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	<teiHeader>
		<fileDesc>
			<titleStmt>
				<title>Heloísa; episódio histórico</title>
				<author>José Mariano de Oliveira</author>
				<respStmt>
					<resp>Codificado por</resp>
					<name xml:id="AM">Alckmar Luiz dos Santos</name>
				</respStmt>
			</titleStmt>
			<publicationStmt>
				<p>Please see https://www.tei-c.org/release/doc/tei-p5-doc/en/html/ref-publicationStmt.html.</p>
			</publicationStmt>
			<sourceDesc>
				<bibl>
					<title>Heloísa; episódio histórico</title> de José Mariano de Oliveira. Rio de Janeiro: Tipografia Henrique M. Sondermann, 1940.
           </bibl>
			</sourceDesc>
		</fileDesc>
		<profileDesc>
			<textClass>
				<classCode scheme="">poetry</classCode>
			</textClass>
		</profileDesc>
	</teiHeader>
	<text xml:lang="pt" aoidos:poet="José Mariano de Oliveira">
		<front>
				<epigraph>
					<cit>
						<quote>
							<lg>
								<l>Donna, se’ tanto grande, e tanto vali,</l>
								<l>Che qual vuol grazia, e a te non ricorre,</l>
								<l>Sua disianza vuol volar senz’ali.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>La tua benignità non pur socorre</l>
								<l>A chi dimanda, ma molte fiate</l>
								<l>Liberamente al dimandar precorre.</l>
							</lg>
							<lg>
								<l>In te misericordia, in te pietate,</l>
								<l>In te magnificenza, in te s’aduna</l>
								<l>Quantunque in creatura è di bontate.</l>
							</lg>
						</quote>
						<bibl>Dante, Il Paradizo</bibl>
					</cit>
				</epigraph>
		</front>
		<body>
				<head>Heloísa</head>
				<head type="sub">Episódio histórico</head>
				<div n="I" type="Act">
				<head>Ato primeiro</head>
				<div n="1" type="Scene">
				<head>Cena I</head>
			<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Pois que quereis saber quais os perigos,</l>
					<l>Quais as tramas urdidas cada dia</l>
					<l>Contra a minha existência, a alma disponde</l>
					<l>A me ouvir, Berenger... Vereis surpreso,</l>
					<l>De meus vis inimigos</l>
					<l><choice><orig>Todas as perseguições</orig><seg type="crase">Todas perseguições</seg></choice> e tirania.</l>
					<l>Vereis... vereis té onde</l>
					<l>Pode pelo ciúme</l>
					<l aoidos:meter="10">Ser contra nós o ódio injusto aceso.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>De que modo por nós será julgado</l>
					<l>Quem a guerra vos move, des que o lume</l>
					<l>De vosso verbo nos tiver mostrado</l>
					<l aoidos:link="Y">Seus nefandos embustes?...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Quanto é duro</l>
					<l>Recordar de uma idade agora finda</l>
					<l>A ventura perdida!... Eu provo ainda</l>
					<l>Dentro do coração essa saudade,</l>
					<l aoidos:meter="6">Tormento acerbo e escuro</l>
					<l>Que deixa nele a morta <choice><orig>felicidade</orig><seg type="síncope"></seg></choice>.</l>
					<l>Como sabeis, a minha adolescência</l>
					<l>Foi cercada dessa aura poucas vezes</l>
					<l aoidos:meter="10">Aos mortais concedida. A este sucesso,</l>
					<l>Vindo quase do berço, eu devi logo</l>
					<l>Os mais duros reveses.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l aoidos:meter="10">Que hão cercado até aqui vossa existência.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Tive de suportar desde o começo</l>
					<l>Essa guerra de fogo</l>
					<l aoidos:meter="10">Que os Mestres mesmo a um tempo, e condiscípulos</l>
					<l>Perfidamente e juntos me moviam;</l>
					<l aoidos:meter="10"><choice><orig>Champeaux</orig><seg type="apo">Champô</seg></choice> primeiro e Anselmo após, deviam</l>
					<l aoidos:meter="10">Dar início a essa luta, e seus discípulos</l>
					<l>Seus golpes repetiam.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Luta tremenda! Imorredoura glória</l>
					<l>Que conquistastes nela, e inda vos resta</l>
					<l aoidos:link="Y">Para assombro dos pósteros!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>A data</l>
					<l aoidos:meter="10">Dessas lutas é a mesma que há marcado</l>
					<l>Meu maior infortúnio. Na memória</l>
					<l aoidos:meter="10">Todos guardam ainda o amor veemente,</l>
					<l>A paixão insensata</l>
					<l>Que na minh'alma arrebatada e ardente</l>
					<l aoidos:link="Y">Provei por Heloísa.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Recordando-a</l>
					<l aoidos:meter="10">Eu receio de ver reabrir-se a chaga</l>
					<l>De vossa dor. Comigo... já comigo</l>
					<l>Os vossos outros filhos, escutando-a</l>
					<l>O infortúnio do Mestre têm chorado.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>A lembrança do mal nunca se apaga.</l>
					<l>Leva o Tempo consigo</l>
					<l>As cousas as mais caras;</l>
					<l>Todo o bem se submerge no Passado;</l>
					<l>Somente a dor nos fica, a dor somente.</l>
					<l>Eu vos direi apenas largamente,</l>
					<l>Mas em frases bem claras,</l>
					<l aoidos:meter="6">Essa história angustiosa</l>
					<l>Da qual a minha narração precisa.</l>
					<l aoidos:meter="10">Sabeis como abusando da confiança</l>
					<l aoidos:meter="10">Do rico e velho preceptor de Heloísa,</l>
					<l>Fiz desta a minha vítima. O seu teto</l>
					<l aoidos:meter="10">Que me viu como hóspede, devia</l>
					<l>Guardar de mim a mais fatal lembrança.</l>
					<l>No estudo feito, juntos cada dia,</l>
					<l>Recolhido e secreto,</l>
					<l>Mais que de <choice><orig>filosofia</orig><seg type="síncope">f'losofia</seg></choice></l>
					<l>Nos dávamos lições de terno afeto;</l>
					<l>Mais beijos do que máximas havia.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Era isso natural na vossa idade.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Não devia durar eternamente</l>
					<l>A nossa criminosa <choice><orig>felicidade</orig><seg type="síncope">f'licidade</seg></choice>.</l>
					<l>Bem depressa Heloísa traz patente</l>
					<l>O sinal dessa falta. Então se irrita</l>
					<l>Do preceptor o orgulho. Ele procura</l>
					<l aoidos:meter="10">Sua honra vingar bem cruelmente.</l>
					<l>Desgarrada do Inferno, a alma lhe agita</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">A vingança feroz.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Violenta e dura!</l>
					<l>Não revivais, porém, de tal desdita</l>
					<l aoidos:link="Y">A sinistra lembrança.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Conhecido</l>
					<l aoidos:meter="10">De todos nosso erro, imaginamos</l>
					<l aoidos:meter="10">Logo, Heloísa e eu, de ocultamente</l>
					<l>Buscar n'algum lugar desconhecido</l>
					<l>Um refúgio à vergonha. E abandonamos,</l>
					<l>Fugindo, o velho lar de seu parente.</l>
					<l>E indo para a Bretanha. Então movido</l>
					<l aoidos:meter="10">Pelo duro remorso, enquanto Heloísa</l>
					<l>Dava à luz o que tinha no seu seio,</l>
					<l>Eu tornei junto àquele, e procurei-o,</l>
					<l>Pois dar-lhe, resolvera,</l>
					<l>Toda e qualquer reparação precisa.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Quanto foi desastrada</l>
					<l>Essa ideia, Senhor, de que devera</l>
					<l aoidos:link="Y">Partir vossa desgraça!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Malfadada</l>
					<l aoidos:meter="10">E bem triste que foi!... Não se ignora</l>
					<l>Qual a reparação por nós firmada:</l>
					<l>Volveria Heloísa ao lar ficando</l>
					<l>De ligar-nos a Igreja sem demora</l>
					<l>Por secreta união. Assim podia</l>
					<l>Reparar o meu erro, conservando</l>
					<l aoidos:link="Y">Minha reputação.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Ela impedia</l>
					<l>De dar ao mesmo tempo igual cuidado</l>
					<l>A uma Mulher e à sã filosofia.</l>
					<l>Como podem mover-se lado a lado</l>
					<l aoidos:meter="10">A razão que medita e o amor paterno</l>
					<l aoidos:meter="10">Preocupado dos filhos? Nesse inferno</l>
					<l>Chamado lar doméstico, é possível</l>
					<l>Que um filósofo pense, que ele tente</l>
					<l aoidos:link="Y">Paginar os seus livros?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Não é crível</l>
					<l>Tal acordo, eu sei bem. Foi só por isso</l>
					<l>Que nós, secretamente</l>
					<l aoidos:meter="10">Fizemos nossa união. Quem não zombara</l>
					<l>De mim, se se me visse de repente</l>
					<l>Deixar o estudo para andar submisso</l>
					<l>Atrás da prole numerosa e cara?...</l>
					<l aoidos:meter="10">Uma vez realizado o oculto enlace</l>
					<l>Eu levei Heloísa e fui deixá-la</l>
					<l>Numa antiga abadia. Ali chegada</l>
					<l>Fi-la com que tomasse</l>
					<l>Os hábitos da Ordem. Sua entrada</l>
					<l>Provindo só de divulgar-se aquele</l>
					<l>Por intriga de gente interessada,</l>
					<l>O velho preceptor de novo abala;</l>
					<l>Mas quem tudo movia era só ele.</l>
					<l>Ele finge irritar-se e em fúria acesa,</l>
					<l>Cheio de imprecações e acompanhado</l>
					<l>De sequazes infames, de surpresa</l>
					<l aoidos:meter="10">Prendem-me um dia, e tendo amordaçado</l>
					<l>A minha boca, logo</l>
					<l aoidos:link="Y">Minhas carnes mutilam...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Eu vos rogo</l>
					<l>Mestre, poupai-me o coração, calando</l>
					<l>Esse vosso infortúnio. Inda o escutando</l>
					<l aoidos:meter="10">Atravessa-me a dor sua garra adunca.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Diz o Deuteronômio: — “O eunuco nunca</l>
					<l aoidos:fix="10">“Na assembleia do Eterno terá entrada;”</l>
					<l>Era assim que da Igreja repelido</l>
					<l>Ia eu ser desde então, bem como ainda</l>
					<l>Da afeição das mulheres. Sim, trancada</l>
					<l>Via as portas do céu, de mim perdido,</l>
					<l aoidos:link="Y">Como as portas do Amor.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Angústia infinda!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Confuso então, do estado <choice><orig>meu ocorrido</orig><seg type="reduçãovocálicacrase">meucorrido</seg></choice></l>
					<l>Pedi refúgio ao claustro, enquanto aquela</l>
					<l>Que por mim se perdera, professava</l>
					<l>De <choice><orig>Argenteuil</orig><seg type="apo">Argentéu</seg></choice> na abadia. Ela acusava,</l>
					<l>Não a mim, mas a si, que, aos olhos dela,</l>
					<l>Dela provinha só meu triste dano.</l>
					<l>“Caro Esposo, dizia, que destino</l>
					<l>“Lançou-me nos teus braços se eu devia</l>
					<l aoidos:link="Y">“Causar tua desdita?..."</l>
					<l>Embora indino</l>
					<l>Dela, de Deus e do convívio humano,</l>
					<l>Em breve e com mais fogo</l>
					<l>Retomei as lições que eu dar sabia.</l>
					<l>Eis que os <choice><orig>discípulos</orig><seg type="síncope">discip'los</seg></choice> aparecem logo.</l>
					<l>A afluência foi tal dos que chegavam</l>
					<l>Para ouvir minha voz, que eles ficavam</l>
					<l>Mesmo ao relento alguns, pois não se via</l>
					<l>Onde abrigá-los mais. Por isso em breve</l>
					<l>Contra mim o ciúme e a dura inveja</l>
					<l>Romperam seus furores.</l>
					<l>A guerra que sofri não se descreve,</l>
