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  <teiHeader>
    <fileDesc>
      <titleStmt>
        <title>Sinfonias (1883)</title>
        <author>Raimundo Correia</author>
		<respStmt>
					<resp>Codificado por</resp>
					<name xml:id="LS">Leandro Scarabelot</name>
				</respStmt>
      </titleStmt>
	  <publicationStmt>
				<p>Obra disponível em formato TEI</p>
			</publicationStmt>
			<sourceDesc>
				<bibl>
					<title>Sinfonias</title> in CORREIA, Raimundo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1961.
        </bibl>
			</sourceDesc>
    </fileDesc>
	<profileDesc>
			<textClass>
				<classCode scheme="">poetry</classCode>
			</textClass>
		</profileDesc>
  </teiHeader>
  <text xml:lang="pt" aoidos:poet="Raimundo Correia">
	<body>
		<div type="part">
			<head>Primeira Parte</head>
			<opener>
				<salute>A Capistrano de Abreu</salute>
			</opener>  
      <div aoidos:unit="y">
        <head>As pombas</head>
        <lg>
          <l>Vai-se a primeira pomba despertada...</l>
          <l>Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas</l>
          <l>De pombas vão-se dos pombais, apenas</l>
          <l>Raia, sanguínea e fresca, a madrugada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E à tarde, quando a rígida nortada</l>
          <l>Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,</l>
          <l>Ruflando as asas, sacudindo as penas,</l>
          <l>Voltam todas em bando e em revoada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Também dos corações onde abotoam,</l>
          <l>Os sonhos, um por um, céleres voam,</l>
          <l>Como voam as pombas dos pombais;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No azul da adolescência as asas soltam,</l>
          <l>Fogem... mas aos pombais as pombas voltam,</l>
          <l>E eles aos corações não voltam mais.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A chegada</head>
		<opener>
			<salute>A Ezequiel Freire</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Vimos de longe; o guia vai na frente;</l>
          <l>É longa a estrada... Aos ríspidos estalos</l>
          <l>Do impaciente látego, os cavalos</l>
          <l>Correm veloz, larga e fogosamente...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já estranho rubor inflama o Oriente;</l>
          <l>Rompe a manhã; cantam ao longe os galos...</l>
          <l>Que extensos campos! que profundos valos</l>
          <l>Veem-se! que fresco matinal se sente!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eis de uma ponte rústica a passagem;</l>
          <l>Embaixo as águas refervendo bramam...</l>
          <l>Está próximo o termo da viagem —</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eis a cidade enfim; os sinos clamam,</l>
          <l>E as casas brancas — que feliz paisagem! —</l>
          <l>Pelo pendor da serra se derramam...</l>
        </lg>
      </div>
		<div aoidos:unit="y">
		<head>O ninho no templo</head>
		<head type="tradução">(V. Hugo)</head>
		<lg>
		  <l>Vai à Igreja, na espessura</l>
		  <l>Da abóbada os olhos fita;</l>
          <l>Sob o arco da pedra escura,</l>
          <l>Um ninho de aves palpita.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas catedrais que se aprumam,</l>
          <l>Mergulhando as torres no ar,</l>
          <l>É que os pássaros costumam</l>
          <l>O ninho tímido armar.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos portais nos musgos tecem</l>
          <l>O alvergue fofo e pequeno,</l>
          <l>E ao brando calor se aquecem</l>
          <l>Das asas do Nazareno.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que luz, a voz que se eleva</l>
          <l>Do ninho, em torno produz!</l>
          <l>O templo é cheio de luz.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nos ninhos, mudos, sozinhos,</l>
          <l>Os santos de face austera</l>
          <l>Amam os doces vizinhos</l>
          <l>Do beijo e da primavera.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As virgens cristãs serenas</l>
          <l>Inclinam-se com fervor</l>
          <l>Sobre esse ninho de penas,</l>
          <l>— Colmeia do mel do amor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A tez dos santos radia</l>
          <l>Sob o crepe em que se escondem;</l>
          <l>— Bom dia! dizem — Bom dia!</l>
          <l>Cantando as aves respondem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>As catedrais altas, graves,</l>
          <l>Cravam as torres nos céus;</l>
          <l>Porém o ninho das aves</l>
          <l>É o edifício de Deus.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Missa Universal</head>
			<opener>
				<salute>Ao Dr. Almeida Nogueira</salute>
			</opener>
        <lg>
          <l>As portas do Levante diamantinas</l>
          <l>Abre a alvorada esplêndida; modulam</l>
          <l>Os pássaros; das fontes cristalinas</l>
          <l>As cabeleiras líquidas ondulam...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cantam as auras entre a ramaria</l>
          <l>Fresca, odorante, matizada, e nesta</l>
          <l>Majestosa basílica — a floresta,</l>
          <l>O <choice><orig><hi rend="italic">Te-Deum laudamus</hi></orig><seg type="apo">te deu um laudamos</seg></choice> principia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De toda a parte exala-se uma prece;</l>
          <l>Como antístite, curva penitente</l>
          <l>O penhasco a cabeça nua e calva...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E além, no azul infindo, aos poucos desce,</l>
          <l>Como uma hóstia de luz, tremulamente,</l>
          <l>Melancólica e linda a estrela d’alva.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Sobre um trecho de Millevoye</head>
		<opener>
						<salute>A Urbano Duarte</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Não há quem a emoção não dobre e vença,</l>
          <l>Lendo o episódio da leoa brava,</l>
          <l>Que, sedenta e famélica, bramava</l>
          <l>Vagando pelas ruas de Florença.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Foge a população espavorida,</l>
          <l>E na cidade deplorável e erma</l>
          <l>Topa a leoa só, quase sem vida,</l>
          <l>Uma infeliz mulher débil e enferma.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em frente à fera, no estupor do assombro,</l>
          <l>Não já por si tremia ela, a mesquinha,</l>
          <l>Porém porque era mãe, e o peso tinha</l>
          <l>Sempre caro pr’as mães, de um filho, ao ombro.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cegava-a o pranto, enrouquecia-a o choro,</l>
          <l>Desvairava-a o pavor!... e entanto, o lindo,</l>
          <l>O tenro infante pequenino e louro,</l>
          <l>Plácido estava nos seus braços rindo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o olhar desfeito em pérolas celestes</l>
          <l>Crava a mãe no animal que para e hesita,</l>
          <l>Aquele olhar de súplica infinita,</l>
          <l>Que é só próprio das mães em transes destes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas a leoa, como se entendesse,</l>
          <l>O amor da mãe, incólume deixou-a...</l>
          <l>E que esse amor até nas feras vê-se!</l>
          <l>E é que era mãe talvez essa leoa!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Anoitecer</head>
		<opener>
			<salute>A Adelino Fontoura</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Vê: esbraseia o Ocaso na agonia</l>
          <l>O sol; aves em bandos destacados</l>
          <l>Por céus de oiro e de púrpura raiados</l>
          <l>Fogem... fecha se a pálpebra do dia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Delineiam-se além da serrania</l>
          <l>Os vértices de chama aureolados</l>
          <l>E em tudo em torno esbatem derramados</l>
          <l>Uns tons suaves de melancolia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Um mundo de vapores no ar flutua;</l>
          <l>Como uma informe nódoa, avulta e cresce</l>
          <l>A sombra proporção que a luz recua...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A natureza apática esmaece...</l>
          <l>Pouco a pouco entre as árvores a lua</l>
          <l>Surge trêmula, trêmula... Anoitece!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Duas mortes</head>
		<head type="tradução">(Blasco)</head>
        <lg>
          <l>A criancinha tinha um mês somente,</l>
          <l>E a velha o seus oitenta anos de idade;</l>
          <l>Foram tocadas de uma enfermidade</l>
          <l>Dessas que matam repentinamente.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vi-as ambas morrer, e não sabia</l>
          <l>Como o seguinte fato então se dava:</l>
          <l>A velha em ânsias, a morrer — chorava,</l>
          <l>Enquanto alegre a criancinha — ria.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O filho de Corália</head>
        <lg>
          <l>Ele torcendo os braços delirante</l>
          <l>E lívido de horror, trêmulo escuta</l>
          <l>Essa revelação torpe e infamante</l>
          <l>Que cai dos lábios vis da prostituta.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tu és meu filho — Disse-lhe arquejante</l>
          <l>Corália — Ó generosa alma impoluta!</l>
          <l>Envergonha-te e foge! — E ele, o semblante</l>
          <l>Erguendo, vencedor de íntima luta,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>És minha mãe! — disse num grito rouco,</l>
          <l>Arrancando os cabelos como um louco;</l>
          <l>E então nos olhos fuzilou-lhe o brilho</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De um raio, e prosseguiu: — Os que sacodem</l>
          <l>A infâmia sobre ti, só esses podem</l>
          <l>Abominar-te; eu não, que sou teu filho!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Muita vez eu pergunto aos raciocínios meus:]</head>
		<head type="tradução">(Brizeux)</head>
        <lg>
          <l>Muita vez eu pergunto aos raciocínios meus:</l>
          <l>O que é Deus sem o amor? o que é o amor sem Deus?</l>
          <l>Amar a Deus não é amar a casta chama,</l>
          <l>Que cremos ver no olhar da mulher que nos ama?</l>
          <l>E quem desta mulher também no olhar não crê</l>
          <l>Achar a ignota luz do Deus que não se vê?!</l>
          <l>São dois amores: um do céu, outro da terra;</l>
          <l>Um, o outro a indicar, banha-o da luz que encerra.</l>
          <l>Quem em nós purifica o amor da carne? — o ideal.</l>
          <l>E este, quem no-lo mostra? — é só o amor terreal.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A cavalgada</head>
        <lg>
          <l>A lua banha a solitária estrada.</l>
          <l>Silêncio!..., mas além, flébil e brando,</l>
          <l>O som longínquo vem-se aproximando</l>
          <l>Do galopar de estranha cavalgada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>São fidalgos que voltam da caçada;</l>
          <l>Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.</l>
          <l>E as trompas a soar vão agitando</l>
          <l>O remanso da noite embalsamada...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o bosque estala e move-se e estremece...</l>
          <l>Da cavalgada o estrépito que aumenta</l>
          <l>Perde-se após no centro da montanha...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o silêncio outra vez soturno desce,</l>
          <l>E límpida e sem mácula e alvacenta</l>
          <l>A lua a estrada solitária banha...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Bosquejo</head>
        <lg>
          <l>Repica o sino da matriz da vila,</l>
          <l rend="indent">Como em dia de gala...</l>
          <l>São dez horas somente; o sol rutila,</l>
          <l>Faísca o espelho de cristal na sala.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l rend="indent">A pêndula palpita</l>
          <l>Compassada e monótona; singelo</l>
          <l>Numa gaiola, elétrico saltita</l>
