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      <titleStmt>
        <title>Os escravos</title>
        <author>Castro Alves</author>
      <respStmt>
					<resp>Codificado por</resp>
					<name xml:id="LS">Leandro Scarabelot</name>
				</respStmt>
      </titleStmt>
      <publicationStmt>
				<p>Obra disponível em formato TEI</p>
			</publicationStmt>
			<sourceDesc>
				<bibl>
					<title>Os escravos: Poesias.</title> de Castro Alves. In: ALVES, Castro. Edição popular, com estudo biográfico de Múcio Teixeira, dividida em duas partes: I. A Cachoeira de Paulo Afonso, II. Manuscritos de Stênio. Rio de Janeiro: Tipografia da Escola de Serafim José Alves, 1883.
				</bibl>
			</sourceDesc>
    </fileDesc>
	<profileDesc>
			<textClass>
				<classCode scheme="">poetry</classCode>
			</textClass>
		</profileDesc>
  </teiHeader>
  <text xml:lang="pt" aoidos:poet="Castro Alves">
  <front>
		<div type="epigraph">
		<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<p>Des fleurs, des fleurs! je veux en couronner ma tête pour le combat. La lyre aussi, donnez-moi la lyre, pour que j’entonne un chant de guerre... Des paroles comme des étoiles flamboyantes, qui en tombant incendient les palais et éclairent les cabanes... Des paroles comme des dards brilhants qui penetrent jusqu’au septième ciel, et frappent l’imposture qui s’est glissée dans le sanctuaire des sanctuaires... Je suis tout joie, tout enthusiasme, je suis l’épée, je suis la flamme!...</p>
								</quote>
							<bibl>HENRI HEINE.</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
			</opener>
		</div>
  </front>
    <body>
      <div type="poem" aoidos:unit="y">
        <head>O século</head>
		<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<p>Soldados, do, alto daquelas pirâmides quarenta séculos vos contemplam!</p>
								</quote>
							<bibl>NAPOLEÃO</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
								<lg type="ignore-when-scanning">
								<lg>
									<l>O século é grande e forte.</l>
								</lg>
								</lg>
								</quote>
							<bibl>V. HUGO.</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
								<lg type="ignore-when-scanning">
								<lg>
									<l>Da mortalha de seus bravos</l>
									<l>Fez bandeira a tirania</l>
									<l>Oh! armas talvez o povo</l>
									<l>De seus ossos faça um dia.</l>
								</lg>
								</lg>
								</quote>
							<bibl>J. BONIFÁCIO.</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
			</opener>
        <lg>
          <l>O séc’lo é grande... No espaço</l>
          <l>Há um drama de treva e luz!</l>
          <l>Como Cristo — a liberdade</l>
          <l>Sangra no poste da Cruz.</l>
          <l>Um corvo escuro, anegrado,</l>
          <l>Obumbra o manto azulado,</l>
          <l>Das asas d'águia dos céus.</l>
          <l>Arquejam peitos e frontes...</l>
          <l>Nos lábios dos horizontes</l>
          <l>Há um riso de luz... É Deus.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Às vezes, quebra o silêncio</l>
          <l>Ronco estrídulo, feroz.</l>
          <l>Será o rugir das matas,</l>
          <l>Ou da plebe a imensa voz?...</l>
          <l>Treme a terra hirta e sombria...</l>
          <l>São as vascas da agonia</l>
          <l>Da liberdade no chão?...</l>
          <l>Ou do povo o braço ousado</l>
          <l>Que, sobre montes calcado,</l>
          <l>Abala-os como um Tritão?!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ante esse escuro problema</l>
          <l>Há muito irônico rir...</l>
          <l>P'ra nós o vento da esp'rança</l>
          <l>Traz o pólen do porvir.</l>
          <l>E enquanto o ceticismo</l>
          <l>Mergulha os olhos no abismo,</l>
          <l>Que a seus pés raivando tem,</l>
          <l>Rasga o moço os nevoeiros,</l>
          <l>P'ra dos morros altaneiros</l>
          <l>Ver o sol que irrompe além.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Toda noite — tem auroras,</l>
          <l>Raios — toda a escuridão.</l>
          <l>Moços, creiamos, não tarda</l>
          <l>A aurora da redenção!</l>
          <l>Gemer — é esperar um canto...</l>
          <l>Chorar — aguardar que o pranto</l>
          <l>Faça-se estrela nos céus!</l>
          <l>O mundo é o nauta nas vagas...</l>
          <l>Terá do oceano as plagas</l>
          <l>Se existem justiça e Deus.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No entanto inda há muita noite</l>
          <l>No mapa da criação!</l>
          <l>Sangra o abutre — tirano</l>
          <l>Muito cadáver — nação.</l>
          <l>Desce a Polônia esvaída,</l>
          <l>Cataléptica, adormida,</l>
          <l>À tumba do Sobieski.</l>
          <l>Inda em sonhos busca a espada...</l>
          <l>— Os reis passam sem ver nada...</l>
          <l>— O César olha... e sorri!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Roma inda tem sobre o peito</l>
          <l>O pesadelo dos reis!</l>
          <l>A Grécia espera chorando</l>
          <l>Canaris... <choice><orig>Byron</orig><seg type="apo">Báiron</seg></choice> talvez!</l>
          <l>Napoleão amordaça</l>
          <l>A boca da populaça</l>
          <l>E olha Jersey com terror;</l>
          <l>Como o filho de Sorrento,</l>
          <l>Que fita por um momento</l>
          <l>O Vesúvio aterrador.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A Hungria é como um cadáver</l>
          <l>Ao relento exposto nu;</l>
          <l>Nem sequer a abriga a sombra</l>
          <l>Do foragido <choice><orig>Kossú</orig><seg type="apo">Cossú</seg></choice>.</l>
          <l>Aqui o México ardente,</l>
          <l>Vasto filho independente</l>
          <l>Da liberdade e do sol</l>
          <l>Jaz por terra... e lá soluça</l>
          <l>Juarez, que se debruça</l>
          <l>E diz-lhe: "Espera o arrebol!"</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O quadro é negro. Que os fracos</l>
          <l>Recuem cheios de horror.</l>
          <l>A nós, herdeiros dos Gracos,</l>
          <l>Traz a desgraça — valor!</l>
          <l>Lutai! Há uma lei sublime</l>
          <l>Que diz: "À sombra do crime</l>
          <l>Há de a — vingança marchar."</l>
          <l>Não ouvis do Norte um grito,</l>
          <l>Que bate aos pés do infinito,</l>
          <l>Que vai Franklin despertar?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É o grito dos Cruzados</l>
          <l>Que brada aos moços — De pé!</l>
          <l>É o sol das liberdades</l>
          <l>Que espera por Josué!...</l>
          <l>São bocas de mil escravos</l>
          <l>Que transformaram-se em bravos</l>
          <l>Ao cinzel da abolição.</l>
          <l>É a voz dos libertadores:</l>
          <l>Reptis, — que saltam condores,</l>
          <l>A tropetar n'amplidão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vós, arcas do futuro,</l>