					<l>De meus vis e cruentos detratores.</l>
					<l>Fizeram-me incorrer no ódio da Igreja;</l>
					<l aoidos:meter="10">Obtiveram mesmo que um concílio</l>
					<l>Se reunisse em <choice><orig>Soissons</orig><seg type="apo">Soção</seg></choice>, onde queimados</l>
					<l>Um por um vi meus livros. Instigados</l>
					<l>Certamente, os meus duros invejosos</l>
					<l>Me houveram lapidado, se do auxílio</l>
					<l>Não temessem dos meus, mais numerosos.</l>
					<l>Perseguido por eles, acusado</l>
					<l>De impostor e de herege, novamente</l>
					<l>Fui forçado a fugir para ermo inglório;</l>
					<l>Naquele abrigo então triste e secreto,</l>
					<l>Entre os ladrões e as feras, acossado</l>
					<l>De todo olhar de gente</l>
					<l>Foi que fundei por fim este oratório</l>
					<l>Que o nome recebeu de Paracleto.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Este mesmo oratório a que viemos,</l>
					<l aoidos:meter="10">E hoje entregue a Heloísa. Ali, só seu nome</l>
					<l>Vos valeu bem cruentas amarguras.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l><choice><orig>Todas as perseguições</orig><seg type="crase">Todas perseguições</seg></choice>, mesmo as mais duras!</l>
					<l>De uma nova heresia se acusou-me,</l>
					<l>Por haver consagrado o novo teto</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">Ao Santo Espírito.</l>
					<l>Mas continuemos.</l>
					<l>Desta vez entre os outros adversários,</l>
					<l>Altivo se levanta</l>
					<l>O rival o mais forte e o mais temido,</l>
					<l>O Abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>. Sua palavra,</l>
					<l>Sempre acatada pelos seus contrários,</l>
					<l>Meus principais discípulos quebranta.</l>
					<l>Ele agride, comina, impõe-se, lavra;</l>
					<l>Faz-me errar novamente foragido</l>
					<l aoidos:link="Y">Pelos mais ínvios trilhos.</l>
					<l>Quantas vezes</l>
					<l>Não pensei na minh'alma em retirar-me</l>
					<l>Do país de cristãos, e entre gentios,</l>
					<l>Entre lobos até, lobos monteses,</l>
					<l>Ver um refúgio!... Os animais bravios</l>
					<l>São mais brandos que as almas inclementes</l>
					<l aoidos:link="Y">Dos meus perseguidores.</l>
					<l>Na Bretanha</l>
					<l>Vagara nessa época a abadia</l>
					<l>De <choice><orig>S.</orig><seg type="ext">São</seg></choice> Gildás. E ali junto de gente</l>
					<l>Sem moral, sem costumes, gente estranha,</l>
					<l>Gente vil e selvagem, eu descia</l>
					<l>A monges dirigir tão repelentes</l>
					<l>Como esse povo o era. Oh! Parecia</l>
					<l>Que o céu dava requintes ao suplício</l>
					<l aoidos:link="Y">Para punir minh'alma.</l>
					<l>Era bem justa</l>
					<l>A minha punição, pois que eu deixara,</l>
					<l>Eu próprio, o Paracleto, e me lançara,</l>
					<l>Para escapar às rudes ameaças,</l>
					<l>Naquele precipício.</l>
					<l>Quis porém do Senhor a graça augusta,</l>
					<l>Que no meio da dor e das desgraças</l>
					<l>Um consolo eu tivesse. Eu vi confiado</l>
					<l aoidos:meter="10">Finalmente a Heloísa este oratório</l>
					<l>Que eu com a Fé construíra. Desta sorte,</l>
					<l>O santo Paracleto está guardado</l>
					<l>Contra o rude abandono. E quando a morte</l>
					<l>Houver feito cair meu ser inglório,</l>
					<l>Queira a Santa Clemência, a Graça Pura,</l>
					<l>Por mercê mais subida,</l>
					<l aoidos:fix="10">Que o <choice><orig>corpo meu</orig><seg type="gralha">meu corpo</seg></choice> aí seja sepultado.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Ai! de nós, se morrerdes; mas que injusto</l>
					<l>E cruento decreto impediria</l>
					<l>Vos dessem neste abrigo sepultura,</l>
					<l>A vós, Senhor, seu Fundador augusto?</l>
					<l>Aos céus e mesmo aos homens bradaria...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Agora que vos tenho referido</l>
					<l aoidos:meter="10">Minha história, e já ouvi se anunciar-me</l>
					<l>Vir a este oratório procurar-me</l>
					<l>O abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>, eu vos convido</l>
					<l>A encontrar-nos com ele. Antes, contudo,</l>
					<l>Saiamos um momento. Que destine</l>
					<l>O abade o tempo seu a correr tudo</l>
					<l aoidos:meter="10">Quanto pertence e diz respeito à Igreja,</l>
					<l>E o regime das freiras examine.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Permiti que eu não volte. Constrangido,</l>
					<l aoidos:meter="10">Talvez só viesse a ouvir a voz da inveja</l>
					<l aoidos:meter="10">E antes nada ouvir que ficar mudo.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="2" type="Scene">
				<head>Cena II</head>
				<stage>S. Bernardo e o Abade de Cluny</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>, eis de Heloísa</l>
					<l>O modesto retiro, o Paracleto.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Como a Fé lhe reveste os sacros muros</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">De paz e santidade!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>O olhar divisa</l>
					<l aoidos:meter="10">Humildade e amor nos tetos puros,</l>
					<l aoidos:meter="10">O respeito e a oração em cada objeto.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l> Como humildes apenas</l>
					<l>E pequeninas são as homenagens</l>
					<l aoidos:meter="10">Que à piedosa Abadessa inda prestamos,</l>
					<l aoidos:link="Y">Abade de <choice><orig>Cluny</orig><seg type="apo">Cluni</seg></choice>!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Sim, bem pequenas"</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Tanta virtude quer mais vassalagens.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Mais honras que as que damos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>É da Igreja Heloísa esteio e glória.</l>
					<l>Sob a mais pura e exata disciplina</l>
					<l aoidos:meter="10">Seu rebanho conduz. Seu nome é ouvido</l>
					<l>Com respeito geral; sua memória</l>
					<l>Vai tornar-se entre os homens peregrina.</l>
					<l>Celebram seus louvores</l>
					<l aoidos:meter="10">Não só o coro humano desvalido,</l>
					<l>Mas os grandes, os sábios e os doutores.</l>
					<l>Dentre as filhas de Deus eu não destaco</l>
					<l>Outra de mais subidas qualidades,</l>
					<l>De mais altas virtudes.</l>
					<l>Os seus superiores</l>
					<l>A honram como filha; dos abades</l>
					<l>É tratada de irmã; do humilde e o fraco</l>
					<l>Ela é chamada Mãe. Ante ela cala</l>
					<l aoidos:link="Y">Quanto há de baixo e vil.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Oh! são bem rudes</l>
					<l>Nossos louvores, sim, para saudá-la.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Ei-la porém que chega e nos divisa.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="3" type="Scene">
				<head>Cena III</head>
				<stage>Os mesmos e Heloísa</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Salve a nobre Heloísa,</l>
					<l>Do Paracleto luz, madre e Abadessa;</l>
					<l>Que ora lhe apraza de acolher benigna</l>
					<l aoidos:meter="10">As minhas homenagens e a humildade</l>
					<l aoidos:link="Y">Do abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>De ambos indigna</l>
					<l>Deixai porém que a ambos agradeça.</l>
					<l>Saúdo o santo Abade,</l>
					<l>E a vós, grande nas graças e no estudo,</l>
					<l>Abade de <choice><orig>Cluny</orig><seg type="apo">Cluní</seg></choice>, também saúdo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Foi a sagrada Fama</l>
					<l>Que diz de vós tão altas maravilhas,</l>
					<l>Que aqui nos trouxe. Em vós encontra a Igreja</l>
					<l>Sincero amparo, em vós e em vossas Filhas.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Miseráveis de nós!... Humildes servas</l>
					<l>De Deus, pudesse o amor que nos inflama</l>
					<l>Nunca ter do Senhor a indiferença.</l>
					<l>Que nossa glória seja</l>
					<l>Amá-lo sem medida, e sem reservas!</l>
					<l>Eis todo o prêmio que nossa alma pede.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>De um vero amor a grata recompensa</l>
					<l>Está no próprio objeto. O Amor excede</l>
					<l aoidos:meter="10">Todos os dons, quer sejam dons da ciência,</l>
					<l aoidos:meter="10">Quer do poder. Tem sempre ele a excelência.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Mas são muitos seus graus.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Um só conheço;</l>
					<l>É o Amor pelo Amor, amor sem preço.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Perdoai! Mas de fato há graus diversos</l>
					<l>No amor, Senhora. O verdadeiro afeto,</l>
					<l>Como dizeis, é um só; mas raro existe</l>
					<l>E somente acha em Deus seu caro objeto.</l>
					<l>Só este amor é puro; o amor humano</l>
					<l aoidos:meter="10">É sempre baixo, egoísta e leviano.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Perdão, meu Pai, perdão se contrario</l>
					<l aoidos:meter="10">Vossa palavra; mas se o amor consiste</l>
					<l>Em dar-se inteiro a outrem, certamente</l>
					<l>Egoísmo não tem. É nobre e é pio.</l>
					<l>Se acaso ele procura</l>
					<l>Amar só por amar, grande é de altura.</l>
					<l>Por baixeza não peca. E, finalmente,</l>
					<l aoidos:meter="10">Pois que todo o Amor põe seu esmero</l>
					<l>Em desejar o bem, mal não se gasta,</l>
					<l aoidos:meter="10">Leviandade não mostra. Ele ama e basta.</l>
					<l>Se agora, porventura,</l>
					<l aoidos:meter="10">Esse a quem ele ama o não merece,</l>
					<l aoidos:meter="10">Se é um coração grosseiro e degradado,</l>
					<l>O erro que se oferece</l>
					<l aoidos:meter="10">Não é do adorador, mas do que é amado.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Como é que pode amar-se com pureza</l>
					<l aoidos:meter="10">Se não se ama em Deus? E de que modo</l>
					<l>Pode-se em Deus amar, sem que se o ame,</l>
					<l>Sem que por ele o coração se inflame?</l>
					<l>Deus é todo o amor, nosso ideal todo;</l>
					<l>É quem só nos exalta e dá nobreza;</l>
					<l>Sem sua luz a própria cousa santa</l>
					<l>Padece e sofre dano.</l>
					<l>O egoísmo, sem Deus, tudo quebranta.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Perdoai-me, Senhor; no amor humano</l>
					<l aoidos:meter="10">Ama-se quem é mortal, quem não tem nada,</l>
					<l>Quem de tudo precisa. A alma do amante</l>
					<l>Não pode ser por cálculo levada.</l>
					<l>O seu amor é um dom, mais que uma prece;</l>
					<l>Mas o Amor de Deus não é semelhante:</l>
					<l>Ele é quem dá, pois nós... nós nada temos;</l>
					<l>Tudo possui, de nada ele carece,</l>
					<l>Nada lhe falta; assim desde esse instante,</l>
					<l>Pois mais terno o amor com que o adoremos,</l>
					<l>Não um dom, porém súplica parece.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l aoidos:meter="10">Amar a Deus é achar-se desprendida</l>
					<l>A alma da carne, e entrar sua substância</l>
					<l>Na vontade daquele. Isto é na vida</l>
					<l aoidos:meter="10">Raro porém. Quem faz sua culminância</l>