          <l rend="indent">Um canário amarelo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l rend="indent">São dez horas; erguidas</l>
          <l>As persianas deixam ver distantes,</l>
          <l rend="indent">Das árvores floridas</l>
          <l rend="indent">As frondes vicejantes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sutil essência de magnólia e rosa</l>
          <l>Repassa o ambiente... E a mãe a ler ensina,</l>
          <l rend="indent">Sorrindo carinhosa,</l>
          <l>A loura filha ingênua e pequenina...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Cair das folhas</head>
        <lg>
          <l>Os ares puros, tépidos se alteram...</l>
          <l>Duros, agudos, frios como lanças,</l>
          <l>Núncios de inverno, os ventos vociferam</l>
          <l>Dos arvoredos lúridos nas franças...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Correm do sol às últimas centelhas</l>
          <l>Os cirros brancos pelo céu nevoento,</l>
          <l>Como um rebanho prófugo de ovelhas</l>
          <l>Às fauces rubras de um leão sangrento...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na triste emigração, as andorinhas,</l>
          <l>Da parte do ocidente mais remota</l>
          <l>Perdem-se além nas mal distintas linhas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim também para regiões infindas</l>
          <l>O inverno atroz, que me penetra, enxota</l>
          <l>O bando azul das ilusões mais lindas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Lucíola</head>
		<opener>
						<salute>A Artur Azevedo</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Quando em frente ao palácio iluminado</l>
          <l>Tu saltaste do coche, triunfante,</l>
          <l>O povo abriu-se em alas, humilhado,</l>
          <l>Ao teu olhar magnético, humilhante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E então passaste altiva e radiosa,</l>
          <l>Cadenciando músicas no andar,</l>
          <l>E embebendo na essência voluptuosa</l>
          <l>De emanações balsâmicas o ar...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, ao transpor o portal esplendoroso,</l>
          <l>Ouvia-se inda o mágico arruído</l>
          <l>Do arrastar de teu pé leve e nervoso</l>
          <l>Nas escadas de mármore luzido...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No salão, rodeando-te os convivas,</l>
          <l>Tanta lisonja urdiam-te; porém</l>
          <l>Tinhas a tudo punhaladas vivas,</l>
          <l>No sorriso, de um áspero desdém.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E as mais damas mordiam-te com os olhos</l>
          <l>Onde da inveja coruscava a imagem,</l>
          <l>As joias te mirando, e os bastos folhos</l>
          <l>Da roçagante e esplêndida roupagem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o teu lábio cuspia o escárnio em roda</l>
          <l>Aos bardos que lançavam-te, através</l>
          <l>Dos madrigais ridículos da moda,</l>
          <l>Os corações vazios a teus pés...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas depois vi vergar teu corpo exausto,</l>
          <l>E a tua face confrangida e mesta</l>
          <l>Palejar, nos relâmpagos do fausto,</l>
          <l>Do esplendor babilônico da festa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Alguém que em tal momento entrou por certo</l>
          <l>No instantâneo deliquo te prostrou,</l>
          <l>Foi alguém que, em teu lábio ao riso aberto,</l>
          <l>O tóxico da mágoa derramou...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E esse fantasma ia talvez passando</l>
          <l>Entre as vascas da luz adamantina,</l>
          <l>Como o espectro de Afonso atro e execrando</l>
          <l>No funesto noivado de Isolina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ele é que o teu candor na onda cruenta</l>
          <l>Fez rojar do seu torpe desvario,</l>
          <l>Como os destroços de hórrida tormenta</l>
          <l>Na correnteza túrbida de um rio...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Único sol que te desfez o gelo!...</l>
          <l>Oh! deviam, em trágica desordem,</l>
          <l>As víboras da cólera mordê-lo,</l>
          <l>Como da mágoa as víboras te mordem!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tragar devia um vórtice implacável,</l>
          <l>Diabólico, vulcânico, infernal,</l>
          <l>A quem a estátua alvíssima, inefável</l>
          <l>Du pudor derribou do pedestal!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por ele só — Lucíola maldita —</l>
          <l>Velas em risos cínicos, descrentes.</l>
          <l>O mundo cambiante que palpita</l>
          <l>Dos sentimentos íntimos que sentes!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ai! quem notando a contração acerba</l>
          <l>Do teu lábio, acoimando-te, disser</l>
          <l>Que em ti personificam-se a soberba</l>
          <l>E todas as vaidades da mulher,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Engana-se! Tu sentes; se o profundo</l>
          <l>E nobre sentimento ao mundo encobres,</l>
          <l>É que, mulher, conheces bem que o mundo</l>
          <l>Sempre zombou dos sentimentos nobres!...</l>
        </lg>
		<dateline>(1880)</dateline>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Mulher! Leva essa taça; outra que venha]</head>
		<head type="tradução">(Zorrilla)</head>
		<opener>
						<salute>A Filinto de Almeida</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Mulher! Leva essa taça; outra que venha</l>
          <l>Maior; que dessa o vinho as bordas passa...</l>
          <l>Leva-a, e traze outra já; venha uma taça</l>
          <l>Grande, e que todo esse licor contenha!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lá fora o vento as árvores desgrenha,</l>
          <l>Estala o raio, o temporal esvoaça...</l>
          <l>Anda! se à porta o viajor que passa</l>
          <l>Se detiver, deixa que se detenha!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Deixa que espere ou desespere fora!</l>
          <l>Deixa, enfim, que ele siga o seu caminho,</l>
          <l>Que em torrentes a chuva inunda agora!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que com água viaje ele, o mesquinho,</l>
          <l>Eu quero o vinho, dá-m’o sem demora,</l>
          <l>Porque eu não posso viajar sem vinho.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Mãe e filho</head>
		<head type="tradução">(Victor Hugo)</head>
        <lg>
          <l>Mãe! A teu filho muita vez disseste</l>
          <l>Que o céu tem anjos, e há</l>
          <l>Só alegrias no viver celeste,</l>
          <l>E é melhor viver lá;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que é um zimbório de pilastras belas</l>
          <l>Tenda de ricas cores;</l>
          <l>Jardim de anil e lúcido de estrelas</l>
          <l>Que se abrem como flores;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que é o mundo dos seres invisíveis,</l>
          <l>De que Deus é o autor,</l>
          <l>De misticismo azul, de inexauríveis</l>
          <l>Gozos, de eterno amor;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que é doce lá, num êxtase que encanta,</l>
          <l>Sentir que a alma se abrasa,</l>
          <l>E viver com Jesus e a Virgem Santa</l>
          <l>Numa tão linda casa...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas nunca lhe disseste, inconsolável</l>
          <l>Mãe, chorosa mulher,</l>
          <l>Que ele, o pequeno, te era indispensável,</l>
          <l>Que ele te era mister;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que pelos filhos, quando são pequenos,</l>
          <l>Muito as mães se consomem,</l>
          <l>Mas que a mãe com seu filho conta ao menos</l>
          <l>Quando for velha, e ele homem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca disseste que no escuro trilho</l>
          <l>Da vida, Deus que é pai,</l>
          <l>Quer que o filho a mãe guie, e a mãe o filho,</l>
          <l>Pois um sem o outro cai...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nunca disseste! e agora, morto, apertas</l>
          <l>Nos braços teu filhinho!</l>
          <l>Deixaste as portas da gaiola abertas,</l>
          <l>Voa o passarinho...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Rio acima</head>
        <lg>
          <l>Frio, nas baixas sáfaras da riba</l>
          <l>Rolando as vagas túrgidas, tamanhas,</l>
          <l>Por florestas, por vales, por montanhas,</l>
          <l>Serpenteia espumante o Paraíba;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando o tufão as selvas e os palmares</l>
          <l>Bravejando vandálico devasta,</l>
          <l>Na móbil superfície o rio arrasta</l>
          <l>Hartos madeiros, troncos seculares...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Então, enquanto sobre as águas descem</l>
          <l>Esses espólios do combate ingente,</l>
          <l>Veem-se ilhas cobertas de verdores,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Belas, florentes balsas, que parecem</l>
          <l>Subir de um lado e de outro lentamente,</l>
          <l>Como baixeis fantásticos de flores...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A Gemma Cuniberti</head>
        <lg>
          <l>É grande a multidão que às suas plantas vê-se,</l>
          <l>E ela tão débil é, tão fraca e tão pequena,</l>
          <l>Que eu estremeço quando a criança aparece</l>
          <l>Tao pequena, tão fraca e tão débil em cena.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mas quando a sua voz gorjeia, quando um novo</l>
          <l>Lume e estranho poder no rosto se lhe expande,</l>
          <l>Transfigura-se tudo, e eu vejo então que o povo</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É que é pequeno, e que ela, a pequena, é que é grande.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Santas esmolas</head>
		<opener>
						<salute>A Mariano de Oliveira</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Bela, não! mas honesta e carinhosa,</l>
          <l>A alma branda, o olhar claro, o lábio doce;</l>
          <l>E antes assim do que, se mais formosa,</l>
          <l>Menos honesta e carinhosa fosse.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E pobre... antes assim! se fosse rica,</l>
          <l>Onde esse casto incenso que se evola</l>
          <l>Das suas roupas símplices, mas nobres?...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando a esmola não dá, melhor lhe fica</l>
          <l>A lágrima que verte, em vez da esmola,</l>
          <l>Nas magras, nas mirradas mãos dos pobres!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nas mãos dos pobres magras e mirradas</l>
          <l>Essas lágrimas vejo a reluzir,</l>
          <l>E convertidas e cristalizadas</l>
          <l>Todas, em raras pérolas, cair...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>No circo</head>
		<opener>
						<salute>A Pedreira Franco</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Abria o circo a arena iluminada</l>
          <l>Do povo às grossas vagas tumultuosas;</l>
          <l>Fervia tudo em pompa; a variada</l>
          <l>Cor das vestes, as rendas preciosas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O verde, o azul, as sedas, os lavores</l>
          <l>Dos luzentes metais da cor do dia;</l>
          <l>Mas nesta febre múltipla de cores</l>
          <l>Somente a cor vermelha não se via;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Em aplausos a turba se desata,</l>
          <l>Surge em pleno espetáculo o acrobata,</l>
          <l>Pula, e na corda bamba se ajoelha;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Arqueia o corpo; a corda estala e ringe;</l>
          <l>Ele cai, parte o crânio, e o solo tinge</l>
          <l>A cor que se não via, a cor vermelha.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Mal secreto</head>
        <lg>
          <l>Se a cólera que espuma, a dor que mora</l>