          <l>Crisálidas do porvir!</l>
          <l>Quando vosso braço ousado</l>
          <l>Legislações construir,</l>
          <l>Levantai um templo novo,</l>
          <l>Porém não que esmague o povo,</l>
          <l>Mas lhe seja o pedestal;</l>
          <l>Que ao menino dê-se — a escola,</l>
          <l>Ao veterano — uma esmola...</l>
          <l>A todos — luz e fanal!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Luz!... sim; que a criança é uma ave,</l>
          <l>Cujo porvir tendes vós;</l>
          <l>No sol — é uma águia arrojada,</l>
          <l>Na sombra — um mocho feroz!</l>
          <l>Libertai tribunas, prelos...</l>
          <l>São fracos, mesquinhos elos...</l>
          <l>Não calqueis o povo-rei!</l>
          <l>Que este mar d'almas e peitos,</l>
          <l>Com as vagas de seus direitos,</l>
          <l>Virá quebrar-vos a lei.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quebre-se o cetro do Papa,</l>
          <l>Faça-se dele — uma Cruz!</l>
          <l>A púrpura sirva ao povo</l>
          <l>P'ra cobrir os ombros nus!</l>
          <l>Que aos gritos do Niagara</l>
          <l>— Sem escravos, — Guanabara</l>
          <l>Se eleve ao fulgor dos sóis!</l>
          <l>Banhem-se em luz os prostíbulos,</l>
          <l>E das lascas dos patíbulos</l>
          <l>Erga-se a estátua aos heróis!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Basta!... Eu sei que a mocidade</l>
          <l>É o Moisés no Sinai;</l>
          <l>Das mãos do Eterno recebe</l>
          <l>As tábuas da lei! — Marchai!</l>
          <l>Quem cai na luta com glória,</l>
          <l>Tomba nos braços da História,</l>
          <l>No coração do Brasil!</l>
          <l>Moços do topo dos Andes,</l>
          <l>Pirâmides vastas, grandes,</l>
          <l>Vos contemplam <choice><orig>séculos</orig><seg type="apo">séc'los</seg></choice> mil!</l>
        </lg>
      </div>
	  <div aoidos:unit="y">
        <head>A visão dos mortos</head>
		<opener>
						<epigraph>
							<cit>
								<quote>
									<p>On rapporte encore qu'un berger ayant été introduit une fois par un nain dans le Hyffhouse, l’empereur (Barberousse) se leva et lui demanda si les corbeaux volaient encore autour de la montagne. Et, sur la reponse affirmative du berger, il s’écria: “Il faut donc que je dors encore pendant cent ans!”</p>
								</quote>
							<bibl>H. Heine (<hi rend="italic">Allemagne</hi>).</bibl>
							</cit>
						</epigraph>
					</opener>
        <lg>
          <l>Nas horas tristes que em neblinas densas</l>
          <l>A terra envolta num sudário dorme,</l>
          <l>E o vento geme na amplidão celeste</l>
          <l>— Cúpula imensa dum sepulcro enorme, —</l>
          <l>Um grito passa despertando os ares,</l>
          <l>Levanta as lousas invisível mão;</l>
          <l>Os mortos saltam, poeirentos, lívidos,</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do solo adusto do africano Saara</l>
          <l>Surge um fantasma com soberbo passo,</l>
          <l>— Presos os braços, laureada a fronte...</l>
          <l>Louco poeta, como fora o Tasso! —</l>
          <l>Do sul... do norte... do oriente irrompem</l>
          <l>Dórias, Siqueiras e Machado então;</l>
          <l>Vem Pedro Ivo no cavalo negro</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Tiradentes sobre o poste erguido</l>
          <l>Lá se destaca das cerúleas telas,,</l>
          <l>Pelos cabelos a cabeça erguendo,</l>
          <l>Que rola sangue, que espadana estrelas.</l>
          <l>E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,</l>
          <l>Que amassa um povo na robusta mão...</l>
          <l>O vento agita do tribuno a toga,</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A estátua range... estremecendo move-se</l>
          <l>O rei de bronze na deserta praça...</l>
          <l>O povo grita: — Independência ou Morte! —</l>
          <l>Vendo soberbo o imperador, que passa.</l>
          <l>Duas coroas — seu cavalo pisa,</l>
          <l>Mas — duas cartas ele traz na mão!</l>
          <l>Por guarda de honra tem — dous povos livres —</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Então, no meio de um silêncio lúgubre,</l>
          <l>Solta este grito a legião da morte:</l>
          <l>— Aonde a terra que talhamos livre?</l>
          <l>— Aonde o povo que fizemos forte?</l>
          <l>Nossas mortalhas o presente inunda</l>
          <l>No sangue escravo, que nodoa o chão...</l>
          <l>Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Brutus renega a tribunícia toga,</l>
          <l>O apóst'lo cospe no Evangelho Santo,</l>
          <l>E o Cristo — Povo, no Calvário erguido,</l>
          <l>Fita o futuro com sombrio espanto!</l>
          <l>Nos ninhos d'águias que nos restam? — Corvos,</l>
          <l>Que vendo a pátria se estorcer no chão,</l>
          <l>Passam, repassam, como alados crimes,</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Oh! é preciso inda esperar cem anos...</l>
          <l>—Cem anos —! brada a legião da morte.</l>
          <l>E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,</l>
          <l>Sacode o grito soluçando, o norte...</l>
          <l>Sobre os corcéis dos nevoeiros brandos</l>
          <l>Pelo infinito a galopar lá vão...</l>
          <l>Erguem-se as névoas como pó do espaço</l>
          <l>Da lua pálida ao fatal clarão.</l>
        </lg>
      </div>
	  <div aoidos:unit="y">
        <head>Vozes d'África</head>
        <lg>
          <l>Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?</l>
          <l>Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes</l>
          <l>Embuçado nos céus?</l>
          <l>Há dois mil anos te mandei meu grito,</l>
          <l>Que embalde desde então corre o infinito...</l>
          <l>Onde estás, Senhor Deus?...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Qual Prometeu, tu me amarraste um dia</l>
          <l>Do deserto na rubra penedia,</l>
          <l>— Infinito galé!...</l>
          <l>Por abutre — me deste o sol ardente!</l>
          <l>E a terra de Suez — foi a corrente</l>
          <l>Que me ligaste ao pé...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O cavalo estafado do Beduíno</l>
          <l>Sob a vergasta tomba ressupino</l>
          <l>E morre no areal.</l>
          <l>Minha garupa sangra, a dor poreja,</l>
          <l>Quando o chicote do <choice><orig><hi rend="italic">simoun</hi></orig><seg type="apo">simon</seg></choice> dardeja</l>
          <l>O teu braço eternal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Minhas irmãs são belas, são ditosas...</l>
          <l>Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas</l>
          <l>Dos <hi rend="italic">haréns</hi> do Sultão.</l>
          <l>Ou no dorso dos brancos elefantes</l>
          <l>Embala-se coberta de brilhantes</l>