					<l>É o próprio Deus, pois refleti, Senhora,</l>
					<l aoidos:link="Y">Todo ideal da Terra é vil...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Embora,</l>
					<l>Pareça rude, se ele ergueu nossa alma</l>
					<l aoidos:meter="10">Certamente que é nobre. Ao ideal divino,</l>
					<l>Meu Pai, nada é preciso, nada o exalta</l>
					<l aoidos:meter="10">Porque tudo ele tem. Mas o que é impuro</l>
					<l>Saber tornar-nos puro; o que era indino</l>
					<l>Digno alfim nos fazer, isto é virtude</l>
					<l>E uma afeição por ele é também alta.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Mereça embora muito: é sempre rude.</l>
					<l>A carne, a vaza humana, só consiste</l>
					<l>Na luxúria, na vil concupiscência.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>O amor, deixai que o lembre, n'alma existe</l>
					<l>E não na carne. Acaso</l>
					<l>Deixa de ser perfume um dia a essência</l>
					<l>Por ser mesquinho ou ser corrupto o vaso?</l>
					<l>Amar, vós o sabeis, é ter desejo</l>
					<l>De outrem servir; é procurar cercá-lo</l>
					<l>De contínuos cuidados. Ver o ensejo</l>
					<l>Cada instante, de dar-lhe o seu carinho</l>
					<l>Cada hora de agradá-lo.</l>
					<l>Estar com ele apesar de estar sozinho;</l>
					<l>Existir, mas por ele unicamente,</l>
					<l>E por ele ser bom. Se ele é obscuro</l>
					<l>Fazê-lo conhecido; se é mesquinho</l>
					<l>Torná-lo grande. É tê-lo só presente</l>
					<l aoidos:link="Y">E nunca a si...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Jamais amor tão puro</l>
					<l>Encontrareis na Terra, onde consiste</l>
					<l aoidos:link="Y">Só de paixões...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Na terra é que ele existe.</l>
					<l>Oh! deixai-me dizê-lo. A leviandade</l>
					<l>Não me arma contra vossa autoridade.</l>
					<l>Eu respeito-vos muito; o que vos digo</l>
					<l>É pedindo conselho, e se prossigo</l>
					<l>É para ouvir-vos que meu lábio insiste.</l>
					<l aoidos:meter="10">Mas vede o amor de Mãe: ela ama o filho,</l>
					<l>Disforme às vezes, pequenino, exânime,</l>
					<l>Que inda nem a conhece.</l>
					<l aoidos:meter="10">Vela sobre esse ente pusilânime</l>
					<l aoidos:meter="10">Dia e noite, e não há nunca empecilho</l>
					<l aoidos:meter="10">Para impedir que o ame. É sua vontade,</l>
					<l>Seu estímulo. A própria vida esquece</l>
					<l>E aceita resignada qualquer dano</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">Se por ele é preciso...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Isto é piedade!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l aoidos:meter="10">É amor, e este amor é o amor humano.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="4" type="Scene">
				<head>Cena IV</head>
				<stage>S. Bernardo, Abade de Cluny e Abelardo</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Ah! de volta, Abelardo!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>É que aqui soube</l>
					<l>Estar o Abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>, e ainda,</l>
					<l aoidos:link="Y">Que me buscava...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>A honra então me coube</l>
					<l>De terdes vindo! Na verdade eu tenho</l>
					<l>De há muito em vos falar sincero empenho;</l>
					<l>Disseram-me, Abelardo, que afrontando</l>
					<l>A Igreja do Senhor, de insânia cego</l>
					<l>E com arrogância infinda</l>
					<l aoidos:link="Y">Combateis os seus dogmas...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Eu não nego</l>
					<l>Haver escrito, Abade. Os erros penso</l>
					<l>Apenas corrigir que há na Escritura,</l>
					<l>Erros não da doutrina</l>
					<l aoidos:meter="10">Pois que esta não peca e é sempre pura,</l>
					<l aoidos:meter="10">Porém do que a interpreta e do que a ensina.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Na verdade, Abelardo, estou suspenso</l>
					<l>De vos ouvir falar. Com que direito</l>
					<l>Com que arrojo inaudito,</l>
					<l>O que os Santos Pontífices têm dito</l>
					<l>E os Concílios têm feito</l>
					<l>Vós corrigis? Ousado orgulho o vosso,</l>
					<l>Único só, que corrigir deveis.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Então, Senhor, não posso</l>
					<l aoidos:link="Y">Analisar os livros?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Não podeis.</l>
					<l>A Fé tem os seus órgãos infalíveis</l>
					<l>Que devemos ouvir. Por Deus foi dito,</l>
					<l>Que o que escrevam na Terra seus ministros</l>
					<l>Nos céus seria escrito.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Mas, Senhor, permiti que neste extremo</l>
					<l>Eu vos lembre, que pontos há confusos,</l>
					<l>Ou que mesmo serão substituíveis</l>
					<l>Entre os santos registros.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l aoidos:meter="6">Ímpio, ímpio e blasfemo!</l>
					<l>Escravo do erro e dos mortais abusos!</l>
					<l>Deixai que a lei de Deus erga-se acima</l>
					<l>Do vosso orgulho. A santa luz eterna</l>
					<l aoidos:meter="10">Só é dada a contemplar a quem governa</l>
					<l>Seu coração e dela se aproxima.</l>
					<l>Certamente, Abelardo, andais pascendo</l>
					<l>Vosso funesto orgulho entre os humanos</l>
					<l>E, delito estupendo!...</l>
					<l>Tais erros derramando e tais enganos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Abade, em meus escritos só refuto</l>
					<l>O que fere a razão. Falo se inversos</l>
					<l>Vejo os termos da lei. No Deus Supremo</l>
					<l>Afirmo que o poder, e em graus diversos,</l>
					<l aoidos:link="Y">Só têm o Pai e o Filho...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Que é que escuto?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Digo que da Trindade o termo extremo</l>
					<l>Não provém dos dois outros como o Filho</l>
					<l aoidos:link="Y">Provém do Padre...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Horror, que até me humilho!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:meter="10">Que, como homem, Cristo não pertence</l>
					<l aoidos:link="Y">À sagrada Trindade...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Oh! basta... basta!</l>
					<l>Não prossigais: sois doido! O erro vos vence;</l>
					<l>O negro, o duro Inferno vos arrasta</l>
					<l>Abelardo! Calai que os céus protestam</l>
					<l aoidos:link="Y">Contra tão grande insânia.</l>
					<l>Igual potência</l>
					<l aoidos:meter="10">O Padre, o Filho e o Espírito, consigo</l>
					<l>Todos três manifestam;</l>
					<l aoidos:meter="10">Igual potência sim, igual sapiência</l>
					<l>E igual amor também com que nos amam.</l>
					<l aoidos:meter="10">Na substância deles, o segundo</l>
					<l>Tira a sua do Pai; tira, eu vos digo,</l>
					<l>De acordo com os Concílios que o proclamam.</l>
					<l>E da destes provém, fruto fecundo!,</l>
					<l aoidos:meter="10">A substância do último. A Trindade</l>
					<l aoidos:meter="10">Sem isto fora apenas Dualidade</l>
					<l>E era atacar-se o próprio Deus. Quem nega</l>
					<l>Como vós, Abelardo, que no Cristo</l>
					<l>Existe o mesmo Filho? Oh! vista cega</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">Porque não quereis ver!... </l>
					<l>Corrido e errado</l>
					<l>Andareis pelo Mundo sem ser visto,</l>
					<l>Visto apenas dos monstros e do Inferno...</l>
					<l>Buscai a luz do Eterno,</l>
					<l>Não persistais na treva, desgraçado!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Abade...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Ouvi, deixai que eu fale,</l>
					<l>Que contra o vil demônio dê peleja</l>
					<l>E que vossa alma abale.</l>
					<l>Quem vos faz penetrar assim na Igreja</l>
					<l>Para afrontar a Deus, e n'alma humana</l>
					<l aoidos:meter="10">Ir perturbar a Fé?... Vaidade ou inveja</l>
					<l>Ou criminoso orgulho só vos dana.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Bernardo!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Que ambição maldita</l>
					<l>Em vossa alma, Abelardo, dá combate</l>
					<l>Contra o respeito ao céu? Verme pequeno</l>
					<l>A quem o Inferno tantos erros dita</l>
					<l>E tais crimes inspira. Um único aceno</l>
					<l>Desse Deus que irritais vos destruirá</l>
					<l aoidos:meter="10">E a todo o Inferno, e Ele se entrega e expira</l>
					<l>Pelo vosso resgate...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Senhor!... </l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Dobrai-vos ante a luz divina</l>
					<l aoidos:meter="6">E implorai-lhe piedade...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<stage>(à parte)</stage>
					<l>Oh! Deus, que luta Abelardo sustenta...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<stage>(à parte)</stage>
					<l>Ei-lo vencido;</l>
					<l>Quase já não reluta;</l>
					<l>Eis Abelardo que o joelho inclina.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Homem, pelo egoísmo seu perdido,</l>
					<l aoidos:meter="10">Ao Inferno condenado; ente que cego</l>
					<l aoidos:meter="10">Se precipita ao tremendo pego</l>
					<l>Onde será de todo submergido,</l>
					<l>Triste verme da terra, eia, Abelardo</l>
					<l>Ser pequeno e mesquinho,</l>
					<l>Inda é tempo de entrar no bom caminho</l>
					<l>E há lugar junto a Deus ao que vem tardo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Perdão, Abade!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>É a Deus que vós deveis</l>
					<l>Erguer o coração rude e orgulhoso,</l>
					<l>A esse Deus que ofendeis,</l>
					<l>Que com o perdão piedoso</l>
					<l>Do escuro Inferno os tristes maus redime.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Abade, eu reconheço que os meus erros</l>
					<l>São grandes, que pequei de um grande crime;</l>
					<l>Confesso o mal que fiz, mas vós sabeis</l>
					<l>Que apenas sobre os textos,</l>
					<l aoidos:link="Y">Sobre os livros...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>São crimes tais pretextos;</l>
					<l>Quebrai... quebrai do mal todos os ferros,</l>
					<l aoidos:link="Y">Pois que estais cego ainda...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Eu vos conjuro,</l>
					<l>Perdoai-me, meu Deus. Eu me submeto,</l>
					<l>À vossa voz, Abade, e santo apelo;</l>
					<l>Negarei os meus erros de que abjuro.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Eis o sagrado objeto</l>
					<l aoidos:link="Y">De meus íntimos votos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Vede agora</l>
					<l>Quão diversa de vós, com santo zelo</l>
					<l>A Fé n'alma afervora</l>
					<l>A Abadessa fiel do Paracleto.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Agradecida, Abade! Humilde e obscura...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Ninguém mais do que vós hoje é da Igreja</l>
					<l>Lustre, esplendor e opinião segura.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Que a modéstia que em vós é tão sobeja</l>
					<l>Não proteste, Abadessa. Esta é a verdade</l>