          <l>N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,</l>
          <l>Tudo o que punge, tudo o que devora</l>
          <l>O coração, no rosto se estampasse;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se se pudesse, o espirito que chora</l>
          <l>Ver, através da máscara da face,</l>
          <l>Quanta gente, talvez, que inveja agora</l>
          <l>Nos causa, então piedade nos causasse!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quanta gente que ri, talvez, consigo</l>
          <l>Guarda um atroz, recôndito inimigo</l>
          <l>Como invisível chaga cancerosa!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quanta gente que ri, talvez existe,</l>
          <l>Cuja aventura única consiste</l>
          <l>Em parecer aos outros venturosa!</l>
        </lg>
		</div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A avó</head>
		<opener>
						<salute>A Hugo Leal</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Este infante de olhar e faces inocentes</l>
          <l>Me repele, e por que, quando me achego dele?</l>
          <l>Quando com as mãos sem força, engelhadas, trementes,</l>
          <l>O afago, por que chora e por que me repele?!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A velhice tornou meu semblante tão feio,</l>
          <l>Que às crianças que beijo, ameigo e acaricio</l>
          <l>Já não inspiro amor, só inspiro receio?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Meu riso é hoje acaso um momo tão sombrio,</l>
          <l>Que este infante que embalo, este que de mim veio,</l>
          <l>Que é meu neto, este até, chora quando me rio?!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E, como ele, contudo, eu sou fraca, e, como ele,</l>
          <l>Eu não tenho também nem cabelos, nem dentes...</l>
          <l>Ai! quando o vou beijar, por que é que me repele</l>
          <l>Esse infante de olhar e faces inocentes?!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head><hi rend="italic">Perambulans</hi></head>
        <lg>
          <l>O fluido adelgaçado e salutar da aurora</l>
          <l>Aspiro... escarva o chão o cavalo impaciente;</l>
          <l>Cavalgo-o, e ele veloz, pela planície afora</l>
          <l>Atira-se a correr impetuosamente...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A neblina no val pendura-se: fumega</l>
          <l>A terra... fende um carro o solo dos caminhos;</l>
          <l>O mugido dos bois aos meus ouvidos chega</l>
          <l>E os monótonos sons das rodas dos moinhos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelas sendas do campo onde loireja a espiga</l>
          <l>O rude boiadeiro a conduzir a tropa,</l>
          <l>Corta o ar com a sonora e límpida cantiga...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do robusto angelim pela folhuda copa</l>
          <l>Zune o vento a passar e o meu chapéu fustiga...</l>
          <l>E em meio dos sertões o cavalo galopa...</l>
        </lg>
		<closer>
			<dateline>(1880)</dateline>
		</closer>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A Itália</head>
		<opener>
						<salute>A Silvestre de Lima</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>A Itália é o ninho azul da fantasia —</l>
          <l>Foge-me a aspiração para estas partes...</l>
          <l>Amo também o berço da poesia,</l>
          <l>Da escultura, da música, das artes.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esse inquieto ansiar de quem deseja</l>
          <l>Vê-la e morrer, eu sinto, e quero as plagas</l>
          <l>Pisar, onde o Adriático espumeja</l>
          <l>Quebrando o grosso batalhão das vagas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E na avidez que o espírito me inunda,</l>
          <l>Alongo os olhos da alma, e creio vê-la...</l>
          <l>Prainos que estrela uma estação fecunda,</l>
          <l>Céus que uma eterna primavera estrela.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Torres oblíquas, altos monumentos</l>
          <l>De pontiagudo e gótico remate</l>
          <l>Apunhalando largos firmamentos</l>
          <l>De rutilante e vívido escarlate...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Virações que das costas sicilianas</l>
          <l>O morno aroma que as embebe espalham,</l>
          <l>Águas azuis, lagunas que de ufanas</l>
          <l>E rendilhadas gôndolas se coalham...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Prodígios de arte e naturais prodígios,</l>
          <l>E em cada pedra, e em cada escura fenda</l>
          <l>De ruína, indeléveis os vestígios</l>
          <l>De gigantes de homérica legenda...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ao sol de abril planícies florescendo,</l>
          <l>Mármores florescendo ao sol da Ideia!...</l>
          <l>Assim é que em meus sonhos te estou vendo,</l>
          <l>Maravilhosa Palas europeia!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vejo-te assim, heroica, iluminada,</l>
          <l>À sombra do teu elmo éreo e titânio,</l>
          <l>Ao sul, em pé, de mirtos guirlandada,</l>
          <l>Calcando o dorso do Mediterrâneo.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>À Adelaide Tessero</head>
        <lg>
          <l>Artista! O gênio, a força estranha e santa</l>
          <l>Que a linguagem das almas interpreta,</l>
          <l>E do humano sentir move e levanta</l>
          <l>A válvula mais funda e mais secreta,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tu o possuis; por ele é que, sublime,</l>
          <l>Todo o insondável caos, todo o complexo</l>
          <l>Dos dramas da paixão, teu gesto exprime</l>
          <l>Ante o auditório atônito e perplexo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Por isso, ora veemente, ora tranquila,</l>
          <l>Quando, com teu condão mágico, tocas</l>
          <l>Todo o teclado harmônico das almas,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do teu gênio o relâmpago fuzila,</l>
          <l>Troa um violento bravo de mil bocas,</l>
          <l>Desencadeia-se um tufão de palmas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>História de uma gota de água</head>
		<head type="tradução">Lachambeaudie</head>
        <lg>
          <l>Deslocada dos céus, como lágrima solta,</l>
          <l>Um dia, a gota de água em pleno mar caiu,</l>
          <l>E carpia-se a triste, abandonada e envolta</l>
          <l>Na espuma do oceano indômito e bravio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E um crustáceo a sorveu após, limites dando</l>
          <l>Da exilada celeste à nostalgia, à mágoa;</l>
          <l>E no áspero crisol foi se cristalizando</l>
          <l>E em pérola mudou-se aquela gota de água.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mais tarde do mar à funda cavidade</l>
          <l>A pérola colheu hábil mergulhador —</l>
          <l>E ela foi rutilar, cheia de majestade,</l>
          <l>No diadema real de um grande imperador.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó tu, de humildes pais filha modesta e bela,</l>
          <l>Tu, que apuras o ser no crisol da agonia,</l>
          <l>Não desanimes nunca; e talvez como aquela</l>
          <l>Gota de água, mulher, sejas pérola um dia.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Na página de um álbum</head>
		<opener>
						<salute>A Randolfo Fabrino</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Quando alegre e feliz às terras tu voltares</l>
          <l>Onde viste da vida a branda luz primeira,</l>
          <l>E onde o viso a imergir nos enfeitados ares</l>
          <l>Ergue-se o Itatiaia e ergue-se a Mantiqueira,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ao lugar, onde supre o rebombo dos mares</l>
          <l>A música da selva, e a voz da cachoeira;</l>
          <l>Ao lugar que é pra ti o melhor dos lugares</l>
          <l>Pois foi lá que passaste a rir a infância inteira;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesse quieto viver, nessa existência quieta,</l>
          <l>Quando o peito inundar-te a aurora da alegria,</l>
          <l>Sob o paterno teto, em êxtase aí,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Recorda-te, ó amigo! ó sonhador! ó poeta!</l>
          <l>Recorda-te de alguém que conheceste um dia,</l>
          <l>E que um dia deixou-te esta lembrança aqui!</l>
        </lg>
		<dateline>São Paulo, 1879</dateline>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head><hi rend="italic">Vulnus</hi></head>
        <lg>
          <l>Com bons olhos, quem ama, em torno a tudo vê,</l>
          <l>Folga, estremece, ri, sonha, respira e crê;</l>
          <l>A crença doira e azula o círculo que o cinge,</l>
          <l>Da volúpia do bem o grau supremo atinge;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu também atingi esse supremo grau,</l>
          <l>Também fui bom e amei, e hoje odeio e sou mau,</l>
          <l>E as culpadas sois vós, visões encantadoras,</l>
          <l>Virginais desleais, desleais Eleonoras!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Minha alma juvenil, ígnea, meridional,</l>
          <l>Num longo sorvo, hauriu o pérfido e letal</l>
          <l>Filtro do vosso escuro e perigoso encanto!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A vossos pés rasguei tantos castelos; tanto</l>
          <l>Sonho se esperdiçou, tanta luz se perdeu!...</l>
          <l>Amei, nem uma só de vós me compreendeu!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>No decenário de Castro Alves</head>
			<opener>
				<epigraph>
					<cit>
						<quote>
							<lg type="ignore-when-scanning">
								<l>Tinha na mão brilhante a trompa bronzeada.</l>
							</lg>
						</quote>
					<bibl>(Castro Alves)</bibl>
					</cit>
				</epigraph>
			</opener>
        <lg>
          <l>Foram-se todas já. Uma era a bela</l>
          <l>Musa das notas líricas, sombrias;</l>
          <l>Outra empunhava a taça das orgias;</l>
          <l>Outra o pincel da americana tela;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esta era torva e extravagante; aquela</l>
          <l>De Henri Heine lembrava as fantasias:</l>
          <l>Eis as musas gentis do Abreu, do Dias,</l>
          <l>Do Azevedo, do Freire e do Varela...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="10">Cada uma destas pálida sustinha</l>
          <l aoidos:meter="10">Na mão uma harpa de oiro, e a desejada</l>
          <l aoidos:meter="10">Glória a seguir cada uma destas vinha...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>De Castro Alves porém a iluminada</l>
          <l>Musa, em lugar duma harpa d’oiro, <hi rend="italic">tinha</hi></l>
          <l><hi rend="italic">Na mão brilhante a trompa bronzeada.</hi></l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Maio</head>
		<head type="tradução">(F. Coppée)</head>
        <lg>
			<l>Há um mês foste-te embora;</l>
			<l>E eu sofro de ti distante,</l>
			<l>Embalde viceja agora</l>
			<l>O lilás fresco e odorante.</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>A sós, fujo ao claro brilho</l>
			<l>Desde céu que me exapera,</l>
			<l>Pois aumenta o horror do exílio</l>
			<l>O esplendor da primavera.</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Contra os vidros transparentes</l>
			<l>Da alcova de onde não saio,</l>
			<l>Batendo as asas trementes</l>
			<l>Ouço os insetos de maio.</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Do sol ao rútilo beijo</l>
			<l>Cerro o lábio, desgostoso,</l>
			<l>E só, do lilás desejo</l>
			<l>O úmido ramo cheiroso;</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Pois em meio às suas dores,</l>
			<l>Do lilás, minh'alma, em ânsia,</l>
			<l>Vê teus olhares — nas flores,</l>
			<l>Teu hálito — na fragrância.</l>
		</lg>
	  </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Dezembro</head>
		<head type="tradução">(F. Coppée)</head>
        <lg>
			<l>Dezembro entre gelos finda...</l>
			<l>Pia o mocho! que saudade!</l>
			<l>Que fundo sentir! que infinda</l>