          <l>Nas plagas do Hindustão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por tenda — tem os cimos do Himalaia...</l>
          <l>O Ganges amoroso beija a praia</l>
          <l>Coberta de corais...</l>
          <l>A brisa de Misora o céu inflama;</l>
          <l>E ela dorme nos templos do Deus <choice><orig>Brahma</orig><seg type="apo">Brama</seg></choice>,</l>
          <l>— Pagodes colossais...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Europa — é sempre Europa, a gloriosa!...</l>
          <l>A mulher deslumbrante e caprichosa,</l>
          <l>Rainha e cortesã.</l>
          <l>Artista — corta o mármor' de Carrara;</l>
          <l>Poetisa — tange os hinos de Ferrara,</l>
          <l>No glorioso afã!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada</l>
          <l>Em meio das areias esgarrada,</l>
          <l>Perdida marcho em vão!</l>
          <l>Se choro... bebe o pranto a areia ardente!</l>
          <l>Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente,</l>
          <l>Não descubras no chão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E nem tenho uma sombra de floresta</l>
          <l>Para cobrir-me, nem um templo resta</l>
          <l>No solo abrasador...</l>
          <l>Quando subo às pirâmides do Egito</l>
          <l>Embalde aos quatro céus chorando grito:</l>
          <l>"Abriga-me, Senhor!..."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como o profeta em cinza a fronte envolve,</l>
          <l>Velo a cabeça no areal que volve</l>
          <l>O siroco feroz...</l>
          <l>Quando eu passo no Saara amortalhada...</l>
          <l>Ai! dizem: "Lá vai África embuçada</l>
          <l>No seu branco albornoz... "</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nem veem que o deserto é meu sudário,</l>
          <l>Que o silêncio campeia solitário</l>
          <l>Por sobre o peito meu.</l>
          <l>Lá no solo onde o cardo apenas medra,</l>
          <l>Boceja a Esfinge colossal de pedra</l>
          <l>Fitando o morno céu.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De Tebas nas colunas derrocadas</l>
          <l>As cegonhas espiam debruçadas</l>
          <l>O horizonte sem fim...</l>
          <l>Onde branqueia a caravana errante,</l>
          <l>E o camelo monótono, arquejante</l>
          <l>Que desce de Efraim...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:fragm="y">.......................................</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!...</l>
          <l>É, pois, teu peito eterno, inexaurível</l>
          <l>De vingança e rancor?</l>
          <l>E que é que fiz, Senhor?! que torvo crime</l>
          <l>Eu cometi jamais, que assim me oprime</l>
          <l>Teu gládio vingador?!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Foi depois do <hi rend="italic">dilúvio</hi>... Um viadante,</l>
          <l>Negro, sombrio, pálido, arquejante,</l>
          <l>Descia do <choice><orig>Ararat</orig><seg type="apo">Arará</seg></choice>...</l>
          <l>E eu disse ao peregrino fulminado:</l>
          <l>"Cam, serás meu esposo bem-amado...</l>
          <l>Serei tua Eloá..."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Desde este dia o vento da desgraça</l>
          <l>Por meus cabelos ululando passa</l>
          <l>O anátema cruel;</l>
          <l>As <hi rend="italic">tribos</hi> erram do areal nas vagas,</l>
          <l>E o <hi rend="italic">Nômade</hi> faminto corta as plagas</l>
          <l>No rápido corcel.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vi a ciência desertar do Egito...</l>
          <l>Vi meu povo seguir — Judeu maldito —</l>
          <l>Trilho de perdição...</l>
          <l>Depois vi minha prole desgraçada,</l>
          <l>Pelas garras d'Europa — arrebatada, —</l>
          <l>Amestrado falcão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cristo! embalde morreste sobre um monte...</l>
          <l>Teu sangue não lavou de minha fronte</l>
          <l>A mancha original.</l>
          <l>Ainda hoje são, por fado adverso,</l>
          <l>Meus filhos — alimária do Universo,</l>
          <l>Eu — pasto universal!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Hoje em meu sangue a América se nutre</l>
          <l>— Condor que transformara-se em abutre,</l>
          <l>Ave da escravidão.</l>
          <l>Ela juntou-se às mais... irmã traidora!</l>
          <l>Qual de José os vis irmãos, outrora,</l>
          <l>Venderam seu irmão!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Basta, Senhor! De teu potente braço</l>
          <l>Role através dos astros e do espaço</l>
          <l>Perdão p'ra os crimes meus!</l>
          <l>Há dous mil anos — eu soluço um grito...</l>
          <l>Escuta o brado meu lá no infinito,</l>
          <l>Meu Deus! Senhor, meu Deus!...</l>
        </lg>
      </div>
	  <div aoidos:unit="y">
        <head>Tragédia no lar</head>
        <lg>
          <l>Na senzala, úmida, estreita,</l>
          <l>Brilha a chama da candeia,</l>
          <l>No sapé se esgueira o vento</l>
          <l>E a luz da fogueira ateia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Junto ao fogo, uma africana,</l>
          <l>Sentada, o filho embalando,</l>
          <l>Vai lentamente cantando</l>
          <l>Uma tirana indolente,</l>
          <l>Repassada de aflição.</l>
          <l>E o menino ri contente...</l>
          <l>Mas treme e grita gelado,</l>
          <l>Se nas palhas do telhado</l>
          <l>Ruge o vento do <hi rend="italic">sertão</hi>.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se o canto para um momento,</l>
          <l>Chora a criança imprudente...</l>
          <l>Mas continua a cantiga...</l>
          <l>E ri sem ver o tormento</l>
          <l>Daquele amargo cantar.</l>
          <l>Ai! triste, que enxugas rindo</l>
          <l>Os prantos que vão caindo</l>
          <l>Do fundo, materno olhar,</l>
          <l>E nas mãozinhas brilhantes</l>
          <l>Agitas como diamantes</l>
          <l>Os prantos do seu pensar...</l>
          <l aoidos:meter="10">E a voz como um soluço lacerante</l>
          <l>Continua a cantar:</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Eu sou como a garça triste</l>
          <l>"Que mora à beira do rio,</l>
          <l>"As orvalhadas da noite</l>
          <l>"Me fazem tremer de frio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Me fazem tremer de frio</l>
          <l>"Como os juncos da lagoa;</l>
          <l>"Feliz da araponga errante</l>
          <l>"Que é livre, que livre voa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Que é livre, que livre voa</l>
          <l>"Para as bandas do seu ninho,</l>
          <l>"E nas braúnas à tarde</l>
          <l>"Canta longe do caminho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Canta longe do caminho.</l>
