</l>
								<l>Possam fazer-te, comovida,</l>
								<l>Inda uma vez pensar em mim!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Minh’alma pobre e desvalida,</l>
								<l>Órfã de mãe, órfã de pai,</l>
								<l>Na escuridão vaga perdida,</l>
								<l>De queda em queda e de ai em ai!</l>
								<l>E ando a buscar-te. E a minha lida</l>
								<l>Não tem descanso, não tem fim:</l>
								<l>Quanto mais longe andas fugida,</l>
								<l>Mais te vejo eu perto de mim!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Louco! e que lúgubre a descida</l>
								<l>Para a loucura que me atrai!</l>
								<l>— Terríveis páginas da vida,</l>
								<l>Escuras páginas, — cantai!</l>
								<l>Vim, ermitão, da minha ermida,</l>
								<l>Morto, do meu sepulcro vim,</l>
								<l>Erguer a lápida caída</l>
								<l>Sobre a esperança que houve em mim!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Revivo a mágoa já vivida</l>
								<l>E as velhas lágrimas... a fim</l>
								<l>De que chorando, arrependida,</l>
								<l>Possas lembrar-te inda de mim!</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Velha página</head>
						<lg>
							<l>Chove. Que mágoa lá fora!</l>
							<l>Que mágoa! Embruscam-se os ares</l>
							<l>Sobre este rio que chora</l>
							<l>Velhos e eternos pesares.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sinto o que a terra sente</l>
							<l>E a tristeza que diviso,</l>
							<l>Eu, de teus olhos ausente,</l>
							<l>Ausente de teu sorriso...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>As asas loucas abrindo,</l>
							<l>Meus versos, num longo anseio,</l>
							<l>Morrerão, sem que, sorrindo,</l>
							<l>Possa acolhê-los teu seio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! quem mandou que fizesses</l>
							<l>Minh'alma da tua escrava,</l>
							<l>E ouvisses as minhas preces,</l>
							<l>Chorando como eu chorava?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que é que um dia me ouviste,</l>
							<l>Tão pálida e alvoroçada,</l>
							<l>E, como quem ama, triste,</l>
							<l>Como quem ama, calada?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tu tens um nome celeste...</l>
							<l>Quem é do céu é sensível!</l>
							<l>Por que é que me não disseste</l>
							<l>Toda a verdade terrível?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que, fugindo impiedosa,</l>
							<l>Desertas o nosso ninho?</l>
							<l>— Era tão bela esta rosa!...</l>
							<l>Já me tardava este espinho!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Fora melhor, porventura,</l>
							<l>Ficar no antigo degredo</l>
							<l>Que conhecer a ventura</l>
							<l>Para perdê-la tão cedo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que me ouviste, enxugando</l>
							<l>O pranto das minhas faces?</l>
							<l>Viste que eu vinha chorando...</l>
							<l>Antes assim me deixasses!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Antes! Menor me seria</l>
							<l>O sofrimento, querida!</l>
							<l>Antes! a mão que alivia</l>
							<l>A dor, e cura a ferida,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não deve depois, tranquila,</l>
							<l>Vendo sufocada a mágoa,</l>
							<l>Encher de sangue a pupila</l>
							<l>Que já vira cheia de água...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas junto a mim que te falta?</l>
							<l>Que glória maior te chama?</l>
							<l>Não sei de glória mais alta</l>
							<l>Do que a glória de quem ama!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Talvez te chame a riqueza...</l>
							<l>Despreza-a, beija-me, e fica!</l>
							<l>Verás que assim, com certeza,</l>
							<l>Não há quem seja mais rica!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Como é que quebras os laços</l>
							<l>Com que prendi o universo,</l>
							<l>Entre os nossos quatro braços,</l>
							<l>Na jaula azul do meu verso?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Como hei de eu, de hoje em diante,</l>
							<l>Viver, depois que partires?</l>
							<l>Como queres tu que eu cante</l>
							<l>No dia em que não me ouvires?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tem pena de mim! tem pena</l>
							<l>De alma tão fraca! Como há de</l>
							<l>Minh'alma, que é tão pequena,</l>
							<l>Poder com tanta saudade?!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Vilfredo</head>
						<head type="sub">LENDA DO RENO, GRANDMOUGIN</head>
						<div type="section">
							<head>I</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">O castelo.</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Sobre os rochedos, longe, o castelo aparece,</l>
								<l>Dominando a extensão das florestas sombrias.</l>
								<l>A tarde cai. O vento abranda. O ar escurece.</l>
								<l>E Vilfredo caminha entre as neblinas frias.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Vai vê-la... E estuga o passo. Alto e silencioso,</l>
								<l>Abre o castelo, em fogo, os vitrais das janelas.</l>
								<l>Nas ameias, manchando o céu caliginoso,</l>
								<l>Aprumam-se perfis de imóveis sentinelas.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Vilfredo vai ouvir a voz da sua Dama...</l>
								<l>Mas, no seu coração perturbado, parece</l>
								<l>Que vive, em vez do amor, essa ligeira chama,</l>
								<l>Que arde apenas um dia, arde e desaparece...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E o arruinado solar, refletido no Reno,</l>
								<l>Sobre o qual paira e pesa um sonho sobre-humano,</l>
								<l>Sobe, entre os astros, só, furando o céu sereno,</l>
								<l>Com a calma e o esplendor de um velho soberano.</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>II</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">As fadas da lagoa.</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Vilfredo conheceu o amor nos braços d'Ela...</l>
								<l>Teve-a nua, a tremer, nos braços, nua e fria!</l>
								<l>Teve-a nos braços, louca, apaixonada e bela!</l>
								<l>Mas parte, alucinado, antes que aponte o dia...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>É que uma outra paixão o descuidado peito</l>
								<l>Lhe entrou. Paixão cruel, loucura que o atordoa,</l>
								<l>Desde o momento em que, formosas, sobre o leito</l>
								<l>Das águas calmas, viu as fadas da lagoa.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Parte... À margem fatal da lagoa das fadas</l>
								<l>Chega, e em êxtase fica, a riba em flor mirando.</l>
								<l>Um ligeiro rumor de vozes abafadas</l>
								<l>Aumenta... E exsurge da água o apaixonado bando.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Corre Vilfredo, em febre, a apertá-las ao seio,</l>
								<l>E despreza o passado e esquece o juramento:</l>
								<l>Beija-as, e, na expansão do carinhoso anseio,</l>
								<l>Imola toda a vida aos beijos de um momento.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Para os seus corpos ter, toda a alma lhes entrega:</l>
								<l>E, na alucinação do gozo em que se inflama,</l>
								<l>Por esse amor, por essa embriaguez renega</l>
								<l>O Deus dos seus avós, o amor da sua Dama...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>III</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">O remorso.</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Delira. Mas, depois do delírio sublime,</l>
								<l>O remorso, imortal, nasce com o arrebol.</l>
								<l>E ele mede a extensão do seu monstruoso crime,</l>
								<l>E esconde a face à luz vingadora do sol.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Busca assustado a paz, busca chorando o olvido...</l>
								<l>À volúpia infernal o coração vendeu,</l>
								<l>E o inferno lhe reclama o coração vendido,</l>
								<l>Cobrando em sangue e pranto o gozo que lhe deu.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Quer rezar, quer voltar ao seu fervor primeiro,</l>
								<l>Quer nas lajes, de rojo, abominando o mal,</l>
								<l>Ser de novo Cristão, Fiel e Cavaleiro:</l>
								<l>Mas não encontra paz na paz da catedral.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Pobre! até no palor das faces maceradas</l>
								<l>Das monjas, cuida ver as faces que beijou;</l>
								<l>Ah! seios de marfim! ah! bocas perfumadas!</l>
								<l>Recordação cruel de um Éden que acabou!</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Parte só, sem destino, errando, a passo incerto,</l>
								<l>Por montes e rechãs, no inverno e no verão,</l>
								<l>E por anos sem conta habitando o deserto,</l>
								<l>Sem lágrimas no olhar, sem fé no coração.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Das florestas sem fim sob a abóbada escura</l>
								<l>Ouve, nos alcantis de em torno, a água rolar;</l>
								<l>Sobre ele, a longa voz das árvores murmura,</l>
								<l>E o vendaval retorce os ramos negros no ar.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Mas à fera, ao inseto, ao limo verde, ao vento,</l>
								<l>Ao sol, ao rio, ao vale, à rocha, à serpe, à flor</l>
								<l>É em vão que Vilfredo implora o esquecimento</l>
								<l>Do seu amor cruel, do seu horrendo amor...</l>
							</lg>
						</div>
						<div type="section">
							<head>IV</head>
							<head type="sub">
								<hi rend="italic">O castigo.</hi>
							</head>
							<lg>