			<l>Tristeza teu seio invade!</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Não queiras reter o escuro</l>
			<l>Curso veloz desses dias;</l>
			<l>Quantos serão, no futuro,</l>
			<l>De dor! quantos de alegria!</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Deixa que escoem-se os anos!</l>
			<l>Num beijo — que desenganos!</l>
			<l>Que espinhos numa só flor!</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Morra-se embora, querida;</l>
			<l>Que importa a morte, se a vida,</l>
			<l>Se a vida não tem valor!?</l>
		</lg>
	  </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Beijo póstumo</head>
        <lg>
          <l>Do meu primeiro amor, és o templo em ruína</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No estômago da morte, atro e voraginoso,</l>
          <l>Essa carne ideal, deliciosa e fina,</l>
          <l>Caiu como um manjar fino e delicioso!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Teu corpo decompõe-se; e, a supurar em flores,</l>
          <l>Com funéreo pudor, os teus membros inermes</l>
          <l>Hoje são a vivenda e o pábulo dos vermes</l>
          <l>Asquerosos, cruéis, frios e roedores...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o beijo que eu pedi-te e que nunca me deste</l>
          <l>Que em vida quis colher-te e nunca foi colhido,</l>
          <l>Cai de teu lábio como um fruto apodrecido...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó beijo virginal! fruto que apodreceste!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O vinho de Hebe</head>
        <lg>
          <l>Quando, do Olimpo nos festins, surgia</l>
          <l>Hebe risonha, os deuses majestosos</l>
          <l>Os copos estendiam-lhe, ruidosos,</l>
          <l>E ela, passando, os copos lhes enchia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A Mocidade, assim, na rubra orgia</l>
          <l>Da vida, alegre e pródiga de gozos,</l>
          <l>Passa por nós, e nós também, sequiosos,</l>
          <l>Nossa taça estendemos-lhe, vazia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E o vinho do prazer em nossa taça</l>
          <l>Verte-nos ela, verte-nos e passa...</l>
          <l>Passa, e não torna atrás o seu caminho.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios</l>
          <l>Restam apenas tímidos ressábios,</l>
          <l>Como recordações, daquele vinho.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O chalé</head>
        <lg>
          <l>É um chalé risonho, alvo e correto,</l>
          <l>Como os chalés austríacos, fachada</l>
          <l>Triangular, pirâmides no teto,</l>
          <l>Largas cimalhas, cúpula quadrada.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Para campos sem fim rasga a janela</l>
          <l>De amplos caixilhos... tudo o que o rodeia</l>
          <l>Lembra, no fundo azul de uma aquarela,</l>
          <l>Uma paisagem rústica de aldeia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Os capiteis coríntios dão-lhe à frente</l>
          <l>Um ar pagão, festivo e romanesco;</l>
          <l>E no jardim, em tanque transparente,</l>
          <l>Soa o repuxo cristalino e fresco.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando pelo portão às vezes passo,</l>
          <l>Entre as grades de ferro, deslumbrante,</l>
          <l>Vejo o cilindro de um ebúrneo braço,</l>
          <l>Ao pescoço de um cisne semelhante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E vem ferir-me o tímpano do ouvido,</l>
          <l>Como um ruído de harpas argentinas,</l>
          <l>Um ruído qualquer, que é o ruído</l>
          <l>Particular das vozes femininas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E assoma na janela um rosto lindo,</l>
          <l>De expressão tão angélica e tão pura,</l>
          <l>Como um busto de santa reluzindo</l>
          <l>Em florejada e nítida moldura.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesta gruta fantástica de flores,</l>
          <l>Neste chalé se oculta ela, a formosa,</l>
          <l>Como em caixa de artísticos lavores,</l>
          <l>Se oculta a fina pérola custosa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E p’ra ser o chalé em que reside</l>
          <l>Como um castelo ideal da idade morta,</l>
          <l>Basta, como nas lendas de <choice><orig>Al-Raschid</orig><seg type="apo">Au Rachi</seg></choice>,</l>
          <l>Pôr-lhe um dragão feroz guardando a porta.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A Juventude</head>
		<opener>
						<salute>A Aluísio Azevedo</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Do amor a vaga sensação primeira,</l>
          <l>Primeiro alvor, dilúculo da idade,</l>
          <l>O brando rescender da virgindade,</l>
          <l>Mais brando que o da flor amendoeira;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O espírito, a beleza e a castidade</l>
          <l>— Rara violeta que invisível cheira;</l>
          <l>A ingênua prece — música fagueira —</l>
          <l>Tudo que há na mulher que mais agrade;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo nesta estação se atila e apura;</l>
          <l>A moça sonha e o seu olhar fulgura</l>
          <l>No olhar de luz e de umidade cheio;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da tez lhe fulge a transparência rara,</l>
          <l>E, qual fruto de neve, aponta a clara</l>
          <l>Protuberância olímpica do seio.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Alfaíma</head>
        <lg>
          <l>A mourisca feição que ensombra e vela</l>
          <l>Da negra coma o nítido veludo,</l>
          <l>Aquela graça original, aquela</l>
          <l>Voz, aquele sorrir cândido, tudo,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo, como que um láudano propina,</l>
          <l>Que insinua-se n’alma, e que a alma absorta,</l>
          <l>Arrasta, vence, atrai, seduz, domina,</l>
          <l>E a longes plagas, rápido, transporta...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos anafins as músicas ressoam</l>
          <l>Barulhentas, excêntricas; reboam</l>
          <l>Os estampidos hórridos do Ganges;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fulge o rubro cariz do céu do Oriente,</l>
          <l>E abre-se um sol que bate em chapa, ardente,</l>
          <l>Sobre um milhão de rútilos alfanges...</l>
        </lg>
      </div>
	  <div type="section">
				<head>Perfis românticos</head>
				<opener>
					<salute>A Machado de Assis</salute>
				</opener>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>I / Ofélia</head>
        <lg>
          <l>Num recesso da selva ínvia e sombria,</l>
          <l>Estrelada de flores, vicejante,</l>
          <l>Onde um rio entre seixos, espumante,</l>
          <l>Cursando o vale, túrgido, fluía;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A coma esparsa, lívido o semblante,</l>
          <l>Desvairados os olhos, como fria</l>
          <l>Aparição dos túmulos, um dia</l>
          <l>Surgiu de <choice><orig>Hamlet</orig><seg type="apo">Anlete</seg></choice> a lacrimosa amante;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Símplices flores o seu porte lindo</l>
          <l>Ornavam... como um pranto, iam caindo</l>
          <l>As folhas de um salgueiro na corrente...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E na corrente ela também tombando,</l>
          <l>Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando</l>
          <l>Por sobre as águas indolentemente.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>II / Graziela</head>
        <lg>
          <l>O sol vivificante, a áurea celagem</l>
          <l>Do céu da Itália limpo e transparente,</l>
          <l>As ondas verdes, a anelante aragem,</l>
          <l>Aromática, próspera, frequente;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E toda essa romântica paisagem</l>
          <l>Do berço dos Rossini, onde se sente</l>
          <l>Hoje ainda o resfôlego, a bafagem</l>
          <l>Das bocas do Vesúvio incandescente;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Esse conjunto harmônico e risonho</l>
          <l>Verteu-te n’alma de poeta o sonho</l>
          <l>Místico e oriental, que se define</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na tua amante imaginária e bela,</l>
          <l>Na doce e suavíssima Graziela,</l>
          <l>Suavíssimo e doce Lamartine.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>III / Hero</head>
        <lg>
          <l>Descamba a noite; ríspido farfalha,</l>
          <l>Crebro, o tufão; ferve o Helesponto irado,</l>
          <l>E o céu da Grécia torvo e carregado</l>
          <l>Rápido o raio rútilo retalha...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A fria, undosa, líquida mortalha</l>
          <l>Rasga co’o peito o nadador ousado;</l>
          <l>Sorri-lhe ao longe o porto desejado</l>
          <l>Onde o amor brilha e a placidez se espalha;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O louco amor que o impele inebriante</l>
          <l>Ao mar, do mar, traidor, o não socorre,</l>
          <l>E as vagas cospem-no hirto, agonizante.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E Hero, lívida e aflita, à praia corre,</l>
          <l>E sobre o corpo inânime do amante</l>
          <l>Cai sem força, ululando, e arqueja e morre...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>IV / Marília</head>
        <lg>
          <l>Ó Marília! Ó Dirceu! Eram dois ninhos</l>
          <l>Os vossos corações, ninhos de flores;</l>
          <l>Mas, entre os quais, sentíeis os rigores</l>
          <l>Lacerantes de incógnitos espinhos;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tremiam, como em flácidos arminhos,</l>
          <l>Promiscuamente, neles os amores,</l>
          <l>As saudades, os cânticos, as dores,</l>
          <l>Como uma multidão de passarinhos...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O sulco profundíssimo que traça</l>
          <l>Nos corações amantes a desgraça,</l>
          <l>Ambos nos corações traçados vistes,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando os vossos olhares, no momento,</l>
          <l>Cruzaram-se, do negro afastamento,</l>
          <l>Marejados de lágrimas e tristes...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>V / Beatriz</head>
        <lg>
          <l>A alma de Dante olímpica e divina,</l>
          <l>Êmula e irmã do cisne de Ferrara,</l>
          <l>Alma feita de sóis, têmpera rara,</l>
          <l>Embebeu-se em tu’alma peregrina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A luz, cândida dama florentina,</l>
          <l>Do teu olhar, aveludada e clara,</l>
          <l>Também os sons com ímpeto arrancara</l>
          <l>Daquela grande cítara argentina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Já no quadro imortal do Paraíso</l>
          <l>Eu descubro o reflexo passageiro</l>
          <l>Do teu melífluo e límpido sorriso</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mais a tua candidez, a tua</l>
          <l>Graça ideal e o teu perfil inteiro</l>
          <l>Na Vita-Nuova aumenta e se acentua.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>VI / Natércia</head>
        <lg>
          <l>Esse cantor guerreiro, cuja fama</l>
          <l>O temporal dos séculos investe,</l>
          <l>E da imortalidade no celeste</l>
          <l>Páramo bate, rola e se derrama;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O peito de aço que o valor inflama,</l>
          <l>Invencível, no entanto, tu venceste,</l>
          <l>Tu, tirânico amor, tu que o prendeste</l>
          <l>De um puro olhar nos vínculos de chama.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ai! Natércia infeliz! breve apagou-se</l>
          <l>A luz cândida, o brilho harmonioso</l>
          <l>Do teu olhar, virgem serena e doce!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Viste o cairel do túmulo primeiro,</l>
          <l>E após, seguiu-te o rasto glorioso</l>