					<l>Que de Bernardo ouvis. Porém, volvamos</l>
					<l>Para os nossos mosteiros, santo Abade.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>À serva do Senhor ambos saudamos.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="5" type="Scene">
				<head>Cena V</head>
				<head>(saem S. Bernardo e Cluny)</head>
				<stage>Heloísa e Abelardo</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Deixa que inda de novo a chama antiga</l>
					<l>Brilhe hoje, Abelardo; e porventura,</l>
					<l>Se nas cousas de Deus ora te obriga</l>
					<l>A triste confusão, falem-te ao menos</l>
					<l>Frases mais ternas, votos mais serenos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Em vão tua piedade me procura</l>
					<l>Suavizar meus tormentos. Nada alcança</l>
					<l>O piedoso cuidado. A desventura</l>
					<l>Tomou-me em suas garras a esperança</l>
					<l>E espedaçá-la deve.</l>
					<l>Ah! se destina o céu que eu morra em breve</l>
					<l>Sob os ódios e as tramas inimigas,</l>
					<l>Faze tu com que eu seja sepultado</l>
					<l aoidos:link="Y">No Paracleto...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Oh! nunca digas</l>
					<l>Tão tremenda blasfêmia. Ela traspassa</l>
					<l>Minh'alma, e faz que eu chore e me atormente.</l>
					<l>Como podes pensar em tal desgraça?</l>
					<l>Como é que tua boca tão cruelmente</l>
					<l>Pode mesmo exprimi-la? É a ti que cabe</l>
					<l>Fazer minhas exéquias. Deus bem sabe</l>
					<l>Que eu não vivera mais se perecesses,</l>
					<l aoidos:link="Y">Se viesse a perder-te.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>É só na morte</l>
					<l>Que encontrarei descanso, e a paz pedida</l>
					<l aoidos:link="Y">Aos tormentos que sofro.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Horrível sorte!</l>
					<l>O que fora de mim se tu morresses?</l>
					<l>Poderei eu pensar jamais com calma</l>
					<l>Que, morrendo, afinal me precedesses?</l>
					<l>Far-se-iam os olhos meus fonte batida</l>
					<l>Por onde eu vira ir toda minh'alma.</l>
					<l>Que me restara então nesta existência</l>
					<l>Senão o pranto e a dor? Não, Deus não queira</l>
					<l aoidos:link="Y">Jamais tal infortúnio...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Esta é a maneira</l>
					<l>Porque fulmina o céu nossa luxúria</l>
					<l>E nossa incontinência...</l>
					<l>É o castigo que sofre a gente espúria.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Só para nos punir o céu tem zelo...</l>
					<l>Entre os homens seleto,</l>
					<l>O mais sábio de todos e o mais belo,</l>
					<l>Por toda parte cercam-te os perigos!</l>
					<l>Ah! como o meu afeto</l>
					<l>Quisera proteger-te com desvelo</l>
					<l>Contra os teus inimigos!</l>
					<l>Oh! Abelardo, oh! filho,</l>
					<l>Meu pai e meu irmão, amante e esposo,</l>
					<l><choice><orig>Sustentáculo</orig><seg type="síncope">Sustentac'lo</seg></choice> da Fé, lume da Igreja,</l>
					<l>Seu sempiterno brilho.</l>
					<l>Oh! Abelardo, meu Senhor, perdoa</l>
					<l>Se eu afligir-te ouso,</l>
					<l>Lembrando da existência vã, que voa</l>
					<l>O passado com inveja.</l>
					<l>Por que... por que não quis, duro e impiedoso</l>
					<l>Ouvir o Céu jamais os nossos rogos,</l>
					<l>E nos deixou no coração sequioso</l>
					<l>Se acenderem tais fogos!...?</l>
					<l>Se pérfida vingança</l>
					<l>Te pôde mutilar cruelmente um dia,</l>
					<l>E esse crime de um bárbaro te obriga</l>
					<l>A receber dos homens a esquivança,</l>
					<l>Ah! nem por isso o ardor que me fustiga</l>
					<l>No meu peito resfria:</l>
					<l>— Não é, não, o vil prazer que a ti me liga,</l>
					<l>Mas o amor que não cansa...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Esses loucos extremos</l>
					<l>Abandona, Heloísa, e considera</l>
					<l>Que os teus laços humanos estão rotos,</l>
					<l>Em vão teu coração se desespera;</l>
					<l>É a Deus... a Deus somente,</l>
					<l>Que hoje deves erguer teus sacros votos</l>
					<l>E tua prece ardente;</l>
					<l>Outros votos quaisquer serão blasfemos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Deus mesmo nos uniu.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>És sua esposa</l>
					<l>E pertences a ele unicamente.</l>
					<l>Traí-lo é perjurar, e perjurando</l>
					<l>Dar-te as eternas penas.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Quem já ousou perjurar, outra vez ousa.</l>
					<l>Com o Senhor perjurei, te abandonando,</l>
					<l>Mentindo aos laços que ele abençoara</l>
					<l>Junto do próprio altar... da ara sagrada;</l>
					<l>Eu fiz assim, te obedecendo apenas.</l>
					<l>Do crime que então fiz não fui culpada.</l>
					<l>Deixar hoje o Senhor a ti voltando,</l>
					<l>Tu que és meu esposo amado, isto é perjúrio,</l>
					<l>Torna-me um ente espúrio?...</l>
					<l>Não! Abelardo! Não; não me crimines,</l>
					<l aoidos:link="Y">Que isto é pior que o Inferno.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Infortunada!...</l>
					<l>Que esperas mais de mim? Que posso dar-te,</l>
					<l>Capaz de em teu amor recompensar-te?</l>
					<l>Busca só do Senhor o Amor supremo...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Mas então serei eu tão desgraçada?</l>
					<l>Quer tu morras, quer hoje me abomines,</l>
					<l>Quer mesmo na tua alma já não caiba</l>
					<l>Um resto só daquela antiga chama,</l>
					<l>Eu farei... eu farei que o mundo saiba</l>
					<l>Até onde pode ir o ardente extremo</l>
					<l>De uma mulher que ama.</l>
				</sp>
				<stage>(cai o pano)</stage>
				</div>
				</div>
				</div>
				<div n="II" type="Act">
				<head>ATO SEGUNDO</head>
				<div n="1" type="Scene">
				<stage>Cena I</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Miséria humana, miserável vida,</l>
					<l>Miserandos mortais, tristes escravos</l>
					<l>De seu triste egoísmo!... Onde perdida</l>
					<l>Nossa alma vai, que a todo instante esquece</l>
					<l>O vero bem pelos danados travos</l>
					<l>Do mesquinho interesse!</l>
					<l>És tu, vaidade, tu, quem tanto engana?...</l>
					<l>Orgulho, és tu quem nossas almas dana?...</l>
					<l>Como soube em tua alma</l>
					<l>Revelar-se, Abelardo, e de momento,</l>
					<l>A funesta ambição? Que aura maldita</l>
					<l>Soprou lá dentro os ímpetos funestos</l>
					<l>Que anulam dela os íntimos protestos</l>
					<l>De um arrependimento?</l>
					<l>Que inferno é esse que tua alma agita?...</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="2" type="Scene">
				<head>Cena II</head>
				<stage>S. Bernardo e Abade de Cluny</stage>
			<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>De Abelardo outra vez o orgulho insano,</l>
					<l>Abade, eis que se arma contra a Igreja</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">E que insulta o Senhor!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Ímpio e leviano!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Esquecendo os conselhos que eu lhe dera</l>
					<l>Eis que espalha de novo a heresia</l>
					<l>E contra a lei troveja.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Alma perdida onde o pecado impera,</l>
					<l>Que se entrega cada hora</l>
					<l>Ao serviço das vis apostasias...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Como sabeis, ele tentou primeiro</l>
					<l>Fingir-se de erros seus arrependido</l>
					<l>Fundando o Paracleto. Bem ligeiro</l>
					<l>Da falsa santidade se arrepende</l>
					<l>E se afasta corrido.</l>
					<l>Vai contra a Igreja então digladiar-se;</l>
					<l aoidos:meter="10">Não o demovem censuras, nem o assusta</l>
					<l>O anátema papal. Irreverente</l>
					<l>Contesta a tradição; julga de tudo</l>
					<l>Ser sabedor, quer sobre a Terra assente</l>
					<l>Quer se oculte nos céus! Cheio de estudo,</l>
					<l>Porém, cego de orgulho, não lhe custa</l>
					<l aoidos:link="Y">Sofismar a razão.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Vaidade insana!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l aoidos:meter="6">“A Fé”, define a Igreja</l>
					<l aoidos:meter="10">“É uma convicção que se baseia</l>
					<l>Na palavra de Deus,” e ele falseia</l>
					<l>Os textos santos e a si próprio engana.</l>
					<l>Como Arius supõe graus na Trindade;</l>
					<l>Eleva o livre arbítrio sobre a graça,</l>
					<l>Como Pelágio. Enfim, sua vaidade</l>
					<l>Tornando-o cego e cheio de demência</l>
					<l>Fá-lo como Nestório</l>
					<l>Dividir do Homem-Deus a sacra essência.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>A vós cabe, Senhor, do trilho inglório</l>
					<l aoidos:meter="10">Tirar de novo o ímpio até que faça</l>
					<l>Cabal renúncia de seu erro impuro.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l aoidos:meter="10">Outro qualquer e do que eu mais digno,</l>
					<l>Será da Igreja o vingador seguro.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>A quem melhor que a vós cabe esse encargo?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Senhor, eu fora indigno</l>
					<l aoidos:meter="10">Se quisesse tomar levianamente</l>
					<l>Tarefa tal que aos bispos só pertence...</l>
					<l>Fora merecedor de um breve amargo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Vossa palavra sobre todos vence</l>
					<l aoidos:link="Y">E Abelardo a respeita.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Facilmente</l>
					<l>Será forte quem quer que se convence</l>
					<l>Primeiro do que afirma. Necessário</l>
					<l aoidos:meter="10">Não é vencer o ímpio unicamente</l>
					<l aoidos:meter="10">Mas convencê-lo. E assaz autoridade</l>
					<l aoidos:link="Y">Só têm os chefes...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Mas se o chefe ordena</l>
					<l aoidos:meter="10">O que faz o escolhido? E eu sei, Abade,</l>
					<l>Que vós <choice><orig>estais</orig><seg type="aférese">'stais</seg></choice> indicado. Ante um Concílio</l>
					<l aoidos:meter="10">Dos mais egrégios, vosso adversário</l>
					<l>Confundireis sem pena,</l>
					<l>Vendo-vos solenemente o interpelando,</l>
					<l aoidos:link="Y">Abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Mau grado o auxílio</l>
					<l>Que me dá da assembleia o apoio santo,</l>
					<l aoidos:meter="10">É arriscar muito a causa. Irei, no entanto,</l>
					<l>Des que a ordem dos chefes determina.</l>
					<l>Mas, se eu for vencido, a disciplina</l>
					<l>Proporá logo um outro, até que a Igreja</l>
					<l aoidos:link="Y">Seja vingada.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>E o céu fará que o seja.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Sim, a Igreja de Deus não se compreende</l>
					<l>Que ela fique à mercê de vil sofisma.</l>
					<l>E que o mau e que o cético apareça</l>
					<l>Pregando o vil embuste com que ofende</l>
					<l>O dogma santo suscitando o cisma.</l>
					<l>Nós temos de salvá-la. Que aconteça</l>
					<l>Tudo quanto vier. Mas eu vos digo:</l>
					<l>Sinto fraco o meu próprio julgamento</l>