								<l>Volta... Nem luta já contra o crime que o atrai.</l>
								<l>Velho e trôpego vem, mendigo esfarrapado,</l>
								<l>E exânime, por fim, num calefrio, cai</l>
								<l>Sem consciência, ao pé das águas do Pecado.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Calma. A noite caiu. Nem um pássaro voa.</l>
								<l>Não piam no silêncio as aves agoireiras.</l>
								<l>Mas palpitam, luzindo, à beira da lagoa,</l>
								<l>Fogos-fátuos subtis sobre as ervas rasteiras.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E, então, Vilfredo vê, presa de um medo</l>
								<l>Do denso turbilhão dos fogos repentinos,</l>
								<l>Com tentações no olhar e convites na voz</l>
								<l>Surgirem turbilhões de corpos femininos.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>E o Inferno pela voz dos fogos-fátuos fala!</l>
								<l>Vilfredo foge. O horror vai com ele, inclemente!</l>
								<l>Foge. E corre, e vacila, e tropeça, e resvala,</l>
								<l>E levanta-se, e foge alucinadamente...</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>Em vão! pesa sobre ele um destino fatal:</l>
								<l>E o louco, em todo o horror dos campos tenebrosos,</l>
								<l>Vê fechar-se e prendê-lo a cadeia infernal</l>
								<l>Da infernal multidão dos Elfos amorosos...</l>
							</lg>
						</div>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Tédio</head>
						<lg>
							<l>Sobre minh'alma, como sobre um trono,</l>
							<l>Senhor brutal, pesa o aborrecimento.</l>
							<l>Como tardas em vir, último outono,</l>
							<l>Lançar-me as folhas últimas ao vento!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Oh! dormir no silêncio e no abandono,</l>
							<l>Só, sem um sonho, sem um pensamento,</l>
							<l>E, no letargo do aniquilamento,</l>
							<l>Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Oh! deixar de sonhar o que não vejo!</l>
							<l>Ter o sangue gelado, e a carne fria!</l>
							<l>E, de uma luz crepuscular velada,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Deixar a alma dormir sem um desejo,</l>
							<l>Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia</l>
							<l>Como uma catedral abandonada!...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>
							<hi rend="italic">Requiescat</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Por que me vens, com o mesmo riso,</l>
							<l>Por que me vens, com a mesma voz,</l>
							<l>Lembrar aquele Paraíso,</l>
							<l rend="indent2">Extinto para nós?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Por que levantas esta lousa?</l>
							<l>Por que, entre as sombras funerais,</l>
							<l>Vens acordar o que repousa,</l>
							<l rend="indent2">O que não vive mais?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! esqueçamos, esqueçamos</l>
							<l>Que foste minha e que fui teu:</l>
							<l>Não lembres mais que nos amamos,</l>
							<l rend="indent2">Que o nosso amor morreu!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O amor é uma árvore ampla, e rica</l>
							<l>De frutos de ouro, e de embriaguez:</l>
							<l>Infelizmente, frutifica</l>
							<l rend="indent2">Apenas uma vez...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sob essas ramas perfumadas,</l>
							<l>Teus beijos todos eram meus:</l>
							<l>E as nossas almas abraçadas</l>
							<l rend="indent2">Fugiam para Deus.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas os teus beijos esfriaram.</l>
							<l>Lembra-te bem! lembra-te bem!</l>
							<l>E as folhas pálidas murcharam,</l>
							<l rend="indent2">E o nosso amor também.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! frutos de ouro, que colhemos,</l>
							<l>Frutos da cálida estação,</l>
							<l>Com que delícia vos mordemos,</l>
							<l rend="indent2">Com que sofreguidão!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Lembras-te? os frutos eram doces...</l>
							<l>Se ainda os pudéssemos provar!</l>
							<l>Se eu fosse teu... se minha fosses,</l>
							<l rend="indent2">E eu te pudesse amar...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em vão, porém, me beijas, louca!</l>
							<l>Teu beijo, a palpitar e a arder,</l>
							<l>Não achará, na minha boca,</l>
							<l rend="indent2">Outro para o acolher.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Não há mais beijos, nem mais pranto!</l>
							<l>Lembras-te? quando te perdi</l>
							<l>Beijei-te tanto, chorei tanto,</l>
							<l rend="indent2">Com tanto amor por ti,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que os olhos, vês? já tenho enxutos,</l>
							<l>E a minha boca se cansou:</l>
							<l>A árvore já não tem mais frutos!</l>
							<l rend="indent2">Adeus! tudo acabou!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Outras paixões, outras idades!</l>
							<l>Sejam os nossos corações</l>
							<l>Dois relicários de saudades</l>
							<l rend="indent2">E de recordações.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! esqueçamos, esqueçamos!</l>
							<l>Durma tranquilo o nosso amor</l>
							<l>Na cova rasa onde o enterramos</l>
							<l rend="indent2">Entre os rosais em flor...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Surdina</head>
						<lg>
							<l>No ar sossegado um sino canta,</l>
							<l>Um sino canta no ar sombrio...</l>
							<l>Pálida, Vênus se levanta...</l>
							<l rend="indent2">Que frio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Um sino canta. O campanário</l>
							<l>Longe, entre névoas, aparece...</l>
							<l>Sino, que cantas solitário,</l>
							<l>Que quer dizer a tua prece?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que frio! embuçam-se as colinas;</l>
							<l>Chora, correndo, a água do rio;</l>
							<l>E o céu se cobre de neblinas.</l>
							<l rend="indent2">Que frio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ninguém... A estrada, ampla e silente,</l>
							<l>Sem caminhantes, adormece...</l>
							<l>Sino, que cantas docemente,</l>
							<l>Que quer dizer a tua prece?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que medo pânico me aperta</l>
							<l>O coração triste e vazio!</l>
							<l>Que esperas mais, alma deserta?</l>
							<l rend="indent2">Que frio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Já tanto amei! já sofri tanto!</l>
							<l>Olhos, por que inda estais molhados?</l>
							<l>Por que é que choro, a ouvir-te o canto,</l>
							<l>Sino que dobras a finados?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Trevas, caí! que o dia é morto!</l>
							<l>Morre também, sonho erradio!</l>
							<l>A morte é o último conforto...</l>
							<l rend="indent2">Que frio!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pobres amores, sem destino,</l>
							<l>Soltos ao vento, e dizimados!</l>
							<l>Inda vos choro... E, como um sino,</l>
							<l>Meu coração dobra a finados.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E com que mágoa o sino canta,</l>
							<l>No ar sossegado, no ar sombrio!</l>
							<l>— Pálida, Vênus se levanta.</l>
							<l rend="indent2">Que frio!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>Última página</head>
						<lg>
							<l>Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos</l>
							<l>Numa palpitação de flores e de ninhos.</l>
							<l>Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos</l>
							<l>(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos.</l>
							<l>Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;</l>
							<l>E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,</l>
							<l>Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,</l>
							<l>Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,</l>
							<l>(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?</l>
							<l>Passam as estações e passam as mulheres...</l>
							<l>E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!</l>
						</lg>
					</div>
				</div>
				<div type="part">
					<head>AS VIAGENS</head>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>I</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">Primeira migração.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Sinto as vezes ferir-me a retina ofuscada</l>
							<l>Um sonho: — A Natureza abre as perpétuas fontes;</l>
							<l>E, ao dano criador que invade os horizontes,</l>
							<l>Vejo a Terra sorrir à primeira alvorada.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nos mares e nos céus, nas rechãs e nos montes,</l>
							<l>A Vida canta, chora, arde, delira, brada.</l>
							<l>E arfa a Terra, num parto horrendo, carregada</l>
							<l>De monstros, de mamuts e de rinocerontes.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Rude, uma geração de gigantes acorda</l>
							<l>Para a conquista. A uivar, do refúgio das furnas</l>
							<l>A migração primeira, em torvelins, transborda.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E ouço, longe, rodar, nas primitivas eras,</l>
							<l>Como uma tempestade entre as sombras noturnas,</l>
							<l>O estrupido brutal dessa invasão de feras.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>II</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">Os fenícios.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Ávida gente, ousada e moça! Ávida gente!</l>
							<l>Desse estéril torno, desse areal maninho</l>
							<l>Entre o Líbano e o mar da Síria, — que caminho</l>