          <l>O teu Camões, o teu cantor guerreiro!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>VII / Virgínia</head>
        <lg>
          <l>Impressiono-me sempre quando leio</l>
          <l>Toda a história do amor dessa criança;</l>
          <l>Sinto-lhe o incenso da pureza e a mansa</l>
          <l>Ondulação do imaculado seio.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do casto e ingênuo par me encanta o enleio,</l>
          <l>No respaldo do monte, ou sobre a frança</l>
          <l>Da palmeira que, trépido, balança</l>
          <l>Cálido vento de murmúrios cheio...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vejo a náufraga exausta, que desmaia</l>
          <l>Na palidez da morte, e o corpo exangue</l>
          <l>Rolando nu e gélido na praia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E Paulo delirante, úmidos olhos,</l>
          <l>Rasgando os membros que porejam sangue</l>
          <l>Na cúspide escabrosa dos escolhos...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>VIII / Julieta</head>
        <lg>
          <l>A loura Julieta enamorada,</l>
          <l>Triste, lânguida, pálida, abatida,</l>
          <l>Aparece radiante na sacada</l>
          <l>Dos raios brancos do luar ferida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Engolfa o olhar na sombra condensada,</l>
          <l>Perscruta, busca em torno... e na avenida</l>
          <l>Surge Romeu; da valerosa espada</l>
          <l>Esplende a clara lâmina polida...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sente-se o arfar de sôfregos desejos,</l>
          <l>Estoura no ar um turbilhão de beijos,</l>
          <l>Mas o dia reponta!... Ó indiscreta</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da cotovia matinal garganta!</l>
          <l>Ó perigo do amor, que o amor quebranta!</l>
          <l>Ó noites de Verona! Ó Julieta!</l>
        </lg>
      </div>
	  </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Frutas e Rosas</head>
		<head type="tradução">(Campoamor)</head>
        <lg>
          <l>Uma rosa entre frutas, minha amada,</l>
          <l>Um dia eu te mandei... tu que me escutas,</l>
          <l>Dize: por que essa boca perfumada</l>
          <l>Beijou a rosa sem comer as frutas?</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Uma outra vez eu fiz-te igual presente,</l>
          <l>Rosa entre frutas... mas por que, formosa,</l>
          <l>Essa boca a se abrir avidamente</l>
          <l>Comeu as frutas sem beijar a rosa?</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Lágrimas românticas</head>
        <lg>
          <l>Na espessa e plúmbea cor do céu de agosto</l>
          <l>Do dia os raios últimos morriam,</l>
          <l>E o cerro e a várzea ao longe, do sol posto</l>
          <l>No vapor doce e pálido esbatiam...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Eu despendi-me trêmulo; o desgosto</l>
          <l>Cerrou-te o coração; se umedeciam</l>
          <l>Teus olhos belos, por teu belo rosto</l>
          <l>Tinto de rosa, as lágrimas caíam...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Parti convulso, delirante, incerto...</l>
          <l>O descampado extenso abriu-me o seio</l>
          <l>Sem verde arbusto, sem humano rasto...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E eu seguia a estender sobre o deserto</l>
          <l>Outro deserto: o da alma, e inda mais feio,</l>
          <l>Inda mais horroroso, inda mais vasto...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Nascer... Morrer...</head>
		<head type="tradução">(Blasco)</head>
        <lg>
          <l>Nasce no mar a pérola mais fina.</l>
          <l>Na rocha a violeta, nas fugaces</l>
          <l>Nuvens do orvalho a gota cristalina,</l>
          <l>Tu nos meus sonhos nasces.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Morrem, num sólio a pérola fulgente,</l>
          <l>Num jarro as flores de que as roupas teces</l>
          <l>No solo seco o orvalho, e em tua mente</l>
          <l>Morro, porque me esqueces!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Na penumbra</head>
        <lg>
          <l>Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,</l>
          <l>Lembra-se?... apenas reluzia a medo,</l>
          <l>Na solidão crepuscular da alcova</l>
          <l>O diamante que ardia-te no dedo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Nesse ambiente tépido, enervante</l>
          <l>Os meus desejos quentes, irritados,</l>
          <l>Circulavam-te a carne palpitante,</l>
          <l>Como um bando de lobos esfaimados...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como que estava sobre nós suspensa</l>
          <l>A pomba da volúpia; a treva densa</l>
          <l>Do teu olha tinha tamanho brilho!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E os teus seios que as roupas comprimiam,</l>
          <l>Tanto sob elas, túmidos batiam,</l>
          <l>Que estalavam-te o flácido espartilho!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Perguntavam eles: — Como,]</head>
		<head type="tradução">(V. Hugo)</head>
        <lg>
          <l>Perguntavam eles: — Como,</l>
          <l>Em nossos batéis sem velas,</l>
          <l>Dos beleguins fugiremos?...</l>
          <l>— Remai! respondiam elas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Perguntavam eles: — Como</l>
          <l>Esqueceremos querelas,</l>
          <l>Misérias, perigos, mágoas?</l>
          <l>— Dormi! respondiam elas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Perguntavam eles: — Como</l>
          <l>Encantaremos as belas,</l>
          <l>Sem termos mágicos filtros?</l>
          <l>— Amai! respondiam elas.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Divagando</head>
        <lg>
          <l>Inspira-nos a mesma ardente musa,</l>
          <l>A mesma ardente musa nos desperta</l>
          <l>As almas, à luz tíbia, à luz incerta</l>
          <l>Na alva da vida pálida e confusa;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E elas, como do aspecto de Medusa,</l>
          <l>Da realidade de ilusões deserta</l>
          <l>Fogem, se a minha mão a tua aperta,</l>
          <l>Se meu olhar com teu olhar se cruza.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Como às regiões do mar inabitadas,</l>
          <l>Voam duas gentis, cândidas velas;</l>
          <l>Assim vão nossas almas enlaçadas</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Pelas soidões dos céus, lúcidas, belas,</l>
          <l>Profundas e serenas, povoadas</l>
          <l>Do arquipélago infindo das estrelas...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Balata</head>
        <lg>
          <l>Ninho de rola e corola</l>
          <l>De flor tens, porque és, amor,</l>
          <l>Débil como a flor, ó rola!</l>
          <l>Alva como a rola, ó flor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Rola — um áspide em teu ninho</l>
          <l>Enrosca-se e pula, horror!</l>
          <l>Flor — tens no caule um espinho,</l>
          <l>Que sangra e que mata, ó flor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Toquei-te, flor, na corola,</l>
          <l>Rola — em teu ninho de amor.</l>
          <l>Mordeu-me o áspide — rola!</l>
          <l>O espinho feriu-me — flor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Flor, mata-me o teu espinho!</l>
          <l>Rola, o teu áspide! e, horror,</l>
          <l>Eu amo-te ainda o ninho</l>
          <l>Ó rola! e a corola, ó flor!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Ouro sobre azul...</head>
        <lg>
          <l>Quando ela, sobre as águas transparentes,</l>
          <l>Surge em casta nudez, de amor acesa,</l>
          <l>A vaga envolve em ósculos frementes</l>
          <l>Todo o corpo da olímpica princesa.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O misto de luxúria e de pureza</l>
          <l>Dos seus contornos nítidos, patentes,</l>
          <l>É o poema excelso da Beleza</l>
          <l>Em estrofes de Paros, reluzentes...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vendo-a assim, cuido ver, branca de espuma,</l>
          <l>Vênus que surge, e da onda que flutua</l>
          <l>No verde flanco lânguida se apruma;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E soltos vendo-lhe os cabelos, cuido</l>
          <l>Ver despenhar-se sobre a deusa nua</l>
          <l>Serena catadupa de oiro fluido...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Despedida</head>
        <lg>
          <l>Quando te despe</l>
		  <l>Se ia também o sol; as flutuantes</l>
		  <l>Névoas da tarde, os ápices distantes</l>
		  <l>Dos montes, pouco a pouco, iam vestindo...</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Do baixel que levava-te, sumindo</l>
			<l>Iam-se as velas pandas, alvejantes,</l>
			<l>Como um grupo de garças, emigrantes,</l>
			<l>Na extrema raia do horizonte infindo...</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Na orla arenosa da enseada, entanto,</l>
			<l>Tendo as fibras do ser da dor escravas,</l>
			<l>Eu imergia o olhar úmido em pranto,</l>
		</lg>
		<lg>
			<l>Eu imergia o olhar nas ondas bravas,</l>
			<l>Como indo após a tua rota, entanto,</l>
			<l>Pomba, dos olhos meus tu te afastavas...</l>
		</lg>
	  </div>
		  <div aoidos:unit="y">
        <head>No jardim</head>
        <lg>
          <l>Estavas no jardim. Raiara um dia</l>
          <l>Fresco, primaveril, resplandecente;</l>
          <l>Nos tanques cheios de água, intermitente,</l>
          <l>Quérulo, o vento flores espargia...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Bela, sem que me visses, eu te via</l>
          <l>Colhendo rosas; teu roupão na frente</l>
          <l>Suspenso um pouco, negligentemente,</l>
          <l>Rósea porção de perna descobria...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Que desalinho cândido! que braço!</l>
          <l>Como enchia-se níveo o teu regaço</l>
          <l>Das flores que caíam-te da mão!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E mal me viste, em fogo, te fitando,</l>
          <l>Rubra em pejo, a fugir foste deixando</l>
          <l>Uma esteira de rosas pelo chão...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Amor e vida</head>
        <lg>
          <l>Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,</l>
          <l>Este amor infeliz, como se fora</l>
          <l>Um crime aos olhos dessa, que ela adora,</l>
          <l>Dessa que crendo-o, crera-se ofendida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A crua e rija lâmina homicida</l>
          <l>Do seu desdém vare-me o peito; embora,</l>
          <l>Que o amor que cresce nele, e nele mora,</l>
          <l>Só findará, quando findar-me a vida!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ó meu amor! como num mar profundo,</l>
          <l>Achaste em mim teu álgido, teu fundo,</l>
          <l>Teu derradeiro, teu feral abrigo!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E qual do rei de Tule a taça de ouro,</l>
          <l>Ó meu sacro, ó meu único tesouro!</l>
          <l>Ó meu amor! tu morrerás comigo!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Luar do verão</head>
        <lg>
          <l>Contempla a noite; o espaço de astros de ouro</l>
          <l>Constela-se e flameja; as nebulosas</l>
          <l>Fulgem, são as espumas luminosas</l>
          <l>Desse p’ra nós voltado sorvedouro...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ouve do vento as súplicas, o choro</l>
          <l>Pela copa das árvores frondosas;</l>
          <l>A água resplende; as ondas, nas musgosas</l>
          <l>Penhas, esbarram com medonho estouro...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Mudos e sós, vamos de braço dado,</l>
          <l>Voa nossa alma arrebatada e presa</l>
          <l>Nos mistérios do azul iluminado...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>O Lúcifer! tu és a Natureza...</l>