					<l>E temo de lutar. É muito grande</l>
					<l>O tesouro de Deus <choice><orig>para</orig><seg type="síncope">p'ra</seg></choice> que se deva</l>
					<l>Entregá-lo a qualquer.</l>
					<l>Mas será tudo como Deus ordena.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="3" type="Scene">
				<head>Cena III</head>
				<stage>Abelardo, Berenger</stage>
			<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Então, Senhor, é exato</l>
					<l>Que outra vez contra vós se apresta a Igreja</l>
					<l>E com o ciúme o antigo ódio concorre?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Não creio que assim seja!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Já França inteira a nova hoje percorre.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Se isto assim for, sabei que ser-me-á grato.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>De Bernardo afinal o orgulho insano</l>
					<l>Vos veremos dobrar, se ele consegue</l>
					<l>Levar-vos ao Concílio — Quão leviano</l>
					<l>Em seu triste ciúme vos persegue</l>
					<l>E em seu rancor perdura!... </l>
					<l>Desastrado porém! Cego e vaidoso,</l>
					<l>Se sua alma procura</l>
					<l>A glória encontrará somente o dano.</l>
					<l>De coração soberbo e presunçoso,</l>
					<l>Finalmente o veremos</l>
					<l>Humilde, submetido e miserável</l>
					<l>De súbito passar a outros extremos!</l>
					<l>Como tolos se espantam,</l>
					<l>Ante a sua facúndia interminável,</l>
					<l>Os seus apologistas que o decantam!</l>
					<l>Pasmam de ouvir-lhe os marciais ardores</l>
					<l>E aquela verve fútil e sem fundo,</l>
					<l>Que ele mostrou desde a mais tenra infância,</l>
					<l>Com cançonetas vis e com estribilhos</l>
					<l>Próprios de corredores.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Nem tanto, Berenger! Sua abundância</l>
					<l>De erudição tem verdadeiros brilhos</l>
					<l>E ele prima afinal entre os doutores.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Perdoai-me, Senhor, a discordância;</l>
					<l>Mas a sua linguagem</l>
					<l>Sabeis quanto é afetada e mesmo obscura,</l>
					<l>Sem nobreza também: quanto, em resumo,</l>
					<l>Dá-nos a sua imagem.</l>
					<l>“Jamais, jamais procura</l>
					<l>"O varão sábio produzir o fumo.</l>
					<l>"Diz Horácio, com a chama”.</l>
					<l>“Do inverso é exatamente que ele cura”</l>
					<l>E Bernardo nem pesa inconvenientes</l>
					<l>Quando fala e declama!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Tem conceitos às vezes excelentes...</l>
					<l>Seu orgulho somente é o que o desvia</l>
					<l>Da nossa convivência. Mas embora</l>
					<l>Nós sejamos contrários,</l>
					<l>Conheço e meço bem sua valia.</l>
					<l>Inflexível na Fé nunca demora</l>
					<l>Sua palavra enérgica e fecunda</l>
					<l>Contra os adversários;</l>
					<l>Porém, no que lhe é próprio e à Fé estranho,</l>
					<l>Em tolerância abunda.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Contra vós seu rancor hoje é tamanho</l>
					<l>Que não vos poupa. O ódio, a triste inveja,</l>
					<l>O levam cada dia a apreciar-vos</l>
					<l>De uma maneira atroz e sempre injusta.</l>
					<l>Dele é que parte sempre a tempestade</l>
					<l>Que contra vós troveja.</l>
					<l>Cada instante se ocupa em provocar-vos,</l>
					<l>E sabe em discussão que lhe não custa</l>
					<l>Sofismar a verdade.</l>
					<l>Oh! em tudo ele é assim. Jeitoso e astuto,</l>
					<l>Com as lágrimas nos olhos, aparenta</l>
					<l>Condoer-se de vós, dos vossos erros,</l>
					<l>Como ele diz. Finge perdoar e inventa</l>
					<l>O que possa lhe dar mais belo fruto,</l>
					<l>Dispor em seu favor todos que o ouvem</l>
					<l>E cobrir-vos de ferros.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Mas são raros aqueles que o não louvem.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Com a sua hipocrisia!</l>
					<l>Com o ardil que seus modos oferecem,</l>
					<l>O desejado intuito sempre alcança,</l>
					<l>Que é chamar sobre si falsa valia.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Notai, porém, que todos o conhecem</l>
					<l aoidos:link="Y">Como um santo varão.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Tanto ele finge...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Respeitado da Igreja!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Muito embora!</l>
					<l>Figure até como uma velha esfinge</l>
					<l>Também nós muito tempo acreditamos</l>
					<l>Em sua santidade. O mundo inteiro</l>
					<l>Repetia-nos isto cada hora,</l>
					<l>Mas bem que a tempo nos desenganamos.</l>
					<l>Lembrai, Senhor, lembrai que é verdadeiro</l>
					<l aoidos:link="Y">Que ele ora vos persegue.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Em nada o temo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Tem consigo os Concílios.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Não receio.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Pois bem, contra seu ódio e orgulho extremo</l>
					<l aoidos:meter="10" aoidos:link="Y">Sabereis triunfar?...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Abelardo</speaker>
					<l>Eu <choice><orig>espero</orig><seg type="aférese">spero</seg></choice>, eu o creio.</l>
					<l>Não me amedronta o aspeto</l>
					<l>Do mal nem do perigo;</l>
					<l>E nunca do inimigo</l>
					<l>Me viu ninguém tremer.</l>
					<l>Para lutar 'stou pronto,</l>
					<l>Estou pronto para a luta,</l>
					<l>Embora na disputa</l>
					<l>Saiba que vá morrer.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="4" type="Scene">
				<head>Cena IV</head>
				<head>Heloísa, Servília</head>
			<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Vê, Servília, repara</l>
					<l>Quão mal o céu protege os meus destinos:</l>
					<l>Pelos fogos de amor sempre divinos</l>
					<l>Com os quais a um caro esposo eu me votara,</l>
					<l>Desse esposo me afasta;</l>
					<l>E aquele, cujo nome apenas basta</l>
					<l>Para glória da França e honra do mundo,</l>
					<l>Vês combatê-lo a inveja, o ódio profundo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>Não fiqueis indecisa.</l>
					<l>Quando o Fado inflexível se rebele</l>
					<l>Para punir-vos da paixão funesta,</l>
					<l>Esta ainda vos dobra e vos impele,</l>
					<l>Senhora, é a Fé somente o que vos resta,</l>
					<l>Da oração que vossa alma só precisa.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>A oração! De que serve, se a cada hora,</l>
					<l>Invocando ao Senhor para guardá-lo,</l>
					<l>Vejo-o andar pela Terra perseguido,</l>
					<l>Sem poder conduzi-lo, sem salvá-lo</l>
					<l>Do ódio que o devora?</l>
					<l>Ele vive dos homens foragido,</l>
					<l>Repelido da Igreja, recalcado</l>
					<l>Pelo ciúme! Orar é inutilmente...</l>
					<l>Servília, o próprio céu nos acabrunha.</l>
					<l>Que tem que eu fale pois abertamente</l>
					<l>Do nosso amor? O céu me é testemunha</l>
					<l>De que se o próprio imperador Augusto</l>
					<l>Me quisesse esposar, de honras cobrindo</l>
					<l>Meu fraco ser imbele,</l>
					<l>Eu rejeitara a sua mão, preferindo</l>
					<l>Ser de Abelardo a amante a ser com ele</l>
					<l>A senhora do Mundo! Oh! por que custo</l>
					<l>Eu deixara este amor, se nem do Inferno</l>
					<l aoidos:link="Y">M'o arrancara a ameaça?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>Eu vos ouvindo</l>
					<l>Sinto bem me doer a dor pungente</l>
					<l>Que em vós irrompe!... Oh! quanto cruelmente</l>
					<l>Carrega sobre vós a adversidade!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Para mim é Abelardo o bem superno,</l>
					<l>Do Paraíso, é o límpido reflexo,</l>
					<l>A etérea claridade...</l>
					<l>Com seu amor me ergui sobre o meu sexo;</l>
					<l>Parti de muito baixo, e conduzida</l>
					<l>Vi-me ao mais alto sólio. Dessa altura</l>
					<l>Também maior a queda foi medida.</l>
					<l>Que outra mulher já um dia porventura</l>
					<l>Subiu tão alto, e em mais profundo abismo</l>
					<l>Foi depois submergida?...</l>
					<l>Quis em mim a Fortuna</l>
					<l>Ferir no extremo os golpes mais contrários;</l>
					<l>Para esse antagonismo</l>
					<l>Deu-me primeiro os mais extraordinários</l>
					<l>Dos bens que sobre a Terra o céu reúna;</l>
					<l>Depois daqueles bens, precipitou-me</l>
					<l>Na mais triste miséria. Ela queria</l>
					<l>Que, medindo essa horrível diferença,</l>
					<l>Maior a dor imensa eu achasse inda</l>
					<l>Com que ela acabrunhou-me.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>Vossas faltas, Senhora, ela punia...</l>
					<l>Deus é justo e clemente. Ele procura</l>
					<l>Libertar-nos somente da miséria,</l>
					<l>Do Inferno e do pecado.</l>
					<l>Quando castiga é apenas a matéria.</l>
					<l>Exalta assim nossa alma, Que ele chama</l>
					<l>À sempiterna glória. Urge, portanto,</l>
					<l>Que de seu culto a sacrosanta flama</l>
					<l>Hoje só vos ocupe. As vossas faltas</l>
					<l>Exigem só de vós contínua prece,</l>
					<l aoidos:link="Y">Expiação contínua...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Mas que encanto</l>
					<l>Acharei mais na Fé se ele me esquece?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>A pura santidade e o bem eterno.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Nem as glórias mais altas,</l>
					<l>Nem as penas mais baixas, nem o Inferno</l>
					<l>Demovem meu afeto. Ele é quem vejo,</l>
					<l>E encontro em meus pensares;</l>
					<l>É meu esposo e a ele só desejo;</l>
					<l>Que sua imagem santa e infortunada</l>
					<l>Povoe estes lugares;</l>
					<l aoidos:link="Y">É somente a quem amo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>Em vão, Senhora,</l>
					<l>Vos lastimais, volvei vossos olhares</l>
					<l aoidos:link="Y">Hoje para o Senhor.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Ai! desgraçada!</l>
					<l aoidos:link="Y">Triste de mim!</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Servília</speaker>
					<l>De Cristo a esposa agora</l>
					<l aoidos:link="Y">Esquecei o outro amor!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Deste é que vivo,</l>
					<l>Deste é que espero tudo, e nada espero.</l>
					<l>Sim, fora dele assim sem lenitivo</l>
					<l>Viverei só do triste desespero?</l>
				</sp>
				<stage>(senta-se escondendo o rosto entre as mãos, chorando).</stage>
				<stage>(Sai Servília)</stage>
				</div>
				</div>
				<div n="5" type="Scene">
				<head>Cena V</head>
				<stage>(Como que desvairada)</stage>
			<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Desgraçada que sou que não me atrevo</l>
					<l>A esquecer este amor que me devora,</l>
					<l>E que faz meu tormento e meu enlevo!</l>
					<l>Desgraçada que sou, que a toda hora,</l>
					<l>Prezando a própria dor que hei no meu seio,</l>
					<l>Gemo, soluço, desespero e anseio!...</l>
					<l>Como acaso esquecer o amor ardente</l>
					<l>Do meu caro Abelardo? Em toda vida</l>