          <l>"Por onde o vaqueiro trilha,</l>
          <l>"Se quer descansar as asas</l>
          <l>"Tem a palmeira a baunilha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Tem a palmeira a baunilha,</l>
          <l>"Tem o brejo a lavadeira,</l>
          <l>"Tem as campinas as flores,</l>
          <l>"Tem a relva a trepadeira.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Tem a relva, a trepadeira,</l>
          <l>"Todas têm os seus amores,</l>
          <l>"Eu não tenho mãe nem filhos,</l>
          <l>"Nem irmão, nem lar, nem flores".</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A cantiga cessou... Vinha da estrada</l>
          <l>A trote largo, linda cavalhada</l>
          <l aoidos:meter="6">De estranho viajor,</l>
          <l>Na porta da <hi rend="italic">fazenda</hi> eles paravam,</l>
          <l>Das mulas boleadas apeavam</l>
          <l>E batiam na porta do <hi rend="italic">senhor</hi>.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,</l>
          <l>Sorrisos sensuais, sinistro olhar,</l>
          <l aoidos:meter="7">Os bigodes retorcidos,</l>
          <l aoidos:meter="7">O cigarro a fumegar,</l>
          <l aoidos:meter="7">O <hi rend="italic">Rebenque</hi> prateado</l>
          <l aoidos:meter="7">Do pulso dependurado,</l>
          <l aoidos:meter="7">Largas chilenas luzidas,</l>
          <l aoidos:meter="7">Que vão tinindo no chão,</l>
          <l aoidos:meter="7">E as garruchas embebidas</l>
          <l aoidos:meter="7">No bordado cinturão.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A porta da <hi rend="italic">fazenda</hi> foi aberta;</l>
          <l aoidos:meter="6">Entraram no salão.</l>
          <l>Por que tremes mulher? A noite é calma,</l>
          <l>Um bulício remoto agita a palma</l>
          <l aoidos:meter="6">Do vasto coqueiral.</l>
          <l>Tem pérolas o rio, a noite lumes,</l>
          <l>A mata sombras, o sertão perfumes,</l>
          <l aoidos:meter="6">Murmúrio o bananal.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por que tremes, mulher? Que estranho crime,</l>
          <l>Que remorso cruel assim te oprime</l>
          <l>E te curva a servir?</l>
          <l>O que nas dobras do vestido ocultas?</l>
          <l>É um roubo talvez que aí sepultas?</l>
          <l>É seu filho... Infeliz!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="10">Ser mãe é um crime, ter um filho é um roubo!</l>
          <l>Amá-lo uma loucura! Alma, de todo</l>
          <l>Para ti — não há luz.</l>
          <l>Tens a noite no corpo, a noite na alma,</l>
          <l>Pedra que a humanidade pisa calma,</l>
          <l>Cristo que verga à cruz!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na hipérbole do ousado cataclisma</l>
          <l>Um dia Deus morreu... fuzila um prisma</l>
          <l>Do Calvário ao Tabor!</l>
          <l>Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,</l>
          <l>De Babel o cadáver de destroços</l>
          <l>Mais lívidos de horror.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Era o relampejar da liberdade</l>
          <l>Nas nuvens do chorar da humanidade,</l>
          <l>Ou sarça do Sinai.</l>
          <l>Relâmpagos que ferem de desmaios...</l>
          <l>Revoluções, vós dele sois os raios,</l>
          <l>Escravos, esperai!...</l>
        </lg>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>Leitor, se não tens desprezo</l>
          <l>De vir descer às senzalas,</l>
          <l>Trocar tapetes e salas</l>
          <l>Por um alcoice cruel,</l>
          <l>Vem comigo, mas cuidado...</l>
          <l>Que o teu vestido bordado</l>
          <l>Não fique no chão manchado,</l>
          <l>No chão do imundo bordel.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não venhas tu que achas triste</l>
          <l>Às vezes a própria festa.</l>
          <l>Tu, grande, que nunca ouviste</l>
          <l>Senão gemidos da orquestra...</l>
          <l>Por que despertar tu'alma,</l>
          <l>Em sedas adormecida,</l>
          <l>Esta excrescência da vida</l>
          <l>Que ocultas com tanto esmero?</l>
          <l>E o coração, tredo lodo,</l>
          <l>Feres d'ânfora doirada,</l>
          <l>Negra serpe, que enraivada</l>
          <l>Morde a cauda, morde o dorso,</l>
          <l>E sangra às vezes piedade,</l>
          <l>E sangra às vezes remorso?...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não venham esses que negam</l>
          <l>A esmola ao leproso, ao pobre.</l>
          <l>A luva branca do nobre</l>
          <l>Oh! senhores, não mancheis...</l>
          <l>Os pés lá pisam em lama,</l>
          <l>Porém as frontes são puras</l>
          <l>Mas vós nas faces impuras</l>
          <l>Tendes lodo, e luz nos pés.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinde ver como rasgam-se as entranhas</l>
          <l>De uma raça de novos Prometeus,</l>
          <l>Ai! vamos ver guilhotinadas almas</l>
          <l>Da senzala nos vivos mausoléus.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Escrava, dá-me teu filho!</l>
          <l>Senhores, ide-lo ver:</l>
          <l aoidos:meter="10">É forte, de uma raça bem provada,</l>
          <l>Havemos tudo fazer."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="10">Assim dizia o fazendeiro, rindo,</l>
          <l>E agitava o chicote...</l>
          <l rend="indent4">A mãe que ouvia</l>
          <l>Imóvel, pasma, douda, sem razão!</l>
          <l>À Virgem Santa pedia</l>
          <l>Com prantos por oração;</l>
          <l>E os olhos no ar erguia</l>
          <l>Que a voz não podia, não.</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>"Dá-me teu filho!" repetiu fremente</l>
          <l>O senhor, de sobr'olho carregado.</l>
          <l>— Impossível!...</l>
          <l rend="indent3">— Que dizes, miserável?!</l>
          <l>— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...</l>
          <l>Inda há pouco o embalei, pobre inocente,</l>
          <l>Que nem sequer pressente</l>
          <l aoidos:meter="7" >Que ides...</l>
          <l rend="indent3">— Sim, que o vou vender!</l>
          <l>— Vender?!... Vender meu filho?!</l>
          <l>Senhor, por piedade, não</l>
          <l>Vós sois bom... antes do peito</l>
          <l>Me arranqueis o coração!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por piedade, matai-me! É impossível</l>
          <l aoidos:meter="10">Que me roubem da vida o único bem!</l>
          <l>Apenas sabe rir... é tão pequeno!</l>
          <l>Inda não sabe me chamar!... Também</l>
          <l>Senhor, vós tendes filhos... que não tem?</l>
          <l>Se alguém quisesse os vender</l>
          <l>Havíeis muito chorar</l>
          <l>Havíeis muito gemer,</l>
          <l>Diríeis a rir — perdão?!</l>
          <l>Deixai meu filho... arrancai-me</l>