          <l>Se Adão mordeu o pomo do pecado,</l>
          <l>Foi numa noite destas, com certeza.</l>
		  </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>No banho</head>
        <lg>
          <l>Não eras só na câmera deserta</l>
          <l>Quando o banho tomavas perfumoso;</l>
          <l>Banho feito do aroma voluptuoso</l>
          <l>Que às odaliscas a Turquia oferta...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Fora — do estio estava a calma aberta —</l>
          <l>Dentro — o sossego morno e silencioso —</l>
          <l>E eu às ocultas te mirava, ansioso;</l>
          <l>Não eras só na câmera deserta...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E em torno derramaste o olhar celeste;</l>
          <l>Desfolhaste-te, flor; nu, dentre a veste</l>
          <l>Teu colo começou a aparecer,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a espalda, e o dorso... E, vencedor sublime,</l>
          <l>Eu, forte, não perdi-te nem perdi-me,</l>
          <l>E ai! podia perder-me e te perder!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head><hi rend="italic">Aprés le combat</hi></head>
        <lg>
          <l>Entrei, e achei-a a sós, sobre um estrado</l>
          <l>Sentada, em frente ao reposteiro erguido;</l>
          <l>Livres do laço as tranças, e o nevado</l>
          <l>Seio abundante livre do vestido...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Muda, estendeu p’ra mim com ar de enfado</l>
          <l>O braço frouxo, lânguido, caído —</l>
          <l>E levantou o negro olhar rasgado</l>
          <l>De uns violáceos círculos tingido...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Num gesto frio, tímido, indeciso,</l>
          <l>O lábio seco, machucado e exangue</l>
          <l>Abriu em triste e mórbido sorriso...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo era o vosso efeito perigoso,</l>
          <l>Ó explosões da pólvora do sangue!</l>
          <l>Deliciosa síncope do gozo!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Últimos momentos</head>
        <lg>
          <l>Deslizava o período das flores...</l>
          <l>Pela janela aberta, além se via</l>
          <l>Do sol retinto em sangue, a pradaria</l>
          <l>Esbatendo nos grandes resplendores.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>No seu olhar pintavam-se os terrores</l>
          <l>Que a morte gera, e a palidez tingia</l>
          <l>Seu semblante molhado da agonia</l>
          <l>Derradeira nos gélidos suores...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E ai! quando ouvi-lhe no último momento,</l>
          <l>Seu lamento final, convulso, aflito,</l>
          <l>Foi-me um gládio de dor esse lamento;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E atravessou-me o seio, como um grito</l>
          <l>Que, fúnebre, retumba de um convento,</l>
          <l>Nas abóbadas negras de granito...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Ambos juntos e sós, satisfeitos e rindo,]</head>
		<head type="tradução">(V. Hugo)</head>
        <lg>
          <l>Ambos juntos e sós, satisfeitos e rindo,</l>
          <l>Íamos apanhar as cerejas ao prado;</l>
          <l>E ela os galhos vergava, às árvores subindo,</l>
          <l>Com seus braços gentis de mármore nevado.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A aragem despencava as folhas; que harmonia</l>
          <l>Dentro e fora de nós, que amplidão na paisagem!</l>
          <l>Seu colo branco, ideal, ondulava e fremia,</l>
          <l>Entre as frechas do sol e o negror da folhagem.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando entre as ramas via algum fruto maduro,</l>
          <l>Como um botão de fogo, entre os sarçais, vermelho,</l>
          <l>Subia mais, mostrando, em um desleixo puro,</l>
          <l>A perna inteira até à curva do joelho...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Meu namorado olhar a seguia somente,</l>
          <l>Mas... sobe, me bradava a angélica menina;</l>
          <l>E eu subia, e ela em cima apanhava contente</l>
          <l>Co’a pequenina mão a fruta pequenina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E inclinada p’ra mim, entre os dentes, que louca!</l>
          <l>Punha a cereja, e a rir ma ofertava sem pejo;</l>
          <l>E a minha boca a arder poisando em sua boca</l>
          <l>A cereja deixava e só trazia o beijo.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Continua...</head>
        <lg>
          <l>Vou prosseguir a narração sentida</l>
          <l>Das nostalgias e dos dissabores</l>
          <l>Da minha longa ausência, mas se fores</l>
          <l>Capaz de ouvi-la sem chorar, querida.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Para a Espanha, em Outubro, na partida</l>
          <l>Da primavera, no cair das flores,</l>
          <l>Segui... É esta página (não chores!)</l>
          <l>A página pior da minha vida!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cativou-me uma dama de Sevilha,</l>
          <l>Foi isso um crime que julguei nefando;</l>
          <l>Tive remorsos!... (Por que choras, filha?)</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vejo-te hoje tão pura, como quando</l>
          <l>Parti... (O pranto nos teus olhos brilha!)</l>
          <l>Ora! não continuo: estás chorando!...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Plena nudez</head>
        <lg>
          <l>Eu amo os gregos tipos de escultura;</l>
          <l>Pagãs nuas no mármore entalhadas.</l>
          <l>Não essas produções, que a estufa escura</l>
          <l>Das modas cria, tortas e enfezadas.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quero em pleno esplendor, viço e frescura</l>
          <l>Os corpos nus; as linhas onduladas</l>
          <l>Livres: da carne exuberante e pura</l>
          <l>Todas as saliências destacadas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não quero, a Vênus opulenta e bela</l>
          <l>De luxuriantes formas, entrevê-la</l>
          <l>Da transparente túnica através;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quero vê-la, sem pejos, sem receios,</l>
          <l>Os braços nus, o dorso nu, os seios</l>
          <l>Nus... toda nua, da cabeça aos pés!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Americana</head>
        <lg>
          <l>Há nela o brio, o sangue e o ardor da raça</l>
          <l>Senhora desta pingue e vasta zona,</l>
          <l>E da região fecunda de que é dona,</l>
          <l>Pugnando sempre, os términos espaça...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando o inimigo o embate atroz rechaça</l>
          <l>Dos seus e o corno bélico ressona,</l>
          <l>Silvam flechas e a intrépida amazona</l>
          <l>Parte brandindo a formidável maça...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Vinga penhascos íngremes, outeiros,</l>
          <l>Resvaladouros e despenhadeiros,</l>
          <l>Descomposta, febril, torva e açodada,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dos cabelos a surda catadupa</l>
          <l>Derramando aos tufões; sobre a garupa</l>
          <l>De um ginete sem freio e à desfilada.</l>
        </lg>
      </div>
	  </div>
	  <div type="part">
				<head>Segunda Parte</head>
				<opener>
					<salute>A Augusto de Lima e A Randolfo Fabiano</salute>
				</opener>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O poeta</head>
		<opener>
				<salute>A Alberto de Oliveira</salute>
		</opener> 
        <lg>
          <l>Poeta! É mister que o poeta, ele, em cuja linguagem</l>
          <l>Há torrentes lustrais e bálsamos fragrantes;</l>
          <l>Ele que encanta, embora os céticos o ultrajem,</l>
          <l>As crianças, as mães, os tristes e os amantes;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ele que erra na plaga, onde, em flechas radiantes,</l>
          <l>O sol do estro a surdir purpureja a paisagem,</l>
          <l>E onde bailam cantando as estrofes cambiantes,</l>
          <l>— Aves de voz de prata e irisada plumagem;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>É mister que ele, o poeta, o cismador, o brando,</l>
          <l>Ele que ri, também ruja de quando em quando,</l>
          <l>Implacável, cruento, enraivecido, atroz!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Assim na selva em flor, esplêndida e ridente</l>
          <l>E verde e silenciosa, atroa de repente</l>
          <l>Um berro de animal carnívoro e feroz.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O povo</head>
		<opener>
				<salute>A Assis Brasil</salute>
		</opener> 
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Ele é o fulvo leão que à selva primitiva</l>
          <l aoidos:meter="12">O eco virgem, sopito, estrugindo abalava,</l>
          <l aoidos:meter="12">De um sanguinoso abutre a rubra garra viva,</l>
          <l aoidos:meter="12">Traidora transformou essa cabeça altiva</l>
          <l rend="indent">Numa cabeça escrava!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Sufocaram-lhe o rude e assombroso bramido,</l>
          <l aoidos:meter="12">Cegaram-no, o baldão escarraram-lhe à face,</l>
          <l aoidos:meter="12">E ao tinir dos grilhões, inerme, contundido,</l>
          <l aoidos:meter="12">Foi na praça o chapéu de Gessner exibido</l>
          <l rend="indent">Para que ele o saudasse...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Mas pode o ínclito herói no pérfido litígio</l>
          <l aoidos:meter="12">Rotos os louros ver, e a glória exausta e finda,</l>
          <l aoidos:meter="12">E mesquinho e sem brilho apeando ao fastígio,</l>
          <l aoidos:meter="12">De todo o fausto nu, nu de todo o prestígio</l>
          <l rend="indent">Ele é herói ainda!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Tal sob o calcanhar da vitória esmagada</l>
          <l aoidos:meter="12">Ruge a brava legião, se dizima e falece;</l>
          <l aoidos:meter="12">Mas entre a ruinaria, ereta, alevantada,</l>
          <l aoidos:meter="12">E sobre a haste sem luz da bandeira rasgada</l>
          <l rend="indent">A águia de bronze vê-se.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Ele o intrépido herói, o Povo, a força extinta</l>
          <l aoidos:meter="12">Veja embora, e não veja em seu ermo horizonte</l>
          <l aoidos:meter="12">Um só astro, e no flanco os acicates sinta...</l>
          <l aoidos:meter="12">Há um fogo interior que o avigora e lhe pinta</l>
          <l rend="indent">Esse orgulho na fronte.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">A egrégia tradição de uma remota origem,</l>
          <l aoidos:meter="12">Como um gérmen de luz, nele fermenta; corre</l>
          <l aoidos:meter="12">Do tempo, em vão, sobre ele a túrbida caligem,</l>
          <l aoidos:meter="12">Vergasta-o, sangra-o em vão do déspota a vertigem;</l>
          <l rend="indent">Esse gérmen não morre;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">E em contínuo avultar, no fundo subterrâneo,</l>
          <l aoidos:meter="12">Onde a cerviz lhe oprime a garra vulturina,</l>
          <l aoidos:meter="12">Fuzila um dia enfim, como um raio instantâneo,</l>
          <l aoidos:meter="12">Como a sábia noção paradoxal, que o crânio</l>
          <l rend="indent">Dos <choice><orig>Newtons</orig><seg type="apo">Níltons</seg></choice> ilumina.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Como dantes, o leão a sacudir a juba</l>
          <l aoidos:meter="12">Brame!... Enquanto na orgia o sólio se corrompe,</l>
          <l aoidos:meter="12">Sob as asas o abutre, inconsciente incuba</l>
          <l aoidos:meter="12">O óvulo da águia audaz, que os reis fere e derruba</l>
          <l rend="indent">Quando o óvulo se rompe.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">Ao trono a rebelião ergue os adustos braços,</l>
          <l aoidos:meter="12">Quebram-se as pompas vis, podres, estultas, fátuas;</l>
          <l aoidos:meter="12">E aos bélicos trovões, dos Cômodos devassos,</l>