							<l>Busca, turvo de febre, o vosso olhar ardente?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tiro, do vivo azul do pélago marinho;</l>
							<l>Branca, nadando em luz, surge resplandecente...</l>
							<l>Na água, aberta em clarões, chocam-se de repente</l>
							<l>Os remos. Rangem no ar os velames de linho.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Hiram, com o cetro negro em que ardem pedrarias,</l>
							<l>Conta as barcas de cedro, atupidas de fardos</l>
							<l>De ouro, púrpura, ônix, sedas e especiarias.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sus! Ao largo! Melcarte abençoe a partida</l>
							<l>Dos que vão de Sidon, de Gebel e de Antárdus</l>
							<l>Dilatar o comércio e propagar a Vida!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>III</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">Israel.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Caminhar! caminhar!... O deserto primeiro,</l>
							<l>O mar depois... Areia e fogo... Foragida,</l>
							<l>A tua raça corre os desastres da vida,</l>
							<l>Insultada na pátria e odiada no estrangeiro!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Onde o leite, onde o mel da Terra Prometida?</l>
							<l>— A guerra! a ira de Deus! o êxodo! o cativeiro!</l>
							<l>E, molhada de pranto, a oscilar de um salgueiro,</l>
							<l>A tua harpa, Israel, a tua harpa esquecida!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sem templo, sem altar, vagas perpetuamente.</l>
							<l>E, em torno de Sião, do Líbano ao mar Morto,</l>
							<l>Fulge, de monte em monte, o escárnio do Crescente:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, impassível, Jeová te vê, do céu profundo,</l>
							<l>Náufrago amaldiçoado a errar de porto em porto,</l>
							<l>Entre as imprecações e os ultrajes do mundo!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>IV</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">Alexandre.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Quem te cantara um dia a ambição desmarcada,</l>
							<l>Filho da heráclia estirpe! e o clamor infinito</l>
							<l>Com que o povo da Emátia acorreu ao teu grito,</l>
							<l>Voando, como um tufão, sobre a terra abrasada!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Do Adriático mar ao Índus, e do Egito</l>
							<l>Ao Cáucaso, o fulgor do aceiro dessa espada</l>
							<l>Prosternava, a tremer, sobre a lama da estrada,</l>
							<l>Ídolos de ouro e bronze, e esfinges de granito.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mar que regouga e estronda, espedaçando diques,</l>
							<l>— Aos confins da Ásia rica as falanges corriam,</l>
							<l>Encrespadas de fúria e erriçadas de piques.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E do sangue, do pó, dos destroços da guerra,</l>
							<l>Aos teus pés, palpitando, as cidades nasciam,</l>
							<l>E a Alma Grega, contigo, avassalava a Terra!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>V</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">César</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Na ilha de Seine. O mar brame na costa bruta.</l>
							<l>Gemem os bardos. Triste, o olhar por céus em fora</l>
							<l>Uma druidisa alonga, e os astros mira, e chora</l>
							<l>De pé, no limiar de tenebrosa gruta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Abandonou-te o deus que a tua raça adora,</l>
							<l>Pobre filha de Teut! César aí vem! Escuta</l>
							<l>O passo das legiões! ouve o fragor da luta</l>
							<l>E o alto e crebro clangor da bucina sonora!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dos Alpes, sacudindo as asas de ouro ao vento,</l>
							<l>As grandes águias sobre os domínios gauleses</l>
							<l>Descem, escurecendo o azul do firmamento...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E já, do Interno mar ao mar Armoricano,</l>
							<l>Retumba o entrechocar dos rútilos paveses</l>
							<l>Que carregam a' glória o imperador romano.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VI</head>
						<head type=" secondary">
							<hi rend="italic">Os bárbaros.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Ventre nu, seios nus, toda nua, cantando</l>
							<l>Do esmorecer da tarde ao ressurgir do dia,</l>
							<l>Roma lasciva e louca, ao rebramar da orgia,</l>
							<l>Sonhava, de triclínio em triclínio rolando.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas lá da longe Cítia e da Germânia fria,</l>
							<l>Esfaimado, rangendo os dentes, como um bando</l>
							<l>De lobos o sabor da presa antegozando,</l>
							<l>O tropel rugidor dos bárbaros descia.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ei-los! A erva, aos seus pés, mirra. De sangue cheios</l>
							<l>Turvam-se os rios. Louca, a floresta farfalha...</l>
							<l>E ei-los, — torvos, brutais, cabeludos e feios!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Donar, Pai da Tormenta, à frente deles corre;</l>
							<l>E a ígnea barba do deus, que o incêndio ateia e espalha,</l>
							<l>Ilumina a agonia a esse império que morre...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VII</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">As Cruzadas.</hi>
						</head>
						<stage>(DIANTE DE UM RETRATO ANTIGO.)</stage>
						<lg>
							<l>Fulge-te o morrião sobre o cabelo louro,</l>
							<l>E avultas na moldura, alto, esbelto e membrudo,</l>
							<l>Guerreiro que por Deus abandonaste tudo,</l>
							<l>Desbaratando o Turco, o Sarraceno e o Mouro!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Brilha-te a lança à mão, presa ao guante de couro.</l>
							<l>Nos peitorais de ferro arfa-te o peito ossudo,</l>
							<l>E alça-se-te o brasão sobre a chapa do escudo,</l>
							<l>Nobre: — em campo de blau sete besantes de ouro.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Diex le volt!" E, barão entre os barões primeiros</l>
							<l>Foste, através da Europa, ao Sepulcro ameaçado.</l>
							<l>Dentro de um turbilhão de pajens e escudeiros...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E era-te o gládio ao punho um relâmpago ardente!</l>
							<l>E o teu pendão de guerra ondeou, glorioso, ao lado</l>
							<l>Do pendão de Balduíno, imperador do Oriente.</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>VIII</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">As Índias.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Se a atração da ventura os sonhos te arrebata,</l>
							<l>Conquistador, ao largo! A tua alma sedenta</l>
							<l>Quer a glória, a conquista, o perigo, a tormenta?</l>
							<l>Ao largo! saciarás a ambição que te mata!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Bela, verás surgir, da água azul que a retrata,</l>
							<l>Catai, a cujos pés o mar em flor rebenta;</l>
							<l>E Cipango verás, fabulosa e opulenta,</l>
							<l>Apunhalando o céu com as torres de ouro e prata.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pisarás com desprezo as pérolas mais belas!</l>
							<l>De mirra, de marfim, de incenso carregadas,</l>
							<l>Se arrastarão, arfando, as tuas caravelas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, a aclamar-te Senhor das Terras e dos Mares,</l>
							<l>Os régulos e os reis das ilhas conquistadas</l>
							<l>Se humilharão, beijando o solo que pisares...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>IX</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">O Brasil.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Para! Uma terra nova ao teu olhar fulgura!</l>
							<l>Detém-te! Aqui, de encontro a verdejantes plagas,</l>
							<l>Em carícias se muda a inclemência das vagas...</l>
							<l>Este é o reino da Luz, do Amor e da Fartura!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Treme-te a voz aleita às blasfêmias e às pragas,</l>
							<l>Ó nauta! Olha-a, de pé, virgem morena e pura,</l>
							<l>Que aos teus beijos entrega, em plena formosura,</l>
							<l>— Os dous seios que, ardendo em desejos, afagas...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beija-a! O sol tropical deu-lhe à pele doirada</l>
							<l>O barulho do ninho, o perfume da rosa,</l>
							<l>A frescura do rio, o esplendor da alvorada...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Beija-a! é a mais bela flor da Natureza inteira!</l>
							<l>E farta-te de amor nessa carne cheirosa,</l>
							<l>Ó desvirginador da Terra Brasileira!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>X</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">O Voador.</hi>
						</head>
						<opener>
							<epigraph>
								<cit>
									<quote>
										<p>"Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, inventor do aerostato, morreu miseravelmente num convento, em Toledo, sem ter quem lhe velasse a agonia."</p>
									</quote>
								</cit>
							</epigraph>
						</opener>
						<lg>
							<l>Em Toledo. Lá fora, a vida tumultua</l>
							<l>E canta. A multidão em festa se atropela...</l>
							<l>E o pobre, que o suor da agonia enregela,</l>
							<l>Cuida o seu nome ouvir na aclamação da rua.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Agoniza o Voador. Piedosamente, a lua</l>
							<l>Vem velar-lhe a agonia, através da janela.</l>
							<l>A Febre, o Sonho, a Glória enchem a escura cela,</l>