          <l>Antes a alma e o coração!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>— Cala-te miserável! Meus senhores,</l>
          <l aoidos:meter="6">O escravo podeis ver...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a mãe em pranto aos pés dos mercadores</l>
          <l aoidos:meter="6">Atirou-se a gemer.</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>— "Senhores! basta a desgraça</l>
          <l>"De não ter pátria nem lar, —</l>
          <l>"De ter honra e ser vendida</l>
          <l>"De ter alma e nunca amar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Deixai à noite que chora</l>
          <l>"Que espere ao menos a aurora,</l>
          <l>"Ao ramo seco uma flor,</l>
          <l>"Deixai o pássaro ao ninho,</l>
          <l>"Deixai à mãe o filhinho,</l>
          <l>"Deixai à desgraça o amor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Meu filho é-me a sombra amiga</l>
          <l>"Neste deserto cruel!...</l>
          <l>"Flor de inocência e candura,</l>
          <l>"Favo de amor e de mel!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Seu riso é minha alvorada,</l>
          <l>"Sua lágrima doirada</l>
          <l>"Minha estrela, minha luz!</l>
          <l>"É da vida o único brilho</l>
          <l>"Meu filho! é mais... é meu filho!</l>
          <l>"Deixai-m'o em nome da Cruz!..."</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>Nada porém comove homens de pedra,</l>
          <l>Sepulcros onde é morto o coração.</l>
          <l>A criança do berço ei-los arrancam</l>
          <l>Que os bracinhos estende e chora em vão!</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>Mudou-se a cena. Já vistes</l>
          <l>Bramir na mata o jaguar,</l>
          <l>E no furor desmedido</l>
          <l>Saltar, raivando atrevido.</l>
          <l>O ramo, o tronco estalar,</l>
          <l>Morder os cães que o morderam...</l>
          <l>De vítima feita algoz,</l>
          <l>Em sangue e horror envolvido</l>
          <l>Terrível, bravo, feroz?</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>Assim a escrava da criança ao grito</l>
          <l>Destemida saltou,</l>
          <l>E a turba dos senhores aterrada</l>
          <l>Ante ela recuou.</l>
        </lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>"Nem mais um passo, cobardes!</l>
          <l>"Nem mais um passo, ladrões!</l>
          <l>"Se os outros roubam as bolsas,</l>
          <l>"Vós roubais os corações!..."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Entram três negros possantes,</l>
          <l>Brilham punhais traiçoeiros...</l>
          <l>Rolam por terra os primeiros</l>
          <l>Da morte nas contorções.</l>
        </lg>
		<lg>
			<l aoidos:fragm="y">. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</l>
		</lg>
		</div>
		<div type="section">
        <lg>
          <l>Um momento depois a cavalgada</l>
          <l>Levava a trote largo pela estrada</l>
          <l>A criança a chorar.</l>
          <l>Na fazenda o azorrague então se ouvia</l>
          <l>E aos golpes — uma doida respondia</l>
          <l>Com frio gargalhar!...</l>
        </lg>
		</div>
      </div>
	   <div aoidos:unit="y">
          <head>O Navio Negreiro</head>
		  <head type="sub">(Tragédia no mar)</head>
		  <div type="section">
					<head>I</head>
        <lg>
          <l>'Stamos em pleno mar!... Doudo no espaço</l>
          <l>Brinca o luar — dourada borboleta;</l>
          <l>E as vagas após ele correm... cansam</l>
          <l>Como turba de infantes inquieta!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>'Stamos em pleno mar... Do firmamento</l>
          <l>Os astros saltam como espumas d'ouro...</l>
          <l>O mar em troca acende as ardentias,</l>
          <l>— Constelações do líquido tesouro!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>'Stamos em pleno mar!... Dous infinitos</l>
          <l>Ali se estreitam num abraço insano...</l>
          <l>Azuis, dourados, plácidos, sublimes!</l>
          <l>Qual dos dous é o céu? Qual o oceano?...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>'Stamos em pleno mar... Abrindo as velas</l>
          <l>Ao quente arfar das virações marinhas,</l>
          <l>Veleiro brigue corre à flor dos mares,</l>
          <l>Como roçam na vaga as andorinhas!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Donde vem? onde vai? Das naus errantes</l>
          <l>Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço!</l>
          <l>Neste Saara os corcéis o pó levantam,</l>
          <l>Galopam, voam, mas não deixam traço!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Bem feliz quem ali pode nest'hora</l>
          <l>Sentir deste painel a majestade!...</l>
          <l>Embaixo o mar... em cima o firmamento...</l>
          <l>E no mar e no céu — a imensidade!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!</l>
          <l>Que música suave ao longe soa!</l>
          <l>Meu Deus! como é sublime um canto ardente</l>
          <l>Pelas vagas sem fim boiando à toa!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Homens do mar! Ó rudes marinheiros,</l>
          <l>Tostados pelo sol dos quatro mundos!</l>
          <l>Crianças que a procela acalentara</l>
          <l>No berço destes pélagos profundos!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esperai! Esperai!... Deixai que eu beba</l>
          <l>Esta selvagem, livre poesia;</l>
          <l>Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,</l>
          <l>E o vento, que nas cordas assobia!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:fragm="y">..........................................................</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por que foges assim, barco ligeiro?</l>
          <l>Por que foges do pávido poeta?</l>
          <l>Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira</l>
          <l>Que semelha no mar — doudo cometa!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Albatroz! Albatroz! águia do oceano,</l>
          <l>Tu que dormes das nuvens entre as gazas,</l>
          <l>Sacode as penas, Leviatã do espaço!...</l>
          <l>Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas!...</l>
        </lg>
      </div>
	  <div type="section">
        <head>II</head>
        <lg>
          <l>Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!</l>
          <l>Desce mais... ainda mais... não pode olhar humano,</l>
          <l>Como o teu mergulhar no brigue voador!</l>
          <l>Mas, que vejo eu aí?! que quadro d'amarguras!...</l>
          <l>Que funéreo cantar!... Que tétricas figuras!...</l>
          <l>Que cena infame e vil, meu Deus! meu Deus, que horror!</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="section">
        <head>III</head>
        <lg>
          <l>Era um sonho dantesco!... o tombadilho</l>