          <l aoidos:meter="12">Faz-se em trapos o manto, e o diadema em pedaços,</l>
          <l rend="indent">Decepam-se as estátuas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">E alta, sobre o destroço, a águia da liberdade,</l>
          <l aoidos:meter="12">Gira, pairando no ar, e no amplo azul imerge...</l>
          <l aoidos:meter="12">Eis o esplêndido e infindo alvo a que a humanidade</l>
          <l aoidos:meter="12">Como a um grande e fatal centro de gravidade,</l>
          <l rend="indent">Há séculos converge...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O castelo feudal</head>
		<opener>
				<salute>A Valentim Magalhães</salute>
		</opener> 
        <lg>
          <l>Na soidão que te cerca e te domina,</l>
          <l>Que Deus, esfinge, incógnito, veneras?</l>
          <l>Vetusto grupo de árvores se inclina</l>
          <l>Perante as tuas cúpulas austeras...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não mais, no albor da chama matutina,</l>
          <l>Nas arcadas sem luz, sem primaveras,</l>
          <l>Ouve-se hoje a risada cristalina</l>
          <l>De castelã fidalga de outras eras...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Não mais soa o clamor da voz humana</l>
          <l>No teu gótico pátio, e a durindana,</l>
          <l>Não mais a empunha a mão do herói cruzado!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Comprime-te o silêncio, e, hórrida, medra</l>
          <l>Tua ruína, ó Crônica de pedra,</l>
          <l>Imensamente triste do passado.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Ressoai, sem cessar, tubas do pensamento!]</head>
		<head type="tradução">(V. Hugo)</head>
		<opener>
				<salute>A Pereira da Costa</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Ressoai, sem cessar, tubas do pensamento!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando à frente do povo, heroico e suarento,</l>
          <l>Josué, respirando a cólera no olhar,</l>
          <l>Em torno da Cidade a tuba fez soar.</l>
          <l>Logo à primeira vez o rei sorriu um pouco,</l>
          <l>A segunda, inda a rir, disse ao profeta: “Louco!</l>
          <l>Assim é que abater meu reino, acaso, crês?...”</l>
          <l>Quando os muros Josué pela terceira vez</l>
          <l>Rodeou, na arca, onde ia o anjo de asas nevadas</l>
          <l>As crianças até arrojaram pedradas...</l>
          <l>Na quarta vez, inteira, a brutal multidão</l>
          <l>Insultar e ofender veio os filhos de Adão,</l>
          <l>E entre as ameias vis e tisnadas, fiando</l>
          <l>Nas rocas, vieram logo as mulheres em bando</l>
          <l>Apedrejar também a tribo dos Hebreus.</l>
          <l>E pela quinta vez o batalhão de Deus</l>
          <l>Os muros rodeou da Cidade, e surgiram</l>
          <l>Coxos, cegos até, e apodos lhe cuspiram.</l>
          <l>Na sexta vez, então, na torre principal</l>
          <l>Alta e maciça onde a águia arfava, e o temporal</l>
          <l>Sem conseguir mover o granito, rugia,</l>
          <l>Apareceu por fim o rei que inda sorria,</l>
          <l>E disse: “Estes Hebreus são uns músicos bons!”</l>
          <l>A esse dito do rei, mil explosivos sons</l>
          <l>De risadas de mofa estrondaram no espaço;</l>
          <l>Eram párias senis, mães com filhos no braço</l>
          <l>Decrépitos anciãos, sacerdotes da lei,</l>
          <l>Homens de fina estirpe e homens de baixa grei</l>
          <l part="I" aoidos:link="y">Tudo a rir!...</l>
		  <l part="F" aoidos:link="n">A cidade os Hebreus rodearam</l>
          <l>Pela sétima vez, e as muralhas tombaram!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A locomotiva</head>
		<opener>
				<salute>A Gaspar da Silva</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Da penedia o dorso se espedaça,</l>
          <l>Acelera-se o rio espavorido,</l>
          <l>Abrem o seio escuro bipartido</l>
          <l>A selva e o monte; o trem de ferro passa...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sibila e corre a máquina; esvoaça</l>
          <l>Dos pássaros o bando foragido;</l>
          <l>Bufa o monstro e do bojo enegrecido</l>
          <l>Golfa rolos de túrbida fumaça...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Rijo, forte e veloz; é uma Ideia</l>
          <l>Condensada em metal, em ferro espesso;</l>
          <l>Não recua, não cai, não titubeia;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E voa, e rasga o luminoso ingresso,</l>
          <l>O ramo arterial, a grossa veia</l>
          <l>Por onde corre o sangue do Progresso.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Um soneto de Burguer</head>
		<opener>
				<salute>A Alcides Lima</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Quando ergo a vista ao sol, de espessa nódoa escura</l>
          <l>Cobrem-na ma ofuscando os raios que ele vibra —</l>
          <l>Isto é porque eu não sou essa águia que na altura,</l>
          <l>Impávida, estendendo as asas, se equilibra.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A glória é sol e o gênio é águia; ele somente</l>
          <l>Pode a vista embeber, sem que a luz embriague-a,</l>
          <l>Sem que a cegue o esplendor, na glória refulgente,</l>
          <l>Pois para o sol fitar é preciso ser águia.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A ilha e o mar</head>
		<opener>
				<salute>A Júlio de Castilhos</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Nas solidões do oceano ergue-se às vezes uma</l>
          <l>Ilha isolada, como um dorso de baleia,</l>
          <l>Onde a vaga, bramindo, a branca flor da espuma</l>
          <l>Desfolha a rebentar na reluzente areia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Na estéril quietação do pélago no centro</l>
          <l>Orgulhosa, embalada ao marítimo salmo,</l>
          <l>A ilha dorme... e a ferver, rasga por ela a dentro</l>
          <l>O oceano a conquistar-lhe a terra palmo a palmo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Estoura-lhe na face o vagalhão frequente,</l>
          <l>A areia diluindo e derrocando as fráguas,</l>
          <l>E some-se por fim ela completamente</l>
          <l>Sob o frio envoltório intérmino das águas...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tal do seio do povo altivo se levanta</l>
          <l>Gomo uma ilha maldita o trono do tirano,</l>
          <l>E, oprimido, a bramir aos poucos rói-lhe a planta</l>
          <l>O Povo a circular-lhe em torno como o oceano.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Porém um dia enfim nos horizontes, quando</l>
          <l>O globo irradiar do pensamento novo,</l>
          <l>A vaga popular tronos despedaçando</l>
          <l>Há de a tudo envolver, e tudo será Povo!</l>
        </lg>
		<closer>
			<dateline>1880.</dateline>
		</closer>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Luz e treva</head>
		<opener>
				<salute>A Augusto de Lima</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Iam do céu no trêmulo regaço</l>
          <l>Os astros em miríadas caindo,</l>
          <l>E o sol ia no pélago imergindo</l>
          <l>O sangrento perfil traço por traço...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A treva e a luz topavam-se, fundindo</l>
          <l>A noite e o dia em longo e estreito abraço;</l>
          <l>Este expirava, e aquela ia no espaço;</l>
          <l>O manto fusco e pavoroso abrindo...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Cobri de minha luz as rubras fúrias,</l>
          <l>As maldições, as guerras, as injúrias</l>
          <l>E os sanguinários dramas! — disse o dia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E a noite disse, no seu tom magoado;</l>
          <l>— Eu vou cobrir de trevas o pecado,</l>
          <l>As saturnais, o roubo, a hipocrisia!</l>
        </lg>
		<dateline>1880.</dateline>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Ao poder público</head>
		<opener>
			<dateline>(1 de janeiro de 1880)</dateline>
        </opener>
		<lg>
          <l>Tu que és da direção das massas investido,</l>
          <l>Tu que vingas o crime e que o Povo defendes,</l>
          <l>E executas a lei penal, e do bandido</l>
          <l>No topo de uma forca, o cadáver suspendes;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tu que tens o canhão, a tropa, a artilharia,</l>
          <l>Tu mesmo és quem fuzila a inerme populaça;</l>
          <l>Incurso estás também no Código e devia</l>
          <l>P’ra ti também se erguer uma forca na praça!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>André Gill</head>
		<opener>
				<salute>A Luís Murat</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Como quem se debruça à flor de um precipício</l>
          <l>Viste o mundo: a Virtude e o Brio torturados;</l>
          <l>A golilha da Igreja aspérrima; o flagício</l>
          <l>Das modas, e os herois ridicularizados...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo veio ofender-te os olhos deslumbrados.</l>
          <l>Ah! esta sociedade, este núcleo do Vício,</l>
          <l>Não é mais, André <choice><orig>Gill</orig><seg type="apo">Gil</seg></choice>, do que um imenso Hospício</l>
          <l rend="indent2">Cheio de alienados!...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l rend="indent2">Viste essa úlcera enorme,</l>
          <l>Que há de o corpo social fazer tombar disforme</l>
          <l>Como um tronco que rui podre, sem folhas, oco...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Foi teu riso um cautério atroz à sociedade,</l>
          <l>Mas a louca que odeia os Rabelais, hoje há de</l>
          <l>Rir de ti, como ri-se um louco de outro louco.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Colombo</head>
		<head type="tradução">(Schiller)</head>
        <lg>
          <l>Não te venha esmagar a mofa e a injúria imunda,</l>
          <l>Nem aos teus, nem a ti, a fadiga, o torpor;</l>
          <l>E a região que entreviste em teus sonhos, fecunda,</l>
          <l>E o clarão de outro sol, no outro hemisfério, inunda,</l>
          <l>E que buscas, verás em seu todo esplendor.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Se é acaso esse mundo ilusão, rutilante</l>
          <l>Das águas romperá, como do caos a luz...</l>
          <l>Porque em vínculo forte, insolúvel, constante.</l>
          <l>Une-se a natureza ao gênio palpitante</l>
          <l>E o que este, só, semeia, é que aquela produz.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>A cabeça de Tiradentes</head>
		<opener>
				<salute>A Joaquim Serra</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Da ideia que engendrou pendia a sorte</l>
          <l>Da pátria, a sorte a que ela, ávida anseia;</l>
          <l>Mas o músculo férreo, o punho forte</l>
          <l>Comprime-lhe do déspota a cadeia.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Sela-lhe a morte os lábios e os roxeia,</l>
          <l>E anuvia-lhe o largo e altivo porte —</l>
          <l>Morre esmagado pela grande ideia!</l>
          <l>Morre — e morrendo isenta-se da morte!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Do moribundo a mártir e divina</l>
          <l>Cabeça fulge sobre o poste imundo,</l>
          <l>Onde grasnam as aves de rapina;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Da luz sangrenta que, a morrer, derrama,</l>
          <l>Em torno, o sol — esse outro moribundo —</l>
          <l>Tece-lhe um largo resplendor de chama...</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>O tiro do Canhão</head>
		<opener>
				<salute>A Fontoura Xavier</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">O tiro do canhão demarca a propriedade</l>
          <l aoidos:meter="12">E o domínio que tem no mar cada nação;</l>
          <l aoidos:meter="12">Desenvolva-se o ardor, cresça a velocidade,</l>
          <l aoidos:meter="12">Multiplique-se o impulso ao tiro do canhão!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l aoidos:meter="12">E de um mar a outro mar, varando os ares, una</l>