							<l>E entre as névoas da morte uma visão flutua:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Voar! varrer o céu com as asas poderosas,</l>
							<l>Sobre as nuvens! correr o mar das nebulosas,</l>
							<l>Os continentes de ouro e fogo da amplidão!..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o pranto do luar cai sobre o catre imundo...</l>
							<l>E em farrapos, sozinho, arqueja moribundo</l>
							<l>Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XI</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">O polo.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>"Para, conquistador intimorato e forte!</l>
							<l>Para! que buscas mais que te enobreça e eleve?</l>
							<l>E tão alegre o sol! a existência é tão breve!</l>
							<l>E é tão fria essa tumba entre os gelos do norte!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dorme o céu. Numa ronda esquálida, de leve,</l>
							<l>Erram fantasmas. Reina um silêncio de morte.</l>
							<l>Focas de vulto informe, ursos de estranho porte</l>
							<l>Morosamente vão de rastros sobre a neve..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em vão!... E o gelo cresce, e espedaça o navio.</l>
							<l>E ele, subjugador do perigo e do medo,</l>
							<l>Sem um gemido cai, morto de fome e frio.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o Mistério se fecha aos seus olhos serenos...</l>
							<l>Que importa? Outros virão devassar-lhe o segredo!</l>
							<l>Um cadáver de mais... um sonhador de menos...</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XII</head>
						<head type="sub">
							<hi rend="italic">A morte.</hi>
						</head>
						<lg>
							<l>Oh! a jornada negra! A alma se despedaça...</l>
							<l>Tremem as mãos... O olhar, molhado e ansioso, espia,</l>
							<l>E vê fugir, fugir a ribanceira fria,</l>
							<l>Por onde a procissão dos dias mortos passa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>No céu gelado expira o derradeiro dia,</l>
							<l>Na última região que o teu olhar devassa!</l>
							<l>E só, trevoso e largo, o mar estardalhaça</l>
							<l>No indizível horror de uma noite vazia...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pobre! por que, a sofrer, a leste e a oeste, ao norte</l>
							<l>E ao sul, desperdiçaste a força de tua alma?</l>
							<l>Tinhas tão perto o Bem, tendo tão perto a Morte!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Paz à tua ambição! paz à tua loucura!</l>
							<l>A conquista melhor é a conquista da Calma:</l>
							<l>— Conquistaste o país do Sono e da Ventura!</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XIII</head>
						<head type="sub">A Missão de Purna</head>
						<opener>
							<argument type="inspiração">
								<p>
									<hi rend="italic">(Do Evangelho de Buda.)</hi>
								</p>
							</argument>
						</opener>
						<lg>
							<l>Ora Buda, que, em prol da nova fé, levanta</l>
							<l>Na Índia antiga o clamor de uma cruzada santa</l>
							<l>Contra a religião dos brâmanes, — medita.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Imensa, em torno ao sábio, a multidão se agita:</l>
							<l>E há nessa multidão, que enche a planície vasta,</l>
							<l>Homens de toda a espécie, árias de toda a casta.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Todos os que (a princípio, enchia Brahma o espaço)</l>
							<l>Da cabeça, do pé, da coxa ou do antebraço</l>
							<l>Do deus vieram à luz para povoar a terra:</l>
							<l>— Xátrias, de braço forte armado para a guerra;</l>
							<l>Sáquias, filhos de reis; leprosos perseguidos</l>
							<l>Como cães, como cães de lar em lar corridos;</l>
							<l>Os que vivem no mal e os que amam a virtude;</l>
							<l>Os ricos de beleza e os pobres de saúde;</l>
							<l>Mulheres fortes, mães ou prostitutas, cheio</l>
							<l>De tentações o olhar ou de alvo leite o seio;</l>
							<l>Guardadores de bois; robustos lavradores,</l>
							<l>A cujo arado a terra abre em frutos e flores;</l>
							<l>Crianças; anciãos; sacerdotes de Brahma;</l>
							<l>Párias, sudras servis rastejando na lama;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>— Todos acham amor dentro da alma de Buda,</l>
							<l>E tudo nesse amor se eterniza e transmuda.</l>
							<l>Porque o sábio, envolvendo a tudo, em seu caminho</l>
							<l>Na mesma caridade e no mesmo carinho,</l>
							<l>Sem distinção promete a toda a raça humana</l>
							<l>A bem-aventurança eterna do Nirvana.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l part="I">Ora, Buda medita.</l>
							<l part="F">À maneira do orvalho,</l>
							<l>Que, na calma da noite, anda de galho em galho</l>
							<l>Dando vida e umidade às árvores crestadas,</l>
							<l>— Aos corações sem fé e às almas desgraçadas</l>
							<l>Concede o novo credo a esperança do sono:</l>
							<l>Mas... as almas que estão, no horrível abandono</l>
							<l>Dos desertos, de par com os animais ferozes,</l>
							<l>Longe de humano olhar, longe de humanas vozes,</l>
							<l>A rolar, a rolar de pecado em pecado?...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l part="I">Ergue-se Buda:</l>
							<l part="M">"Purna!"</l>
							<l part="F">O discípulo amado</l>
							<l part="I">Chega:</l>
							<l part="F">"Purna! é mister que a palavra divina</l>
							<l>Da água do mar de Omã à água do mar da China,</l>
							<l>Longe do Indus natal e das margens do Ganges,</l>
							<l>Semeies, através de dardos, e de alfanjes,</l>
							<l part="I">E de torturas!"</l>
							<l part="F">Purna ouve sorrindo, e cala.</l>
							<l>No silêncio em que está, um sonho doce o embala.</l>
							<l>No profundo clarão do seu olhar profundo</l>
							<l>Brilham a ânsia da morte e o desprezo do mundo.</l>
							<l>O corpo, que O rigor das privações consome,</l>
							<l>Esquelético, nu, comido pela fome,</l>
							<l>Treme, quase a cair como um bambu com o vento;</l>
							<l>E erra-lhe à flor da boca a luz do firmamento</l>
							<l part="I">Presa a um sorriso de anjo.</l>
							<l part="F">E ajoelha junto ao Santo:</l>
							<l>Beija-lhe o pó dos pés, beija-lhe o pó do manto.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Filho amado! — diz Buda — essas bárbaras gentes</l>
							<l>São grosseiras e vis, são rudes e inclementes;</l>
							<l>Se os homens (que, em geral, são maus os homens todos)</l>
							<l>Te insultarem a crença, e a cobrirem de apodos,</l>
							<l>Que dirás, que farás contra essa gente inculta?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Mestre! direi que é boa a gente que me insulta,</l>
							<l>Pois, podendo ferir-me, apenas me injuria..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Filho amado! e se a injúria abandonando, um dia</l>
							<l>Um homem te espancar, vendo-te fraco e inerme,</l>
							<l>E sem piedade aos pés te pisar, como a um verme?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Mestre! direi que é bom o homem que me magoa,</l>
							<l>Pois, podendo ferir-me, apenas me esbordoa..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Filho amado! e se alguém, vendo-te agonizante,</l>
							<l>Te furar com um punhal a carne palpitante?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Mestre! direi que é bom quem minha carne fura,</l>
							<l>Pois, podendo matar-me, apenas me tortura..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Filho amado! e se, enfim, sedentos de mais sangue,</l>
							<l>Te arrancarem ao corpo enfraquecido e exangue</l>
							<l>O último alento, o sopro último da existência,</l>
							<l>Que dirás, ao morrer, contra tanta inclemência?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Mestre! direi que é bom quem me livra da vida.</l>
							<l>Mestre! direi que adoro a mão boa e querida,</l>
							<l>Que, com tão pouca dor, minha carne cansada</l>
							<l>Entrega ao sumo bem e à suma paz do Nada!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Filho amado! — diz Buda — a palavra divina,</l>
							<l>Da água do mar de Omã à água do mar da China,</l>
							<l>Longe do Indus natal e dos vales do Ganges,</l>
							<l>Vai levar, através de dardos e de alfanjes!</l>
							<l>Purna! ao fim da Renúncia e ao fim da Caridade</l>
							<l>Chegaste, estrangulando a tua humanidade!</l>
							<l>Tu, sim! podes partir, apóstolo perfeito,</l>
							<l>Que o Nirvana já tens dentro do próprio peito,</l>
							<l>E és digno de ir pregar a toda raça humana</l>
							<l>A bem-aventurança eterna do Nirvana!"</l>
						</lg>
					</div>
					<div aoidos:unit="y">
						<head>XIV</head>
						<head type="sub">Sagres</head>
						<opener>
							<epigraph>
								<cit>
									<quote>
										<p>"Acreditavam os antigos celtas, do Guadiana espalhados até a costa, que, no templo circular do Promontório Sacro, se reuniam à noite os deuses, em misteriosas conversas com esse mar cheio de enganos e tentações."</p>
										<p>OL. MARTINS. — <hi rend="italic">Hist. de Portugal.</hi>
										</p>
									</quote>
									<bibl>
										<author>Oliveira Martins</author>
									</bibl>
								</cit>
							</epigraph>
						</opener>
						<lg>
							<l>Em Sagres. Ao tufão, que se desencadeia,</l>
							<l>A água negra, em cachões, se precipita, a uivar;</l>
							<l>Retorcem-se gemendo os zimbros sobre a areia.</l>
							<l>E, impassível, opondo ao mar o vulto enorme,</l>