          <l>Que das luzernas avermelha o brilho,</l>
          <l>Em sangue a se banhar!...</l>
          <l>Tinir de ferros, estalar de açoute...</l>
          <l>Legiões de homens negros como a noute,</l>
          <l>Horrendos a dançar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Negras mulheres, suspendendo às tetas</l>
          <l>Magras crianças, cujas bocas pretas</l>
          <l>Rega o sangue das mães:</l>
          <l>Outras, moças, mas nuas e espantadas,</l>
          <l>No turbilhão de espectros arrastadas,</l>
          <l>Em ânsia e mágoa vãs!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ri-se a orquestra irônica, estridente...</l>
          <l>E da ronda fantástica a serpente</l>
          <l>Faz doudas espirais...</l>
          <l>Se o velho arqueja... se no chão resvala,</l>
          <l>Ouvem-se gritos, o chicote estala...</l>
          <l>E voam mais e mais!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Presa nos elos de uma só cadeia,</l>
          <l>A multidão faminta cambaleia,</l>
          <l>E chora e dança ali!</l>
          <l>Um de raiva delira, outro enlouquece,</l>
          <l>Outro, que martírios embrutece,</l>
          <l>Cantando, geme e ri!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No entanto o capitão manda a manobra,</l>
          <l>E após fitando o céu, que se desdobra</l>
          <l>Tão puro sobre o mar,</l>
          <l>Diz do fumo entre os densos nevoeiros:</l>
          <l>"Vibrai rijo o chicote e, marinheiros!</l>
          <l>Fazei-os mais dançar!..."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ri-se a orquestra irônica, estridente!...</l>
          <l>E da ronda fantástica a serpente</l>
          <l>Faz doudas espirais...</l>
          <l>Qual num sonho dantesco, as sombras voam!...</l>
          <l>Gritos, ais, maldições, preces ressoam!...</l>
          <l>E ri-se Satanás!</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="section">
        <head>IV</head>
		<lg>
          <l>Senhor Deus dos desgraçados!</l>
          <l>Dizei-me vós, Senhor Deus,</l>
          <l>Se é mentira... se é verdade</l>
          <l>Tanto horror perante os céus?!</l>
          <l>Ó mar, por que não apagas</l>
          <l aoidos:meter="7">Com a esponja de tuas vagas</l>
          <l>De teu manto este borrão?</l>
          <l>Astros! noites! tempestades!</l>
          <l>Rolai das imensidades!</l>
          <l>Varrei os mares, tufão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que importa do nauta o berço,</l>
          <l>Donde é filho, qual seu lar?</l>
          <l>Ama a cadência do verso</l>
          <l>Que lhe ensina o velho mar,</l>
          <l>Cantai! que a morte é divina!</l>
          <l>Resvala o brigue à bolina</l>
          <l>Como golfinho veloz.</l>
          <l>Presa ao mastro da mezena</l>
          <l>Saudosa bandeira acena</l>
          <l>Às vagas que deixa após!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do espanhol as cantilenas</l>
          <l>Requebradas de langor,</l>
          <l>Lembram as moças morenas,</l>
          <l>As andaluzas em flor!</l>
          <l>Da Itália o filho indolente</l>
          <l>Canta Veneza dormente,</l>
          <l>— Terra de amor e traição,</l>
          <l>Ou do golfo no regaço</l>
          <l>Relembra os versos de Tasso,</l>
          <l>Junto às lavas do vulcão!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O inglês — marinheiro frio,</l>
          <l>Que ao nascer no mar se achou,</l>
          <l>(Porque a Inglaterra é um navio,</l>
          <l>Que Deus na Mancha ancorou),</l>
          <l>Rijo entoa pátrias glórias,</l>
          <l>Lembrando, orgulhoso, histórias</l>
          <l>De Nelson e de Aboukir...</l>
          <l>O francês — predestinado —</l>
          <l>Canta os louros do passado</l>
          <l>E os loureiros do porvir!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os marinheiros helenos,</l>
          <l>Que a vaga Iônia criou,</l>
          <l>Belos piratas morenos</l>
          <l>Do mar — que Ulisses cortou,</l>
          <l>Homens — que Fídias talhara,</l>
          <l>Vão cantando em noite clara</l>
          <l>Versos — que Homero gemeu!...</l>
          <l>Nautas de todas as plagas,</l>
          <l>Vós sabeis achar nas vagas</l>
          <l>As melodias do céu!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quem são estes desgraçados</l>
          <l>Que não encontram em vós</l>
          <l>Mais que o rir calmo da turba</l>
          <l>Que excita a fúria do algoz?</l>
          <l>Quem são? Se a estrela se cala,</l>
          <l>Se a vaga opressa resvala</l>
          <l>Como um cúmplice fugaz,</l>
          <l>Perante a noute confusa...</l>
          <l>Dize-o tu, severa Musa,</l>
          <l>Musa libérrima, — audaz!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>São os filhos do deserto,</l>
          <l>Onde a terra esposa a luz,</l>
          <l>Onde vive em campo aberto</l>
          <l>A tribo dos homens nus.</l>
          <l>São os guerreiros ousados</l>
          <l>Que com os tigres mosqueados</l>
          <l>Combatem na solidão!...</l>
          <l>Ontem simples, fortes, bravos...</l>
          <l>Hoje míseros escravos,</l>
          <l>Sem luz, sem ar, sem razão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>São mulheres desgraçadas,</l>
          <l>Como Agar o foi também.</l>
          <l>Que sedentas, alquebradas,</l>
          <l>De longe... bem longe vêm!</l>
          <l>Trazendo, com tíbios passos,</l>
          <l>Filhos e algemas nos braços,</l>
          <l>N'alma — lágrimas e fel...</l>
          <l>Como Agar sofrendo tanto,</l>
          <l>Que nem o leite de pranto</l>
          <l>Têm que dar para Ismael.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lá... nas areias infindas,</l>
          <l>Das palmeiras no país,</l>
          <l>Nasceram — crianças lindas,</l>
          <l>Viveram — moças gentis...</l>
          <l>Passa um dia a caravana,</l>
          <l>Quando a virgem na cabana</l>
          <l>Cisma da noute nos véus...</l>
          <l>Adeus, ó choça do monte,</l>
          <l>Adeus, palmeiras da fonte,</l>
          <l>Adeus, amores... adeus...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Depois, o areal extenso...</l>
          <l>Depois... o oceano de pó.</l>
          <l>Depois — no horizonte imenso</l>
          <l>Desertos... desertos só.</l>
          <l>E a fome, o cansaço, a sede...</l>
          <l>Ai! quanto infeliz que cede,</l>
          <l>E cai p'ra não mais s'erguer,</l>
          <l>Vaga um lugar na cadeia,</l>
          <l>Mas o chacal sobre a areia</l>
          <l>Acha um corpo que roer.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ontem — a Serra Leoa,</l>
          <l>A guerra, a caça ao leão,</l>
          <l>O sono dormido à toa</l>
          <l>Sob as tendas d'amplidão!</l>