          <l aoidos:meter="12">As nações, e rebente a baliza fatal!</l>
          <l aoidos:meter="12">Seu estrondo será o estrondo da Comuna,</l>
          <l aoidos:meter="12">Será a aclamação do Império universal!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>[Dizem tão mal, criança, a teu respeito!]</head>
		<head type="tradução">(Th. Gautier)</head>
        <lg>
          <l>Dizem tão mal, criança, a teu respeito!</l>
          <l>Dizem com irrisão,</l>
          <l>Que tu, no lado esquerdo de teu peito,</l>
          <l>Tens um relógio em vez de um coração.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Contudo, como um mar, teu seio ondula</l>
          <l>Tormentoso e fremente,</l>
          <l>Aos gorgolões da seiva que circula</l>
          <l>Sob essa carne nova e florescente.</l>
		</lg>
		<lg>
		  <l aoidos:fragm="y">______</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dizem também, querida,</l>
          <l>Que os teus olhos azuis não têm ardor,</l>
          <l>E movem-se nas órbitas, sem vida,</l>
          <l>Sem reflexão, maquinalmente... Ó flor!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Contudo muita lágrima iriada</l>
          <l>Baila em teus cílios — trêmulas cortinas</l>
          <l>De tua alma estrelada</l>
          <l>De sonhos alvos e visões divinas...</l>
		</lg>
		<lg>
		  <l aoidos:fragm="y">______</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dizem que são p’ra ti como o sânscrito,</l>
          <l>Pois nem os lês sequer,</l>
          <l>Os meus versos, os versos que eu recito,</l>
          <l>Rimando os teus encantos de mulher.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>E contudo nas pétalas vermelhas</l>
          <l>Da tua doce boca perfumada,</l>
          <l>Como tribo de abelhas</l>
          <l>Dos risos brinca a tribo enamorada.</l>
		</lg>
		<lg>
		  <l aoidos:fragm="y">______</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Dizem... A causa é o nosso amor, donzela;</l>
          <l>Deixa-me e então verás!</l>
          <l>Para os que te maldizem serás bela,</l>
          <l>Terás donaire e coração terás.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>?</head>
		<opener>
				<salute>A Teófilo Dias</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>No corpo, escuro ergástulo em que mora,</l>
          <l>A alma, através da transparência baça</l>
          <l>Do olhar, como através de uma vidraça,</l>
          <l rend="indent">Espia para fora....</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>A nevrose da vida em torno afeta</l>
          <l>A todo o ser, e em todo o ser perscruta</l>
          <l>Um espírito, uma alma... e até na bruta</l>
          <l>Pedra se abre uma pálpebra secreta!</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tudo o que boia ou voa ou vai de rastros,</l>
          <l>Do homem ao mineral, tudo um assomo</l>
          <l>Da causa universal pesquisa em vão...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>São uma infinda reticência os astros...</l>
          <l>E sob ela se arqueia o mundo, como</l>
          <l>Um grande ponto de interrogação!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Luís Gama</head>
		<opener>
				<salute>A Raul Pompeia</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Tantos triunfos te contando os dias,</l>
          <l>Iam-te os dias descontando e os anos,</l>
          <l>Quando bramavas, quando combatias</l>
          <l>Contra os bárbaros, contra os desumanos;</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Quando a alma brava e procelosa abrias</l>
          <l>Invergável ao pulso dos tiranos,</l>
          <l>E ígnea, como os desertos africanos</l>
          <l>Dilacerados pelas ventanias...</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,</l>
          <l>Grilhões a rebentar por toda a parte,</l>
          <l>Por toda a parte a escancarar masmorras.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra</l>
          <l>Rolou... Morreu por não poder matar-te!</l>
          <l>Tambem não tarda muito que tu morras!</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Apolônia</head>
		<head type="tradução">(Th. Gautier)</head>
        <lg>
          <l>Eco de etéreo passo em sacro solo</l>
          <l>É desse nome a prolação augusta.</l>
          <l>Sua harmonia, válida e robusta</l>
          <l>Faz que Apolônia seja irmã de Apolo.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Lembra o toar de um balata estranha,</l>
          <l>De uma balata em que haja reis e magos,</l>
          <l>E ursos disformes a imergir dos lagos</l>
          <l>Fantásticos e frios da Alemanha.</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Tem metálicos sons. Na alma desliza</l>
          <l>Melífluo e longo; e só a profetisa</l>
          <l>De Delfos na áurea trípode luzente,</l>
        </lg>
        <lg>
          <l>Ela só, a fatídica e sombria</l>
          <l>Profetisa, só ela poderia</l>
          <l>Apolônia chamar-se dignamente.</l>
        </lg>
      </div>
      <div aoidos:unit="y">
        <head>Os dois espectros</head>
		<opener>
				<salute>A César A. Ribeiro</salute>
		</opener>
        <lg>
          <l>Enquanto do Futuro o archote incendiário</l>
          <l>Não vem incinerar os báculos e os cetros,</l>
          <l>E repelir não vem do lôbrego cenário</l>
          <l>Trono e Igreja — estes dois pavorosos espectros;</l>
          <l>Enquanto, em chusma, os reis e os padres foragidos,</l>
          <l rend="indent2">Trôpegos, tontos, cegos,</l>
          <l rend="indent2">Não vão em debandada,</l>
          <l rend="indent2">Pela Raiva mordidos,</l>
          <l>Surdos pelo clamor da multidão odienta,</l>
          <l>Como uma nuvem grossa e densa de morcegos:</l>
          <l rend="indent2">Que o clarão da alvorada</l>
          <l rend="indent2">Embebeda e afugenta;</l>
          <l>E enquanto não puder, já sem nódoas e limpo</l>
          <l>Dos mitos e ficções do Velho Preconceito,</l>
          <l rend="indent2">Resplandecer o Olimpo:</l>
          <l rend="indent2">Estás no teu direito,</l>
          <l>Ó Fanatismo! E estás no teu direito, ó Trono!</l>
          <l>E, ambos, continuai o férreo jugo a impor</l>
          <l>Sobre esta humilde grei, de que um de vós é dono,</l>
          <l rend="indent2">E de que o outro é pastor!</l>
          <l>O <hi rend="italic">dies irae</hi> ainda está muito distante!</l>
          <l>E enquanto ele não chega, esse rubro, espantoso</l>
          <l rend="indent2">E formidável Dia,</l>
          <l>A raça escrava oscula a roldana infamante.</l>
          <l>E, Padre, a iludes tu e, Rei, tu a espedaças!</l>
          <l>Mas sempre hão de atroar vos turbando o repouso</l>
          <l>E agitando-vos na alma a onda da cobardia,</l>
          <l>As vociferações cruéis e os brados rudes</l>
          <l rend="indent2">E blasfemos das raças,</l>
          <l>Que espedaças, ó Rei! e que tu, Padre, iludes!</l>
          <l rend="indent2">Trono! Ouve tu, primeiro!</l>
          <l>Escuta, que é a voz da Justiça que escutas!</l>
          <l>Esse edifício além, aos outros sobranceiro,</l>
          <l>Cheio de capitéis, de frisos e arabescos,</l>
          <l>É teu palácio, ó Rei, o palco onde executas</l>
          <l>Entremezes brutais e sardanapalescos.</l>
          <l>A Lei, a sempre reta, a sempre inexorável,</l>
          <l rend="indent2">A todos olivela!</l>
          <l>Mas quando foi que a Lei a ti se referiu?</l>
          <l rend="indent2">Ó déspota execrável!</l>
          <l>A ti, que estás tão fora e tão por cima dela?!</l>
          <l>A ti, que és das nações, o látego, o vexame.</l>
          <l rend="indent2">O escárnio, o desafio!?</l>
          <l rend="indent2">A ti, régio truão?!</l>
          <l rend="indent2">Que és de todo o ditame,</l>
          <l>Que és de todo o princípio, e que és de toda a regra.</l>
          <l rend="indent2">A mais feia, a mais negra,</l>
          <l rend="indent2">A mais torpe exceção?!</l>
          <l>O Ilota por que existe? É só para beijar-te</l>
          <l>O manto e obedecer-te ao gesto! Nesta parte,</l>
          <l>Aristóteles foi quem teve mais razão!</l>
          <l>E é por causa das Leis que os calabouços rangem,</l>
          <l>E erguem-se com pavor patíbulos sangrentos,</l>
          <l>E contra a raça vil tu invencível arcas!</l>
          <l rend="indent2">Mas as Leis não abrangem,</l>
          <l rend="indent2">E delas são isentos</l>
          <l rend="indent2">Os bichos e os monarcas!</l>
          <l>Nunca trepides, Rei! degola, decapita</l>
          <l>E esfacela sem dó, sem pejo, sem abalo</l>
          <l>A canalha que a tua indignação excita,</l>
          <l>Sobre a qual trotas como em cima dum cavalo</l>
          <l>E a qual, inda por baixo, as purpuras te beija!</l>
          <l rend="indent2">Agora tu, Igreja!</l>
          <l>Tu tens sempre o supremo império sobre as cousas,</l>
          <l>Tens o anátema, tens a bênção, tens a bula,</l>
          <l>E sabes levantar dos túmulos as lousas</l>
          <l>Quando teu lábio o <choice><orig><hi rend="italic">Surge et ambula</hi></orig><seg type="apo">Surgue ete ambula</seg></choice> articula.</l>
          <l><hi rend="italic">Nollite possidere</hi>! Eis o proverbio exato,</l>
          <l>Como a Vulgata santa e bíblica refere,</l>
          <l>Mas todo este esplendor e todo este aparato</l>
          <l>Traduzem bem o tal <hi rend="italic">nollite possidere</hi>!</l>
          <l>Sancionas a união monógama, mas isto</l>
          <l>Que tenhas um milhão de esposas não te impede,</l>
          <l>O mancebo infeliz de Nazaré, o Cristo</l>
          <l rend="indent2">Tu interpretas bem!</l>
          <l>Que importa se não és da caridade a sede,</l>
          <l rend="indent2">Mas de um Grão turco o harém?!</l>
          <l rend="indent2">Teu gesto milagroso</l>
          <l>Aos cegos restitui a vista e a voz aos mudos,</l>
          <l>E ao réprobo até pode escancarar o céu! —</l>
          <l>Do verde laranjal frutífero do gozo</l>
          <l rend="indent2">O melhor pomo é teu!</l>
          <l>Nossos, serão somente os corrompidos pomos,</l>
          <l rend="indent2">E por sermos quem somos,</l>
          <l rend="indent2">E serdes vós quem sois,</l>
          <l>Não perturbemos nós, com latidos agudos,</l>
          <l rend="indent2">E incômodos esgares,</l>
          <l>Nós, famintos párias, nós, míseros mastins,</l>
          <l>A lenta digestão dos cônegos pançudos,</l>
          <l rend="indent2">Que ressonam depois</l>
          <l>(É muito natural) de opíparos jantares,</l>
          <l rend="indent2">E esplêndidos festins.</l>
          <l>Se, ao peso da opressão e da miséria escura,</l>
          <l>Soluça alguém, enquanto ele soluça, ris —</l>
          <l>E esse teu riso aterra os mais... Se porventura</l>
          <l>Rissem, seria assim o riso dos reptis.</l>
          <l>Impões-te às massas como o Sol dos redivivos —</l>
          <l>E és na verdade um sol, tanto que até tens laivos,</l>
          <l>Mas, Igreja, perdão! Altar e Trono, uni-vos!</l>
          <l rend="indent2">Padre e Rei, abraçai-vos!</l>
          <l>Enquanto nos roubais, vos entoamos hinos!</l>
          <l>Vitualhas e bens todos, são todos vossos!</l>
          <l>Fartai-vos, esbanjai, calcai-nos, iludi-nos!</l>
          <l rend="indent2">E deixai-nos os ossos;</l>
          <l>Fundi-vos que fundis o instinto da raposa</l>
          <l>Ao da besta feroz, carnívora, que brama</l>
          <l rend="indent2">Na furna tenebrosa!</l>
          <l>Tenebrosa fusão! horrível amalgama!</l>
          <l>Panteras que em conúbio atroz o crime alia!</l>
          <l>Igreja e Rei! Sofisma e Opressão! Cruz e Espada!</l>
          <l>Não tem limites, Rei, a tua autonomia!</l>
          <l>São vastos teus haréns — polígama sagrada!</l>
        </lg>
      </div>
      </div>
 	</body> </text>
</TEI>