							<l>Sob as trevas do céu, pelas trevas do mar,</l>
							<l>Berço de um mundo novo, o promontório dorme.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Só, na trágica noite e no sítio medonho,</l>
							<l>Inquieto como o mar sentindo o coração,</l>
							<l>Mais largo do que o mar sentindo o próprio sonho,</l>
							<l>— Só, aferrando os pés sobre um penhasco a pique,</l>
							<l>Sorvendo a ventania e espiando a escuridão,</l>
							<l>Queda, como um fantasma, o Infante Dom Henrique...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Casto, fugindo o amor, atravessa a existência</l>
							<l>Imune de paixões, sem um grito sequer</l>
							<l>Na carne adormecida em plena adolescência;</l>
							<l>E nunca aproximou da face envelhecida</l>
							<l>O nectário da flor, a boca da mulher,</l>
							<l>Nada do que perfuma o deserto da vida.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Forte, em Ceuta, ao clamor dos pífanos de guerra,</l>
							<l>Entre as mesnadas (quando a matança sem dó</l>
							<l>Dizimava a moirama e estremecia a terra),</l>
							<l>Viram-no levantar, imortal e brilhante,</l>
							<l>Entre os raios do sol, entre as nuvens do pó,</l>
							<l>A alma de Portugal no aceiro do montante.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Em Tanger, na jornada atroz do desbarato,</l>
							<l>— Duro, ensopando os pés em sangue português,</l>
							<l>Empedrado na teima e no orgulho insensato,</l>
							<l>Calmo, na confusão do horrendo desenlace,</l>
							<l>— Vira partir o irmão para as prisões de Fez,</l>
							<l>Sem um tremor na voz, sem um tremor na face.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>É que o Sonho lhe traz dentro de um pensamento</l>
							<l>A alma toda cativa. A alma de um sonhador</l>
							<l>Guarda em si mesma a terra, o mar, o firmamento,</l>
							<l>E, cerrada de todo à inspiração de fora,</l>
							<l>Vive como um vulcão, cujo fogo interior</l>
							<l>A si mesmo imortal se nutre e se devora.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Terras da Fantasia! Ilhas Afortunadas,</l>
							<l>Virgens, sob a meiguice e a limpidez do céu,</l>
							<l>Como ninfas, à flor das águas remansadas!</l>
							<l>— Pondo o rumo das naus contra a noite horrorosa</l>
							<l>Quem sondara esse abismo e rompera esse véu,</l>
							<l>Ó sonho de Platão, Atlântida formosa!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mar tenebroso! aqui recebes, porventura,</l>
							<l>A síncope da vida, a agonia da luz...</l>
							<l>Começa o Caos aqui, na orla da praia escura?</l>
							<l>E a mortalha do mundo a bruma que te veste?</l>
							<l>Mas não! por trás da bruma, erguendo ao sol a Cruz,</l>
							<l>Vós sorrides ao sol, Terras Cristãs do Preste!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Promontório Sagrado! Aos teus pés, amoroso,</l>
							<l>Chora o monstro... Aos teus pés, todo o grande poder,</l>
							<l>Toda a força se esvai do oceano Tenebroso...</l>
							<l>Que ansiedade lhe agita os flancos? Que segredo,</l>
							<l>Que palavras confia essa boca, a gemer,</l>
							<l>Entre beijos de espuma, à algidez do rochedo?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que montanhas mordeu, no seu furor sagrado?</l>
							<l>Que rios, através de selvas e areais,</l>
							<l>Vieram nele encontrar um túmulo ignorado?</l>
							<l>De onde vem ele? ao sol de que remotas plagas</l>
							<l>Borbulhou e dormiu? que cidades reais</l>
							<l>Embalou no regaço azul de suas vagas?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Se tudo é morte além, — em que deserto horrendo,</l>
							<l>Em que ninho de treva os astros vão dormir?</l>
							<l>Em que solidão o sol sepulta-se, morrendo?</l>
							<l>Se tudo é morte além, por que, a sofrer sem calma,</l>
							<l>Erguendo os braços no ar, havemos de sentir</l>
							<l>Estas aspirações, como asas dentro da alma?"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E, torturado e só, sobre o penhasco a pique,</l>
							<l>Com os olhos febris furando a escuridão,</l>
							<l>Queda como um fantasma o Infante Dom Henrique...</l>
							<l>Entre os zimbros e a névoa, entre o vento e a salsugem,</l>
							<l>A voz incompreendida, a voz da Tentação</l>
							<l>Canta ao surdo bater dos macaréus que rugem:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Ao largo, Ousado! o segredo</l>
							<l rend="indent2">Espera, com ansiedade,</l>
							<l rend="indent2">Alguém privado de medo</l>
							<l rend="indent2">E provido de vontade...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Verás destes mares largos</l>
							<l rend="indent2">Dissipar-se a cerração!</l>
							<l rend="indent2">Aguça os teus olhos, Argos:</l>
							<l rend="indent2">Tomará corpo a visão...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Sonha, afastado da guerra,</l>
							<l rend="indent2">De tudo! — em tua fraqueza,</l>
							<l rend="indent2">Tu, dessa ponta de terra,</l>
							<l rend="indent2">Dominas a natureza!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Na escuridão que te cinge,</l>
							<l rend="indent2">Édipo! com altivez,</l>
							<l rend="indent2">No olhar da líquida esfinge</l>
							<l rend="indent2">O olhar mergulhas, e lês...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tu que, casto, entre os teus sábios,</l>
							<l rend="indent2">Murchando a flor dos teus dias,</l>
							<l rend="indent2">Sobre mapas e astrolábios</l>
							<l rend="indent2">Encaneces e porfias;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tu, buscando o oceano infindo,</l>
							<l rend="indent2">Tu, apartado dos teus,</l>
							<l rend="indent2">(Para, dos homens fugindo,</l>
							<l rend="indent2">Ficar mais perto de Deus);</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Tu, no agro templo de Sagres,</l>
							<l rend="indent2">Ninho das naves esbeltas,</l>
							<l rend="indent2">Reproduzes os milagres</l>
							<l rend="indent2">Da idade escura dos celtas:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Vê como a noite está cheia</l>
							<l rend="indent2">De vagas sombras... Aqui,</l>
							<l rend="indent2">Deuses pisaram a areia,</l>
							<l rend="indent2">Hoje pisada por ti.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">E, como eles poderoso,</l>
							<l rend="indent2">Tu, mortal, tu, pequenino,</l>
							<l rend="indent2">Vences o mar Tenebroso,</l>
							<l rend="indent2">Ficas senhor do Destino!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Já, enfunadas as velas,</l>
							<l rend="indent2">Como asas a palpitar,</l>
							<l rend="indent2">Espalham-se as caravelas</l>
							<l rend="indent2">Aves tontas pelo mar...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Nessas tábuas oscilantes,</l>
							<l rend="indent2">Sob essas asas abertas,</l>
							<l rend="indent2">A alma dos teus navegantes</l>
							<l rend="indent2">Povoa as águas desertas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Já, do fundo mar vário,</l>
							<l rend="indent2">Surgem as ilhas, assim</l>
							<l rend="indent2">Como as contas de um rosário</l>
							<l rend="indent2">Soltas nas águas sem fim.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Já, como cestas de flores,</l>
							<l rend="indent2">Que o mar de leve balança,</l>
							<l rend="indent2">Abrem-se ao sol os Açores</l>
							<l rend="indent2">Verdes, da cor da esperança.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Vencida a ponta encantada</l>
							<l rend="indent2">Do Bojador, teus heróis</l>
							<l rend="indent2">Pisam a África, abrasada</l>
							<l rend="indent2">Pela inclemência dos sóis.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Não basta! Avante!</l>
							<l rend="indent2">Tu, morto</l>
							<l rend="indent2">Em breve, tu, recolhido</l>
							<l rend="indent2">Em calma, ao último porto,</l>
							<l rend="indent2">— Porto da paz e do olvido,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Não verás, com o olhar em chama,</l>
							<l rend="indent2">Abrir-se, no oceano azul,</l>
							<l rend="indent2">O voo das naus do Gama,</l>
							<l rend="indent2">De rostros feitos ao sul...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Que importa? Vivo e ofegando</l>
							<l rend="indent2">No ofego das velas soltas,</l>
							<l rend="indent2">Teu sonho estará cantando</l>
							<l rend="indent2">À flor das águas revoltas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Vencido, o peito arquejante.</l>
							<l rend="indent2">Levantado em furacões,</l>
							<l rend="indent2">Cheia a boca e regougante</l>
							<l rend="indent2">De escuma e de imprecações,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Rasgando, em fúria, às unhadas</l>
							<l rend="indent2">O peito, e contra os escolhos</l>
							<l rend="indent2">Golfando, em flamas iradas,</l>
							<l rend="indent2">Os relâmpagos dos olhos,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Louco, ululante, e impotente</l>
							<l rend="indent2">Como um verme, — Adamastor</l>
							<l rend="indent2">Verá pela tua gente</l>
							<l rend="indent2">Galgado o cabo do Horror!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Como o reflexo de um astro,</l>
							<l rend="indent2">Cintila e a frota abençoa</l>
							<l rend="indent2">No tope de cada mastro</l>