					<l>Só sua ideia é que trarei na mente.</l>
					<l>Sim, só ele é que me enche hoje a memória</l>
					<l>E é dela só que meu valor dimana;</l>
					<l>E ah! bem sabe o céu quão resolvida</l>
					<l>Preferi sempre à sempiterna glória</l>
					<l>Esta paixão humana.</l>
					<l>Na angélica magia</l>
					<l>Que achava em seu amor, nada almejava</l>
					<l>Senão aquilo só que ele queria.</l>
					<l>O que era fora dele eu desprezava,</l>
					<l>Mesmo os mais altos dons. Na dor, na pena,</l>
					<l>Fui sempre a mesma. Amando-o, preferia</l>
					<l>Ser sua amante a ouvir dele a pomposa</l>
					<l>E incomparável saudação de esposa.</l>
					<l>é que humilde e pequena,</l>
					<l>Contra os mandos embora mais divinos,</l>
					<l>Sob o primeiro aspeto eu me elevara</l>
					<l>Na sua graça, e nunca lhe estorvara</l>
					<l>Seus imortais destinos.</l>
					<l>Que importava que o mundo repudiasse</l>
					<l>Meu nome desde então, se eu conquistava</l>
					<l>Aquele só por quem de amor penava?</l>
					<l>Ou que Deus meus ardores condenasse?</l>
					<l>Sob a voraz paixão que me arrastava,</l>
					<l>Nessa fornalha intensa</l>
					<l>Em que então me abrasava e em que inda ardo,</l>
					<l>Eu preferia aos céus fazer ofensa</l>
					<l>A ofender Abelardo.</l>
					<l>Jamais o humano amor mais fervoroso</l>
					<l>Subiu assim tão alto. Ardor mais vivo</l>
					<l>Jamais deixou num peito igual ventura.</l>
					<l>Nas encantadas horas de ternura,</l>
					<l>De amorosos transportes, não era o gozo</l>
					<l>Vil, grosseiro e cativo</l>
					<l>Que me movia, não. Era esse afeto</l>
					<l>Imortal, de minh'alma, ora orgulhoso</l>
					<l>De se ver de Abelardo o caro objeto.</l>
					<l>Ser dele e possuí-lo!... Quem pudera</l>
					<l>Definir esse bem indefinível,</l>
					<l>Medir sua extensão, achar seu nível</l>
					<l>Sua elevada esfera!... </l>
					<l>Como agora abafar todo esse fogo,</l>
					<l>Toda essa imensa chama? Como é crível</l>
					<l>Que eu possa hoje romper com esse Passado</l>
					<l>Que é tudo para mim de mais sagrado?</l>
					<l>Eu pergunto e interrogo.</l>
					<l>Não, Abelardo, não, isto é impossível.</l>
					<l>Deus não pode exigir tal sacrifício</l>
					<l>Que excede minhas forças e me arrasta</l>
					<l>Tão ímpia e cruelmente;</l>
					<l>Oh! se, como se diz, ele é clemente,</l>
					<l>Em vez de impor-me tão cruel suplício</l>
					<l>A minha fé lhe basta.</l>
					<l>Pode-se amar acima de interesse</l>
					<l>Amar como eu te amo, santamente</l>
					<l>Só por se ver que o outro ser merece;</l>
					<l>Como eu te amo, Abelardo! Porventura</l>
					<l>Não sofre o amor de Deus com o amor humano</l>
					<l>A mais leve mistura?</l>
					<l>Que débito, que crime é que se encerra</l>
					<l>Em achar ao mesmo tempo um terno encanto</l>
					<l>No céu como na Terra?...</l>
					<l>Tudo o que peço e quero é apenas isto:</l>
					<l>É te poder amar de tudo acima,</l>
					<l>Mesmo acima de Deus; e uma fraqueza,</l>
					<l>Apenas uma, eu tenho e não resisto:</l>
					<l>É de ver-te, Abelardo, e ter certeza</l>
					<l>De tua própria estima.</l>
					<l>Oh! clemência inclemente! oh! rigorosa</l>
					<l>Indulgência divina! Oh! vil Fortuna,</l>
					<l>Se surda para mim, se criminosa</l>
					<l>Teus duros raios tomas,</l>
					<l>Lança-me aquele que minh'alma prova,</l>
					<l>Mas este amor é em vão, que tu não domas...</l>
				</sp>
				<stage>(cai o pano)</stage>
				</div>
				</div>
				</div>
				<div n="III" type="Act">
				<head>ATO TERCEIRO</head>
				<div n="1" type="Scene">
				<head>Cena I</head>
				<stage>(Ao levantar-se do pano, as freiras do Paracleteo, vestidas de branco, entram pela porta do fundo, e vão coroar de flores o quadro da Virgem).</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Coro</speaker>
					<l>Tens Senhora, tão grande potestade</l>
					<l>Que quem a graça quer e a ti não corre,</l>
					<l>Sem asas lhe voar quer a vontade.</l>
					<l>Tua benignidade não socorre</l>
					<l>A quem te implora só. Com caridade</l>
					<l>Frequentemente à súplica precorre.</l>
					<l>Em ti misericórdia, em ti piedade,</l>
					<l>Em ti magnificência, em ti concorre</l>
					<l>Tudo quanto no mundo há de bondade.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="2" type="Scene">
				<head>Cena II</head>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Ei-la, a formosa</l>
					<l>A Sempiterna Virgem, soberana!</l>
					<l aoidos:meter="6">Virgem sábia e piedosa,</l>
					<l>Cheia de graças e de amor vestida,</l>
					<l>Que encheis de tanta luz a Espécie Humana;</l>
					<l>Sois a Virgem fecunda, a casta Esposa</l>
					<l>E pura Mãe que na terrena vida</l>
					<l>Faz a nossa alegria</l>
					<l>E de quem nosso bem todo dimana.</l>
					<l>Ah! como se há de ouvir eternamente</l>
					<l>As gerações dos homens em porfia</l>
					<l>Saudarem vosso nome! Ave, bendita,</l>
					<l>Ave, Virgem clemente,</l>
					<l>Por quem o Mundo em terno amor se agita.</l>
					<l>Quem é aquela que de um vale em meio,</l>
					<l>Num vale onde há só dor, miséria e luto,</l>
					<l>Como um sol aparece a nossos olhos</l>
					<l>Desvendando os abrolhos</l>
					<l>E enchendo ternamente o nosso seio</l>
					<l>De amor casto e impoluto?</l>
					<l>Quem é Aquela que enche de delícias</l>
					<l>O vale escuro e feio?...</l>
					<l>Por que não revelar suas blandícias?</l>
					<l>É vossa a singular prerrogativa</l>
					<l>Que consiste em reunir à virgindade</l>
					<l>O dom maior da criatura viva:</l>
					<l>— <choice><orig>O</orig><seg type="anacruse"></seg></choice> dom da maternidade.</l>
					<l>É que tal graça tendes, tal virtude</l>
					<l aoidos:link="Y">Que ninguém vos excede...</l>
					<l>A plenitude</l>
					<l>De vosso afeto é tal que a todos vence,</l>
					<l>Nada se lhe compara, e a gentileza</l>
					<l>Do vosso amor supõe que a vil baixeza</l>
					<l>Ao homem não pertence.</l>
					<l>Quanto de vós se diz bem longe passa</l>
					<l>Em sua dignidade,</l>
					<l>Em seu brilho, em seu fundo, em sua graça</l>
					<l aoidos:meter="10">Do que nos mostra em vós a realidade.</l>
					<l>Virgem, pois que até vós meus olhos lanço</l>
					<l>E alcançar-vos desejo,</l>
					<l>Da pena em que ora estou e em que me vejo</l>
					<l>Tirai-me que eu me canso</l>
					<l>E fraco e quase exânime pelejo.</l>
					<l>Não foi vaidade: a Fé só conduziu-me</l>
					<l aoidos:meter="10">A acusar de Abelardo o triste erro;</l>
					<l>A Fé pedia, a Fé só conduziu-me</l>
					<l>A atacá-lo na sua controvérsia,</l>
					<l>No seu errado aferro.</l>
					<l>Acusavam-me até de medo ou inércia;</l>
					<l>Meus amigos temiam que o silêncio</l>
					<l>De minha parte fosse até motivo</l>
					<l aoidos:meter="10">De triunfar o erro e molestar-se</l>
					<l aoidos:link="Y">Inda uma vez o fraco...</l>
					<l>Vil cativo,</l>
					<l>Tendo os olhos em lágrimas... (e pense-o</l>
					<l>Quem já tiver amado), eu contrafeito</l>
					<l>Fiz o santo Concílio levantar-se</l>
					<l>E condená-lo. Após o duro pleito</l>
					<l>Foi que veio esta pena. Hoje do mundo,</l>
					<l>Bem longe, repelido</l>
					<l>Quisera enfim me achar, tanto é profundo</l>
					<l>O meu pesar, e sinto-me abatido.</l>
					<l>Pensei achar, Senhora, algum repouso</l>
					<l>Depois de haver domado o leão fero</l>
					<l>E ver a Igreja em paz. Sonho inditoso!</l>
					<l>Oh! Mãe, em dor que agora não se finda</l>
					<l>Me aflijo e desespero.</l>
					<l aoidos:meter="10">Não é Abelardo somente, mas ainda</l>
					<l>Heloísa que eu vejo — Ela parece</l>
					<l>Duramente ferida. Oh! que bem rude</l>
					<l aoidos:meter="10">É a prova, Mãe, que às vezes a virtude</l>
					<l>À nossa alma oferece.</l>
					<l>Virgem sábia e divina</l>
					<l aoidos:meter="10">Que ninguém sobre a Terra excede ou iguala,</l>
					<l>Pomba, que a amar o coração me ensina</l>
					<l>Que a meus ouvidos ternamente fala;</l>
					<l>Virgem, minh'alma nesta dor alenta</l>
					<l>E se tão fraco sou, tu me sustentas.</l>
					<l>É dor indefinita,</l>
					<l>É dor profunda e eterna</l>
					<l>A dor que me governa</l>
					<l>E faz-me padecer.</l>
					<l>Se vingo a Fé, recordo</l>
					<l>Que esta vitória ingrata</l>
					<l>Ou a Heloísa mata</l>
					<l>Ou fá-la padecer.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="3" type="Scene">
				<head>Cena III</head>
				<stage>S. Bernardo, Berenger</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Com que então, Berenger, tendes escrito</l>
					<l>Que em minha acusação contra Abelardo</l>
					<l aoidos:link="Y">Eu fora injusto?...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>O que de vós hei dito</l>
					<l>É que o Mestre em Concílio condenastes</l>
					<l aoidos:link="Y">Sem que ele fosse ouvido.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>O erro afirmastes;</l>
					<l>Não se tolheu àquele a liberdade</l>
					<l>De defender-se. Ele encontrara um fardo</l>
					<l>Na própria consciênci que o oprimia;</l>
					<l>Só isto emudeceu sua vaidade.</l>
					<l>Qualquer outra razão será pretexto...</l>
					<l>Para o julgar, porém, bastara o texto</l>
					<l>Do que ele havia escrito. Eu limitei-me</l>
					<l>A fazer-lhe a leitura. Não queria</l>
					<l>Suplantá-lo inda mais vendo-o humilhado</l>
					<l aoidos:link="Y">E aumentar-lhe a aflição.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Já condenado</l>
					<l>Antes do julgamento havia sido:</l>
					<l>Dentre os bispos presentes ao Concílio.</l>
					<l>Sabeis que todos eles francamente</l>
					<l>Eram seus inimigos.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Como queríeis que encontrasse amigos</l>
					<l>Entre os membros da Igreja o que irritado</l>
					<l>Contra a Igreja combate? É permitido</l>
					<l>Amar-se quem a nossa Fé persegue?</l>
					<l>Serve a amizade então aos maus de auxílio</l>
					<l>E para os bons faz a alma indiferente?</l>
					<l>Só se ama o que é digno. Quem não presta</l>
					<l>Na Igreja, fora dela certamente</l>
					<l>Também não presta; e quem a Deus não segue,</l>
					<l>Deus que é todo de amor, mostra-se ingrato,</l>
					<l>Egoísmo manifesta.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Nunca Abelardo fez por desacato</l>
					<l>À Igreja um só dos livros condenados:</l>
					<l>Escreveu-os convicto. Ele é submisso</l>
					<l>À lei, sou testemunha,</l>
					<l>Se seus pontos são bem interpretados</l>
					<l>Ao vício dela é que seu texto opunha.</l>
					<l>Pode haver desacordo</l>
					<l>Em questão de detalhe, e nem por isso</l>
					<l>Ser contrário a uma Fé, dar-lhe querela...</l>
					<l aoidos:link="Y">Discordar não é ferir.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Não estar de acordo</l>
					<l>Com uma doutrina é achar-se fora dela.</l>
					<l>E se a lei do Senhor é indivisível,</l>
					<l>É uma doutrina só, eu vos recordo</l>
					<l>Que quem contra um só ponto se rebela</l>
					<l>Contra ela toda o faz. Fora impossível</l>