          <l>Hoje... o porão negro, fundo,</l>
          <l>Infecto, apertado, imundo,</l>
          <l>Tendo a peste por jaguar...</l>
          <l>E o sono sempre cortado</l>
          <l>Pelo arranco de um finado,</l>
          <l>E o baque de um corpo ao mar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ontem — plena liberdade,</l>
          <l>A vontade por poder...</l>
          <l>Hoje... cúm'lo de maldade,</l>
          <l>Nem são livres p'ra morrer...</l>
          <l>Prende-os a mesma corrente</l>
          <l>Térrea, lúgubre serpente —</l>
          <l>Nas roscas da escravidão.</l>
          <l>E assim zombando da morte,</l>
          <l>Dança a lúgubre coorte</l>
          <l>Ao som do açoute... Irrisão!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Senhor Deus dos desgraçados!</l>
          <l>Dizei-me vós, Senhor Deus,</l>
          <l>Se é mentira... se é verdade</l>
          <l>Tanto horror perante os céus?!...</l>
          <l>Ó mar, por que não apagas</l>
          <l aoidos:meter="7">Com a esponja de tuas vagas</l>
          <l>Do teu manto este borrão?</l>
          <l>Astros! noutes! tempestades!</l>
          <l>Rolai das imensidades!</l>
          <l>Varrei os mares, tufão!...</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="section">
        <head>V</head>
        <lg>
          <l>Existe um povo que a bandeira empresta</l>
          <l>P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...</l>
          <l>E deixa-a transformar-se nessa festa</l>
          <l>Em manto impuro de bacante fria!...</l>
          <l>Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,</l>
          <l>Que impudente na gávea tripudia?</l>
          <l>Silêncio. Musa... chora, e chora tanto</l>
          <l>Que o pavilhão se lave no teu pranto!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Auriverde pendão de minha terra,</l>
          <l>Que a brisa do Brasil beija e balança,</l>
          <l>Estandarte que a luz do sol encerra</l>
          <l>As promessas divinas da esperança...</l>
          <l>Tu que da liberdade após a guerra</l>
          <l>Foste hasteado dos heróis na lança,</l>
          <l>Antes te houvessem roto na batalha,</l>
          <l>Que servires a um povo de mortalha!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fatalidade atroz que a mente esmaga!</l>
          <l>Extingue nesta hora o brigue imundo</l>
          <l>O trilho que Colombo abriu nas vagas,</l>
          <l>Como um íris no pélago profundo!</l>
          <l>Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga</l>
          <l>Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!</l>
          <l>Andrada! arranca esse pendão dos ares!</l>
          <l>Colombo! fecha a porta dos teus mares!</l>
        </lg>
		</div>
      </div>
	  <div aoidos:unit="y">
        <head>Adeus, meu canto</head>
		<div type="section">
			<head>I</head>
        <lg>
          <l>Adeus, meu canto! É a hora da partida...</l>
          <l>O oceano do povo s'encapela.</l>
          <l>Filho da tempestade, irmão do raio,</l>
          <l>Lança teu grito ao vento da procela.</l>
          <l>O inverno envolto em mantos de geada</l>
          <l>Cresta a rosa de amor que além se erguera...</l>
          <l>Ave de arribação, voa, anuncia</l>
          <l>Da liberdade a santa primavera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É preciso partir, aos horizontes</l>
          <l>Mandar o grito errante da vedeta,</l>
          <l>Ergue-te, ó luz! estrela para o povo,</l>
          <l>Para os tiranos, lúgubre — cometa.</l>
          <l>Adeus, meu canto! na revolta praça</l>
          <l>Ruge o clarim tremendo da batalha.</l>
          <l>Águia — talvez as asas te espedacem,</l>
          <l>Bandeira — talvez rasgue-te a metralha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas não importa a ti, que no banquete</l>
          <l>O manto sibarita não trajaste —,</l>
          <l>Que se louros não tens na altiva fronte</l>
          <l>Também da orgia a c'roa renegaste.</l>
          <l>A ti que herdeiro duma raça livre</l>
          <l>Tomaste o velho arnês e a cota d'armas;</l>
          <l>E no ginete que escarvava os vales</l>
          <l>A corneta esperaste dos alarmas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É tempo agora p'ra quem sonha a glória</l>
          <l>E a luta... e a luta! essa fatal fornalha,</l>
          <l>Onde referve o bronze das estátuas,</l>
          <l>Que a mão dos séc'los no futuro talha...</l>
          <l>Parte, pois, solta livre aos quatro ventos</l>
          <l>A alma cheia das crenças do poeta!...</l>
          <l>Ergue-te, ó luz! estrela para o povo,</l>
          <l>Para os tiranos — lúgubre cometa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Há muita virgem que ao patíbulo impuro</l>
          <l>A mão do algoz arrasta pela trança;</l>
          <l>Muita cabeça d'ancião curvada,</l>
          <l>Muito riso afogado de criança.</l>
          <l>Dirás à virgem: — minha irmã, espera:</l>
          <l>Eu vejo ao longe a pomba do futuro.</l>
          <l>Meu pai, dirás ao velho, dá-me o fardo</l>
          <l>Que atropela-te o passo mal seguro...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A cada berço levarás a crença,</l>
          <l>A cada campa levarás o pranto!...</l>
          <l>Nos berços nus, nas sepulturas rasas,</l>
          <l>— Irmão do pobre — viverás, meu canto.</l>
          <l>E pendido através de dois abismos,</l>
          <l aoidos:meter="10">Com os pés na terra e a fronte no infinito,</l>
          <l>Traze a bênção de Deus ao cativeiro,</l>
          <l>Levanta a Deus do cativeiro o grito!</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="section">
        <head>II</head>
        <lg>
          <l>Eu sei que ao longe na praça,</l>
          <l>Ferve a onda popular,</l>
          <l>Que às vezes é pelourinho,</l>
          <l>Mas poucas vezes — altar...</l>
          <l>Que zomba do bardo atento,</l>
          <l>Curvo aos murmúrios do vento</l>
          <l>Nas florestas do existir,</l>
          <l>Que baba fel e ironia</l>
          <l>Sobre o ovo da utopia</l>
          <l>Que guarda a ave — o porvir.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu sei que o ódio, o egoísmo,</l>
          <l>A hipocrisia, a ambição,</l>
          <l>Almas escuras de grutas,</l>
          <l>Onde não desce um clarão,</l>
          <l>Peitos surdos às conquistas,</l>
          <l>Olhos fechados às vistas,</l>
          <l>Vistas fechadas à luz,</l>
          <l>Do poeta solitário</l>
          <l>Lançam pedras ao calvário,</l>
          <l>Lançam blasfêmias à cruz.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu sei que a raça impudente</l>
          <l>Do escriba, do fariseu,</l>
          <l>Que ao Cristo eleva o patíbulo,</l>
          <l>A fogueira a Galileu,</l>