							<l rend="indent2">O Santelmo de Lisboa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">E alta já, de Moçambique</l>
							<l rend="indent2">A Calicut, a brilhar,</l>
							<l rend="indent2">Olha, Infante Dom Henrique!</l>
							<l rend="indent2">— Passou a Esfera Armilar...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Fartar! como um santuário</l>
							<l rend="indent2">Zeloso de seu tesouro,</l>
							<l rend="indent2">Que, ao toque de um temerário,</l>
							<l rend="indent2">Largas abre as portas de ouro,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">— Eis as terras feiticeiras</l>
							<l rend="indent2">Abertas... Da água através,</l>
							<l rend="indent2">Deslizem fustas ligeiras,</l>
							<l rend="indent2">Corram ávidas galés!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Aí vão, oprimindo o oceano,</l>
							<l rend="indent2">Toda a prata que fascina,</l>
							<l rend="indent2">Todo o marfim africano,</l>
							<l rend="indent2">Todas as sedas da China...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Fartar!... Do seio fecundo</l>
							<l rend="indent2">Do Oriente abrasado em luz,</l>
							<l rend="indent2">Derramem-se sobre o mundo</l>
							<l rend="indent2">As pedrarias de Ormuz!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l rend="indent2">Sonha, — afastado da guerra,</l>
							<l rend="indent2">Infante!... Em tua fraqueza,</l>
							<l rend="indent2">Tu, dessa ponta de terra,</l>
							<l rend="indent2">Dominas a natureza!..."</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Longa e cálida, assim, fala a voz da Sereia...</l>
							<l>Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.</l>
							<l>Doce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,</l>
							<l>Passa o vento. Sorri palidamente o dia...</l>
							<l>E súbito, como um tabernáculo, o céu</l>
							<l>Entre faixas de prata e púrpura irradia...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tênue, a Princípio, sobre as pérolas da espuma,</l>
							<l>Dança torvelinhando a chuva de ouro. Além,</l>
							<l>Invadida do fogo, arde e palpita a bruma,</l>
							<l>Numa cintilação de nácar e ametistas...</l>
							<l>E o olhar do Infante vê, na água que vai e vem,</l>
							<l>Desenrolar-se vivo o drama das Conquistas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Todo o oceano referve, incendido em diamantes,</l>
							<l>Desmanchado em rubis. Galeões descomunais,</l>
							<l>Crespas selvas sem fim de mastros deslumbrantes,</l>
							<l>Continentes de fogo, ilhas resplandecendo,</l>
							<l>Costas de âmbar, parcéis de aljofres e corais,</l>
							<l>— Surgem, redemoinhando e desaparecendo...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>É o dia! — A bruma foge. Iluminam-se as grutas.</l>
							<l>Dissipam-se as visões... O Infante, a meditar,</l>
							<l>Como um fantasma, segue entre as rochas abruptas.</l>
							<l>E impassível, opondo ao mar o vulto enorme,</l>
							<l>Fim de um mundo sondando o deserto do mar,</l>
							<l>— Berço de um mundo novo — o promontório dorme.</l>
						</lg>
					</div>
				</div>
				<div aoidos:unit="y">
					<head>O CAÇADOR DE ESMERALDAS</head>
					<head type="sub">Episódio da epopeia sertanista no XVIIº século</head>
					<div type="section">
						<head>I</head>
						<lg>
							<l>Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada</l>
							<l>De outono, quando a terra, em sede requeimada,</l>
							<l>Bebera longamente as águas da estação,</l>
							<l>- Que, em <hi rend="italic">bandeira</hi>, buscando esmeraldas e prata,</l>
							<l>À frente dos peões filhos da rude mata,</l>
							<l>Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! quem te vira assim, no alvorecer da vida,</l>
							<l>Bruta Pátria, no berço, entre as selvas dormida,</l>
							<l>No virginal pudor das primitivas eras,</l>
							<l>Quando, aos beijos do sol, mas compreendendo o anseio</l>
							<l>Do mundo por nascer que trazias no seio,</l>
							<l>Reboavas ao tropel dos índios e das feras!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Já lá fora, da ourela azul das enseadas,</l>
							<l>Das angras verdes, onde as águas repousadas</l>
							<l>Vêm, borbulhando, à flor dos cachopos cantar;</l>
							<l>Das abras e da foz dos tumultuosos rios,</l>
							<l>- Tomadas de pavor, dando contra os baixios,</l>
							<l>As pirogas dos teus fugiam pelo mar...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>De longe, ao duro vento opondo as largas velas,</l>
							<l>Bailando ao furacão, vinham as caravelas,</l>
							<l>Entre os uivos do mar e o silêncio dos astros;</l>
							<l>E tu, do litoral, de rojo nas areias,</l>
							<l>Vias o oceano arfar, vias as ondas cheias</l>
							<l>De uma palpitação de proas e de mastros.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Pelo deserto imenso e líquido, os penhascos</l>
							<l>Feriam-nas em vão, roíam-lhes os cascos...</l>
							<l>A quantas, quanta vez, rodando aos ventos maus,</l>
							<l>O primeiro pegão, como a baixéis, quebrava!</l>
							<l>E lá iam, no alvor da espumarada brava,</l>
							<l>Despojos da ambição, cadáveres de naus...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Outras vinham, na febre heroica da conquista!</l>
							<l>E quando, de entre os véus das neblinas, à vista</l>
							<l>Dos nautas fulgurava o teu verde sorriso,</l>
							<l>Os seus olhos, ó Pátria, enchiam-se de pranto:</l>
							<l>Era como se, erguendo a ponto do teu manto,</l>
							<l>Vissem, à beira d’água, abrir-se o Paraíso!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mais numerosa, mais audaz, de dia em dia,</l>
							<l>Engrossava a invasão. Como a enchente bravia,</l>
							<l>Que sobre as terras, palmo a palmo, abre o lençol</l>
							<l>De água devastadora, — os brancos avançavam:</l>
							<l>E os teus filhos de bronze ante eles recuavam,</l>
							<l>Como a sombra recua ante a invasão do sol.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Já nas faldas da serra apinhavam-se aldeias;</l>
							<l>Levantava-se a cruz sobre as alvas areias,</l>
							<l>Onde, ao brando mover dos leques das juçaras,</l>
							<l>Vivera e progredira a tua gente forte...</l>
							<l>Soprara a destruição, como um vento de morte,</l>
							<l>Desterrando os pajés, abatendo as caiçaras.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas além, por detrás das broncas serranias,</l>
							<l>Na cerrada região das florestas sombrias,</l>
							<l>Cujos troncos, rompendo as lianas e os cipós,</l>
							<l>Alastravam no céu léguas de rama escura;</l>
							<l>Nos matagais, em cuja horrível espessura</l>
							<l>Só corria a anta leve e uivava a onça feroz:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Além da áspera brenha, onde as tribos errantes</l>
							<l>À sombra material das árvores gigantes</l>
							<l>Acampavam; além das sossegadas águas</l>
							<l>Das lagoas, dormindo entre aningais floridos;</l>
							<l>Dos rios, acachoando em quedas e bramidos,</l>
							<l>Mordendo os alcantis, roncando pelas fráguas;</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>- Aí, não ia ecoar o estrupido da luta...</l>
							<l>E, no seio nutriz da natureza bruta,</l>
							<l>Resguardava o pudor teu verde coração!</l>
							<l>Ah! quem te vira assim, entre as selvas sonhando,</l>
							<l>Quando a <hi rend="italic">bandeira</hi> entrou pelo teu seio, quando</l>
							<l>Fernão Dias Pais Leme invadiu o sertão!</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>II</head>
						<lg>
							<l>Para o norte inclinando a lombada brumosa,</l>
							<l>Entre os nateiros jaz a serra misteriosa;</l>
							<l>A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas,</l>
							<l>E águas crespas, galgando abismos e barrancos</l>
							<l>Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos</l>
							<l>Em cujos socavões dormem as esmeraldas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Verde sonho!... é a jornada ao país da Loucura!</l>
							<l>Quantas <hi rend="italic">bandeiras</hi> já, pela mesma aventura</l>
							<l>Levadas, em tropel, na ânsia de enriquecer!</l>
							<l>Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada</l>
							<l>Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada,</l>
							<l>Que vêm, a uivar de fome, as onças remexer...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que importa o desamparo em meio do deserto,</l>
							<l>E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto</l>
							<l>De terror em terror, lutando braço a braço</l>
							<l>Com a inclemência do céu e a dureza da sorte?</l>
							<l>Serra bruta! dar-lhe-ás, antes de dar-lhe a morte,</l>
							<l>As pedras de Cortez, que escondes no regaço!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E sete anos, de fio em fio destramando</l>
							<l>O mistério, de passo em passo penetrando</l>
							<l>O verde arcano, foi o <hi rend="italic"/>bandeirante audaz...</l>
							<l>- Marcha horrenda! derrota implacável e calma,</l>
							<l>Sem uma hora de amor, estrangulando na alma</l>
							<l>Toda a recordação do que ficava atrás!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>A cada volta, a Morte, a fiando o olhar faminto,</l>
							<l>Incansável no ardil, rondando o labirinto</l>
							<l>Em que às tontas errava a <hi rend="italic">bandeira</hi> nas matas,</l>