					<l>Conciliar o respeito com a revolta</l>
					<l>Em relação a alguém. Sem humildade</l>
					<l>Nunca existiu a Fé. E quem se volta</l>
					<l>A analisar do chefe uma ordenança,</l>
					<l>Ou a lei que ele promulga,</l>
					<l>Naquele que ele julga</l>
					<l>Já não tem mais um Chefe e... nem confiança.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Quando é exata a doutrina</l>
					<l>Nada deve temer, e na verdade</l>
					<l>Nunca a nossa temeu; mas como é humano</l>
					<l>O órgão que a interpreta ou no-la ensina,</l>
					<l>Facilmente acontece</l>
					<l>Algumas vezes que se ache em engano.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Será então do Concílio a faculdade</l>
					<l>De examinar, não dos fiéis, se há dano.</l>
					<l>Qual seria da Igreja a autoridade</l>
					<l>Se ficasse à mercê do vil sofisma?</l>
					<l>Se a vaidade do incrédulo pudesse</l>
					<l>Cada instante julgar como quisesse</l>
					<l>O dogma santo suscitando o cisma?</l>
					<l>A doutrina de Deus não se sujeita</l>
					<l>À crítica profana que porfia</l>
					<l>Em feri-la. Esta é sempre uma heresia.</l>
					<l>Quando o exame é sincero ela aproveita...</l>
					<l>Mas perde a disciplina cada dia...</l>
					<l>A Fé que se discute</l>
					<l>Enfraquece de força. Discuti-la</l>
					<l>É errar, portanto, e merecer da Igreja</l>
					<l>As mais rijas censuras. Quem a incute</l>
					<l>No coração, quer sempre a ter tranquila.</l>
					<l>Que certa ou errada seja,</l>
					<l>Se com sincero amor a praticamos</l>
					<l>Se ela visa somente o bem supremo,</l>
					<l>Se é a virtude o que nela procuramos</l>
					<l>É de toda excelência</l>
					<l>Seu influxo sobre nós. É um gozo extremo.</l>
					<l>Deus vê no coração, não na aparência...</l>
					<l>Há mais glória em se errar quando se amando,</l>
					<l aoidos:link="Y">Que acertar sem amor...</l>
					<l>Porém, voltando</l>
					<l>Ao que dizíeis: — Quando o órgão peque,</l>
					<l>E um padre, ou mesmo um santo bispo errasse,</l>
					<l>Depois de haver primeiro</l>
					<l>Dado provas de amor e disciplina,</l>
					<l>Melhor fora ao fiel dessa doutrina</l>
					<l>Que o seu verbo acatasse</l>
					<l>Do que de se insurgir. É um ser grosseiro</l>
					<l>O que perturba os mais, desrespeitando</l>
					<l aoidos:link="Y">As cousas santas...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Mas se o erro obriga,</l>
					<l>Se é mister corrigi-lo, deixaremos</l>
					<l>De afastar os seus males, que são muitos,</l>
					<l aoidos:link="Y">Para não censurar?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Deus não castiga</l>
					<l>Pelas ações, mas só pelos intuitos.</l>
					<l>Embalde a seu olhar nos escondemos</l>
					<l>Que ele nos corações tudo lobriga...</l>
					<l>Demais, lembrai-vos sempre que a humildade</l>
					<l>É de tal excelência</l>
					<l>Que o próprio orgulho verte-lhe a aparência</l>
					<l aoidos:link="Y">P'ra fugir ao desprezo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>A autoridade</l>
					<l>De que gozais, Senhor, não me consente</l>
					<l>Que porfie convosco. Desculpai-me</l>
					<l>Se agora ousei fazê-lo; sim, perdoai-me.</l>
					<l>Vencestes, mas embora,</l>
					<l>Até que a luz do céu sobre mim desça,</l>
					<l aoidos:link="Y">Discordarei de vós...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Eu <choice><orig>espero</orig><seg type="aférese">spero</seg></choice> a hora</l>
					<l>De tal milagre; e quando infelizmente</l>
					<l>Ele nunca se dê... nunca aconteça,</l>
					<l>Que Deus enfim de vós se compadeça.</l>
				</sp>
				<stage>(sai)</stage>
				</div>
				</div>
				<div n="4" type="Scene">
				<head>Cena IV</head>
				<stage>Berenger</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Berenger</speaker>
					<l>Por que... por que não há-de</l>
					<l>Insurgir-se o fiel contra quem erra</l>
					<l>Na direção da Igreja? Um santo abade,</l>
					<l>Só por dizer-se santo, paira acaso</l>
					<l>Tão longe assim da Terra</l>
					<l>Que já não possa errar? Onde, em que vaso</l>
					<l>Já se viu que pudesse</l>
					<l>Um vinho bom com vinho ruim ser posto</l>
					<l>E não se corrompesse</l>
					<l>Nem se alterasse o primitivo gosto?</l>
					<l>Esquecem, porventura,</l>
					<l>Que somos carne e o coração é fraco?</l>
					<l>Em que doutrina um dia, inda a mais pura,</l>
					<l>Mesmo na própria Igreja,</l>
					<l>Foram todos de acordo? Eu não destaco</l>
					<l>A razão do filósofo daquela</l>
					<l>Do teologista, não. Quem quer que seja,</l>
					<l>Orígenes ou Paulo, o homem que ensina,</l>
					<l>Nunca expõe a doutrina</l>
					<l>Como outro o fez. Mete conceitos nela.</l>
					<l>Iguais não há dois sons nem há duas cores,</l>
					<l>Nem dois seres quaisquer. A discordância</l>
					<l>Está por toda parte entre os doutores.</l>
					<l>Agostinho e Jerônimo disputam</l>
					<l>Um contra o outro. A Igreja, no entretanto,</l>
					<l>Ergue-os à culminância.</l>
					<l>Se os Apóstolos mesmo se refutam</l>
					<l>Por que não erra quem jamais foi tanto?</l>
					<l>Movido por Bernardo,</l>
					<l>Viu-se há pouco o Concílio reunido</l>
					<l>Lançar condenação contra Abelardo.</l>
					<l>Ele, o arauto da Fé, grande e eminente,</l>
					<l>O campeão de Deus, o verbo ardente,</l>
					<l>Nem sequer do Concílio fora ouvido!</l>
					<l>Pois na Igreja de Deus não se permite</l>
					<l>Que outro, que não um padre, se apresente</l>
					<l>A ensinar a doutrina e interpretá-la?</l>
					<l>Chamam isto heresia? Há até quem grite,</l>
					<l>Apontando-me o Inferno, se pretendo</l>
					<l>Acaso examiná-la...</l>
					<l>Eu, menor dos discípulos, defendo</l>
					<l>O Mestre-Amado. Acaso a autoridade</l>
					<l>De Bernardo me abate? Que ousadia</l>
					<l>É-me mister possuir para atacá-lo?</l>
					<l>Entende ele da Fé? Também entendo.</l>
					<l>Fala em nome da ciência? Também falo.</l>
					<l>Da Teologia? Eu também. Da Santidade?</l>
					<l>Aqui eu me retiro. Quem reputa</l>
					<l>Que seja um crime, um grave desacato</l>
					<l>O se bater o crente contra o crente,</l>
					<l>O leigo contra o santo, pelo fato</l>
					<l>De acreditá-lo em erro? Toda luta</l>
					<l>De opiniões foi sempre permitida.</l>
					<l>Não há quem não procure livremente</l>
					<l>Expor suas ideias. Se se entrava</l>
					<l>A discussão, a Fé pode ter ganho</l>
					<l>Porém a consciência está perdida.</l>
					<l>Não há na minha ação nada de estranho,</l>
					<l>Estranho só ficava</l>
					<l>Aceitarmos com a alma submetida,</l>
					<l>Calado e sem exame</l>
					<l>O que alguém nos ensinar-nos aprouvesse.</l>
					<l>Que de heresia ou não isto se chame,</l>
					<l>Eu, a exemplo do Mestre sempre amado</l>
					<l>Bradarei contra o erro. A mim parece</l>
					<l>Que se é erro a altivez que nos inflame</l>
					<l>A muita submissão é mor pecado.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="5" type="Scene">
				<head>Cena V</head>
				<stage>Heloísa, Abade de Cluny</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Vindes, meu Pai, vindes de um caro esposo</l>
					<l aoidos:link="Y">Trazer-me gratas novas?...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Doloroso</l>
					<l>Me é vos lembrar que do Senhor somente</l>
					<l>Agora esposa sois. Entre os humanos,</l>
					<l>Que isto hoje vos pese com amargura,</l>
					<l>Não tendes laços mais de tal natura.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Eu sei que errei, meu Pai, mau grado sinta,</l>
					<l>E o sinta cruelmente,</l>
					<l>Que, criminosa e vil, a Deus mentindo,</l>
					<l>Mentindo a vós e à Igreja, inda da Terra,</l>
					<l>Mais que do céu, é o amor que em mim se encerra.</l>
					<l>Se, pois, não deixo que meu lábio minta</l>
					<l aoidos:link="Y">Perdão vos peço.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Oh! quanto vos lamento</l>
					<l>A vós, nobre Abadessa! A vossa história</l>
					<l>É bem feita de lágrimas e dores.</l>
					<l>Serva agora de Deus, a vossa glória</l>
					<l>Felizmente vos paga dessas penas</l>
					<l>Que haveis sofrido, dando-vos assento</l>
					<l>Entre os altos doutores.</l>
					<l>Oh! sim, a vossa história foi bem triste.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Mas de Abelardo que notícia existe?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Que, arrependido das paixões terrenas,</l>
					<l>Busca hoje cobrir-se de humildade...</l>
					<l>Isto lhe veio após tê-lo vencido,</l>
					<l>Como o deveis saber, o verbo santo</l>
					<l aoidos:link="Y">Do abade de <choice>
							<orig>Clairvaux</orig>
							<seg type="apo">Clervô</seg>
						</choice>.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Ah! se é verdade</l>
					<l>Que a palavra do Mestre estava em erro</l>
					<l>Porque tardou-se tanto</l>
					<l aoidos:link="Y">Em se vir corrigi-la?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Conduzido</l>
					<l>Por seu amor, o abade pretendia</l>
					<l>Evitar essa luta. Mas o aferro,</l>
					<l>Aquela teimosia</l>
					<l>Com que Abelardo à Santa Sé se opunha,</l>
					<l>Não lhe deixou agir como queria.</l>
					<l>A sessão do Concílio então se impunha,</l>
					<l aoidos:link="Y">E ela veio a fazer-se...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Abade, oh! quanto</l>
					<l>Afligiu-me a sua nova! Eu pressentira</l>
					<l>Contra o Mestre não sei que infortunado,</l>
					<l> Que tremendo desastre. Se a verdade</l>
					<l>Vós conheceis, eu peço-vos, Abade,</l>
					<l aoidos:link="Y">Fazei-m'a agora ouvir.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Deixai, portanto,</l>
					<l>Que duramente eu tudo vos refira.</l>
					<l>Nesse egrégio Concílio convocado</l>
					<l>Para a oitava de Páscoa, se reuniam</l>
					<l>Os nossos santos bispos. Lá se viam</l>
					<l>Também o rei de França, e o nobre conde</l>
					<l>De <choice><orig>Nevers</orig><seg type="apo">Never</seg></choice>, como muitos sufragantes</l>
					<l aoidos:link="Y">Do arcebispo de <choice>
							<orig>Reims</orig>
							<seg type="apo">Rãs</seg>
						</choice>.</l>
					<l>Firme e orgulhoso,</l>
					<l>Como aquele que o medo nunca esconde,</l>
					<l>Entre os seus Abelardo se mostrava,</l>
					<l>Afrontando com olhar imperioso</l>
					<l>A imensa multidão dos circunstantes.</l>
					<l>Que de emoções violentas</l>
					<l>Cada um daqueles corações provava!</l>
					<l>Como achavam-se atentas</l>
					<l>As almas todas... todas receando</l>
					<l>O exício do Abade que ali estava</l>
					<l>Apenas pela sacra disciplina,</l>
					<l>Pronto a bater-se, ele em geral tão brando,</l>
					<l>Para a Igreja vingar e a lei divina.</l>
					<l aoidos:link="Y">Todo o auditório ansiava.</l>
					<l>Eis que Bernardo</l>
					<l>Se avança em meio da assembleia augusta,</l>
					<l>Humilde e grandioso como aquele</l>
					<l>Que o saber mais possui. Logo se assusta</l>
					<l>O coração vaidoso de Abelardo.</l>