          <l>É o fumo da chama vasta,</l>
          <l>Sombra — que o século — arrasta,</l>
          <l>Negra, torcida, a seus pés;</l>
          <l>Tronco enraigado no inferno,</l>
          <l>Que se arqueia escuro, eterno,</l>
          <l>Das idades através.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eles dizem, reclinados</l>
          <l>Nos festins de Baltazar:</l>
          <l>Que importuno é esse que canta</l>
          <l>Lá no Eufrate a soluçar?</l>
          <l>Prende aos ramos do salgueiro</l>
          <l>A lira do cativeiro,</l>
          <l>Profeta de maldição,</l>
          <l>Ou, cingindo a augusta fronte</l>
          <l>Com as rosas d'Anacreonte,</l>
          <l>Canta o amor e a criação..."</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sim! cantar o campo, as selvas,</l>
          <l>As tardes, a sombra, a luz!</l>
          <l>Soltar su'alma com o bando</l>
          <l>Das borboletas azuis;</l>
          <l>Ouvir o vento que geme,</l>
          <l>Sentir a folha que treme,</l>
          <l>Como um seio que pulou,</l>
          <l>Das matas entre os desvios,</l>
          <l>Passar nos antros bravios</l>
          <l>Por onde o jaguar passou;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É belo... E já quantas vezes</l>
          <l>Não saudei a terra — o céu,</l>
          <l>E o Universo — Bíblia imensa</l>
          <l>Que Deus no espaço escreveu?...</l>
          <l>Que vezes nas cordilheiras,</l>
          <l>Pelas selvas brasileiras,</l>
          <l>Eu lancei minha canção,</l>
          <l>Escutando as ventanias</l>
          <l>Vagas, tristes profecias</l>
          <l>Gemerem na escuridão?!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já também amei as flores,</l>
          <l>As mulheres, o arrebol.</l>
          <l>E o sino que chora triste</l>
          <l>Ao morno calor do sol.</l>
          <l>Ouvi saudoso a viola,</l>
          <l>Que ao sertanejo consola</l>
          <l>Junto à fogueira do lar,</l>
          <l>Amei a linda serrana,</l>
          <l>Cantando a mole <hi rend="italic">tirana</hi>,</l>
          <l>Pelas noites de luar!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da infância o tempo fugindo</l>
          <l>Tudo mudou-se em redor.</l>
          <l>Um dia passa em minha'alma</l>
          <l>Das cidades o rumor...</l>
          <l>Soa a idéia, soa o malho,</l>
          <l>O cíclope do trabalho</l>
          <l>Prepara o raio do sol —</l>
          <l>Tem o povo — mar violento —</l>
          <l>Por armas o pensamento,</l>
          <l>A verdade — por farol.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o homem, vaga que nasce</l>
          <l>No oceano popular,</l>
          <l>Tem que impelir os espíritos,</l>
          <l>Tem uma plaga a buscar</l>
          <l>Oh! maldição ao poeta</l>
          <l>Que foge, falso profeta,</l>
          <l>Nos dias de provação!</l>
          <l>Que mistura o tosco iambo</l>
          <l>Com o tírio ditirambo</l>
          <l>Nos poemas d'aflição!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>"Trabalhar!" brada na sombra</l>
          <l>A voz imensa — de Deus!</l>
          <l>"Braços! voltai-vos p'ra terra,</l>
          <l>Homens, voltai-vos p'ra os céus!..."</l>
          <l>Poetas, sábios, selvagens,</l>
          <l>Sois as santas equipagens</l>
          <l>Da nau — civilização.</l>
          <l>Marinheiro — sobe aos mastros,</l>
          <l>Piloto, estuda nos astros,</l>
          <l>Gajeiro, olha a cerração!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uivava a negra tormenta</l>
          <l>Na enxárcia, nos mastaréus.</l>
          <l>Uivavam nos tombadilhos,</l>
          <l>Gritos insontes de réus.</l>
          <l>Vi a equipagem medrosa</l>
          <l>Da morte à vaga horrorosa</l>
          <l>Seu próprio irmão sacudir...</l>
          <l>E bradei: meu canto, voa,</l>
          <l>Terra ao longe, terra à proa!...</l>
          <l>Vejo a terra do porvir!... "</l>
        </lg>
      </div>
      <div type="section">
        <head>III</head>
        <lg>
          <l>Companheiro da noite mal dormida,</l>
          <l>Que a mocidade vela sonhadora,</l>
          <l>Primeira folha d'árvore da vida,</l>
          <l>Estrela que anuncia a luz à aurora!</l>
          <l>Da harpa do meu amor nota perdida,</l>
          <l>Orvalho que do seio se evapora,</l>
          <l>É tempo de partir... voa, meu canto —,</l>
          <l>Que tantas vezes orvalhei de pranto!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tu foste a estrela vésper que alumia</l>
          <l>Aos pastores d'Arcádia nos fraguedos!</l>
          <l>Ave — que no meu peito se aquecia,</l>
          <l>Ao murmúrio talvez dos meus segredos...</l>
          <l>Mas hoje... que sinistra ventania</l>
          <l>Muge nas selvas, ruge nos rochedos,</l>
          <l>Condor sem rumo, errante, que esvoaça,</l>
          <l>Deixo-te entregue ao vento da desgraça!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quero-te assim; na terra o teu fadário</l>
          <l>É ser o irmão do escravo que trabalha,</l>
          <l>É chorar junto à cruz do seu calvário,</l>
          <l>É bramir do senhor na bacanália...</l>
          <l>Se — vivo — seguirás o itinerário,</l>
          <l>Mas, se — morto — rolares na mortalha,</l>
          <l>Terás, selvagem filho da floresta,</l>
          <l>Nos raios e trovões hinos de festa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando a piedosa, errante caravana,</l>
          <l>Se perde nos desertos, peregrina,</l>
          <l>Buscando na cidade muçulmana,</l>
          <l>Do sepulcro de Deus a vasta ruína,</l>
          <l>Olha o sol que se esconde na savana,</l>
          <l>Pensa em Jerusalém, sempre divina,</l>
          <l>Morre feliz, deixando sobre a estrada</l>
          <l>O marco miliário duma ossada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mesmo quando a turba horripilante,</l>
          <l>Hipócrita, sem fé, bacante impura,</l>
          <l>Possa curvar-te a fronte de gigante,</l>
          <l>Possa quebrar-te as malhas da armadura,</l>
          <l>Tu deixarás na liça o férreo guante,</l>
          <l>Que há de colher a geração futura...</l>
          <l>Mas, não... crê no porvir, na mocidade,</l>
          <l>Sol brilhante do céu da liberdade.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Canta, filho do sol da zona ardente,</l>
          <l>Estes cerros soberbos, altanados!</l>
          <l>Emboca a tuba lúgubre, estridente,</l>
          <l>Em que aprendeste a rebramir teus brados.</l>
          <l>Levanta — das orgias do presente,</l>
          <l>Levanta — dos sepulcros do passado,</l>
          <l>Voz de ferro! desperta as almas grandes</l>
          <l>Do sul ao norte... do oceano aos Andes!...</l>
        </lg>
		</div>
      </div>
    </body>
  </text>
</TEI>