							<l>Cercando-a com o crescer dos rios iracundos,</l>
							<l>Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos,</l>
							<l>Onde vinham ruir com fragor as cascatas.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Aqui, tapando o espaço, entrelaçando as grenhas</l>
							<l>Em negros paredões, levantavam-se as brenhas,</l>
							<l>Cuja muralha, em vão, sem a poder dobrar,</l>
							<l>Vinham acometer os temporais, aos roncos;</l>
							<l>E os machados, de sol a sol mordendo os troncos,</l>
							<l>Contra esse adarve bruto em vão rodavam no ar.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Dentro, no frio horror das balseiras escuras,</l>
							<l>Viscosas e oscilando, úmidas colgaduras</l>
							<l>Pendiam de cipós na escuridão noturna;</l>
							<l>E um mundo de reptis silvava no negrume;</l>
							<l>Cada folha pisada exalava um queixume,</l>
							<l>E uma pupila má chispava em cada furna.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Depois, nos chapadões, o rude acampamento:</l>
							<l>As barracas, voando em frangalhos ao vento,</l>
							<l>Ao granizo, à invernada, à chuva, ao temporal...</l>
							<l>E quantos deles, nus, sequiosos, no abandono,</l>
							<l>Iam ficando atrás, no derradeiro sono,</l>
							<l>Sem chegar ao sopé da colina fatal!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Que importava? Ao clarear da manhã, a companha</l>
							<l>Buscava no horizonte o perfil da montanha...</l>
							<l>Quando apareceria enfim, vergando a espalda,</l>
							<l>Desenhada no céu entre as neblinas claras,</l>
							<l>A grande serra, mãe das esmeraldas raras,</l>
							<l>Verde e faiscante como uma grande esmeralda?</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Avante! e os aguaçais seguiam-se às florestas...</l>
							<l>Vinham os lamações, as leziras funestas,</l>
							<l>De água paralisada e decomposta ao sol,</l>
							<l>Em cuja face, como um bando de fantasmas,</l>
							<l>Erravam dia e noite as febres e os miasmas,</l>
							<l>Numa ronda letal sobre o podre lençol.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Agora, o áspero morro, os caminhos fragosos...</l>
							<l>Leve, de quando em quando, entre os troncos nodosos</l>
							<l>Passa um plúmeo cocar, como uma ave que voa...</l>
							<l>Uma flecha, subtil, silva e zarguncha... É a guerra!</l>
							<l>São os índios! Retumba o eco da bruta serra</l>
							<l>Ao tropel... E o estridor da batalha reboa.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Depois, os ribeirões, nas levadas, transpondo</l>
							<l>As ribas, rebramando, e de estrondo em estrondo</l>
							<l>Inchando em macaréus o seio destruidor,</l>
							<l>E desenraizando os troncos seculares,</l>
							<l>No esto da aluvião estremecendo os ares,</l>
							<l>E indo torvos rolar nos vales com fragor...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Sete anos! combatendo índios, febres, paludes,</l>
							<l>Feras, reptis, — contendo os sertanejos rudes,</l>
							<l>Dominando o furor da amotinada escolta...</l>
							<l>Sete anos!... E ei-lo de volta, enfim, com o seu tesouro!</l>
							<l>Com que amor, contra o peito, a sacola de couro</l>
							<l>Aperta, a transbordar de pedras verdes! – volta...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Mas um desvão da mata, uma tarde, ao sol posto,</l>
							<l>Para. Um frio livor se lhe espalha no rosto...</l>
							<l>É a febre! O Vencedor não passará dali!</l>
							<l>Na terra que venceu há de cair vencido:</l>
							<l>É a febre: é a morte! E o Herói, trôpego e envelhecido,</l>
							<l>Roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>III</head>
						<lg>
							<l>Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento</l>
							<l>Chora longo, a rolar na longa voz do vento.</l>
							<l>Mugem soturnamente as águas. O céu arde.</l>
							<l>Transmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,</l>
							<l>Na mesma solidão e na mesma hora triste,</l>
							<l>À agonia do herói e à agonia da tarde.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.</l>
							<l>Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras</l>
							<l>Uivam nas lapas. Desce a noite, como um véu...</l>
							<l>Pálido, no palor da luz, o sertanejo</l>
							<l>Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.</l>
							<l>- Fernão Dias Pais Leme agoniza, e olha o céu.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida</l>
							<l>Em surtos de paixão e febre repartida,</l>
							<l>Toda, num só olhar, devorando as estrelas!</l>
							<l>Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,</l>
							<l>- Que as implora, que bebe a sua luz tranquila,</l>
							<l>Que morre. E nunca mais, nunca mais há de vê-las!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ei-las todas, enchendo o céu, de canto a canto...</l>
							<l>Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,</l>
							<l>Tanta constelação pela planície azul!</l>
							<l>Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto,</l>
							<l>Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto</l>
							<l>Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Noites de outrora!... Enquanto a <hi rend="italic">bandeira</hi> dormia</l>
							<l>Exausta, e áspero o vento em derredor zunia,</l>
							<l>E a voz do noitibó soava como um agouro,</l>
							<l>- Quantas vezes Fernão, do cabeço de um monte,</l>
							<l>Via lenta subir do fundo do horizonte</l>
							<l>Aclara procissão dessas <hi rend="italic">bandeiras</hi> de ouro!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens</l>
							<l>Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!</l>
							<l>Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus</l>
							<l>Ressoantes de amor! outonos benfeitores!</l>
							<l>Nuvens e aves, adeus! Adeus, feras e flores!</l>
							<l>Fernão Dias Pais Leme espera a morte... Adeus!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>O Sertanista ousado agoniza, sozinho...</l>
							<l>Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;</l>
							<l>E com a roupa de couro em farrapos, deitado,</l>
							<l>Com a garganta afogada em uivos, ululante,</l>
							<l>Entre os troncos da brenha hirsuta, — o <hi rend="italic">Bandeirante</hi>
							</l>
							<l>Jaz por terra, à feição de um tronco derribado...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E o delírio começa. A mão, que a febre agita,</l>
							<l>Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,</l>
							<l>Crispa os dedos, e sonda a terra, a escarva o chão:</l>
							<l>Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,</l>
							<l>Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,</l>
							<l>Como para o enterrar dentro do coração.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso!</l>
							<l>Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço</l>
							<l>De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!</l>
							<l>Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo,</l>
							<l>Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,</l>
							<l>Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E foi para morrer de cansaço e de fome,</l>
							<l>Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,</l>
							<l>Te dê uma oração e um punhado de cal,</l>
							<l>- Que tantos corações calcaste sob os passos,</l>
							<l>E na alma da mulher que te estendia os braços</l>
							<l>Sem piedade lançaste um veneno mortal!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E ei-la, a morte! E ei-lo, o fim! A palidez aumenta;</l>
							<l>Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...</l>
							<l>Mas, agora, um clarão ilumina-lhe a face:</l>
							<l>E essa face cavada e magra, que a tortura</l>
							<l>Da fome e das privações maceraram, — fulgura,</l>
							<l>Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse.</l>
						</lg>
					</div>
					<div type="section">
						<head>IV</head>
						<lg>
							<l>Adoça-lhe o olhar, num fulgor indeciso:</l>
							<l>Leve, na boca aflante, esvoaça-lhe um sorriso...</l>
							<l>- E adelgaça-se o véu das sombra. O luar</l>
							<l>Abre no horror da noite uma verde clareira,</l>
							<l>Como para abraçar a natureza inteira,</l>
							<l>Fernão Dias Pais Leme estira os braços no ar...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Verdes, os astros no alto abrem-se em verdes chamas;</l>
							<l>Verdes, na verde mata, embalançam-se as ramas;</l>
							<l>E flores verdes no ar brandamente se movem;</l>
							<l>Chispam verdes fuzis riscando o céu sombrio;</l>
							<l>Em esmeraldas flui a água verde do rio,</l>
							<l>E do céu, todo verde, as esmeraldas chovem...</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>E é uma ressurreição! O corpo se levanta:</l>
							<l>Nos olhos, já sem luz, a vida exsurge e canta!</l>
							<l>E esse destroço humano, esse pouco de pó</l>
							<l>Contra a destruição se aferra à vida, e luta,</l>
							<l>E treme, e cresce, e brilha, e a fia o ouvido, e escuta</l>
							<l>A voz, que na solidão só ele escuta, — só:</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>"Morre! morrem-te às mãos as pedras desejadas,</l>
							<l>Desfeitas como um sonho, e em lodo desmanchadas...</l>