					<l>É que para a peleja</l>
					<l>Ora enxergava nele,</l>
					<l>Não o sábio modesto e circunspecto</l>
					<l>De carinhoso aspeto,</l>
					<l>Mas o inflexível vingador da Igreja.</l>
					<l>Cala o vasto auditório</l>
					<l>Para ouvir essa voz solene e austera;</l>
					<l>Palpita em cheio a sala. O consistório</l>
					<l>Por essas provas que vão ser expressas</l>
					<l>Ansiosamente espera.</l>
					<l>Em breve o acusador produz as peças,</l>
					<l>Mostra os textos errados do sofista,</l>
					<l>E impõe a este então ou que os discuta</l>
					<l>Ou que ali se retrate. Em vão no entanto</l>
					<l>Seu contedor se esforça para a luta.</l>
					<l>Pasma sua alma de terror e espanto,</l>
					<l>Turbar-se sente a vista</l>
					<l>E um tremendo pavor a sobressalta.</l>
					<l>Ele intenta falar e a voz lhe falta;</l>
					<l>Pára, fica interdito;</l>
					<l>Treme o seu corpo inteiro. É o medo, o susto</l>
					<l>Que tem no rosto escrito.</l>
					<l>O servidor de Deus não se aproveita</l>
					<l>De uma tal confusão. Pode sem custo</l>
					<l>Fazê-lo condenar; mas se contenta</l>
					<l>Em assinalar seus erros. Não cuidara</l>
					<l>Em esmagá-lo de todo, recusando</l>
					<l>Dar-lhe trégua qualquer, a mais estreita.</l>
					<l>Abelardo, porém, já nada tenta:</l>
					<l>Sua triste derrota era bem clara,</l>
					<l>E em seu terror se via.</l>
					<l>Sai então do Concílio protestando</l>
					<l>Que logo apelaria</l>
					<l>Para o Sumo Pontífice. Devera</l>
					<l>Ser vão seu sonho, pois que então sabido</l>
					<l>Do Vigário de Deus todo o ocorrido</l>
					<l>Fulmina este a heresia e delibera</l>
					<l>Também contra os <choice><orig>discípulos</orig><seg type="síncope">discip'los</seg></choice> e o condena</l>
					<l>A perpétuo silêncio como herege;</l>
					<l>Logo depois ordena</l>
					<l>Que ele seja encerrado num mosteiro</l>
					<l aoidos:link="Y">E os livros seus queimados.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Oh! amargura!...</l>
					<l aoidos:link="Y">Infeliz Abelardo!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Desse dia</l>
					<l>Não há quem não o inveje:</l>
					<l>Tão grande ele mostrou-se na humildade;</l>
					<l>Tão piedoso se fez, sua alma tão pura,</l>
					<l>Tão bom, tão verdadeiro,</l>
					<l>Tão cheio de suave caridade,</l>
					<l>Que toda a Igreja de sua luz se enchia.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Continuai, Abade.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Os que puderam</l>
					<l>Aproximar-se dele são unânimes</l>
					<l>Em contar-lhe a virtude. Eu me embebia</l>
					<l>Em vê-lo consagrar sua existência</l>
					<l>A pedir pelos maus e os pusilânimes.</l>
					<l>Ver seus jejuns contínuos, que o fizeram</l>
					<l>Por nós amado. A sua abstinência</l>
					<l>Tornou-se até citada. Breve história</l>
					<l>De redenção, que absorto</l>
					<l>Seu espírito em breve se desata;</l>
					<l>Deixa esta Terra ingrata,</l>
					<l>Sobe a gozar da sempiterna glória...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<stage>(em desespero)</stage>
					<l>O Fundador do Paracleto morto!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Oh! quanto durará sua memória!</l>
					<l>Ele que tantas vezes se insurgira</l>
					<l>Contra os dogmas da Igreja, após tocado</l>
					<l>Pelo fogo do céu, se santifica...</l>
					<l>Foge do erro, à mentira;</l>
					<l>Sua alma enfim liberta do pecado</l>
					<l>Eleva-se ao Senhor, a ele se atira</l>
					<l>E nos seus braços fica.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<stage>(continuando em desespero)</stage>
					<l aoidos:link="Y">Morto Abelardo!...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l aoidos:link="Y">É certo.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Oh! triste caso!</l>
					<l>Dolorosa verdade! Ai! de tuas filhas,</l>
					<l>Oh! Mestre, e ai de mim!... Quem doravante</l>
					<l>Nos dará seu conselho, e por acaso</l>
					<l>Levará nosso passo vacilante</l>
					<l>Pelas divinas trilhas?</l>
					<l>Quem virá consolar nas suas dores</l>
					<l>Tantas viúvas, tantas desgraçadas</l>
					<l>Que ele hoje deixa em nós? Entre os doutores</l>
					<l>Quem manterá da Igreja; ela caindo,</l>
					<l>As eruditas glórias levantadas?</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Cluny</speaker>
					<l>Permiti, Abadessa, que cumprindo</l>
					<l>Suas vontades últimas tomadas,</l>
					<l>Eu faça entrar seu corpo, e vê-lo entregue</l>
					<l>P'ra que em vosso mosteiro</l>
					<l aoidos:link="Y">Vos façais inumá-lo...</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Oh, que ele chegue,</l>
					<l>Que a dolorosa honra assim tenhamos</l>
					<l>De dar-lhe aqui seu leito derradeiro.</l>
					<l>Nós queremos guardá-lo noite e dia,</l>
					<l>Noite e dia gemer sobre a sua sorte,</l>
					<l>Até o último instante que vivamos.</l>
					<l>A sua companhia,</l>
					<l>Se a vida não nos deu, dá-nos sua morte.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
				<div n="6" type="Scene">
				<head>Cena VI</head>
				<stage>(Sai o Abade de Cluny; entra, de um lado, conduzido solenemente por um préstito fúnebre, o esquife aberto, sobre o qual vê-se deitado o corpo inanimado de Abelardo. Do outro lado, as freiras do Paracleto adiantam-se e rodeiam o esquife, que é depositado, no que são acompanhadas por Heloísa.)</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>Coro</speaker>
					<l>São vossos julgamentos</l>
					<l>Oh! Deus, oh! Senhor Deus, um fundo arcano!</l>
					<l>Parecem ser cruentos</l>
					<l>Às vezes mesmo contra o ser humano.</l>
					<l>Por que vos aprazer na dor dos seres</l>
					<l>No sofrimento indefinido?</l>
					<l>Por que deixar sofrer quem foi ferido</l>
					<l>Sem logo terminar seus desprazeres?</l>
					<l>Dentre os filhos dos homens o mais sábio,</l>
					<l>O que de luz enchia</l>
					<l>Este asilo, eis a face agora fria,</l>
					<l>Eis que emudece e cala-se seu lábio.</l>
					<l>Os que se amam juntam-se na morte,</l>
					<l>Dizem-nos, para a eternidade inteira.</l>
					<l>Nós que amamos também a mesma sorte</l>
					<l>Só teremos a dor por companheira?...</l>
					<l>Senhor, vós nos ligastes</l>
					<l>E vós nos separais bem cruelmente.</l>
					<l>Mas sois pai, ponde um termo, finalmente</l>
					<l>Ao que em vossa piedade começastes:</l>
					<l>Aqueles que na Terra essa piedade</l>
					<l>Separou por duríssima provança,</l>
					<l>Vós que sois nossa esperança</l>
					<l>Reuni, Senhor, por toda a Eternidade.</l>
				</sp>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Deixai-me só.</l>
				</sp>
				<stage>(As freiras retiram-se, cada uma aproximando-se primeiramente de Abelardo e beijando-lhe a mortalha. Heloísa, ficando só, aproxima-se do corpo do morto, contempla-o estática por largo tempo, depois debruça-se sobre ele soluçando.)</stage>
				<sp>
					<speaker>Heloísa</speaker>
					<l>Oh! meu Senhor, oh! caro!</l>
					<l>Oh! meu doce Abelardo!... Em te perdendo</l>
					<l>Perdi tudo o que eu tinha... Ai! duas vezes</l>
					<l>Sou viúva de ti, sem que perdida</l>
					<l>N'alguma delas eu tivesse a vida!</l>
					<l>Para te obedecer pus sem reparo</l>
					<l>Os hábitos monásticos rompendo</l>
					<l>Com o mundo, e até contigo. O meu desejo</l>
					<l>De em tudo te servir fez-me a tal ponto</l>
					<l>Levar meu sacrifício.</l>
					<l>Quis assim te provar, ter esse ensejo</l>
					<l>De mostrar que somente tu mandavas</l>
					<l>No meu amor e no meu corpo; e pronto</l>
					<l>Qualquer deles achavas</l>
					<l>Mesmo para o suplício.</l>
					<l>Nunca outra cousa em ti busquei, te juro,</l>
					<l>Senão tu próprio. O meu amor foi tanto</l>
					<l>Que eu de tudo... de tudo me esquecia:</l>
					<l>De Deus, do voto santo,</l>
					<l>Só para dar-me a ele... Os céus conjuro</l>
					<l>Para dizer se mais que a ti no entanto</l>
					<l>Nesse amor pretendia.</l>
					<l>Tudo agora está morto... está desfeito...</l>
					<l>Chorar... eis pois somente o que me resta!</l>
					<l>Chorar, sim, que nem mesmo mais alento</l>
					<l>Para a oração me anima. Eu desejara</l>
					<l>Poder morrer também neste momento</l>
					<l>Em vez da campa ver que se prepara,</l>
					<l>Que para ti se apresta...</l>
					<l>Órfã a um tempo e viúva, oh! meu amado!</l>
					<l>Que forças terei mais para ocupar-me</l>
					<l>De Deus, se hoje minh'alma sacudida</l>
					<l>Pela dor deste golpe inigualado,</l>
					<l>Vai só... vai prantear-te toda a vida,</l>
					<l>Vou toda vida só desesperar-me!</l>
					<l>Ai! de mim! ai! de mim! Que procurando</l>
					<l>Servir-te em tudo, só para alcançar-te,</l>
					<l>Quis minha desventura</l>
					<l>Que os céus, com meus extremos se irritando,</l>
					<l>Quisessem de meus braços arrancar-te.</l>
					<l>Punido eles me têm bem cruelmente</l>
					<l>De uma forma bem dura:</l>
					<l>Com sua horrível guerra</l>
					<l>Os homens separaram-nos na Terra;</l>
					<l>O pecado que fiz impenitente</l>
					<l>Depois da morte o inferno me assegura.</l>
					<l>Não serás meu jamais, oh! desespero!</l>
					<l>Na vida e nem na morte finalmente!</l>
					<l>Qual é pois o destino de desgraça</l>
					<l>Que sem ti, meu amado, eu triste espero</l>
					<l>E que minh'alma toda despedaça?</l>
				</sp>
				<stage>(cai desfalecida)</stage>
				</div>
				</div>
				<div n="7" type="Scene">
				<head>Cena VII</head>
				<stage>S. Bernardo</stage>
				<stage>(Encaminha-se para o esquife onde se acha Abelardo: beija-lhe a fronte, ajoelha-se e reza por algum tempo. Depois, voltando-se para o lado em que está Heloísa desmaiada, dá com os olhos nela.)</stage>
				<div aoidos:unit="y">
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l aoidos:link="Y">Pobre Heloísa!...</l>
				</sp>
				<stage>(Ergue-se e dirigindo-se à porta que dá para o interior pede socorro para Heloísa, indo ele também ajudar a levantá-la. Depois que aquela volve a si e é levada pelas freiras para os seus aposentos, S. Bernardo para ante o quadro da Virgem, que está suspenso à parede.)</stage>
				<sp>
					<speaker>S. Bernardo</speaker>
					<l>Oh! Mãe, tu que provaste</l>
					<l>A dor de ver teu Filho ao escárnio exposto,</l>
					<l>Dos maus ludibriado,</l>
					<l>Pregado ao lenho e ante os teus olhos posto;</l>
					<l>Tu que o viste, Senhora,</l>
					<l>Banhado em sangue e ainda perdoaste</l>
					<l>Dos pérfidos o crime, os olhos desce</l>
					<l>Sobre a tua Filha agora,</l>
					<l>Baixa-lhe o teu amor que ela o merece.</l>
					<l>Seu crime é ter perdidamente amado,</l>
					<l>Haver-se dado inteira</l>
					<l>A uma paixão terrena,</l>
					<l>Ao triste bem de uma paixão grosseira.</l>
					<l>Oh! tu que de perdão sempre estás plena,</l>
					<l>Deixa que um coração tão devotado,</l>
					<l>Quaisquer que fossem do seu fogo os danos</l>
					<l>Sirva um dia de exemplo entre os humanos.</l>
				</sp>
				</div>
				</div>
			</div>
		</body>
	</text>
</TEI>