							<l>Que importa? dorme em praz, que o teu labor é findo!</l>
							<l>Nos campos, no pendor das montanhas fragosas,</l>
							<l>Como um grande colar de esmeraldas gloriosas,</l>
							<l>As tuas povoações se estenderão fulgindo!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Quando do acampamento o bando peregrino</l>
							<l>Saía, antemanhã, ao sabor do destino,</l>
							<l>Em busca, ao norte e ao sul, de jazida melhor,</l>
							<l>- No cômoro de terra, em que teu pé poisara,</l>
							<l>Os colmados de palha aprumavam-se, e clara</l>
							<l>A luz de uma clareira espancava o arredor.</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Nesse louco vagar, nessa marcha perdida,</l>
							<l>Tu foste, como o sol, uma fonte de vida:</l>
							<l>Cada passada tua era um caminho aberto!</l>
							<l>Cada pouso mudado, uma nova conquista!</l>
							<l>E enquanto ias, sonhando o teu sonho egoísta,</l>
							<l>Teu pé, como o de um deus, fecundava o deserto!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Morre! tu viverás nas estradas que abriste!</l>
							<l>Teu nome rolará no largo choro triste</l>
							<l>Da água do Guaicuí... Morre, Conquistador!</l>
							<l>Viverás quando, feito em seiva o sangue, aos ares</l>
							<l>Subires, e, nutrindo uma árvore, cantares</l>
							<l>Numa ramada verde entre um ninho e uma flor!</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Morre! germinarão as sagradas sementes</l>
							<l>Das gotas de suor, das lágrimas ardentes!</l>
							<l>Hão de frutificar as fomes e as vigílias!</l>
							<l>E um dia, povoada a terra em que te deitas,</l>
							<l>Quando, aos beijos do sol, sobrarem as colheitas,</l>
							<l>Quando, aos beijos do amor, crescerem as famílias,</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Tu cantarás na voz dos sinos, nas charruas,</l>
							<l>No esto da multidão, no tumultuar das ruas,</l>
							<l>No clamor do trabalho e nos hinos da paz!</l>
							<l>E, subjugando o olvido, através das idades,</l>
							<l>Violador de sertões, plantador de cidades,</l>
							<l>Dentro do coração da Pátria viverás!"</l>
						</lg>
						<lg>
							<l>Cala-se a estranha voz. Dorme de novo tudo.</l>
							<l>Agora, a deslizar pelo arvoredo mudo,</l>
							<l>Como um choro de prata algente o luar escorre.</l>
							<l>E sereno, feliz, no maternal regaço</l>
							<l>Da terra, sob a paz estrelada do espaço,</l>
							<l>Fernão Dias Pais Leme os olhos cerra. E morre.</l>
						</lg>
					</div>
				</div>
				<div type="contents">
					<head>ÍNDICE</head>
					<list>
						<head>PANÓPLIAS</head>
						<item n="1">Profissão de fé</item>
						<item n="2">A morte de Tapir</item>
						<item n="3">A Gonçalves Dias</item>
						<item n="4">Guerreira</item>
						<item n="6">A um grande homem</item>
						<item n="7">A sesta de Nero</item>
						<item n="8">O Incêndio de Roma</item>
						<item n="9">O sonho de Marco Antônio</item>
						<item n="10">Lendo a Ilíada</item>
						<item n="11">Messalina</item>
						<item n="12">A ronda noturna</item>
						<item n="13">
							<hi rend="italic">Delenda Cartago!</hi>
						</item>
					</list>
					<list>
						<head>VIA-LÁCTEA</head>
						<item n="1">Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura,</item>
						<item n="2">Talvez sonhasse quando a vi. Mas via</item>
						<item n="3">Tantos esparsos vi profusamente</item>
						<item n="4">Como a floresta secular, sombria,</item>
						<item n="5">Dizem todos : « — Outrora como as aves</item>
						<item n="6">Em mim também, que descuidado vistes,</item>
						<item n="7">Não têm faltado bocas de serpentes,</item>
						<item n="8">Em que céus mais azuis, mais puros ares,</item>
						<item n="9">De outras sei que se mostram menos frias,</item>
						<item n="10">Deixa que o olhar do mundo emfim devasse</item>
						<item n="11">Todos esses louvores — bem o viste —</item>
						<item n="12">Sonhei que me esperavas. E, sonhando,</item>
						<item n="13">— Ora (direis) ouvir estrellas! Certo</item>
						<item n="14">Viver não pude sem que o fel provasse</item>
						<item n="15">Inda hoje, o livro do passado abrindo,</item>
						<item n="16">Lá fora, a voz do vento ulule rouca!</item>
						<item n="17">Por estas noites frias e brumosas,</item>
						<item n="18">Dormes... Mas que sussurro a umedecida</item>
						<item n="19">Sai a passeio, mal o dia nasce,</item>
						<item n="20">Olha-me! O teu olhar sereno e brando</item>
						<item n="21">Sei que um dia não há e isso é bastante</item>
						<item n="22">Quando te leio, as cenas animadas</item>
						<item n="23">Laura! dizes que Fábio anda ofendido</item>
						<item n="24">Vejo-a, contemplo-a commovido... Aquela</item>
						<item n="25">Tu, que no pego impuro das orgias</item>
						<item n="26">Quando cantas, minh'alma, desprezando</item>
						<item n="27">Ontem — néscio que fui! — maliciosa</item>
						<item n="28">Pinta-me a curva d'estes céus... Agora,</item>
						<item n="29">Por tanto tempo, desvairado e aflito,</item>
						<item n="30">Ao coração que sofre, separado</item>
						<item n="31">Longe de ti, se escuto, porventura,</item>
						<item n="32">Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola —:</item>
						<item n="33">Como quizesse livre ser, deixando</item>
						<item n="34">Quando adivinha que vou vê-la, e à escada</item>
						<item n="35">Pouco me pesa que mofeis sorrindo</item>
					</list>
					<list>
						<head>SARÇAS DE FOGO</head>
						<item n="1">O julgamento de Prineia</item>
						<item n="2">Marinha</item>
						<item n="3">Sobre as bodas de um sexagenário</item>
						<item n="4">
							<hi rend="italic">Abyssus</hi>
						</item>
						<item n="5">Pantum</item>
						<item n="6">Na Tebaida</item>
						<item n="7">Milagre</item>
						<item n="8">Numa concha</item>
						<item n="9">Súplica</item>
						<item n="10">Canção</item>
						<item n="11">Rio abaixo</item>
						<item n="12">Satânia</item>
						<item n="13">Quarenta anos</item>
						<item n="14">Vestígios</item>
						<item n="15">Um trecho de Th. Gautier</item>
						<item n="16">No limiar da morte</item>
						<item n="17">Paráfrase de Baudelaire</item>
						<item n="18">Rios e pântanos</item>
						<item n="19">De volta do baile</item>
						<item n="20">
							<hi rend="italic">Sahara vitae</hi>
						</item>
						<item n="21">Beijo eterno</item>
						<item n="22">Pomba e Chacal</item>
						<item n="23">Medalha antiga</item>
						<item n="24">No cárcere</item>
						<item n="25">Olhando a corrente</item>
						<item n="26">Tenho frio e ardo em febre!</item>
						<item n="27">
							<hi rend="italic">Nel mezzo del camin</hi>
						</item>
						<item n="28">Solitudo</item>
						<item n="29">A canção de Romeu</item>
						<item n="30">A tentação de Xenócrates</item>
					</list>
					<list>
						<head>ALMA INQUIETA</head>
						<item n="1">A avenida das lágrimas</item>
						<item n="2">
							<hi rend="italic">Inania verba</hi>
						</item>
						<item n="3">Sobre as bodas de um sexagenário</item>
						<item n="4">
							<hi rend="italic">Midsummer's night's dream</hi>
						</item>
						<item n="5">
							<hi rend="italic">Mater</hi>
						</item>
						<item n="6">Incontentado</item>
						<item n="7">Sonho</item>
						<item n="8">Primavera</item>
						<item n="9">Dormindo</item>
						<item n="10">Noturno</item>
						<item n="11">Virgens mortas</item>
						<item n="12">O cavaleiro pobre</item>
						<item n="13">Ida</item>
						<item n="14">Noite de inverno</item>
						<item n="15">
							<hi rend="italic">Vanitas</hi>
						</item>
						<item n="16">Tercetos</item>
						<item n="17">
							<hi rend="italic">In extremis</hi>
						</item>
						<item n="18">A alvorada do amor</item>
						<item n="19">
							<hi rend="italic">Vita nuova</hi>
						</item>
						<item n="20">Manhã de verão</item>
						<item n="21">Dentro da noite</item>
						<item n="22">Campo Santo</item>
						<item n="23">Desterro</item>
						<item n="24">Romeu e Julieta</item>
						<item n="25">Vinha de Nabot</item>
						<item n="26">Sacrilégio</item>
						<item n="27">Estâncias</item>
						<item n="28">Pecador</item>
						<item n="29">Rei destronado</item>
						<item n="30">Só</item>
						<item n="31">A um violinista</item>
						<item n="32">Em uma tarde de outono</item>
						<item n="33">Baladas românticas</item>
						<item n="34">Velha página</item>
						<item n="35">Vilfredo</item>
						<item n="36">Tédio</item>
						<item n="37">A voz do amor</item>
						<item n="38">Velhas árvores</item>
						<item n="39">Maldição</item>
						<item n="40">
							<hi rend="italic">Requiescat</hi>
						</item>
						<item n="41">Última página</item>
					</list>
					<list>
						<head>AS VIAGENS</head>
						<item n="1">Primeira migração</item>
						<item n="2">Os fenícios</item>
						<item n="3">Israel</item>
						<item n="4">Alexandre</item>
						<item n="5">César</item>
						<item n="6">Os bárbaros</item>
						<item n="7">As Cruzadas</item>
						<item n="8">As Índias</item>
						<item n="9">O Brasil</item>
						<item n="10">O Voador</item>
						<item n="11">O polo</item>
						<item n="12">A morte</item>
						<item n="13">A missão de Purna</item>
						<item n="14">Sagres</item>
					</list>
					<list>
						<head>O CAÇADOR DE ESMERALDAS</head>
					</list>
				</div>
			</div>
		</body>
	</text>
</TEI>